Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Saramago

por jpt, em 21.10.09

[Nota: Porfírio Silva, do Machina Speculatrix demonstrou nos comentários o seu desagrado pelo epíteto com que o descrevi. Tem toda a legitimidade para o fazer. Dou a mão à palmatória, ainda que insista que o meu propósito não era insultuoso do bloguista mas sim desqualificador do seu texto. Assim sendo alterei a entrada]

steiner-gramaticas

"A mística judaica imagina que um segundo de distracção do escriba ao qual Deus ditou a Torah se traduziu pela omissão de um acento, de um signo diacrítico. Foi através desse erratum que o mal se infiltrou na criação. (...) Distraído por qualquer coisa de realmente importante, Deus "deixou cair do Seu bolso" um cosmos inacabado." (49)

"Job, o Edomita, não reclama justiça. Se tivesse sido judeu, tê-la-ia reclamado. Mas Job, o Edomita, reclama sentido. Exige de Deus que faça sentido (fazer sentido [make sense]): eis uma das fórmulas mais impensadamente problemáticas das gramáticas da criação). Exige que Deus Se torne compreensível. Recusando por completo a concepção agostiniana - "se o apreendes, não é Deus" - Job intima Deus a revelar-Se de outro modo que não o das aparências do absurdo e do insensato. Os horrores imerecidos que desabam sobre Job abrem uma dupla possibilidade: que o criador seja fraco - e o satânico poderá prevalecer - ou puerilmente volúvel e sádico. Como um homem que "matasse por prazer". Que seja, como diz Karl Barth no seu comentário do Livro de Job, "um Deus sem Deus". (...) Deus é então culpado de ter criado". (55-56), etc., etc.

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, 2001, tradução de Miguel Serras Pereira]

O mal-estar com deus não é novo, veja-se acima. O mal-estar com os homens de deus também não o é. José Saramago, num país onde os blogo-Blasfemos defendem o criacionismo diante do aplauso burguês, convém não o esquecer, e onde milhões continuam a acreditar na visão de Fátima, botou o seu mal-estar com os homens de deus. E, é esta apenas a minha opinião, o seu mal-estar com (o seu) deus, um deus crual e vingativo. Em termos felizes?

Talvez não muito, dando o flanco a imputações de leitura pouco profunda da Bíblia. Pois o velho escritor (talvez já na idade e na situação de olhar deus) arranca agora umas declarações "chocantes": A Bíblia (e o Corão) não é [são] de inspiração divina, disse. Coisa com que qualquer letrado deveria poder concordar. Invectiva também contra o deus castigador - aí reduzindo mas não falsificando. E alude (corrosivo, irado?) aos "maus costumes" vertidos na Bíblia - a mim choca-me a imagem dos "maus costumes", o que é o Mal?, mas acima de tudo o que são os males?

[Tenho com a obra de Saramago uma relação há muito estabelecida. Não é a minha prosa (nesse registo o A Saga/Fuga de JB de Ballester encheu-me) nem é o meu mundo. Aos vinte anos li - e muito gostei - o Levantado do Chão. Antes lera, e gostara, o Memorial do Convento. Logo, logo, li o Ano da Morte de Ricardo Reis - que me terá sido um dos mais importantes livros da vida, foi a última leitura não-profissional que me forcei a levar até ao fim. Tinha vinte e um anos e ainda me lembro de o terminar: "nunca mais faço isto", exclamei, e desde então se não estou a gostar largo o livro. E assim fui fazendo, e também com vários dos seus livros. Depois, em 1998, li-lhe o Todos os Nomes, recebera ele o Nobel e por razões profissionais achei que lhe devia ler a obra. Nada gostei, lembro a sensação de estar diante de uma amálgama dos mundos de Borges e Kafka em registo longo e cansativo. São as vantagens do leigo, lê e pensa consoante o que lhe vem à cabeça.

Tenho do homem Saramago um conhecimento diferente. Cruzei-o em Maputo duas vezes. Deparei-me com uma cultura atroz (rais parta o homem), uma sageza ágil traduzida numa perspicácia fantástica, daquelas do "chegar, ver e entender", uma capacidade de improviso oral espantosa. E curvei-me diante da gentileza que comigo teve - e bem precisado estava eu, no meio dos lusobárbaros à solta. Não é por isso que lhe vou ler os livros, ainda comprei (em sessão de lançamento aqui, com direito a autógrafo final) o A Caverna, mas não terminei, cansado. Separo, como sempre, o homem dos seus livros, das coisas que faz.]

Mas não posso deixar de me espantar com o efeito Saramago. Em Portugal é um chorrilho. Cai o carmo e a trindade. O deputado Mário David, eurodeputado do PSD, propõe que o homem deixe de ser português pois ofende o povo - o que é isto, o ostracismo porque o homem diz que o deus nosso-senhor ensinado às crianças é castigador, porque lhe nega a omnisciência e restante omnipotência? A que miséria intelectual está condenado um dos partidos básicos do regime português, a que baixeza está condenada Portugal? Por todo lado abundam as críticas ao perverso escritor, ao medíocre escritor - imerecido Nobel. Dá para tudo: invectivam a ignorância com que põe em causa a grandiosidade literária da Bíblia (lendo as notas noticiosas bem que procuro saber como o fez, mas não o encontro: e até o mais arguto dos bloguistas carrega contra o gigantesco moínho de vento) - já agora gostaria de saber quais dos utentes deste argumento arrumam a sua Bíblia nas estantes no seio da literatura (letra B; secção vários; autor Deus, etc) ... Na área do bloguismo político socialista (um bocado a despropósito, acho eu) aproveita-se para lembrar que Durão Barroso foi do MRPP em 1975 (mas nunca se refere que Mário Lino foi um abjecto controleiro estalinista dos comunistas portugueses destacados para Moçambique, não sei porquê, ou talvez porque as histórias são vergonhosas e "jamais" convirá lembrá-las). Os mais exaltados camaradas truncam-lhe os argumentos, feitos meras bandeiras ao deus-dará.

Ninguém se lembra que dos escritores o que interessa são os livros? Olho para trás, Oscar Wilde devia ser uma bicha insuportável, Shakespeare um tiranete lá no teatro, Tolstoi um chato do caralho. Lowry um bêbedo de fugir, Céline um nazi filhodaputa. É disso que falamos ou lemos-lhes, deliciados, os livros?

Vã política, vã jornalice, vã bloguice. Vã-glória de opinar.

jpt

publicado às 02:29


comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Bloguistas







Tags

Todos os Assuntos