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Exames Finais

por jpt, em 12.05.04

Pois eis-me perorando, tipo converseta por altura da bem-vinda aguardente, rodando entremãos o balão aquecido. Sai-me um desabafo, SÓ para vocês caros amigos, e ainda bem que estamos apenas entre professores, pois quero, neófito face a vós, partilhar uma recente historieta, a qual talvez vos divirta mas que decerto muito vos pode ensinar.

 

Vamos ao que interessa. Na semana passada fiz um exame aos meus alunos. Quatro turmas juntas, mais de 100 pessoas, eu e um colega “vigiando” o trabalho de grupo em marcha. Diz-me o Américo a páginas tantas: “então o Cossa é teu aluno?”, e eu neutral e paternal “sim, mas não é grande aluno o homem, tem ali algumas dificuldades, já o chumbei o semestre passado, agora trouxe-o a exame, já chega de lhe estragar a vida”.

 

“Ouve lá, tu não sabes quem é o Cossa?”, percebe ele pelo meu ar displicente, “Claro que sim, aquele mais velho ali em cima”, como se eu não reconhecesse os meus alunos, bom trabalho isso me dá. “Porra Teixeira, aquele Cossa? O gajo é grande na Renamo, é general, desses que mandam nas Forças Armadas”, “Hé, com um caralho”, digo eu, o lisboeta, “então e ninguém me avisa!”, “Foda-se pá!”, que o Américo antes de ir para Inglaterra ainda estudou no Porto, e nisso tornou-se-lhe pesada a língua, “o gajo era um Killer pá, um Killer!”.

 

Sento o cú no bordo da mesa, murmuro o refilar sobre a vida, enquanto me vai dizendo o colega, “que assim é que é, tratar todos os alunos como iguais, os tipos até apreciam isso”, e eu que o gajo se fosse lixar, “tu deves ser mas é da Frelimo, estás a gozar o prato”. Rememoro as aulas, “então e você como se chama?” “Alcino Cossa?, importa-se que lhe chame Alcino?”, “Ó Alcino, diga-me lá como é na sua terra”, “e qual é o seu povo? - calma meus amigos, eu depois discuto o que é isso de povo e etnia e etc. e tal, apesar de os alunos quererem mesmo são as definições para poderem despejar no teste -, e “qual é a sua língua?”, “o português? tá bem, tá bem, mas em que língua é que sonha”, e nisto tudo de aula em aula para culminar “e você foi à tropa?” (meu Deus!) “e você fez a guerra? E estava tratado?” - entendam isto como esses tratamentos mágicos, vacinas, para a invulnerabilidade - “Não? Desculpe mas não acredito!". E é claro que estaria, basta ouvirmos do povo como morreu Matsangaíssa, o fundador da sua Renamo, dizem-me por esse mato fora que caíu em combate individual com o general Mabote, quais heróis homéricos, também ele narrado pelo povo como bem “tratado”, este que agora morreu afogado no Bilene, congestão ao que parece, imerecida infelicidade para final de vida em homem de tanta história.

 

Mas deixem-me, regresso ao meu General, e a pauta no Natal mostrando-lhe o chumbo final, para lá das notas nos testes. E eu, estúpido, mesmo assim sempre a apelar, "diga-me lá, ó Alcino, como é que é….?", que o homem, arguto e sempre tão cordato, é bom na fala, nada estúpido mesmo, mas esta de andar para aqui a repetir gregos e iluministas mais as críticas aos etnocentrismos, caramba, por esta não esperava ele, até sem tempo entre trabalho e família, mais os livros de direito, para todas aquelas leituras que lhe peço eu. E assim insisto, ele ali tão a jeito, o único da turma que discorre a saber sobre a vida (pudera, digo eu agora), feito minha muleta para o diálogo, tão preciosa ajuda para mim quando defronte dos outros alunos, mais ou menos jovens, envergonhados a forçarem o esquecimento de todo esse velho campo deixado para trás, por eles ou seus pais, gente agora urbana sem ainda terem percebido que não há meta sem partida. Mas enfim, isso já serão coisas para sociólogo questionar.

 

E a colega dele, bonita, em final de semestre, “ó professor, a situação do Alcino é que é uma chatice”, mas porquê, refilo eu, “não lhe pode dar uma hipótese, uma pessoa na situação dele, é tão desagradável”, e eu a pensar que a situação é a do homem com dificuldades no estudo, nos seus 50 anos, a querer subir no aparelho de Estado, ou o sonho de ser doutor, e a família em casa à espera, e por muita solidariedade que eu tenha, nada a fazer, o homem foi fraco nos testes, há limites, e a justiça, avaliação igual para todos não é?. E o raio da colega, dengosa no seu 15, não se descose. Ou acharia que eu sabia quem era o mais velho? Talvez, talvez...

