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Hoje são 35 anos de independência de Moçambique. Na data do trigésimo aniversário aqui deixei este poema de José Craveirinha, poema também momento que foi, que agora reproduzo.

 

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[Zé Craveirinha, fotografado por Sérgio Santimano, fotografia recolhida no seu blog]

 

Saborosas Tangerinas d'Inhambane

 

I

 

Serão palmas induvidosas todas as palmas que palmeiam os discursos dos chefes?

Não são aleivosos certos panegíricos excessivos de vivas?

Auscultemos atentos os gritos vociferados nos comícios.

E nas repletas “bichas”? São ou não bizarrosos sigilosos susssurros?

Em suas epopeias de humildade deixam intactos os sonhadores.

Sabotagem é despromover um verdadeiro poeta em funcionário.

Não bastam nos gabinetes os incompetentes?

Ainda mais alcatifas e ares condicionados?

Aos dirigentes máximos poupemos os ardilosos organigramas.

Como são hábeis os relatórios das empresas estatizadas

prosperamente deficitárias ou por causa das secas

ou porque veio no jornal que choveu de mais

ou por causa do sol ou porque falta no tractor um parafuso

ou talvez porque um polícia de trânsito não multou Vasco da Gama

ao infringir os códigos na rota das especiarias de Calicute.

E nos nossos tímpanos os circunjacentes murmúrios?

Não é boa ideologia detectar na génese os indesmentíveis boatos?

Uma população que não fala não é um risco?

Aonde se oculta o diapasão da sua voz?

E quanto ao mutismo dos fazedores de versos?

Não sai poesia será que saem

dos verões crepusculares dos bairros de caniço augúrios cor-de-rosa?

Quem é o mais super na metereologia das infaustas notícias?

Quem escuta o sinal dos ventos antes da ventania e avisa?

 

II

 

Na berma das avenidas asfaltizadas olhemos perplexados

os sarcásticos prédios por nós escaqueirados. Não dói?

Nas escolas é maningue melhor partirmos as carteiras e de rastos estudar no chão?

E nas fábricas que mãos são estas nossas proletárias mãos que a trabalhar só desfabricam?

E o que é que se passa com engordecido responsável director

sempre a mandar-se em missão de serviço nos melhores hotéis das europas?

Ou então no espólio das noites de vigilância e de saco cheio

vale mais a carência nacional que ter um pide

vale ou não vale nosso esperto milícia Fakir?

 

III

 

Que os camionistas heróis dos camiões emboscados a tiro nas viagens

tragam as saborosas tanjarinas d’Inhambane ao custo das ciladas

mas que descarreguem primeiro nos hospitais nas creches e nas escolas

que o futuro do País também fica mais doce na doçura das tanjarinas d’Inhambane

e o poder sobrevive na força de um povo com tabelas d’amor e não de preços.

Mas os auspiciosos maduros cajus purpurinos

já não nos dão os gostosos tincarôsse porquê?

Especular a pátria não é guiar a viatura nova contra os muros e os postes?

E ilegalidade só é ilegalidade nos outros?

Hiena só é quizumba no mato?

Então juro que tanjarinas d’Inhambane é tanjarina d’Inhambane!

Eu adoro morder voluptuosamente os sumarentos gomos

das magníficas tanjarinas d’Inhambane. Adoro mesmo!

E desde leste a oeste quem não gosta das saborosas tanjarinas d’Inhambane?

Se não gostam, então, os que abjuram os sagrados frutos da terra-mãe

que façam lá um pai e uma mãe; Que façam tios e sobrinhos;

Que façam lá irmãos e irmãs; Que façam lá amigos e amigas;

Que façam lá colegas e camaradas;

E com a incompreensão façam lá nascer a ternura

o amor e a paz se são capazes!

 

IV

 

Pois é! As orientações de alguns directores desorientam os juízos

(deles também) mas quem é que disse que não tenho pena

dos seus conjuntos safaris embrulhando-os fresquinho

se sem problemas de suores originários deste instabilizado clima tropical?

Quem é que disse que não lamento vê-los penosamente saindo dos “Ladas”com as suas poses

e as incalejadas mãos deles sem aguentarem sequer

abrir-se a porta e assentados esperarem que o motorista irrevogavelmente

dê a a volta ao mundo do fatalismo e cumpra hereditariamente essa tarefa?

Mas quem é que disse que não tenho pena?

Mas quem foi que disse que não sinto esse drama?

 

V

 

Depressa você Madalena vai bichar lenha, deixa bicha de carapau.

Tu vovó sai da bicha de capulana vai bichar pão.

E Toninho com Quiristina vai os dois bichar água.

