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Correctices, segundo Orwell

por jpt, em 21.01.10

A propósito da efeméride (o escritor morreu a 21 de Janeiro de 1950) aproveito para lembrar este conjunto de ensaios de George Orwell, "Inside the Whale and Other Essays" (Penguin Books, 1962 [1957]), escritos nos anos 30-40 de XX. Tem textos deliciosos, entre outros "Inside the Whale" onde mergulha nas três primeiras décadas de XX da literatura anglófona, centrado no "Trópico de Câncer" de Miller  - o qual não só qualifica de excelente mas, acima de tudo, como exemplar da atitude da época, um "Jonismo", um deixar-se refugiar para o interior da baleia (ainda que Jonas tivesse sido engolido por um peixe, lembra Orwell), submergindo-se na /submetendo-se à realidade. Uma baleia transparente no caso de Miller, explicita ainda, frisando que a "obscenidade" do autor não conta, nem positiva nem negativamente, para a avaliação do seu trabalho. E lembro um fantástico texto "Boys' Weeklies", uma belíssima análise da literatura juvenil, bem precursora de trabalhos similares.

Mas foram as recentes polémicas aqui que me lembraram o livro, em particular o pequeno "Shooting an Elephant", a narrativa de um episódio da estadia do autor como polícia na Birmânia britânica, e da sua radical recusa do mundo colonial, vivida em ambivalência pessoal. Um discurso muito distante dos panfletarismos de causas que tantas décadas depois (o texto é de 1936!) continuam a ser entoados, sem bons e maus, apenas mostrando as duplicidades de sentimentos e práticas em que os indivíduos históricos navegam, e os preconceitos tantas vezes absurdos que os constroem e dinamizam.

E de um outro texto do livro deixo um trecho completamente actual, demonstrando as gentes que nos continuam quotidianamente a entrar "em casa", com grande afã:

"The distinction that really matters is not between violence and non-violence, but between having and not having the appetite for power. There are people who are convinced of the wickedness both of armies and of police forces, but who are nevertheless much more intolerant and inquisitorial in outlook than the normal person who believes that it is necessary to use violence in certain circumstances. They will not say to somebody else, "Do this, that and the other or you will go to prison", but they will, if they can, get inside his brain and dictate his thoughts for him in the minutest particulars. Creeds like pacifism and anarchism, which seem on the surface to imply a complete renunciation of power, rather encourage this habit of mind. For if you have embraced a creed which appears to be free from the ordinary dirtiness of politics - a creed from which you yourself cannot expect to draw any material advantage - surely that proves that you are in the right? And the more you are in the right, the more natural that everyone else should be bullied into thinking likewise." ("Lear, Tolstoy and the Fool", p. 118)

jpt

publicado às 00:00


4 comentários

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De Carlos Azevedo a 21.01.2010 às 01:52

Sim, mas a violência e, sobretudo, a relação entre o poder e a violência são mais complexas do que resulta deste trecho de um ensaio de George Orwell - autor de que gosto particularmente. A palavra a Hannah Arendt:
«The danger of violence, even if it moves consciously within a nonextremist framework of short-term goals, will always be that the means overwhelm the end. If goals are not achieved rapidly, the result will be not merely defeat but the introduction of the practice of violence into the whole body politic. Action is irreversible, and a return to the status quo in case of defeat is always unlikely. The practice of violence, like all action, changes the world, but the most probable change is to a more violent world.» ('On Violence', 1970)
«(...) we know, or should know, that every decrease of power is an open invitation to violence—if only because those who hold power and feel it slipping from their hands have always found it difficult to resist the temptation of substituting violence for it.» ('Reflections on Violence', 1969)
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De jpt a 21.01.2010 às 15:24

CA obrigado pela citação. Apenas esclareço, que isto das citações trunca sempre o discurso. No texto o Orwell (anos 30) refere-se a duas correntes "simpáticas" (a nao-violencia, e refere explicitamente Ghandi, e o anarquismo, ao qual ele terá feito secantes) mas reconhecendo nelas (até nelas) derivas totalitárias (totalitarismo intelectual), algo que hoje chamaríamos politicamente correcto.. Ou seja não é o elogio da violència parcial que ele aqui realiza (penso que lhe será explícito, apenas sublinho) mas o facto da "violència" intelectual habitar nos locais (então) mais inesperados.
cumprimentos (é muito bom tê-lo de volta como comentador residente por aqui)
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De Carlos Azevedo a 21.01.2010 às 17:56

Até acrescento: então (a violência intelectual habitar nos locais mais inesperados) como agora; apenas mudaram os locais.
Quanto ao seu último comentário, só posso agradecer.
Cumprimentos.
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De jpt a 23.01.2010 às 03:14

mudam-se as moscas ...
a gente nesta azáfama do opinativo bloguístico às vezes esquece-se disso
cumprimentos, bom fim-de-semana

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