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1. A propósito da sequência das declarações "bíblicas" de José Saramago uma insistência no tema, talvez a aborrecer os visitantes. Mas é uma sequência de dizeres tão sintomáticos sobre Portugal que se tornam irresistíveis.

No Mar Salgado Vasco Lobo Xavier ecoa que Saramago defende que Deus devia ter vedado a macieira com rede. É uma afirmação deliciosa, levando a matéria para onde ela realmente pertence. Tal como o nosso ABM lembrou nestas declarações do que se trata é de um conflito ideológico-político com a Igreja Católica, nada reduzíveis às furibundas invectivas de publicidade ou senilidade. Pois torna-se óbvio que para Saramago é possível o paraíso, nos seus avatares que foram correntes: sociedade de lazer, sem exploração, sem escassez, de "homem novo". O que para isso é necessário é que alguém, alguns, construa(m) a cerca (e por ela velem) que defenda os homens da "natureza humana". À "incompetência" (aliás, inexistência) da divindade suceder-se-á a competente tutela do partido, em particular a dos seus intelectuais.

2. Ficou (algum?) Portugal aos gritos com o assunto (mesmo os que se aprestaram a dizer que não havia nada a dizer), uns vociferando contra o herege, outros lamentando-lhe a incapacidade de crítica literária, a falta de profundidade hermenêutica.

Finalmente chegou-me às mãos um jornal Público da semana passada. Onde diz Vasco Pulido Valente: "O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum." Como é óbvio, e não só porque velhas como a própria Bíblia são as invectivas a Deus.

Mas logo avança Pulido Valente: "Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena." Entenda-se, Saramago pode falar do que faz, do seu artesanato, do seu ofício. Sobre outros assuntos não tem autoridade, "a mais remota". Depreendo, até porque condiz com o locutor, que para falar de assuntos abrangentes, fora da vidinha de cada um, há apenas alguns com autoridade, os especialistas. É uma explícita divisão social do trabalho (intelectual). À "incompetência" (aliás, inexistência) da racionalidade geral suceder-se-á a competente tutela do partido, perdão, das elites, em particular a dos seus intelectuais.

Para culminar com o gráfico de Portugal no mesmo jornal diz Lobo Antunes: [os populares] "É óptimo. Uma pessoa não tem guarda-chuva e eles emprestam." 

Olhando para o agregado de locutores está bem marcado o quadro. As três ordens de Dumézil trazidas até quase-nós por Duby: 1. os sábios/intelectuais (com estudos) que têm autoridade abrangente; 2. os arrivistas (escritores que não pensam como os sábios, jornalistas, bloguistas, lumpen-burguesia, sindicalistas ex-aristocracia do ex-proletariado) que querem falar mais do que da sua vidinha; 3. os populares, porreiros porque emprestam o guarda-chuva. Modelo agora em aparência (pós)moderna, mas bem, bem, antigo. Foi feudal, antes indo-ariano. E ainda hoje vigora.

Isto são só coincidências. Releio o artigo "Indústria e Repressão Sexual numa Sociedade da Planície do Pó" e umas páginas antes diz assim (minha versão do francês): "Tem uma sincera e primitiva admiração por aquele que sabe. Desse sempre sublinha as suas qualidades manuais, a memória, a metodologia evidente e elementar: tornamo-nos cultos lendo muitos livros e retendo o que eles dizem. A suspeita que a cultura possa ter uma função crítica e criadora não lhe surge. À cultura julga-a segundo um critério puramente quantitativo. Nesse sentido (o de que para ser culto é necessário ter lido muitos livros durantes muitos anos) é natural que o homem que não é predestinado renuncie a qualquer tentativa". (Umberto Eco, "Phénoménologie de Mike Bongiorno", Pastiches et Postiches, 1992, p. 63). Ou seja, que emprestemos os nossos guarda-chuvas.

É óbvio que nada disto tem a ver com as insistentes considerações sobre "onde está" a direita ou a esquerda, característica questão da topologia portuguesa. É muito mais perene. O tal modelo trifuncional nas mentes de alguns. E sempre associado com a apropriação sociológica do discurso. No fundo com quem pode (e deve) vedar a macieira. Ou levar-nos até ela.

Chove! Vou ali emprestar o meu chapéu-de-chuva.

jpt

publicado às 01:12


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