Nelson Saúte, A Viagem Profana, Marimbique.
A editora Marimbique estreia-se aqui. Pertence ao poeta. Se este tivesse feito uma edição de autor, com o seu dinheiro ou de patrocínios, tê-lo-iam saudado. Como inaugura uma casa de livros alguns criticam-no. Pré-juízos?
O livro é bonito. Bom papel, boa capa. Belo lay-out. Bem revisto, inexistência de gralhas, pelo menos à segunda vista. Tudo isto é bom e por cá infelizmente tão raro. E prova que todas as outras falhas que por aí se vêm não brotam das reclamadas “nossas limitações” gerais mas sim de distracções particulares. Pouco importante? O livro é um objecto, mesmo que simples. E neste caso feito por quem gosta destes objectos, e o mostra.
Do que está lá dentro já me custa mais falar, falta-me o saber sobre a poesia, não sou das críticas, sou só um cliente. Mas como estrangeiro olho-o como sempre faço diante da literatura moçambicana: o documento-ajuda para perceber tudo isto.Quem apresentou o livro já o referiu. Saúte autobiografa, e já (já?). E dele sai a imagem de um moçambicano cosmopolita, homem do mundo e assim daqui. Interessante num país onde as legitimidades pessoais continuam a brotar das raízes ancestrais, dos localismos, até das negações de putativos “estrangeirismos”. Estranho país este, onde escrever um mero “Amo as cidades distantes” pode ter sentidos tão políticos. Certo que no correr das suas memórias lhe afloram os espíritos antepassados, mas estes não são os velhos “lá da aldeia” mas sim (sacrilégio?) os mais velhos poetas, Ginsberg, Knopfli e todos aqueles outros, são esses que ele invoca para lhe iluminar o caminho, protecção.
E tudo isto é ainda mais interessante pois este livro não é um sinal dos tempos, aliás é mesmo um oposto aos tempos que aqui correm, como se este país antes de olhar o futuro precisasse de muito contemplar um “passado” que se entretem a idealizar.
Pouco importante? O livro é um objecto, mesmo que polémico. E neste caso feito por quem gosta destas polémicas, e o mostra.
Do meu gosto? Se me perguntares hei-de dizer-te, Nelson, que te prefiro nos curtos, quando de sopetão ainda te lamentas da falta de jeito na Munhuana, é aí que dialogo contigo. Mas isso pouco vale, fraco leitor, “homem de acção” reduzia-me um velho poeta lá das europas. Da estética que falem outros, daqui sai postal.
E invejo-te. Não te brota dor. Nem falsa (a falsidade do poeta) nem verdadeira (se é que são diferentes). Invejo-te. Ao homem que autobiografa. E ao poeta que nela não se ancora, refugia.