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Leio que George Steiner recebeu um honoris causa em Portugal. Fico algo curioso sobre as reacções que aconteceram. Não tanto as laudatórias, que honoris causa oblige. Mas entender como algumas bandas do espectro nacional o receberam e aclamaram (?).

Digo isto porque Steiner escreveu algo que assenta perfeitamente sobre Portugal - em particular sobre alguns extractos dominantes e bem sonoros do pensar português. Como terão eles embrulhado a recepção e sacralização deste vulto enorme? Porventura com silêncio, ele é pesado e elevado demais para o ataque, convirá assobiar para o lado.

Steiner Barba

Estou exactamente a lembrar-me de um seu pequeno livro, "No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas Para a Redefinição de Cultura" (Relógio d'Água, 1992, tradução de Miguel Serras Pereira). Na verdade é melhor citá-lo, ainda que algo longamente:

"A nossa experiência do presente, os juízos, tantas vezes negativos, que fazemos acerca do nosso lugar na história, vivem continuamente contra o fundo daquilo a que eu gostaria de chamar o "mito do século XIX" ou o "jardim imaginário da cultura liberal".

A nossa sensibilidade situa esse jardim na Inglaterra e na Europa Ocidental dos anos que vão aproximadamente de 1820 a 1915. A primeira data tem a falta de brilho do que releva das convenções, mas o fim do longo Verão reveste-se de uma exactidão apocalíptica. Os traços maiores da paisagem são inconfundíveis. Um nível de cultura elevado e crescente. O primado da lei. As formas de governo representativo, sem dúvida imperfeitas, mas que por toda a parte se generalizaram. Direito à privacidade e segurança cada vez maior nos espaços públicos. Reconhecimento espontâneo do papel axial das artes, ciências e tecnologia em termos económicos e civilizacionais. A obtenção paciente, ainda que por vezes difícil, da coexistência pacífica entre os estados nacionais (...) Interacção dinâmica e temperada de humanidade entre a mobilidade social e as linhas de força e os costumes estáveis da comunidade. Uma norma de poder, moderada pelos conflitos tradicionais entre as gerações, entre pais e filhos. Liberalismo sexual acompanhado por um critério de restrições vigoroso e subtil, colectivamente aceite. E ser-me-ia fácil continuar. (...)

Segundo os nossos interesses transportamos connosco diferentes elementos ou partes deste todo complexo. O pai "sabe" de uma época passada em que as boas maneiras eram estritas e os filhos obedeciam. O sociólogo "sabe" que houve uma cultura urbana em larga medida imune às actuais ameaças anárquicas ou baforadas de violência intempestiva. O religioso e o moralista "sabem" que existiu um tempo em que os valores eram reconhecidos por todos. Cada um de nós poderá evocar as alíneas que melhor convenham ao seu caso: a casa onde a ordem reina, com os seus servidores e o seu recato; os parques dominicais com a sua ociosidade tranquila; o latim nas salas de aula e a subtileza apostólica dos anfiteatros universitários; as livrarias autênticas e os debates parlamentares intelegíveis. Os homens de cultura "sabem" num sentido peculiar, e simbolicamente definido da palavra, que houve um tempo em que uma produção universitária e literária séria, economicamente acessível, era sinónimo da descoberta de um público extenso e dotado de competência crítica. Há ainda hoje há muita gente para quem o célebre Verão sem nuvens de 1914 é a abertura de um passado a que corresponde um mundo mais civilizado, mais confiante, mais humano do que tudo o que depois dele conhecemos." (15-16)

É o que o autor resume como "O mito da Queda é mais forte do que qualquer religião particular" (14), algo que dá sentido às sociedades. Nem vale a pena exemplificar, o conteúdo elencado dessa visão mitológica (e metafísica) do " jardim imaginário do século XIX", surge no Portugal de hoje constantemente erguido (a morte do português, o desaparecimento de Portugal, o fim dos cafés e das suas tertúlias culturais, os livros que são lidos, a tv, o povo, etc. etc. etc.). O que é interessante - e denotando o tempo longo português - é que em Portugal as balizas históricas desse jardim não são equivalentes às anunciadas neste texto. Uma minoria - muito ligada a pobres estratégias de ascensão social, de descendentes de pequenos comerciantes e mercenários do norte da Europa, que estrategizam para preservar os nomes estrangeirados, aportados ao país no liberalismo de XIX - ancoram-se, paradoxalmente, num insane monarquismo absolutista, em Portugal chamado "miguelista", imaginando o tal paraíso onde reinaria "Uma concordância profunda entre o homem e o seu quadro natural de existência" (14) - e escrevo esta entrada na véspera do 1 de Dezembro, onde esse sector mais ridículo, e não só porque arrivista, da sociedade portuguesa sai à rua.

