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Possuído pelo demo, ou outra qualquer instância, o António Cabrita não hesita no botar em papel. Ou assim me parece. Eu a chapinhar, à beira da piscina, roendo o enésimo entrecosto, e ele a aparecer com mais algo, daquilo que lhe vem da mente. E agora é um "Para que servem os Elevadores? e outras indagações literárias" (algumas dedicadas à literatura moçambicana, para des-gosto de alguns "jornalistas culturais" nacionalistas mui ciosos do seu terreno), agrupamento que me consta estar prestes a publicar na Alcance Editores. São quinze textos encimados por um que se quer prólogo, dito "A sós com os meus botões". E que abaixo transcrevo, aperitivo (texto longo como se long drink) para quando o livro sair ... Então aqui fica o monólogo do AC.

 

A SÓS COM OS MEUS BOTÕES

 

«Examino detidamente o meu projecto; é irrealizável!», Brecht.

 

Um mau filme, uma má comédia, uma má exposição de quadros, despertam sempre a atenção da imprensa, um livro quase nunca.

 

Meu deus, por que não me fizeste ortopedista?

 

Quem, ao abotoar-se, se engana na primeira casa, não chega com os botões à orla da roupa: quem o previne é Goethe, e a asserção serve para a vida e a literatura. Automatiza-se uma atenção periférica neste gesto mínimo e quase impessoal. Mas quem não a praticar inverte a ordem dos botões e dará de imediato a impressão de um desleixado desempenho – e então de nada lhe servirá praguejar contra a distracção, na realidade não estava treinado para abotoar à primeira, en passant, os botões.

 

Se uma coisa tão simples exige uma habilitação, imagine-se a literatura.

 

Por isso, para continuarmos com o poeta alemão, também nós cremos que se os amadores da literatura soubessem de antemão que atravessavam um arame de equilibrista sem rede por baixo muitos deles retirariam os fracos argumentos com que se fazem ao caminho. O que lhes falta é compreender a dimensão do perigo, que ser funâmbulo dá muito trabalho e rende pouco.

 

Ademais, reparemos no que ensina sobre esta arte um dos fundadores da cibernética, W. Ross Ashby: pode o funâmbulo manter-se o equilíbrio se faz sem parar movimentos irregulares com o seu varão. Se alguém quiser aperfeiçoar o estilo do equilibrista impedindo estas flutuações desordenadas e exigindo que o varão se mantenha fixo, o funâmbulo perderia de imediato o equilíbrio e cairia.

 

Sem desequilíbrio não há equilíbrio: isto não se ensina, tem que se experimentar. O que leva tempo e não admite a camuflagem, o aparato da auto-promoção, é preciso estar absolutamente a sós com os nossos botões.

 

Primeiro exercício: abotoar os botões da camisa enquanto se atravessa o arame.

 

Abro o livro de Gustav Jung, Commentaire sur le Mystère de la Fleur d’Or, convencido de que vou finalmente levá-lo de vencida noite fora e encontro-o sublinhado, anotado, até mais de meio. Não me recordo de uma frase do livro, do menor indício de o ter manuseado nem das gravuras, inúmeras, que ilustram o texto, rigorosamente de nada, embora a letra seja a minha e o tipo de marcações idem. Illumina-se-me então a distinção que Jules Lagneau faz entre dois momentos diferentes no acto de conhecer: a verdade apercebida e a verdade reconhecida. Só esta última engendra a memória.

 

O que é espantoso na literatura é sua capacidade para manter as suas fronteiras flutuantes. Esta evasão permanente ao circunscrito premedita simétricos esforços conceptuais para a delimitar, com o cortejo de equívocos concomitantes. Mesmo em gente que tantos contributos deu para o entendimento da expressão literária.

 

Por exemplo, que, 80 anos depois do livro de Mikhail Bakthin sobre Dostoievski ter iluminado os novos parâmetros polifónicos do romance – para o exegeta, o traço dialógico é parte palpável e constitutiva da linguagem, sendo todo o signo inescapavelmente duplo, na medida em que exprime simultaneamente dois sujeitos e duas visões do mundo –, este continue a ser maioritariamente regido pela pauta narrativa do século XIX, é patético. Oitenta por cento dos romances actuais são metástases da novela oitocentista e milhões de leitores, muitos deles formados em cursos de literatura, estão-lhe apegados como a galinha de Kirshner ao seu círculo de giz (1). Neste aspecto, é lastimável que o legado de Bakthin não tenha sido divulgado mais cedo e saído do foro universitário, o que nos teria poupado a leitura ingénua, estereotipada, que o mercado impõe aos regimes narrativos – e mesmo quando não há mercado, como em Moçambique, tal não nos alivia da canga, pois que oferecem as livrarias de Maputo para além de best-sellers internacionais?

