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mutimati-eu-o-povo

 

 

A surpresa de encontrar em Portugal esta nova edição do célebre e lendário "Eu, o Povo", de Mutimati Barnabé João (António Quadros), uma publicação em colecção de bolso da Biblioteca de Editores Independentes (2008). Com um interessante prefácio de José Forjaz, narrando da sua origem, e um hermético (percebi nacos, e com toda a certeza não o fundamental) posfácio de Daniel Jonas (e que tal levantar o pé na densidade quando se escreve para uma colecção de bolso?).

 

Sobre o mítico livro, apropriação criacionista da identidade moçambicana por parte de Quadros, muito ouvi falar. Transpira o tempo de então, o 1975 ideologizado colectivista. Mas acima de tudo o voluntarista tempo de então. Talvez seja esse mesmo voluntarismo, essa vontade de crer, que tenha levado a crer ter sido um "povo", um guerrilheiro, a escrever estes poemas - consta (acredito porque mo contaram) que só tendo sido levado o texto a Jorge Rebelo, ele próprio poeta, ele negou essa hipótese ao ler "Tenho um espinho no pé direito. / Descalço a alpercata. / Esta terra é estéril. Queima. Está na agonia." (O estrume). Pois, disse, "alpercata só um português utilizaria". Ao reler agora os poemas ocorre-me imaginar o espírito do leitor de então que não descodificava de imediato a operação autoral.

 

Alguns destes poemas são ainda recorrentemente ditos, mostrando o como produziram uma época, que tem permanências. É o caso de "Relatório" (Faz favor dá ordem para pôr dentro outro Irmão / Camarada Comandante) ou (não é hoje tão explícito?) "Camarada Inimigo" (Este inimigo deixa muita informação e rasto / Não pode ser um inimigo assim tanto) ou "Eu, o Povo" (A táctica colonialista é deixar o Povo no natural / Fazendo do Povo um inimigo da natureza). É disso que se faz o encanto que neles encontro. Como neste, o meu preferido espelho desse tempo:

 

Operação da guerra da libertação

 

Esta árvore amiga é o inimigo

Destroncar esta árvore é uma operação contra o inimigo.

Escolhemos um inimigo, inimigo, à medida da nossa grandeza

Um inimigo do tamanho da nossa tarefa

Que vai dar muita chatice a cair, e táctica e estratégia

E vai ser derrubado melhor que em pé

Pois se que esta terra é boa para uma árvore tão alta

Há-de ser muito boa para dar machamba.

Vais ser ataque de serrote ou machada ou enxada na raiz?

Vai cair para o lado do vento?

Vai ser de cinto de fogo ou trotil mesmo?

Vai ser com as mãos fazendo força, camaradas?

Onde há uma árvore maior do que a força do Povo?

Se vier o velho, a mulher, o menino, todos um e um e um

Riscar com a unha do dedo pequeno, lamber com a língua

Nove milhões de pequenas carícias e pouca força

Por onde passa o Exército da Libertação

Esta árvore cai mesmo.

Fica um rasto verde e cheiroso e o caminho aberto

Para passar a Liberdade e o Futuro.

É fácil ver quem passou aqui.

publicado às 02:06


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