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BDbook Day (3)

por jpt, em 16.11.10
[caption id="attachment_15803" align="aligncenter" width="388" caption="Freak Brothers"][/caption]

The Fabulous Furry Freak Brothers

Já noite passo pelo "Mudar a imagem de perfil por BD/Desenho Animado", uma página proposta no facebook. Em menos de um dia 100 000 utentes de Facebook (na esmagadora maioria falantes de português e sediados em Portugal) regressaram a uma personagem que lhes é cara e assumiram-se ela, um bocadinho ela. Absolutamente espantoso.

Quem quiser protestar com estas "superficialidades", com as "ondas", com os comportamentos de grupo, as "maluquices" que proteste (encontrei até uma mulher irada por estarem a desviar a atenção de uma greve - La Pasionaria é com toda a certeza a personagem BD dessa facebookeira). Mas isto é um bocado fascinante. Desvenda (ou lembra) um contexto onírico particular - que não é de geração (do "O Mosquito" e do "Cavaleiro Andante" às coisas japonesas encontro de tudo) -, tão esquecido e desprezado (como será o mercado de banda desenhada em Portugal? Como será o cinema de animação na tv e no cinema? E como é utilizada a metáfora "comic", se é que o é?). Mas acima de tudo mostra que a gente consegue brincar um pouco, interromper. Respirar.

Depois há algo interessante (que hoje em dia será extremamente difícil apanhar, é tudo muito volátil). Entender quais mundos são visíveis. Sou um leigo em banda desenhada e animação (tenho amigos - que estão no facebook - que são especialistas e poderiam fazer um voo mais apurado). Mas ainda assim, ficando-me pelas impressões sobre o mainstream do que vejo (e dediquei, curioso, algum tempo a olhar para isto) não há Marvel, e dos velhos franco-belgas muito desapareceu (a geração "Tintin de Semana" é muito intelectual e ciosa de si para entrar em brincadeiras?). Pratt é rei e Quino imperador. Tintin, um ícone antes, é relativamente secundário. O mundo de Moebius (que era um máximo de geração), de Tardi, de Eisner inexistem, tal como tantos outros [com pena desencontro "Lucien" ou outro qualquer Margerin]. E abaixo não pude evitar a provocação: o grande Alix, que eu adorava em miúdo, é esquecido. Mesmo nestes tempos de activismo (e de prostituição política activista, uma indignidade que até nestas brincadeiras convém lembrar, ao jeito de Delenda est Carthago) ninguém aparece como o Enak (o Alix é uma delícia pós-moderna e pós-colonial avant la lettre, se pusermos um sorriso nos lábios). Pois, e é isto que é mais significante, este é um espaço de apaziguamentos, uma brincadeira lisa. Enorme.

Óptimo. E, vê-se pela monumental adesão, imensamente necessária. A brincadeira. E a lisura.  Talvez até mais esta seja a coisa necessária. Pois coisa hoje rara e preciosa.

Adenda: um texto de João Villalobos (ao qual chego via Paulo Pinto Mascarenhas) sobranceiro sobre a infantilidade disto tudo - pretendendo-se em louvor de Francisco Sá Carneiro (houve hoje um lançamento de livro alusivo em Lisboa). Villalobos entende tanto como a senhora que acima referi, essa que protestava que tudo isto era para esconder a campanha por uma greve (seria a greve geral?) em Portugal. Ou seja, incompreende. Radicalmente. Há quem chame a este tipo de incompreensão o politicocentrismo. Mas não é. Pois não é centrado na política, muito pelo contário. É sim o autocentrismo, o que é muitíssimo diferente. E, acima de tudo, uma monumental arrogância, julgando os outros incapazes de se dividirem, de atentarem em múltiplas situações. No fundo é uma perspectiva antropológica, considerando os outros (sempre um qualquer colectivo, neste caso uma "comunidade portuguesa no facebook") como menos complexos do quem os critica (alguns intelectuais-mediáticos, alguns políticos menos cuidadosos que invectivam a expressão pública, acima de tudo homens da imprensa opinativa desviados da reportagem). Os locutores, claro. É um vácuo. Uma arrogante e oca reclamação de superioridade analítica (que assenta, exactamente, na incompreensão sonora). Não há paciência para isto. Melhor dizendo, já não há paciência para isto. A crise é isto, a reprodução deste palanque - mesmo que o perfil BD escolhido no facebook seja Francisco Sá Carneiro.