 

Por outro lado, pesa que Bakthin não tenha encontrado Pessoa e não se tenham conhecido, apesar de contemporâneos. O enriquecedor arsenal teórico de Bakthin teria certamente sido nutrido pelo dispositivo dos heterónimos e, sobretudo, o russo perceberia então que grande parte da poesia que interessa no século XX não tem o «carácter monológico» que ele lhe atribui.

 

É indubitável: a homogeneização a que tende o mercado faz realçar os paradoxos duma cultura devotada ao narcisismo.

 

Neste estado de coisas, di-lo Michel Freitag, um sociólogo, sucedeu ao indivíduo inner-direct (com periscópio interior) o indivíduo other directed (o que navega com radar). O que gera um novo tipo de tensão e segrega, a prazo, uma incomodidade latente. Repare-se: basta uma breve perturbação posicional no radarpara essa desconectação momentânea exumar uma impensada e temerosa interioridade, que é o que se produz quando um contexto se transforma em conteúdo e um frisson nos leva à dúvida: estarei na onda?

 

Quanto mais narciso mais simétrica ou secretamente paranóico, assustadiço. Passar de um medo não assumido à fobia ou ao niilismo é apenas uma questão de grau, mormente se tivermos em conta que o mercado habitou os seus consumidores a diluir quaisquer manifestações inesperadas em relação àquilo que a sua agenda delibera fornecer.

 

Paralelamente, o mercado empurra-nos para a situação que Keats mencionava numa carta para o seu irmão, e a que ele chamava a “capacidade negativa”: «I mean Negative Capability, that is when a man is capable of being an uncertainties, mysteries, doubts, without any irritable reaching after fact and reason».

 

Hoje, a maior parte das pessoas/dos leitores manifesta uma enorme capacidade para, em nome de um controle travestido em indolência ou indecisão, pôr de lado aquilo que simplesmente não quer ver, ouvir, ou pensar.

 

Experimentar territórios não conhecidos é que nunca. Apesar dos mapas rebentarem pelas costuras, da sensação claustrofóbica, da veemência com que - desde o Fédon, de Sócrates – os mais avisados advertem quanto à ambiguidade das transparências, do plano óptico à comunicação verbal, que enxameia sombras onde elas se querem escondidas, a maior parte das pessoas – saturadas de “informação” -, deixou de conseguir distinguir o trigo do joio, e à partida, não quer ver, ouvir ou pensar.

 

Escolher tornou-se um fardo, algo francamente inapetecível.

 

Proliferam os que escrevem na mira de afogar o peixe. Começam a rarear os que levam o sangue à guelra do peixe.

 

Se alguém debita: “Adalberto viu Rita pela primeira vez na esplanada” e continua nessa toada, sei de imediato que estou diante de um burocrata do aparo com hábitos de voyeurismo. Porque nada está implicado naquela frase, nem o narrador, nem as personagens entre si; nada se desencadeia. Eis-nos em arabescos sobre a congelada pista dum mundo reificado.

 

Se, ao invés, o relato se inicia desta forma: ”Os seios dela olharam argutamente para ele”, o escritor cola-nos diante de uma relação, de algo que se pôs em movimento e envolve ambas as personagens, sem a intermediação distanciada do narrador. E a frase imprime, além disso, uma aceleração narrativa: a primeira hipótese exige mais dez linhas antes de se chegar ao ponto (o telos), nesta hipótese parte-se do ponto.

 

Não querer entender isto equivale à pretensão de ignorar três séculos de conquistas processuais no que à expressão escrita diz respeito. É muita arrogância para tão pouco sumo.

