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Os dizeres de um jornalista

por jpt, em 11.02.10

Vem muito a propósito do que em Portugal se vai dizendo sobre "liberdade de expressão". E do como dizem. E do quem diz o que diz como diz. Orwell num texto dedicado ao totalitarismo ("The prevention of literature", de 1945). E há sessenta anos a falar de hoje. E dos actuais pretendentes a mandarim, também.

 

 

"To keep the matter in perspective, let me repeat what I said at the beginning of this essay: that in England the immediate enemies of truthfulness, and hence of freedom of thought, are the Press lords, the film magnates, and the bureaucrats, but that on a long view the weakening of the desire of liberty among the intellectuals themselves is the most serious symptom of all. (...)

 

Meanwhile totalitarianism has not fully triumphed anywhere. Our own society is still, broadly speaking, liberal. To exercise your right of free speech you have to fight against economic pressure and against strong sections of public opinion, but not, as yet, against a secret police force. You can say or print almost everything so long as you are willing to do it in a hole-and-corner way. But what is sinister, as I said at the beginning of this essay, is that the conscious enemies of liberty are those to whom liberty ought to mean most. The big public do not care about the matter one way or the other. They are not in favour of persecuting the heretic, and they will not exert themselves to defend him. The are at once too sane and too stupid to acquire the totalitarian outlook. The direct, conscious attack on intellectual decency comes from the intellectuals themselves."

 

jpt

publicado às 01:27


10 comentários

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De SM a 11.02.2010 às 02:32

Tentava eu matar saudades de Moçambique quando encontrei o seu/vosso blog. E fui lendo, ficando, gostando. E vou aprendendo (sem fazer comentários). Obrigada.
As saudades, essas, teimam em ficar.
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De ABM a 11.02.2010 às 04:12

Sr SM

O Maschamba tem doses industriais de Moçambique, vasculhe nas masmorras e vai ver. Mas nesta banda tocam-se vários instrumentos consoante as disposições. Venha dançar connosco.

Se quiser acompanhar mais de perto a realidade actual moçambicana o nosso Senador JPT tem o melhor sumo produzido em Moçambique num lugar chamado PNET qualquer-coisa que está em cima à direita debaixo de um título que em português quer dizer "rol de blogues".

E depois tem uma cuidadosa selecção dos melhores escribas existentes em toda a internet sobre Moçambique, em "rol d'elos".

Tem doses industriais de tudo o que pode querer na vida. Refastele-se.

JPT

Interessante citação, enfatizo a referência a "intellectual decency", que considerei refrescante.
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De jpt a 11.02.2010 às 08:29

ABM é, muito refrescante essa parte. O artigo quase termina assim, e eu não citei pois não tem ligação directa com o acima transcrito (e porque não podia citar o artigo todo): "At some time in the future, if the human mind becomes something totally diferent from what it now is, we may learn to separate literary creation from intellectual honesty." - aplica-se muito a alguns dos mais especializados defensores das tralhas avulsas que vão passando. Tão honestos que hoje sim para amanhã não só porque o agente mudou. E escrevem, poesia, teatro, ficção. Há tempos, na altura da campanha, um desses literatos escrevia num blog muito conhecido socialista que, aquando de um comício com Manuel Alegre e Socrates, os espíritos de muitos escritores - no qual pontificava Fernão Lopes - estavam alegre com tal.

Foi mais ou menos que eu me passei e deixei por aqui um post mal construído - e que obviamente foi mal-entendido - sobre "são uns filhos-da-puta". Até o Fernão Lopes é do PS, para aquele raio de gente. Depois eu é que perdi o juizo
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De Leonel Auxiliar a 11.02.2010 às 13:54

Esta é quase como a do Eça, há dias. Parece que nada mudou no mundo depois de Roma. Liberdade de expressão é quimera vencida pelo tempo. Talvez a internet ponha em causa algumas certezas mas a verdade é que, de momento, temos poucas alternativas.
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De VA a 11.02.2010 às 22:13

A passagem “At some time in the future, if the human mind becomes something totally diferent from what it is now , we may learn to separate literary creation from intellectual honesty.” é deveras interessante. Sobretudo porque não percebo realmente o que significa a designação hoje tão comumente apelidada de "honestidade intelectual".
Pode ser-se humanamente desonesto e intelectualmente honesto? E o que é que isso tem a ver com a produção literária?
Já almas vis produziram grande literatura. Ou não? :)
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De jpt a 11.02.2010 às 23:42

