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Crimes Brancos

por jpt, em 04.01.10
(por AL em tempo de chuva) – Hoje vou falar de cremes, mais propriamente, de cremes para a pele. Durante a minha recente viagem pela Índia precisei de comprar creme hidratante para a cara. Desconsegui! Desconsegui de encontrar um simples creme hidratante para a cara, que não contivesse agentes branqueadores.  Passei a usar um óleo que levava e fique a pensar que fenómeno é este, o dos cremes branqueadores? De onde vem? Serão heranças do colonialismo? Alguém sabe? Pergunto-me de onde virá esta associação perversa entre o tom de pele com o êxito na vida...A grande maioria dos cremes para as mulheres africanas contêm agentes branqueadores e conhecem-se  histórias terríveis dos abusos de tais cremes. Quando estive em Timor Leste verifiquei exactamente o mesmo – quase todos os cremes continham agentes branqueadores. E por aí fora por toda a Ásia, incluindo, pelo que vejo, a Índia. Acresço ainda que também no dito Mundo Ocidental as mulheres de pele mais escura , ou de herança étnica como soe dizer-se em politicamente correcto, procuram e usam afincadamente estes produtos. Experimentem fazer um google com “skin whitening” (ou skin lightening, ou skin bleaching - nomes alternativos) e vão ver!Será que ninguém vê que a mulher branca passa literalmente horas e horas a torrar ao sol, arriscando um cancro de pele, somente para ter nem que seja uma pequena fracção do tom de caramelo que a maioria destas mulheres já tem naturalmente? “Ah, mas vocês só são escuras quando querem; quando querem podem ser brancas e não ter esse bronzeado e nós não!”, dizia-me uma amiga timorense com quem tive esta conversa, depois de ela me confessar que não ia à praia para não ficar mais escura, pois queria arranjar um namorado.A entrada para skin whitening na Wikipedia relaciona o uso destes cremes com questões de identidade, auto-imagem, supremacia racial e mentalidade colonial. Não disputo tal asserção, mas depois de saber que o mercado dos cremes branqueadores representa qualquer coisa como 13 biliões de euros a nível mundial, resolvi fazer uma busca no youtube. E Bingo!Existem milhares e milhares de anúncios que não só propagam como cimentam a percepção que o êxito na vida depende do tom de pele. Aliás, explicitam muito bem esta associação, fazendo histórias de relação directa. A publicidade destes produtos é de um racismo totalmente inaceitável. Mas aparentemente o mercado continua a crescer e está a alargar-se aos chamados “produtos naturais”, com direito a insurgirem-se contra os branqueadores químicos (imaginem!) e aos comprimidosskin whitening pills. Nem mais!Numa época em que tanto de se fala de capitalismo responsável, tolerância e aceitação, parece-me que está neste tema uma fonte inesgotável de acção para grupos de pressão e quejandos. Com tanta sociedade civil envolvida em tanta questão social, parece não existir ainda um único grupo que sistematicamente combata esta percepção, ou se insurja contra este tipo de mensagens com que milhões de jovens são bombardeados diariamente. Sim, porque os rapazes também não estão imunes, existindo cremes também especificamente para eles. O que nos daria mangas para mais um post aqui na maschamba sobre a sociedade civil e o que lhe subjaz, mas isso não é para agora. Para agora deixo aqui dois exemplo desses anúncios, um para meninos e um para meninas, para venda de mais um crime branco. Perdão, crEme, crEme!

publicado às 16:37


6 comentários

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De fernanda Angius a 04.01.2010 às 18:07

Correndo o risco de ver o meu comentário ACUSADO DE «JÁ TER DITO O MESMO», quando nunca tinha tocado no assunto,isto é de ser objecto de censura por razões que desconheço, pergunto se posso denunciar um outro racismo disfarçado de colonialismo paternalista na forma pouco ética com que se misturam elementos comercialistas quew mais não fazem do que auscultar os interesses do público comprador e terem à disposição de todos o que serve os seus interesses e procura no mercado. Se é verdade que o tom de pele se procura branquear também é verdade que as brancas o procuram escurecer e há cremes que afirmam a sua eficácia tanto para uns como para outros. Mas se formos objectivos e honestos sabemos que a bela cor brozeada das raparigas das ilhas do Norte de Moçambique se deve à máscara de mshiro que até eu já usei quando partilhei o meu tempo com essas mulheres. Teriam sido os colonizadores a introduzir a prática do mshiro em Pemba?...
Lamento que tantas vezes se critiquem coisas fora do contexto a que pertecem ...
Mas como começo a duvidar do critério com que são aceites estes meus comentários,(talvez por assinar o meu nome sem ser por ambíguas iniciais... irei abster-me de comentar outros belos e úteis trechos que a maschamba nos traz.
Fernanda Angius que nunca tinha falado deste assunto
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De AL a 04.01.2010 às 18:19

