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Os Poemas de Reinaldo Ferreira

por jpt, em 26.03.10

[Reinaldo Ferreira, Poemas, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1960]

Leitor amigo na Austrália (malhas que o facebook tece) enviou-me capa (com ilustração de Diane Lidchi) desta edição original dos "Poemas" de Reinaldo Ferreira ["Mínimo sou / Mas quando ao nada empresto / a minha elementar realidade / o nada é só o resto"], aquele que Guilherme de Melo chamou “o mais europeu dos poetas portugueses acontecidos em Moçambique”  - e que teve o dado biográfico, talvez apelativo para os menos dados às coisas da poesia, de ser filho do homónimo jornalista, o célebre Repórter X.

Esta edição original integrou quatro partes (Livros): "Um voo cego a nada", "Poemas Infernais", "Poemas do Natal e da Paixão de Cristo", "Dispersos". Porque póstuma acolheu vários textos enquadradores: a "Extensa Nota Explicativa" ao livro II de Fernando Ferreira, e a "Nota Explicativa" ao livro III de Victor Evaristo, que vieram a ser re-editadas. E uma introdução e notas explicativas aos Livro I e IV  da autoria de Eugénio Lisboa, que lamentavelmente foram amputadas (presumo que por desacordo editorial) na edição mais recente (Vega, 1998), a qual aqui referi - a propósito da celebérrima canção "Uma Casa Portuguesa" da qual Reinaldo Ferreira foi co-autor (letrista).

Então aí deixei o meu poema preferido do livro, o "Receita para fazer um herói". Agora incluo aqui, em forma de abraço agradecido ao co-austral ma-schambiano, uma dupla do "Um voo cego a nada" (porventura o título que o poeta teria escolhido para o livro), cruelmente actuais. Um que fala do dia de sempre. E o outro que fala de tantos d'hoje, alguns até do quotidiano, arrogantemente acantonados nesses jardins blogo-internéticos ...

Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-iaQue partout, everywhere, em toda a parte,A vida égale, idêntica, the same,É sempre um esforço inútil,Um voo cego a nada.Mas dancemos, dancemosJá que temosA valsa começadaE o NadaDeve acabar-se também,Como todas as coisas.Tu pensasNas vantagens imensasDum parQue paga sem falar;Eu, nauseado e grogue,Eu penso, vê lá bem,Em Arles e na orelha do Van Gogh ...E assim entre o que eu penso e o que tu sentesA ponte que nos une - é estar ausentes.

 
O FUTUROAos domingos, iremos ao jardim.Entediados, em grupos familiares,Aos pares,Dando-nos aresDe pessoas invulgares,Aos domingos iremos ao jardim.Diremos, nos encontros casuaisCom outros clãs iguais,Banalidades rituais,Fundamentais.Autómatos afins,Misto de serafinsSociaisE de standardizados mandarins,Teremos preconceitos e pruridos,Produtos recebidosNa herançaDe certos caracteres adquiridos.Falaremos do tempo,Do que foi, do que já houve ...E sendo já entãoPor tradiçãoE formaçãoAntiburgueses- Solidamente antiburgueses -,Inquietos falaremosDa tormenta que passaE seus desvarios.Seremos aos domingos, no jardim,Reaccionários.
jpt

publicado às 05:51


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