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Noite de Eleições

por jpt, em 30.05.04

[aí estão eleições no meu país. Aqui deixo um texto velho - como todos os "Roupa Velha" que aqui ponho, prontos às teias de aranha do "Arquivo". Escrito na noite das últimas eleições legislativas e logo enviado para aquelas dezenas de amigos/conhecidos que costumava então assaltar via email assim despejando-lhes os meus textos, um blog artesanal, um blog ao domicílio, um blog atrevido, um blog sem o saber...

 

Texto envelhecido, claro está, como qualquer desabafo de época. E poderá levantar a questão: é a administração PSD melhor do que o PS? Francamente não posso julgar em absoluto, mero cidadão emigrante. Quero crer que sim. Os meus votos que o seja, nem que "para pior já basta(va) assim"!

 

Mas para mim tem pelo menos uma enorme vantagem: viajam menos para Maputo. E chega.]

 

NOITE DE ELEIÇÕES

 

É bom o clima por aqui, em especial em Maputo que é temperado o q.b., não arrasa os europeus. E são bonitas as árvores, e então naquele tempo das folhas vermelhas nem vos digo, e mais ainda a baía, com a xefina e a inhaca à frente da varanda. Come-se bem, em especial o peixe que é fresco mesmo que não muito variado, e os mariscos, um camarão recomendável e um caranguejo ímpar. E há tempo, mesmo que em corrida, fica sempre um bocadinho (arrastem o "dinho" s.f.f.) para parar, olhar, disfrutar. As mulheres são muito bonitas, como o devem ser em todo o mundo, mas aqui faz calor e passam gingando, naqueles vestidos quase justos, feitos de chita que o dinheiro não abunda, e tudo isto é belo, e apaixona.

 

É o burguês em África !(se se cegar à outra enorme face da moeda, mas isso não é para hoje). Tudo isto chama as visitas. Comprendo-os bem, eu fui-me deixando ficar.

 

Até há uns 30 anos isto foi nossa colónia, toda a gente o sabe. Mas nem todos se recordam que já não o é, quantos o esquecem neste dia-a-dia, e nisso ajuda-os a língua que julgam comum. Diz-se que quando daqui saímos houve notícias na TV e até nos jornais, mas já foi há tanto tempo! Será por isso que todos os que chegam perto do Poder, ou até menos perto, todos os que chegam “lá” sentem a urgência de “cá” vir, “cooperar” dizem, ajudar, realizar, mandar. Terá tudo a ver com esse primeiro parágrafo, ali em cima, mas também tudo a ver com este último.

 

Pois chegados ao governo é-se lá alguém se não se viajar em África, por lá fazer algo por esses queridos Palops, sempre tão nossos amigos e expectantes? Ou melhor, se não se prometer algo em África? Não há dinheiro para isso?, não há problema, vai-se até lá, assinam-se os protocolos da ajuda, põem-se nos papéis todas as boas intenções, tira-se a fotografia, praxe claro está, e depois, bem depois, ver-se-á lá pela Europa onde deve haver fundos disponíveis. Oops, não veio dinheiro de Bruxelas? Não faz mal, não se diz mais nada, isto vai andando assim até à próxima visita, e então torna-se a assinar o assinado...entretanto manda-se lá fulano, aqui do ministério qualquer ou semelhante, leva as ajudas de custo e ainda há-de trazer o relatório e etc. e tal.

 

No meio disto tudo passaram-me cinco anos aqui, muitos camarões, imensos caranguejos, milhares de chamussas, alguns gins e afins. E falares distendidos, que o clima ajuda, os comes idem, e os gingares ainda mais. E com essa gente mais do que tudo germinam conversas sobre o Portugal deles, que é certo que cá vêm mas o seu interesse por Moçambique é bem pouco, vê-se bem que à maioria dos que vão chegando a cabeça (e as estratégias, e as estratégias) não saíu de lá, aqui aportam só os corpos, ai, ai, mas não vêm cantar o “Mãe África”, é mais o “ó prima, anda cá!”.

 

E com isto tudo falam, vão falando, abrem-se enquanto nos olham num “estamos juntos” que aqui aprendem, como se por cá estarmos tenhamos que ser do clube deles, ainda que por estas bandas a jogar nas reservas. E foram assim imensas as conversas sobre aí, com essa gente do poder, a maioria mordomos do poder é certo, mas nem percebem que comem na copa. Gente boa alguma, gente distraída outra, e gente má, muita. Dizia o Padre Américo que não há rapazes maus, e devia ter razão, o problema é que crescem.

 

Cinco anos, dizia eu, com tanta conversa, sobre eles próprios e os seus. Sobre o país que gerem. E sobre os outros...E nós a ouvir e, claro está, quantas vezes a pagar a conta pois, coitados deles, é tão notório que lhes é pesada a mão quando tem que avançar para a carteira. Analítico, e nunca elitista, ainda me pergunto, será essa uma doença desta gente emergente, agora doutores? Ou apenas um mal socialista?

 

Por isso tudo nesta noite de eleições, agora que houve o ontem, aleluia, brotam-me as perguntas, algo confusas e até em catadupa. Mas acabam todas nesta: Mas que raio, será a higiene a última das ideologias? Ou apenas o alívio?

 

Rejuvenesço-me nesta madrugada, tanto que até me vem à cabeça o que o Bowie cantava (há já tantos anos), “calcem os sapatos vermelhos e dancem o blues”. E lembro-me deles todos e rio-lhes um dancem agora...”Toca a dançar”.

 

(Março 2002, dia seguinte às eleições legislativas)

publicado às 20:22



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