Sexta-feira antepassada mamana Júlia dormiu lá mesmo.

Bichou toda a noite no Jone Uarre mas chegou vez … NADA!

Aontem tomar chá não tomou … foi no serviço.

Aoje não toma? Vai tomar amanhã.

Não toma amanhã toma outro dia.

Ou quando encontra toma de noite.

E quando não encontra de noite então dorme.

Mas quando sonhar amendoim já tomou chá, já comeu.

 

VI

 

Sim. A gente faz favor quer cascar com unha do dedo grande

as tanjarinas d’Inhambane.

Olha lá! Você estás cansado da tua terra? Salta arame … vaaaaaiiii…

Você não gostas bandeira? Leva documento … FAMBA!!!

Antigamente ‘panhava mais fome mas não ficava aqui?

Antigamente era palmatoada. Não estava? Não ia na estiva?

Antigamente sapato não corrente de ferro? Agora quer “Adidas”, não é?

Antigamente sentava no xibalo. Agora senta no Scala não senta? Mas quem deu?

Antigamente escrevia nome? Aonde? Capaz? Agora manda carta no jornal

só p’ra dizer que pão não presta. Comia qual pão antigamente?

Antigamente encontrava passaporte? Agora se não ‘panha passaporte

logo fica muito triste, fica muito zangado. Faz barulho.

Antigamente não era só caderneta?

Sim! Agora come carapau. Não é peixe? Batata-doce e mandioca

agora não é comida? Porquê?

Nossa barriga alembra bife com batata frita e azeitona.

Alembra bacalhau mais grelos, mais aquele azeite d’oliveira com vinho tinto de garrafão lacrado.

Mas nós tinha isso quando queria ou quando restava? Era nossa casa? Qual casa?

Lá naquela casa a gente puxava otoclismo p’ra noss cu pró cu dos outros?

Vá! Fala lá! A gente não ficava de cócoras numa sentina? A gente tinha balde mais o quê?

 

VII

 

É verdade; chuva na machamba não chove. Mas a gente espera. Chuva vai vir.

É verdade a gente come couve com couve, carapau com carapau, farinha com farinha. Mas senta na mesa. Família toda senta.

Senta em casa no prédio. Amigo também senta. Senta ou não senta?

Ir embora não voltar mais? Não pode. Deixar aqui? Ir aonde? Capaz!

Mudar moçambicano ficar o quÊ? Mudar a cara ficar qual cara?

Fugir há outro que vai fugir. Moçambicano próprio não foge.

Homem quando é homem é só um coração. Não é dois.

 

VIII

 

Agora mesmo que não tem senha de gasolina não faz mal

Não há crise. Candonga tem.

Mas quem disse aquelas saborosas tanjarinas d’Inhambane não vem mais?

É preciso? A gente vai fazer estratégia de mestre Lenine

e vamos avançar duas dialécticas cambalhotas atrás

moçambicanissimamente objectivas

concretissimamente bem moçambicanas.

 

IX

 

Agora alerta camarada Control. Vem aí camião com tanjarinas d’Inhambane.

Tira dedo do gatilho e faz uma aceno d’alegria ao estóico motorista.

Ganha metical mas desde Inhambane, desde Chai-Chai, desde Manhiça

ele está guiar mas ele só sabe que chegou quando está a chegar.

Camarada Control: Aldeia é aldeia não é vila.

Camarada Control: Vila é vila não é cidade.

Camarada Control: Cidade é cidade não é distrito.

Camarada Control: Distrito é distrito não é província.

Camarada Control: Província é província não é nação.

Camarada Control: Control é control não é Governo.

Camarada Control: Território nacional é lá no primeiro

grão d’areia em Cabo Delgado até no último milímetro da Ponto D’Ouro.

Camarada Control: Abre teu mais fraterno sorriso no meio da estrada

e deixa passar de dentro para dentro de Moçambique

nossas preciosas tanjarinas d’Inhambane.

Agora escasca uma tanjarina e prova um gomo.

É doce ou não é doce camarada Control?

Pronto!

Muito obrigado Camarada Control!

E viva as saborosas tanjarinas d’Inhambane…VIVA!!!

 

 

[Versão em Nelson Saúte (org.), Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana, Lisboa, D. Quixote, 2004, p. 103]

publicado às 00:15


3 comentários

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De VA a 25.06.2010 às 11:26

É um dos mais belos poemas de Craveirinha, JPT.
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De jpt a 26.06.2010 às 20:29

Confesso que me é agradável ver 57 "gosto" num poema do Craveirinha, ainda para mais este, tão significante (e longo).
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De umBhalane a 25.06.2014 às 00:00

Apenas no alvo.
Novamente.

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