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O Sandokan de Pratt

por jpt, em 18.03.10

[Hugo Pratt, Mino Milani, Sandokan. Le Tigre de Malaisie, Casterman, 2009]

O Sandokan de Pratt foi-me uma bela surpresa pois desconhecia a sua existência. Lamentavelmente inacabado, pois obra abandonada e perdidos os originais no início da década 1970 quando parira Pratt a "Balada do Mar Salgado" e depois se metera a dar vida ao Corto pelos quatros cantos do seu mundo. Ficou assim interrompido este Sandokan, cujos traço e tom são evidentemente dessa época, gloriosa. Uma pena, pois quero acreditar que se apenas interrompida a obra teria sido terminada em tempos posteriores, tão adiantada se apresentava. Aliás, a história do desaparecimento das pranchas e sua posterior descoberta, já após à morte do autor, narrada na introdução do livro, parece excessivamente rocambolesca. De qualquer forma mostra o estatuto de "arte menor" que a BD teria ainda nesses tempos - 40 e tal pranchas de Pratt, então já um autor de renome, perdidas assim nos escombros de uma revista?

Este Sandokan é espantoso. Vigorosamente orientalizado, novidade então nas representações das célebres aventuras, sendo a obra anterior à série televisiva infanto-juvenil que viria a popularizar o herói sob o fenotipo de Kabir Bedi, mas a questão vai bem para além do mero aspecto. Em Pratt Sandokan, o supra-sumo do herói romântico aventureiro de Salgari, aparece como um consciente resistente anti-colonial - e não o era também Cranio, pacientemente sob as ordens do "Monge" aguardando a sua hora, e a do seu pan-povo, na "Balada do Mar Salgado",

Extrema ainda a representação de Yanez, o português que Salgari postou junto a Sandokan, seu amigo dilecto - e não deixa de ser significante que em finais de XIX para Salgari o mais "transitável" dos europeus fosse um português. Aqui se Yanez aparece com os traços fisionómicos que em Pratt são os do seu Corto (e dele próprio), tem ainda a sua portugalidade extremada - onde foi ele representado como aqui?

Um livro que caminhava para fabuloso. E assim ficou.jpt

publicado às 00:49


3 comentários

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De vera belo marques a 18.03.2010 às 15:53

Saudosa realização de teatro radiofónico que o meu pai (Alvaro Belo Marques) fez com o garnde sonoplasta Carlos Silva, na Rádio Moçambique na década de 80!C/ grandes efeitos sonoros feitos nos matos em frente à Facim!
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De Mauro Manhiça a 31.03.2010 às 12:35

Ohh... Se não me lembro de ir a correr chamar a mão e os irmãos porque estava na hora do Sandocan, O tigre da Malásia. Era uma alegria. Não tinhamos televisão e o rádio era o centro do nosso mundo/casa. Acompanhávamos religiosamente e durante o dia, em brincadeira, imitávamos as falas. He he he... Era bem nice.
Quanto ao Hugo Pratt... um ídolo! Hoje, lembro-me com dor da "Balada do Mar Salgado" que ganhei de um tio e que "escangalhei" porque achava o "preto-e-branco" uma chatice... Meninice...
Ainda não me perdoei por isso!! he he he
O tempo passou, descobri que a ilustração era uma das coisas que queria fazer para o resto da minha vida e agora ando a fazer uma BD, toda a preto-e-branco, quiça para cumprir a minha homenagem ao H. Pratt ou talvez para "pagar" pelo meu pecadito.
he he he

meu blog: http://lagartista-lagartista.blogspot.com/2010/02/ilustracao-infantil.html
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De jpt a 01.04.2010 às 10:52

Agradeço-lhe o ter dado a conhecer o seu blog - que logo colocarei no www.pnetmocambique.com
Cumprimentos, até breve

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