Oh Fernanda! Que eu saiba aqui nao se censura nada! Ja mandamos gente a m...a, ja mandamos calar gente, mas censurar, que eu saiba nao!
Que nos brancas procuramos escurecer a pele nao e' segredo para ninguem, acho eu. Basta olhar para as praias e parques num dia de verao. E, como muito bem diz, basta ver os anuncios de auto-bronzeadores. Mas esses anuncios nao associam os nossos exitos ou fracassos ao facto de termos a pele escurecida, como fazem os anuncios que postei - associam o branqueamento da pele com sucesso na vida. Por isso os considero racistas, embora possa haver quem discorde. Eu confesso que a mim tais anuncios deixam-me desconfortavel e embaracada, quase que envergonhada.
Quanto a mascara de mshiro, acho que todas nos que ja andamos por Africa a usamos, mais que nao fosse por curiosidade. Nao sei quem a tera para la levado mas tambem nao tenho a certeza se a podemos classificar de racista. Pelo que me foi dado experimentar, a mascara tinha um efeito refrescante muito bom e talvez tenha sido essa a motivacao das mulheres ao po-la - refrescarem o rosto do sol escaldante e proteger a pele de escaldoes...
Quanto aos seus comentario sao bem vindos, tal como os dos outros leitores maschambianos, portanto nao se acanhe e comente! :)
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De jpt a 05.01.2010 às 00:51

1. Fernanda Angius consulte por favor o "estatuto editorial" do ma-schamba. Estão lá colocadas as regras incontornáveis deste blog. São muito poucas e uma delas é acolher comentários - e muito os prezamos (pessoalmente lamento que a dimensão "comentadora" do bloguismos esteja em decadència face ao que já foi em anos passados, porventura devido à explosão das redes sociais).

Em seis anos de blog só foi censurado (na altura era apenas eu o bloguista) um leitor-comentador, pois estava num processo de constantes comentários (semi-)insultuosos, até que me fartei disso e dele. Sáo cortados, aqui e ali, comentários que nada têm a ver com o assunto escrito e que apelam a visitas a outros blogs. De resto não há nenhuma censura no ma-schamba. Confesso que não percebo bem os contornos do seu comentário mas estou certo que haverá aqui um mal-entendido. Se entender por bem esclarecer-nos poderá fazer o favor de nos informar, aqui ou por e-mail?
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De jpt a 05.01.2010 às 00:56

Quanto aos cremes branqueadores industriais, e aos valores que produzem e nos quais buscam explosão mercantil - as coisas que tu me ensinas, AL, nunca tinha lido nada sobre isto - parece-me óbvio que assentam na percepção da supremacia da pele clara (a qual não está desligada da realidade em vários contextos, será conveniente lembrar, isto nao é apenas o domínio de representações sociais).

O msiro parece-me algo diferente. É um creme cosmético, pré-industrial (e não me parece ter sido importado nesta zona leste de áfrica, AL). EStá com toda a certeza ligado a concepções estéticas de beleza e higiene feminina, mas nao reproduz pura e simplesmente valores ancorados nas categorias "raciais" e sua putativa hierarquia. (eu diria ainda que o apreço que os europeus ou seus descendentes tèm no rosto com msiro tem muito a ver com isso, com o jogo de inversões de categorias, um brinquedo conceptual exótico, mas isso está alhures às concepções émicas sobre o assunto). Mas estou a especular sobre os valores locais a ele associados, são meras induções assentes em algumas conversas.
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De ABM a 05.01.2010 às 02:58

Sra Baronesa,

Mas então, os tais cremes...funcionam ou não?
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De fernanda Angius a 07.01.2010 às 14:23

Caro jpt,
O meu comentário baseou-se no facto, repetido duas vezes, de me terem sido recusados dois ou três comentários sob pretexto de repetição do assunto. Ora eu ainda consigo saber o que e quando o digo. Até posso usar os mesmos verbos e adjectivos para comentar coisas diferentes, mas não costumo repetir-me. Acho que já fica esclarecido o mal entendido. Quanto ao resto dou-lhe, uma vez mais os parabéns pelo Blog que criou e ajuda tanto moçasmbicano na diáspora (com ou sem naconalismo resolvido) a acompanhar o país de que gostam ou consideram seu.
Abraço cordial Fernanda Angius

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