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Por mais que não fosse Eduardo Cintra Torres, cronista/crítico de TV do Público, ganhou direito a nome de rua suburbana e bustozito no passeio com o artigo da semana passada sobre o casamento de Filipe Bourbon e Letízia Ortiz. Agora auto-promoveu-se a praceta via excelente e clarividente "O Futebol como Parte do Sistema Político".

 

NOTA: os jornais costumam retirar o acesso aos artigos. Como li algures o que nos blogs se consegue fazer são apenas "elos efémeros" (como se isso não fosse a condição de qualquer elo). Assim passo a copiar os artigos que decidir ligar, e a colocá-los no texto, qual (extensa) nota de rodapé.

O Futebol como Parte do Sistema Político

Eduardo Cintra Torres

Público, 30 de Maio de 2004

 

Na semana passada participei no Rivoli Teatro Municipal do Porto num colóquio incluído no original ciclo cultural Pontapé de Saída motivado pela realização do todo-poderoso Euro 2004 em Portugal. Referi que quase tudo o que sei de futebol sei pela televisão. Não jogo, não frequento, não leio imprensa desportiva, não oiço rádio desportiva, vejo poucos jogos na TV, não sei conversar sobre o desporto. O que sei é pelos noticiários televisivos, pelos jogos que vejo, por pedaços de programas, pelo zapping.

 

 

E que me ensina a televisão sobre o futebol? Que o futebol é economia, que é sociedade, que é sociabilidade, que é ideologia. Também é espírito, o sonho do amanhã que canta para a multidão que ganha ou perde. E exemplifiquei dizendo que: os adeptos do Benfica aguentam esperar oito anos pela próxima vitória; os adeptos do Sporting aguentam esperar 17 anos pela próxima vitória; e os adeptos do Futebol Clube do Porto (FCP) aguentam esperar pelo menos uma semana.

 

Meu dito, meu feito, eis que quatro dias depois o Porto inunda a pátria com a sua fantástica vitória na Taça dos Campeões Europeus. As emissões da televisão portuguesa, em especial o non-stop da RTP1, confirmaram a última dimensão do futebol que referi no Rivoli: o futebol como política.

 

No excelente artigo "Glória e Servidão" ("DN", 28.05), Manuel Villaverde Cabral sublinhou como a glória do êxito do FCP tem como reverso a servidão da política: "o poder político, cada vez mais desenraizado e distante das populações, faz tudo o que pode, mesmo o que não deve, para tirar partido da paixão popular pelo futebol e da efémera glória colectiva que ele traz de vez em quando. E é assim que o futebol se transforma numa forma de servidão política, como mostram a corrupção nas autarquias e o financiamento partidário."

 

De facto, a intersecção futebol-política é ainda mais profunda do que o aproveitamento repetido das glórias da bola pelos governantes e oposição e do que a promiscuidade entre o pessoal que ora transita ora se mantém nas duas actividades (Santana, major, Seara, etc).

 

As intervenções da esfera política no jogo do FCP são sinais de como o futebol foi integrado na esfera política: o chefe do Estado fez-se representar pela mulher e falou cá de imediato pela TV sobre a vitória como metáfora do futuro político do país; o primeiro-ministro adiou uma visita de Estado ao México para fazer uma outra visita de Estado, aliás, uma "visita de estádio" a Gelsenkirschen; a deputada Manuela Aguiar queria dispensa de falta no parlamento, fazendo da deslocação ao jogo uma tarefa de representação política; Ferro Rodrigues, Deus Pinheiro e outros políticos saudaram a vitória numa colagem habitual aos êxitos da nova religião do povo. E não esqueçamos a imagem de Guterres com um cachecol da bola numa reunião da União Europeia e a excursão parlamentar e governamental a Sevilha.

 

São sinais que resultam de o futebol se ter transformado numa nova religião, uma religião laica, com a sua ideologia, a sua fé, as suas massas, as suas cerimónias e ritos, as suas "catedrais" e clero, a sua economia. Não admira que a Conferência Episcopal portuguesa tenha alertado há meses, em invulgar comunicado, para o peso excessivo que o futebol vem assumindo no país: o futebol é, de facto, a única crença e instituição que pode tomar o lugar do catolicismo na sociedade portuguesa.

 

Trata-se de uma instituição talhada para assumir proporções gigantescas no Estado e, portanto, inscrever-se como parte do sistema político, precisamente por ter dimensão nacional (a televisão transformou o FCP, bem como outros clubes, em instituição nacional, pelo que a sua vitória foi, segundo políticos e populares, "de todos os portugueses", como Soares dizia de si mesmo; há alguns anos esta nacionalização ideológica de um clube seria impensável).

 

 

Apesar dos conflitos entre clubes e seus adeptos, o futebol une a nação: une pobres e ricos em torno do mesmo tema, o único possível para esse diálogo; une os portugueses até nas divergências, pois no futebol mesmo o ódio fornece uma linguagem comum a todos, que substitui a da religião. Ora, ao fazê-lo, o futebol fornece muito do que é necessário para se manter a coesão social. Em democracia, a política precisa dessa única linguagem comum na sociedade, e por isso apropria-se dela.

 

Além disso, o futebol substitui o debate sobre os problemas sociais, económicos e políticos, o que é um alívio para todos os políticos, nomeadamente para os que estão no poder. Se o povo falasse de política como fala de futebol nem os do Bloco de Esquerda tinham descanso perante a descoberta das suas carecas, quanto mais os partidos da área do poder governativo.

 

O futebol é tanto mais importante quanto mais alegrias fornece aos adeptos ou à nação, e quanto mais elas forem as únicas: o poder político tem de dar ao futebol gastos mirabolantes com estádios, permitir-lhe incumprimentos fiscais, etc.

 

 

Ao ser ideologia nacional, e, por isso, colocar-se acima da própria política, o futebol ganha estatuto de religião política, dado que a fé, como a pátria, não se discute (já dizia o outro). E por isso o futebol ocupa o espaço generalista televisivo sem contestação nem debate. A transmissão que a RTP1 fez em torno do FCP na Taça dos Campeões Europeus, que só por acaso não ocupou 24 horas consecutivas, revela o lugar que o futebol tomou nesta ideologia nacional deliberadamente assumida pelos políticos e pelos responsáveis dos canais, incluindo do Estado. A transmissão da RTP1 foi, como o foram as mais curtas na TVI ou na SIC, uma emissão política. Tratou-se de unir a nação, de aumentar a auto-estima, de iniciar a retoma, como disse Sampaio entre o irónico e o patético, sendo o FCP (e a televisão) o instrumento que o sistema político utiliza para proferir esse discurso.

 

 

Em termos históricos, nada disto é novidade. Na Grécia, o desporto era iminentemente político, símbolo e orgulho da cidade e concretização da paz entre as cidades (hoje o futebol substitui as guerras e a luta de classes com enormes vantagens para toda a gente). E em Roma o desporto era "oferecido" pelo Estado ao povo em arenas à época tão perfeitas como hoje a de Gelsenkirschen. A diferença é que hoje se ilude a inserção do futebol no sistema político. Porque hoje o próprio futebol é política, ele faz parte do sistema político. Este facto não foi assumido pelas instituições do Estado e pela reflexão das elites, criando-se contradições aparentemente insanáveis na esfera pública.

publicado às 20:29



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