VA o teu comentário levanta várias questões. Mas adianto que a frase em causa, que quase termina o texto (que dele será quase-corolário) se entende (blinda) face ao argumento que o ensaio defende. Mas mais vasto do que isso:
a) é a questão da coerência (eu defendo muito o direito, e até o dever, da incoerência): há dias meti aqui o Orson Welles a dizer algo bem diferente ...

mas, realmente sobre o teu comentário. Acho que há uma falácia que é a de confundir bondade com honestidade. Claro que há "almas vis" a produzirem grande literatura e que as boas intenções não costumam produzir grande literatura. Mas as "almas vis" (grandes escritores ou não) não são obrigatoriamente "intelectualmente desonestos". Eu dou muito como exemplo (é um exemplo falacioso, pois é um quase arquétipo e nisso se perdem as multiplicidades) o Céline - que é do meu panteão, e nisso sou quase monoteísta. O homem diz coisas horríveis - e na vox populi actual cairá no caldeirão "alma vil". Mas não tem ponta de desonestidade intelectual.

Mas para além disso o que o Orwell está a defender é que o escritor que se auto-censura, seja por aquiescencia seja por estratégia activa, diante dos totalitarismos e das pressões político-económicas, ou seja que amputa a sua sensibilidade e sua visão (e que ainda por cima defende ou aceita isso para os outros) - assim sendo intelectualmente desonesto - não consegue, exactamente devido a esse utilitarismo diante da sua sensibilidade, alcançar o estatuto de verdadeira literatura.

Mas ainda que esteja profundamente ligada â citação que pus no "post" ela não lhe é linearmente ligável (para quem não leu o artigo). Ainda assim: isto cai que nem ginjas para os escritores, e plumitivos secundários (teclistas-bloguistas também) que para aí andam hoje afadigados a defenderem ou a elidirem esta tralha de merda que manda no país, e que há alguns anos gemiam diante das malevolÊncias cavaquistas, barrosistas ou santanistas. É gente muito desonesta - nos teus termos, são almas vis. Alguns, imagina, estão no Rol d'Elos do ma-schamba (aqui sempre pratiquei a reciprocidade, com excepção dos elos que retirei ao racista escravocrata Arroja do Portugal Contemporâneo e à imbecil anti-semita Ana Gomes do Causa Nossa) - e sabes o que é uma "alma vil" que até pode beber café contigo? É um libertário BE ou democrata PS que olha com sorriso para uma Ana Gomes a mandar bocas anti-semitas e ainda me diz que eu sou um exagerado. É o teu meio, académico, profissional, político, facebookesco, bloguístico, até desportivo se calhar. O que é "honestidade intelectual"? É desprezar essa merda de gente. Sem remissões.
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De VA a 12.02.2010 às 01:00

Obrigado, JPT.
A honestidade intelectual com que me presenteaste aponta outras perspectivas que a leitura da entrada à partida não tinha suscitado.
O meu comentário direccionava-se sobretudo à “honestidade intelectual” desvinculada do ser bom e honesto. A questão da coerência é pertinente, mas a experiência diz-me que “almas vis” (gosto do sentido excessivo que a palavra contém), retorcidas e intelectualmente incoerentes produzem obras de arte, sejam literárias ou teatrais, de uma coerência e sensibilidade alucinante.
Ora se bem percebo, e na certeza que não vou acrescentar nada mais àquilo que já tão bem deixaste explícito em relação ao Orwell, a questão da sensibilidade incoerente do artista não pode estar vinculada a pressupostos utilitaristas (intelectuais ou ideológicos) sob pena de não almejar a obra de arte.
E agora já não sei outra vez. Desculpa, mas estou a pensar com os dedos no teclado.
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De VA a 12.02.2010 às 01:12

No entanto, percebo para que 'gente' apontas, quer na entrada, quer no comentário.
Mas suscitou-me particular atenção a também presente perspectiva sobre a criação artística.
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De AL a 12.02.2010 às 01:36

Grandes comentarios! Esvaziaram o meu discurso... :)
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De jpt a 12.02.2010 às 08:10

Sim, há na citação do "postal" e na dos comentários diferentes dimensões. Como disse em comentário acima estão muito ligadas, mas no ensaio. Num contexto de citação, fragmentado, levam para campos diversos. Daí não os ter apresentado logo, este último foi só em conversa comentadora com o ABM. Concordo em absoluto que "almas vis" (no particular sentido em que estás a utilizar "vileza" - retorcidas e incoerentes -, que não é o usual) são o óptimo húmus para a criação. Mas aqui falava-se de "desonestidade" num sentido utilitário, assumido, coerente, ou seja "vileza" no sentido de maldade. E é disso que está o blogo-mundo cheio. E, permite-me a extensão, se o inferno está cheio de boas intenções o céu está cheio destas "almas (assim) vis".

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