jpt

publicado às 21:28


10 comentários

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De jpt a 17.11.2010 às 01:55

Sim CC, o JV não é, nem de perto nem de longe do pior que tecla aí (há, e até estou surpreendido com a dimensão do negrume, gente muito má no bloguismo politico/opinativo português, desvendada até nos últimos meses (último ano) tamanha a desfaçatez que vão mostrando) Neste caso também não vejo como tu, como um "cansaço". Está no texto acima, é um tipo de olhar. E esse tipo de olhar, a superioridade, depois permite o exercício das maiores aldrabices (não estou a dizer que o JV o faça)
Gente que conheço pessoalmente ou bloguisticamente tem feito, apoiado e patrocinado aldrabices nojentas nos últimos tempos, Algumas da política
(outras nem tanto, estou aqui ao correr das teclas a lembrar-me de uma crónica bloguística sobre o ultimo congresso do PSD em que se mostrava, tintin por tintin, porque haviam alguns vultos literários portugueses tanto elogiado a merda de um livro sobre o Moçambique Colonial que o ABM pontapeou aqui para irritação da .... comunidade de amigos da editora académica de Coimbra que havia apostado na Electra Retornada. Passados uns meses (depois de ter visto as maiores patacoadas amiguistas) percebo no road-post do porquê do apoio.)

Sabes, desandar é sempre uma hipótese, porque isso é muito pequeno para a merda de gente que se acotovela [espero sinceramente que o meu amigo autor do road-post e admirador da imbecil racista esquerdalhista leia este pequeno comentário. E perceba que o meu "foda-se" do dia de então foi mesmo para ele]
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De Catarina Campos a 16.11.2010 às 23:04

É...também notei. Nada de Tintin, a revista dos 7 aos 77. Eu compensação tenho a timeline cheia de heidis. Acho que é o gap geracional ou então é muita gaja.
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De jpt a 16.11.2010 às 23:42

Pouco Tintin (aliás o primeiro olhar sobre isso que vi foi o teu, no teu mural descobri isto) sim. Pouco Tintin Hergé, pouco Tintin de semana, a franco-belga muito para trás. Tens muita heidi e isso porque tens muita gente que não lia BD via TV, é um bocado isso. E é, claro, muito senhora (ah, ah, ah, esta minha oposição ideológica ao bloguismo de género) E tens Disney, não tanto assim (significativo em Moçambique, no pouco que vi entrar), também TV

Em quinze minutos de rolar vi 1 blueberry, não vi um tardi, um spirit, sei lá. Isto não vai com crítica. Mas é engraçado a presença forte de imagens, personagens, discursos, metáforas, concepções - e que não aparecem, parece-me à distância, trabalhadadas e retrabalhadas no discurso público (político, mediático, comercial, etc). 100 mil tipos em menos de um dia? Parei de manhá durante um minuto, 280 pessoas tinha aderido ao mural - não é significativo no sentido revolucionário, mas é um aconchego, incrível
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De FF a 17.11.2010 às 00:43

Despertaste-me a curiosidade (obrigado uma vez mais) e fui ler o tal Villalobos, e fiquei contente. Primeiro, porque a intelectualidade que se apresenta no nosso blog é tão radicalmente sadia, ao contrários destes pseudo-intelectuais armados ao pingarelho iluminado. Segundo, porque com tão pretensos responsáveis podemos ser putos, de vez em quando,nem que seja para cuspir-lhes no cinzento fato. Fica-me a tristeza de ter mudado a minha foto do FB, tendo de lá retirado o Corto. Fica-me o contentamento de ter sido pioneiro deste movimento (a destempo, como todo o bom pioneiro).
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De jpt a 17.11.2010 às 01:00

cuidado FF, o humor, mesmo quando auto-corrosivo, no bloguismo (diz o veterano) é torcido alhures. Não tanto por Villalobos que até é um bloguista straight mas, e repito-me, cuidado quando dás porradas nos bloguistas políticos. Não no sentido do "ai, ai" mas no da eficácia

