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The Voyeur, de David Lambkin

por jpt, em 07.01.07
David Lambkin, The Voyeur, Penguin Books, 2005

Pequena narrativa, a receber prestígio pela sua inclusão na (heterogénea) colecção 70 Pocket Penguins, comemorativa do 70º aniversário da editora, e cujo apelo lhe vem de se desenrolar na Beira durante as primeiras eleições multipartidárias (1994).

Certo que há um pacto, o escritor conta-me uma verdade que quis e eu acredito-a como quero. Mas há limites para tal contrato, aqui por demais trespassados, seja pela inverosimilhança seja pela sucessão de lugares comuns. Produzindo um quase insuportável não fosse o já ridículo a que descende. E tudo isso adornado com uma profusão de excêntricos e comprovadores termos portugueses, quasi-sempre errados, e enganos cronológicos, coisas também da preguiça de quem escreveu. O britânico Paul Morgan, dito escritor e poeta, visita Moçambique para testemunhar (o tal voyeur) as eleições, final da longa guerra, no intuito de esquecer o mortal cancro que lhe consumiu a amada. Qual Kalkitos numa longa galeria de personagens literárias (o tal voyeur, de novo) transpira o seu aparente cinismo, fruto da dor e desilusão, claro, ele que é “the prophet of loss” (29). E, não nos passasse isso desapercebido, que os leitores não são de confiança, logo de início assim se anuncia “I no longer cared much about anything” (2). Reside numa esplanada beirense, bebendo “bagaceira”, com ou sem gelo, como se tal exótica bebida lhe acrescentasse algo, panache e/ou decadência, e não apenas uma atroz falta de bom gosto. Entretanto, no intervalo da descrição comensal de ainda mais exóticos crustáceos dissolvidos em leite de coco, percorre os mares dali em árduas e másculas pescarias acompanhando um swahili do Quénia (que seria dos ingleses em África sem o Quénia?) e um perneta local, vítima das minas, e assim pretexto denunciatório. Ainda que tão ocupado arranja tempo para se envolver com uma belíssima Sacha, jugoslava de louros pelos púbicos e bebedora de “Gatao”, claro. Por essa Sacha via conhece o meio dos moçambicanos brancos, representados pelo legítimo namorado da putativa sérvia, um “fidalgo” português que por ali se passeia de Colt 45 à mostra, violentado e expropriado pela Frelimo mas revolucionário marxista adversário da burguesia e do capital em busca de sistemas sociais perfeitos, luso-descendente jornalista na África do Sul mas concordando com “I’m African. I was born here, I belong here. We Africans were a successful culture before the Europeans came with new ideas to corrupt us” (21), ateu anuindo a que “We are subjected to the cultural imperialism of the west and east. Coca Cola, AK-7s, ideologies that don’t match the tradition of our African ways” (19), idealista defensor da transição pacífica na África do Sul mas aqui obcecado por actos de “violência irracional” que permitam um desenvolvimento endógeno, livre de europeus e quejandos. Depois, entre algumas tiradas sobre a arte da escrita, sobre a existência e a crença, em registo de “uma(s) frase(s) batida(s)”, lá se passa a acção, tonto corolário de tamanho desconchavo contraditório.

Confesso que não me lembro de ler coisa tão assim. Muito válida como documento, sobre o quem escreve, diga-se.

(comprável na livraria Exclusive Books, Neilspruit)

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publicado às 14:59



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