 

Esfumaço um cigarro, ali dando a mim mesmo o estatuto de fumador nas salas de aula. Relembro num ápice todo este destratamento que fiz ao general, igual diante dos outros, mas um igual que para homem daqueles parecerá sempre desrespeito, apenas em meu favor a educação e alguma solidariedade (!, mas que solidariedade se o fui chumbando?) face a um quasi cinquentão até baixinho, alguma barriga, simpático e mesmo calado se não interpelado, tipo bom chefe de familia, chefe da repartição do bairro notarial, uma simpatia de pessoa. Porra, o que a paz faz a um killer! Hi, o que ele se deve ter sentido humilhado, chefe africano no meio dos putos, destratado pelo sacana de um branco!

 

Volta o Américo, “olha, também és professor do Camilo”, “quem?”, estou quase ausente, “o Camilo Caldas, o gajo também é da Renamo, fez parte da comissão de acordo de paz, parte militar”. Não!, não!, outro a quem chumbei, mais letrado, mais novo, mas mais calado, talvez menos sagaz que o anterior, ou talvez apenas menos atrevido na sala de aula, porventura hoje mais assustadora do que um mato bem palmilhado! “Aquele da Renamo? Mas até tem um ar assustadiço”, traduzo-lhe eu a timidez, pois é com esses é que tem de se ter cuidado, aceita o meu colega concordar comigo, e aqui já estava eu a inventar intenções.

 

São 9 h da manhã, eu nunca bebo antes do almoço e mesmo assim…Mas com um caraças, ando para aqui a chumbar as estruturas da Renamo, a impedir a sua formação, a retardar-lhes todo esse esforço. Estou lixado, apesar da solidariedade do Américo, algo gozona cheira-me.

 

Saio com os exames. Espero pelo almoço para beber o gin, e bem devagar, na varanda sobre o Índico, essa que é o meu laço primordial com este país, e vou dizendo-me do quão estúpido sou, tantos anos aqui, senhor encarregado, bem integrado, depois senhor director, porque bem integrado, entretanto senhor professor, porque o rapaz até parece inteligente e deve ser culto e não é má pessoa, e agora esta, tenho o célebre Cossa nas mãos e ando a dormir, nem sei quem seja. Que balde de água fria, o gelo da humildade. E antropólogo, expert do reconhecimento, pisteiro das relações. Que vergonha, que embaraço. E puta de arrogância, o que interessa que os alunos não saibam o que se lhes tenta ensinar, será que tenho algum saber assim realmente tão importante? E quem sou eu para barrar a vida às gentes que me rodeiam?

 

Hei-de cruzar o Beto, patrício amigo aqui nascido, também aluno tardio, mas de outra turma, “ó meu cabrão então tu não me avisas quem é aquele meu aluno?”, "ó pá, nem sabia que eras professor dele". Conto-lhe rápido o acontecido, diz-me que assim é que tem que ser, todos são iguais, não é?, e lembra-me que muito amigos somos mas que o levei a exame, "seu sacana, estou-me nas tintas para essa antropologia, ando aqui pelo Direito e tenho tão pouco tempo para estudar", logo ali a resmungar. Também ele se ri do meu desconforto. "Ah, por isso é que o gajo me dizia no dia do exame: Eh pá, este professor, não sei… é muito complicado, o gajo dá umas notas lixadas. E, pior, tem umas cenas…diz umas coisas…, o tipo é racista, tem umas coisas de racista!". Oops, e agora Joe? (que sou eu). Intolerante racista apesar do Beto, "que não Alcino, o gajo é meu amigo, gajo porreiro, dos copos, nem penses nisso, o pessoal até lhe chamava Maquiavel ao princípio, de tanto nos chatear com esse cabrão (que é o sinónimo que aqui se usa para florentino), mas afinal portou-se bem com a rapaziada". Enfim, diz ao magno general que sou meio louco mas porreiro e colour blind. Ainda bem, mas o patrício Beto tem a cor dos algarvios, não vai aqui convencer ninguém da presunção da minha inocência.

 

Não vos maço mais, até porque tenho que sair para lançar as pautas. Apenas quis partilhar convosco este pequeno episódio, constituído em ruptura existencial, nunca mais chateio ninguém quando tiver a faca e algum queijo na mão.

 

Mas tem moral esta pequena história: nunca confundas uma perdiz com um pombo.

 

Setembro 2001

publicado às 09:58



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