As restantes faixas do espectro intelectual que repisa constantemente este discurso "decadentista" - à "direita" mas também à "esquerda", pois estamos não tanto numa dimensão programática mas sim numa fundamentalmente identitária, de auto-reclamação e de auto-constituição -  alinha a história de outra forma. A desordem portuguesa, a desumanização do seu povo e da sua cultura, é não tanto desenhada pelo seu confronto com um mundo liberal de XIX mas fundamentalmente pela sua contraposição com a ordem, porventura imperfeita, mas dotada de sentido e sentidos, estabelecida no século XX português, o "jardim imaginário do Estado Novo", o totalitarismo até-fascizante, o colonialismo. Afinal sempre recordados como estruturantes dos valores e das boas práticas, seus enquadradores ainda que porventura imperfeitos.

Mas "o jardim imaginário é, sob certos aspectos decisivos, uma simples ficção." Ouvindo os historiadores "É-nos dado a entender que a crosta de requinte civilizacional cobria profundas fossas de exploração social; que a ética sexual burguesa mascarava uma imensa área de hipocrisia turbulenta; que os critérios de formação cultural exigente diziam respeito a muito poucos; que o ódio entre as gerações e as classes era visceral, ainda que muitas vezes silencioso; que a segurança do faubourg e do parque estava directamente ligado à ameaça, reconhecida mas contida, dos casebres e tugúrios. Quem quer que queira abrir os olhos poderá descobrir o que era um dia de trabalho numa fábrica vitoriana ou como a mortalidade infantil atingia grandes números das regiões mineiras do Norte de França durante as décadas de 70 e 80 do século passado. Torna-se inevitável reconhecermos que a riqueza intelectual e a estabilidade da classe média e média superior durante o longo Verão liberal assentava, de modo directo, no domínio económico e, em última instância, militar de grandes zonas daquilo a que hoje chamamos mundo subdesenvolvido ou Terceiro Mundo. Tudo isso salta aos olhos. Sabemo-lo nos nossos momentos racionais. Trata-se, todavia, de uma espécie de saber intermitente, menos próximo do pulsar da nossa sensibilidade do que a mitologia, a metáfora cristalizada, ao mesmo tempo difundida e densa, de um grande jardim da civilização doravante em escombros." (17)

Uma ficção insustentável para "quem quer que queira abrir os olhos", diz Steiner. Por isso mesmo me interrogo do como o terão recebido tantos saudosos, afinal saudosos, selectivamente elogiando, do corporativismo salazarista, do "português" ensinado nos "liceus Camões", do produtor de mestiçagem calibrado por Gilberto Freyre, do "bom povo português", da "alta cultura" até mesmo se marginalizada, ou melhor ainda por isso mesmo. Esses que enchem os jornais, os blogs, a academia. Esses que - mais do que tudo - pensam e sentem como o "ficcional XIX" o afinal XX português. Não abrem os olhos? Nada! Apenas não sabem contar. Ou, por outra, não fizeram a (boa) 4ª classe "dos tempos", essa que era a que "valia a pena, onde se aprendia a sério".

Adenda: uma longa entrevista com George Steiner.

jpt

publicado às 18:53


4 comentários

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De ABM a 02.12.2009 às 11:19

O meu tema predilecto não é tanto o que era mas o sentido e a velocidade da mudança.
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De jpt a 02.12.2009 às 12:34

Pois, e é esse o objectivo do livro. Mas, como é óbvio, como poderemos entender o sentido, a velocidade (e a intensidade) se construímos mal o ponto de partida?
[se atentares as citações provém das páginas iniciais do livro]
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De ABM a 02.12.2009 às 13:54

Para que conste: vi a totalidade dos dois vídeos. Este belogue está-se a tornar num seminário sem certificado.

Para mim a parte mais perturbadora da longa entrevista (com um entrevistador estilo "lambe botas") é o tom sobrio dele no que concerne o futuro da Europa - nomeadamente a "Europa dos minaretes", como o JPT alude indirectamente com a excepção recente da Suíça. Ele profetiza que a minoria islâmica não é culturalmente absorvível e que portanto o relacionamento entre islâmicos e não islâmicos permanecerá um desafio. Mais sombrio ainda foi no que concerne à incapacidade da Europa de jogar um papel decisivo na resolução de conflitos, dando como exemplo o desenrolar do conflito no Kosovo, em que acabaram por ser os EUA a ir lá dentro tentar impor alguma ordem. No lado positivo, assinalou o vago, ténue despertar de novas agendas e de pequenos grupos que poderão, a prazo, crescer para novos movimentos de massas (ecologia, direitos humanos, apoio social).

Sorte dele que, com 80 anos de idade, já não vai ter que ver o resto do filme, que não promete. Mesmo.
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De jpt a 02.12.2009 às 14:11

O que levanta a grande questão: o "fim da história", seja de origem cristão/marxista/liberal, tem hoje um avatar - essa ideia (peregrina?) do fim do conflito via a total harmonização das diferenças, a inter-absorção (esquecendo que absorvendo há sempre o polo ab-sorvedor, já agora), a omnitolerância. Esse é o mito discursivo de hoje, que imprime as dinâmicas daquilo a que erradamente (é uma "sobrevivência", pese embora a poluição do termo) se chama "esquerda" na Europa e afins.

No fundo - e com a ligeireza de uma caixa de comentários - trata-se de uma grosseira desadequação filosófica, a da transformação de um "meio", a tolerância, num "fim", a tolerância.

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