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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)
Vai resmungando a colega, verve imparável, inapelável, a transformar a curta boleia em bíblico lamento sobre o seu país, maldizendo-lhe passado recente e destino, parece-lhe que eterno. O mundo tal e qual vai sendo arrasta-lhe o ânimo, e assim procura anoitecer-me este sol de meio-dia que ali me inunda, reflectido na baía.
Falhou-lhe o futuro, afinal, a ela e a tantos outros. Conheço-lhes a maldição, também mo aconteceu mas, modesto, disso as causas são só minhas pois curtos eram os sonhos, que arquitecto de futuros ou engenheiro de presentes nunca me imaginei.
E enquanto vai ela remoendo, justificando-se até, olho o mar recortado em acácias, por ora vermelhas, belas ainda que também depósitos do lixo sempre esquecido. E salvo-me da solidariedade exigida num mero, e até cansado, “sou estrangeiro, só cá estou porque quero”, e como me riposta apelando ainda assim a um olhar crítico sublinho-me num “ouça, sou estrangeiro, eu olho a árvore, você olha para o lixo” que se quer, e torna, definitivo.
E cada um foi ao seu almoço.