É o que acontece ao viver em país iluminado não só por estas tropicais cores mas ainda por poderosos espíritos, segundo os bardos locais, ou por relapsos deuses, a acreditar no real. Pois só em tais paragens um eclipse solar determinaria dia feriado para colectiva homenagem aos astros intercalados. Nessa véspera abandono-me na esplanada dos escritores onde me surpreendem louvores a lowrys e celines, que por aqui nunca tinha escutado. Loas logo partilhadas e que estendemos nas cervejas, que tais assuntos puxam a sede, a minha e a dos presentes literatos, desses que a voz burguesa vem resmungando de incoerentes. Pois também aqui, como por todo o lado, incoerência é vista como se falsidade fosse.
Entre bebidas haveremos de evoluir, que as palavras são como as castanhas do caju e a lógica um enigma, da celinada para as vantagens da circuncisão, apenas aparente paradoxo, que aqui se trata da banta e não tanto da judaica! É-me deliciosa a veemência com que alguns de imediato afrontam e vituperam esse prepúcio que deixaram na tenra infância. Mas logo, sábio, o mais velho desvaloriza a questão, uma bela lição sobre diferenças culturais que sigo e aplaudo, aliviado na minha dupla condição de antropólogo não circuncidado.
Assunto rematado e continuando tão díspar conversar posso enfim decifrar os meus desaires profissionais. Confessa um poeta vagabundo ter encomendado trabalho feiticeiro contra mim, apenas por despeito, di-lo agora, alguma irritabilidade minha o terá ferido. E assim impiedoso ceifou as minhas ambições, tão fracas que cederam às imprecações. De média mac mahon em média mac mahon sabê-lo-ei arrependido de tal acção, o que creio sincero pois a conta não está a meu cargo. Hoje, aliás ultimamente, vai dizendo que sou um preto branco, "este texeira", diz já ébrio, "enganou-nos, branco preto". O mesmo mais velho, o da mesa e das letras locais, repete a sua legítima autoridade resmungando o desinteresse destes argumentos coloridos. Vozes afirmam-no, repito-me, incoerente. Pois não é por essas que o deixarei de saudar, enrolando-nos cervejas quando fazemos calhar.
Já noite parto, algo atrasado e um pouco turvo, para um repasto português, eis uma bela patrícia que por cá se faz balzaquiana, ocasião festiva para juntar o pequeno Portugal local. Um mundo burguês que aqui vive fechado, cercado e cerceado, gente num país que nem se lhes abre nem tão pouco fazem abrir. Casais deslocados e uns poucos solitários sempre suspeitos, convívios cruzados tecendo amizades frágeis ao canibalismo crítico, esse tão próprio à clausura. Pois se é certo que de traços diferentes se faz o mundo, bem difícil se torna reencontrá-los entre nós, aqui feitos tão iguais por toda esta distância de casa. E tanto assim o é que logo em mútuos maldizeres nos cruzamos, acreditando que venha a ser todo esse fel o cimento das nossas bem necessárias e retemperadoras hierarquias, tão confundidas foram estas à passagem do Equador.
Lá chego "a mais a minha senhora", e logo justifico a mesa bem de canto que me é destinada dando boçais pares de beijos, castos e cândidos é certo, nas faces das senhoras presentes, aquelas que se querem, e dizem, habituadas a um único e esquivo roçar. Pois por cá, como na mãe pátria, não é fino quem o diz mas sim quem é parco em beijoquices, e não estou para aqui a falar em quenturas noctívagas. E lá ficamos com os nossos à mesa, também nós ancorados nesta nossa pequena diferença. Gauchisme...incoerente?
Rezam as crónicas que a branca burguesia colonial bebia, fazemos nós os possíveis por honrar os antepassados, e nisso sim refazendo um lusófono Império. Em esplanada bem menos celiniana que a anterior, mas nem por isso menos lowriana, arrasta-se dignamente o aniversário até à madrugada. Deixam-me aí exercer a verve, corrosão liberta pelos líquidos que a cruzam, até se me toldar a língua, equivalente pouco canoro da dor de voz, eclipse sonoro pouco notado pelos presentes, uma indiferença que não deixa de me ferir.
Avançamos então até à Bagamoyo, a Rua Araújo como teimam cúmplices os boémios de todas as gerações, eu acompanhando um casal desavindo, acicatados nas garrafas havidas. Acotovelamo-nos na antecâmara de dançaria, mas logo cedemos ao ímpeto de um cabeça rapada na sua urgência do ruído frenético. Meio cavalheiro, meio maçado, mas nada prudente, oponho-lhe o braço embrulhando o protesto. Certo de que na noite todos os gatos são pardos esqueço-me minoria étnica, logo mo lembra um redondo "vai para o caralho, ó filho da puta", lembrança que acompanha a de estar eu bem velho para violências nocturnas, se é que há idade para isso, sempre me pareceram apenas paixões frustradas.
Mas enquanto penso isso são os milhares de anos de mediterrâneo que brotam, essa cultura marialva do não virar a cara, e é ela que responde "vai tu!, tem calma e espera como os outros". Não será o tom, é mais a minha cor que o ofende, este não é poeta vagabundo di-lo o comprido "ó branco filho da puta, eu mato-te já, já viram este branco de merda, filho da puta, eu mato este branco!". Caramba, não tenho mesmo idade e paciência para isto, "ó pá, se tens uma arma dispara, senão vai à merda e cala-te" a ver se o homem se cala, mas ele quer mesmo é matar-me à pancada. É tudo uma breve bruma na noite, logo interrompida por um dos apinhados, as mãos nos meus ombros, com um "senhor adido", confunde-me ele de algures, "vamos lá para dentro que isto já está muito quente", enquanto me leva ao balcão.
Súbito está o nosso grupo festivo reordenado, nos apertos procuramos mais um copo, são anos a mais de noites para nos irritarmos com estes episódios. Mas eis que regressa o rapado, continua a querer matar-me, sempre lhe vou dizendo que lá fora será melhor, mas ele vai e vem com o refluxo da maré dançante. Entreolhamo-nos, os que ainda se olham, sinto-me velho e só, é quando me falta a paciência que o noto mais, e retiramo-nos calmamente, o orgulho de uma saída airosa couraçado com o chavão "estes gajos não valem nada".
É já dia no Índico, eclipsada a véspera do eclipse, sozinho ao volante vou matutando. O dólar cada vez mais radioso, uma gente cada vez mais sem nada, paradoxo linguístico expressando o assombro da vida deste povo. Serei eu um dia o procurado pelos esfomeados, fartos de o serem? Ou será esse jovem cabeça rapada, celular e bmw, óculo escuro na noite, escondido do mundo daqui que trata como patrão no seu apartheid caseiro, e odiando o mundo de lá, que raro lhe chega ao Maputo, ambos tão maiores do que ele?
E lembro num cocktail, aquele procurador, óbvio rural no modo como comprova o in vino veritas, feliz pois que em casa dele "os criados tratam-me por patrão, o meu pai era criado dos colonos e era assim que os tratava, eu exijo o mesmo".
Apago o cigarro, vou dormir para a Engels, apropriado nome para a zona da burguesia maputense. Mas à porta de casa ainda invectivo o guarda, que com alguém tenho que descarregar tudo isto, pois estou farto desta porcaria espalhada no jardim, é trabalho dele impedir que esses vagabundos da encosta venham revolver e escolher o nosso lixo.Subo, enfim! Decerto fica ele a pensar que estes brancos, tão liberais, nem o lixo deles partilham.Incoerentes?
Maputo, Setembro 2001