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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
No penúltimo Savana Machado da Graça [que faz o favor de ser leitor do Ma-schamba, e que lhe deu um filão em breve a ser explorado] narrava um encontro em que esteve, nos arredores de Maputo. Incomodado.
Tinha chegado à reunião, a sala ainda não estava cheia, cadeiras várias por ocupar, mulheres e homens à espera do início. À medida que se aproximava a sessão mais participantes iam chegando, as mulheres levantando-se para ceder o lugar aos homens e indo-se sentar no chão. Incomodado, e lamentando a situação, um seu parceiro logo comentou que se fosse nalgum país europeu o contrário seria a regra, os homens oferecendo as cadeiras às mulheres. A retórica do texto dá-nos esta como a situação correcta. E a sua conclusão também, utilizando o evento para uma defesa das mulheres.
Não pude deixar passar. Porque será positivo que os homens cedam o bom lugar às mulheres, porque será negativo o inverso? Não há absolutamente razão nenhuma para dizer isso. Apenas o costume burguês europeu...nem em tanto campo isso acontece(ia). Costume diferente do que ali se encontra. O incómodo, que é recorrente, não passa de puro preconceito. Sem razão, ainda que nós nos levantemos, claro está.
Ah, quantas vezes fui mal-criado, fazendo questão que as mulheres passem à minha frente...que rudeza, a fazer hesitações, a desfazer em sorrisos desculpabilizadores.
Em Roma sê romano. Veja-se lá onde se está e sentemo-nos ou levantemo-nos consoante...que não é por isso que as coisas mudam para melhor.
Adenda: pois o Machado da Graça veio até cá. E deixou assim,
"Ao contrário do que deduzes da minha retórica, a minha posição não é a que citei no meu artigo. Para te dizer a verdade nem sei se é a da pessoa que fez o comentário, em termos mais factuais e menos opinativos.
Não tenho por hábito levantar-me para dar lugar a senhoras só pelo facto de serem do sexo feminino. Acho que têm tão boas pernas como eu. Levanto-me quando é para dar o lugar a alguém que, por qualquer razão, está diminuido na sua capacidade para estar em pé. Acho que a igualdade entre os sexos passa também por aí.
Uma das minhas passadas companheiras de vida achava, com toda a razão, que eu devia partilhar das tarefas domésticas. O que passei a fazer. Isto ficou prejudicado no dia em que ela chegou a casa e me informou que o carro tinha um pneu furado e estava na praça X onde eu deveria ir trocar o pneu e trazer o carro para casa.Mas que fazer?"
O teste do pneu, universal, é terrível. Concordo em absoluto. Bem, eu continuo a levantar-me, troco os pneus quando tem que ser. Mas, confesso, a ser um traste na cozinha.Abraço.