Gostava de elaborar mais agora, e se calhar era aqui, mas entre a festa FB e aqui já meti dezenas de comentários e chega, vou dormir. Mas parece-me que o ponto fundamental radica na legitimidade de impor o tom (não é a agenda - que em Portugal já não existe) é mais o tom do discurso. Apalermado na esquerda, corrompido/prostituído no socialismo/vamosavercomo no novo poder. Este texto acho-o sintomático de uma atitude, eunuca enquanto análise. Mas, e vais ver, não é o pior (o bloguismo socialista é inenarrável e m termos de pura indignidade pessoal).
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De Catarina Campos a 17.11.2010 às 01:38

Já fui ler o João Villalobos. Também leio o Albergue mas não leio os blogs do meu reader por ordem alfabética, vi primeiro aqui a ref. Até gosto bastante dele, aproveitou a coisa para uma lamentação, a bonecada do FB estava a jeito. Mas assim anda o país, não se pode andar de cara alegre, porque o tempo é sisudo. Como se um gajo conseguisse meter trombas 24/24 e não precisasse - ainda mais pela situação do dito país - de se rir e descomprimir com algo inocentemente alegre. Só nos podemos rir do adversário a tropeçar em mais uma frase, qualquer coisa que se aproveite politicamente. Eu pateta alegreta me confesso, que se não for assim e só pensar na coisa a sério, mais vale desistir, fazer malas e desandar daqui para fora, sem olhar para trás.
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De Catarina Campos a 17.11.2010 às 02:36

Infelizmente cada vez mais penso isso, que não vale a pena. Mas insisto, talvez tola, talvez acomodada.
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De TalvezTeEscreva a 17.11.2010 às 03:38

Eu gosto muito do João Villalobos, a quem considero uma pessoa com um excelente carácter, versátil, inteligente e com imenso sentido humor. Já li todas as referências aqui mencionadas e compreendo as leituras de ambas as partes, mas (e este é um grande mas) todos temos dias e quando andamos imersos em questões muito sérias nem sempre estamos dispostos a rir-mo-nos com piadas fáceis e ligeirinhas como esta onda de BD no FB... e também nem todos vivemos na nostalgia [e agora falo por mim, que até aderi à brincadeira e devorei BD toda a vida mas não fui buscar nenhum herói de infância]. :))
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De jpt a 17.11.2010 às 07:19

TTE posso compreender, e acho que a CC já aventou isso, das pessoas estarem mal-dispostas (por razões pessoais ou por preocupações com o país ou com outra qualquer situação colectiva) e dispararem contra um qualquer facto, importante ou não. Mas não é disso que se trata - este é um texto (para além de Villalobos) típico, que denota um entendimento antropológico. Porventura até involuntário, mas radical - a da inferioridade alheia (e não vou repetir o post) É um pensamento supra-generalizado, supra-demonstrado em particular no jornalismo opinativo (e também em algum bloguismo português). Os quais fazem parte, central, deste contexto que está a desabar - convém não esquecer.

No fundo é isto, não se trata de viver na nostalgia. Ninguém vive na nostalgia, ou alienado, porque mete se ri, farta da sua cara e da dos outros, e mete a Heidi ou o Batman no seu mural. E o facto de isso acontecer com uma dimensão espantoso é significante, traduz um conteúdo cultural e uma amplitude de práticas. Não no sentido de um "eles querem dizer isto", claro. Olhar para isto num "estes tipos são parvos" é o típico "jornalismo" (afastado da reportagem, como digo acima, que é o que resto em circuito fechado aos jornais de referência e aos canais de cabo onde abundam os "paineis" de opinadores). Vale muito pouco, TTE. Quando vale algo
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De João Villalobos a 18.11.2010 às 10:45

Obrigado pelas referências. Acho que não me expliquei bem na parte das bonecos do FB e daí não terem compreendido o que pretendia dizer, mas pronto. Entretanto, já mudei a minha foto no perfil para a do Ric Hochet :) Abraços

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