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Paulo Querido narra a "introdução" da vuvuzela em Portugal, a campanha da petrolífera GALP para "acompanhar" o mundial da bola deste ano. Para os incautos que ainda não a conhecem: a vuvezela é horrível, o vuvuzelar é um atentado. Ao sossego alheio, ao bem-estar público, à ordem natural das coisas, à moral e bons costumes, à ecologia. Em resumo: é satânico (aka fascista ou comunista, para os mais dados à política e menos às espiritualidades). A história da introdução desta corneta em Portugal (que espero venha a desfalecer rapidamente) "diverte-me" por duas coisas: pois conheço o seu obreiro - com o qual tenho até mediado parentesco espiritual - há mais de um quarto de século (a velocidade do tempo é, também ela, coisa satânica) e gosto de saber que continua a mexer, seja lá como for, com a pasmaceira circundante; e porque confirma isto de que aos meus patrícios basta acenar com qualquer banha-da-cobra (aka gadgets) que eles correm logo a comprar. Crise ou não crise, como sobreviver se não se tiver o que o vizinho do lado já tem? Como recusar aos "filhinhos", aquele casalinho ranhoso (até tatuado e escarafunchado em piercings, ou a caminho disso) gerado lá em casa, o que os outros "meninos" da turma já têm?, não irão eles crescer deficientes sem todas as "vuvuzelas" do bazar? Tudo isto lembra-me um texto do grande Jack London, coisa com mais de um século já, portanto ainda anterior ao dito"audiovisual":

 

 

"Desperdício comercial. Consideremos o capítulo da publicidade. Para realizar aquela que inunda as ruas de papelada, profana a atmosfera, polui o campo, viola a santa intimidade familiar, emprega-se um verdadeiro exército: redactores, fabricantes de papel, impressores, coladores de cartazes, pintores, marceneiros, douradores, mecânicos, etc. Sabe-se que os fabricantes de sabão e de produtos farmacêuticos chegam a gastar meio milhão de dólares por ano em publicidade. Este desperdício comercial apresenta-se sob variadas formas, uma das quais diz respeito as artigos que são feitos para serem vendidos, e não para servir, como os alimentos falsificados e as mercadorias de pacotilha; ou, parafraseando Matthew Arnold, lâminas de barbear que não cortam, fatos que não vestem bem, relógios que nunca funcionarão." (Jack London, O Vagabundo e Outras Histórias, Dinossauro Edições, 1995, p. 74. Tradução de Ana Barradas)

 

jpt

publicado às 12:41


6 comentários

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[...] com a memória adequada: no último Mundial de Futebol houve uma campanha publicitária ofertando vuvuzelas em Portugal. A autoria era de um velho amigo meu,o Pedro Bidarra. Insurgi-me (uma picardia olivalense também) [...]
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De ABM a 06.06.2010 às 19:09

Jpt

Os segredos da vida comercial (e até certo ponto, cultural) são:

1. ter uma boa ideia "inovadora" que dê num produto ou serviço e protegê-la
2. produzir ou comprar esse produto/serviço barato e vender mais caro
3. Ter bom marketing para arranjar compradores e uma boa distribuição para fazer chegar o produto aos consumidores
4. corolário: hoje em dia não interessa o que seja, mas preferencialmente que seja legal, não vão os americanos declarar-nos membros de um baronato
5. as tais de vuvuzela são uma brincadeira daquelas de quarta qualidade que se produzem na China por 5 cêntimos e que a Galp, com um tanquezito ou coisa parecida, oferece aos papás para dar aos meninos, que só momentaneamente largam os I-pods e I-macs para chatear a vizinhança.
6. Estive a ver uma vuvuzela (já há uma em casa) e já constatei que, passada a febre, pode dar um bom funil.
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De jpt a 06.06.2010 às 23:25

Pois estás então de acordo com o Jack London há 101 anos.
Quanto ao baronato que aventas como hipotése do nosso "amigo americano" presumo que seja "boca" à nossa regressada baronesa [notícias dos outros capinadores?]
Quanto ao funil, também acho...
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De Identidades | ma-schamba a 07.06.2010 às 00:57

[...] Abaixo está uma entrada sobre a campanha publicitária da GALP em que se importa para Portugal a corneta (vuvuzela) para os campos de futebol e, presumivelmente, seus arredores e locais públicos. O texto é explícito: trato ali da importação de um instrumento supra-barulhento, agressivo e desconfortável; para além do futebol trata ainda da mania lusa (mas não só) de adquirir tudo o que vem à rede. Implicitamente – mas esse implícito só pode ser para quem acompanha o ma-schamba, claro – liga-se com o meu enorme fastio com a futebolização do país (abordada por exemplo aqui mas várias vezes depois em tempos mais recentes), que entendo não só como uma forma de distrair o povo mas fundamentalmente como uma forma de “fazer pensar”, do qual o exemplo mais óbvio é o “futebolês” mas há coisas bem mais profundas, como a “derbiização” do debate público. Ou seja, gosto de futebol, gosto dos grandes torneios e sou sportinguista (talvez um bocadinho menos do que aquilo que enceno, mas pouco). [...]
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[...] que há dois meses aqui deixei um resmungo contra a importação portuguesa do instrumento. O que logo deu azo às habituais estratégias identitárias. Hoje serôdias, anacrónicas até. [...]
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De A Trompa Escatológica | ma-schamba a 03.09.2010 às 02:14

[...] a trompa do apocalipse em tempos resmunguei – logo fui acusado de vil e odioso português (com matizes de colono, acho). Agora [...]

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