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"…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…" (R. Nassar)

Abaixo uma breve nota sobre a visita do poder chinês a Portugal. Nela não está implícita a ideia de que Portugal deva conduzir a sua política externa pela cartilha dos "bons costumes e direitos humanos". Sim, tem que ser realista: porque é política externa; e porque Portugal tem a dimensão económica e política que tem. Sim, neste caso tem que ser muito realista. Negociou com a ditadura da China de Mao-Tsé-Tung (como se escrevia então), essa que era apoiada pela União Democrática Portuguesa (o partido do hoje "democrático" Luís Fazenda - ao contrário da limpeza anti-maoísta que Nuno Rogeiro decidiu fazer ao execrável "Bloco de Esquerda"), porque entre Estados assim teve que ser. Porque entre Estados assim tem que ser. Mas com conta, peso e medida. O que me choca não é a existência de relações, é a torpeza intelectual que as rodeia.
O que é doloroso, a mediocridade dolorosa de ver, aloja-se em dois pontos: por um lado a ideia de que Portugal é a portagem para a entrada na África "lusófona", a ideia transportada para a tv da perenidade do olhar colonial - e como tal para os países africanos onde se recebem as estações portuguesas, com os efeitos óbvios na opinião popular e nos agentes políticos. O parolismo destas elaborações é total. E não há meio disto terminar, nem mesmo quando a realidade as mostra totalmente anacrónicas. Sim, as negociações de Cahora Bassa mostraram essa triangulação. Sim, diz-se que as andanças da banca portuguesa em Angola também comportam essa tríade (no sentido literal e no sentido metafórico). Mas é um absurdo insistir nessa tecla do "facilitador" Portugal. Pois a China não precisa de "facilitadores"; pois o tempo do Portugal "protector"/"potentado" passou (só alguns comentadores e meia dúzia de intelectuais socialistas é que ainda não se descolonizaram). E, finalmente, e o mais importante, entender Portugal como facilitador das relações entre China e os países africanos - para além de menorizar o país - é um contrasenso político. A articulação portuguesa, e a europeia, com os países africanos passa pela condicionalidade política. Exactamente o contrário da prática chinesa. Este discurso "facilitador" (que é do comentador Rogeiro mas também dos políticos portugueses) é uma radical contradição. E avançam-no sem qualquer hesitação. Não é apenas a falta de princípios mas a elaboração (e em discursos oficiais, como o de Sócrates há uns anos e como o do PR agora, para além dos de agentes menores) de uma total ausência de norte. Um desnorteio político. Uma incompetência.
Finalmente: no Entre as Brumas da Memória encontro a transcrição de um texto de Pedro Lomba sobre esta questão. Impossível não a transcrever também aqui. Porque não se trata apenas de um poder português que não se consegue conceptualizar, não consegue nortear a sua política externa (natural, tamanho o desnorte interno), que não consegue olhar a sua condição não-colonial. É bem mais vasto do que isso.
[Uma pequena nota: a minha irritação com os disparates de Nuno Rogeiro no televisão sobre a matéria não são apenas uma irritação para com (mais) um comentador televisivo. Quem acompanha de longe as coisas da diplomacia ouve sobre as diplomacias paralelas. E choca-se com as patacoadas dos diplomatas paralelos.]
E aqui fica a transcrição do texto de Pedro Lomba:jptQuem somos nós
Dentro de dias chega a Portugal o Presidente da China. Visita inédita, anunciada com um elogio em "diplomatiquês" às "relações bilaterais Portugal-China frutíferas em todos os domínios". Antevemos que a visita será lacrada com dúzia e meia de acordos de cooperação. Mas não é por aí que o tema ferve. Não existem viagens de Estado gratuitas e muito menos para a China. Tudo é business.
Se estiveram atentos aos saldos de Outono, repararam que a China tem andado num périplo frenético pelas economias mais endividadas da Europa. Irlanda, Itália e, há já algum tempo, Grécia. Este interesse nem sequer é recente, mas a aflição dos últimos tempos, sobretudo em Portugal e Grécia, subiu os descontos. Repararam que a China tem prometido comprar mais dívida pública grega. Agora somos nós a estar na berlinda, pois a China manifestou interesse em comprar dívida portuguesa. "Temos vontade em participar nos esforços dos países europeus para recuperar da crise", disse a responsável chinesa para as relações com a Europa.
Agradeçam mas desconfiem. Para nós, vender dívida é opção irrecusável. Haja quem nos compre e de permeio nos financie. Para a China, que tem o armazém cheio de reservas, comprar dívida soberana dos Estados doentes da Europa "ainda" significa arrecadar "risco euro". O casamento parece perfeito. Mas para os chineses tudo isto implica certamente outras consequências políticas.
As guerras do passado cruzavam exércitos, artilharia, batalhas convencionais. As de hoje são mais sofisticadas. São guerras monetárias. Em primeiro lugar, a entrada da China na periferia escaldada do euro, cada vez mais deixada à sua sorte, tem como propósito valorizar a moeda europeia face ao dólar, sustendo a pressão para que a China valorize a sua moeda. Há algum tempo que a China anda a travar um conflito cambial contra os Estados Unidos. Interessa-lhe manter o yuan fraco porque, como se sabe, esse tem sido o grande motor do desenvolvimento chinês da última década, contrariando aquele ensinamento clássico de que só pode existir prosperidade com uma moeda forte.
Depois, seria idílico pretender que a compra de dívida soberana de Irlanda, Itália, Grécia e Portugal consiste apenas e só em compra de dívida. Não há ofertas. Lemos depois notícias como estas, saídas nos últimos dias: "Portugal apoia fim do embargo europeu à venda de armas à China" (em vigor desde 1989) "Portugal apoia a concessão do estatuto de economia de mercado" à China. E não estamos sozinhos. Grécia, Espanha e outros países também defendem o levantamento do embargo, que terá sempre de ser decidido por toda a Europa. Já agora: os Estados Unidos estão contra o levantamento do embargo.
Tudo é business, de facto. O problema aqui não é Portugal que pouco conta. Não interessa se os nossos santos princípios são agredidos pelo levantamento do embargo ao comércio de armas e pela aceitação da economia chinesa como uma economia de mercado, mesmo sabendo que os direitos de propriedade intelectual ou normas de concorrência leal são por lá letra morta. Quem não tem dinheiro, é forçado a meter os princípios na gaveta.
Mas já não é assim com a Europa que, ao fazer certas cedências políticas ao regime chinês em troca de um generoso empurrãozinho na sua moeda, está na prática a cavar uma nova dependência e resignação. Pelo caminho devíamos talvez pensar nos efeitos desta dependência. A economia, ou mais precisamente, este "financeirismo" que se define pelo supremo objectivo de conservar a força do euro, vão a caminho de transformar a Europa num continente sem identidade política. Já não basta que a solidariedade interna esteja em vias de extinção, por razões conhecidas. Até mesmo para fora, a Europa arrisca-se a ficar um espaço despolitizado, sem uma noção clara de quem somos "nós" e de quem são os "outros". Quem e o que somos nós? Ninguém sabe.