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Persona, de Eduardo Pitta

por jpt, em 07.01.07

Eduardo Pitta, Persona, Braga, Angelus Novus, 2000

Três breves contos em trajecto biográfico ocorrido no Moçambique colonial, episódios de puberdade, tardo-adolescência on the road e jovem militar no quase final da guerra. Uma escrita superlativa, uma contenção que se torna cúmulo de ritmo e de elegância [p. ex., talvez só daqui se possa surpreender o quão excêntrico é no registo “em Moçambique”, apesar de tão adequado e neutral, algo como “A casa que Afonso tinha alugado na ilha [de Moçambique], um loft do primeiro quartel do século XIX …” (47)]. Um despojamento que deixa adivinhar (sentir) as emoções sem obrigar o leitor a sofrê-las (e quão sofredora é sempre a escrita lusa sobre África, gemebunda até), um despojamento que é também sinal da classe que fala, um raríssimo olhar da grande burguesia colona (também) sobre o mundo onde vivia, um desprendimento sem impulsos nativistas ou nostálgicos, sem rituais denunciatórios de uma qualquer índole. O “onde” (e o “como”) circunscreve-se de início: “Afinal, em Moçambique os brancos nunca foram muitos … Dois terços viviam em Lourenço Marques, repartidos a oriente e ocidente da Avenida Manuel de Arriaga, difusa linha de fronteira entre dois mundos (Nos primórdios da libertação, coube a José Craveirinha dizer que “a longa e sinuosa estrada que vai da Polana à Mafalala exprime uma grandeza e não uma separação”, mas, trinta anos depois de o haver dito, continua a ser uma mentira piedosa.)” (11).O cerne do livro, e a sua primeira coisa muito boa (e apelo para muitos), poderá ser o tão normal da sexualidade omnipresente, uma naturalidade do sexo sem embrulhos romântico-passionais, contextos marcadores e originários, suores exóticos, causas libertárias. Só a vida, vestida e cozinhada. Mas também, ou principalmente, e com excelência inédita em textos portugueses, o pano de fundo do final colonial – não como contexto/causa da biografia (coisa que lhe seria menorizadora) mas como o “onde” da biografia (coisa que lhe é excelência). Absolutamente únicas as brevíssimas passagens, epítomes, uma “história sociológica” de Lourenço Marques (pp. 39-42) e um fabuloso encerrar do Império (pp. 53-54): “Quando Afonso voltou à Couceiro da Costa nem sequer encontrou o Bentley prateado da Fiona. O mundo começava a ruir …. À mesa, Afonso pediu espadarte e Sauternes. Decididamente, o mundo começava a ruir.” (54). Lendo-o, a primeira impressão foi a de que aqui residia a estrutura inicial de um romance sobre o fim do regime colonial. Mas logo me vi errado, pois para esse crepúsculo imperial nada melhor do que este condensado brevíssimo, lesto e abissal como o são os crespúsculos locais.Ainda que este tipo de afirmação sempre pareça de uma grandiloquência ridícula, este é o grande texto literário português sobre o final da colonização em Moçambique. E se calhar mais …[nunca encontrei este livro à venda em Moçambique]

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publicado às 15:26


6 comentários

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De IO a 08.01.2007 às 10:06

Também tive o prazer de o ler, oferecido pelo autor, hoje também um dos autores do blog 'Da Literatura'. Dediquei-lhe, então, este post:
http://chuinga4.blogs.sapo.pt/32811.html
Creio que já não é fácil de encontrar 'Persona'.

Abraço, IO.
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De Eduardo Pitta a 08.01.2007 às 10:36

Caro Pimentel Teixeira, a sua generosa leitura obriga-me a quebrar o protocolo que «impede» o autor de agradecer ao crítico. Dizer simplesmente que, vindo de si, um juízo como o seu gratifica-me. Posso adiantar que o livro está em curso de reedição, com saída prevista (na QuidNovi) para o próximo Abril.
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De jpt a 08.01.2007 às 11:18

EP, neste caso nao quebra protocolo, dado que daqui nao tecla critico, mas um leitor que tem um blog (diferentes estatutos diferentes protocolos, nao eh assim?) - ja agora a citar o portugal dos pequeninos: "Numa época em que não há cão nem gato que não aspire a literato e a "crítico"," - cao a aspirar a literato sim, aqui em baixo esta registo disso, do pe-na-poca. mas a critico nem tanto.
Boa noticia, a da reedicao. A cuidarem da distribuicao, ja agora

IO obrigado pelo aviso. tinha-me escapado (na altura em que andei ainda mais arredio aos blogs?). e ate comungamos da citacao inicial ... abraco
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De Aula de Poesia | ma-schamba a 30.05.2010 às 11:54

[...] em Moçambique é a ausência de Pitta. Aqui nascido e crescido, poeta e ficcionista [autor do belíssimo "Persona", um texto no final do Moçambique colonial que não me canso de recomendar], crítico e conferencista, e aparentemente nada marginal ao [...]
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[...] [Eduardo Pitta, Persona, Angelus Novus, 2000] [...]
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De O futuro a ele pertence … | ma-schamba a 26.01.2013 às 12:34

[...] a repetir até à exaustão como autor do maior texto literário português sobre o ocaso colonial [Persona], é lamentável. Mais do que invectivar o texto e a disposição do autor será de resmungar [...]

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