 

Mas que fazer se o leitor comum se satisfaz com o pequeno suborno da preguiça em detrimento do jogo lúdico que lhe exige activar a inteligência no acto da leitura? E que dizer se à primeira descrição se associa um registo «realista», tão prenhe da ilusão da objectividade (um mito positivista) que é uso manter-se em épocas de conformismo?

 

Contudo, ao inverso do que parece a frase acaba por nada comunicar e a sua famigerada mensagem é tão vaga como a abstenção do narrador, que aí não mete prego ou estopa. Encontraram-se na esplanada, e so what? Que se passa em seguida, quais as motivações das personagens, que as vai unir ou separar, etc? Foi tudo adiado, a mensagem patina no vazio, ou antes, processa uma procastinação.

 

Pelo contrário, a segunda hipótese labora um acto de economia narrativa: as motivações das personagens imbricam-se na forma da frase, tornam necessária essa expressão e não outra, e inclusive, de forma implícita, a frase até nos fala da temporalidade da acção, pois se fosse Inverno os escultóricos peitos da rapariga estariam tapados por sobretudos e cachecóis e não teriam o efeito devastador que aí se adivinham, provocando mudanças na vida das personagens. Adoptando uma sinédoque, tomando a parte (os seios) pelo todo (a Gisela, para lhe dar um nome), numa frase menos vulgar, comunicamos afinal muitíssimo mais, em intensidade, e de chofre.

 

Como se vê, que me desculpem os desatentos, não estávamos a falar de seios – ainda que seja exaltante a sugestão de Alexandre O'Neill de que pela manhã nos deveriam servir seios em vez de pãezinhos quentes – mas de procedimentos narrativos.

 

Já uma dúzia de vezes me apontaram hibiscos e uma dúzia de vezes os esqueci. E só me volta a palavra, se os vejo a atapetar um muro, e exclamo, oh, hibiscos, não me posso esquecer!

 

Entretanto, há cinco anos que pergunto a todos os meus conhecidos como se chama o pássaro – que ouvi em todas as casas que até agora ocupei, três, o que dá a medida da sua penetração em Maputo -  cujo canto nocturno lembra um bater de canas e o arbusto alto como uma árvore, presente em tantas vivendas, que se polvilha de elegantes flores amarelas tão aparentadas a tubas, e invariavelmente recebo de volta o mais invariável silêncio. Ninguém sabe. Do arbusto já alguém me mencionou que era de origem japonesa. Quanto ao nome é que tem sido debalde a minha insistência.

 

Terá isto importância, o facto de centenas de pessoas da classe média alta não saberem nomear as coisas, a flora, os seres vivos que estabelecem a relação do sujeito com o meio ambiente em que vive? Parece-me grave quando é sintomático de um modo deficitário de relacionamento com o espaço que nos rodeia e torna abstracta a dimensão do existente. Como é que nos sensibilizamos com algo de que não sabemos o nome?

 

Imaginemos que não tínhamos a palavra «paixão» e não sabíamos nem definir o seu tipo de entusiasmo nem precisar o seu endereço. Confundiríamos então a paixão com todo o tipo de entusiasmo e o fã do futebol daria a mesma importância ao élan que sentia momentaneamente pelo jogo à inclinação sentida por uma rapariga destinada a ser o amor de sua vida, trocando assim as prioridades e as posições relativas de cada uma dessas afecções. A intensidade de um breve jogo (o 5 a 0 do Bercelona-Real Madrid ) podia sobrepor-se à intensidade de longa duração de um sentimento pois não dispúnhamos da palavra-conceito que fizesse a destrinça. Do mesmo modo, uma deficiente relação com a linguagem não nos permitirá compreender que moral e ética são coisas diferentes, ainda que pareçam idênticas, e inteirarmo-nos das subtilezas em que o universo dos homens e da linguagem nos enreda.

 

Outro exemplo das subtilezas em que a linguagem baralha o pensamento preguiçoso, a diferença entre código e axioma. À primeira vista parecem sinónimos, mas o axioma é aquilo que se faz e aquilo que se desfaz: um dia leva-se as mulheres a saírem de casa para se emanciparem, uns dias depois desencorajam-se as mulheres de trabalhar. O axioma pode ser modificado. É o que fez a força do capitalismo. O que fez a desgraça do socialismo é que, pelo contrário, se regia pelos códigos, o que é uma conduta entronizada em lei e que depois se pensa ser natural quando é convencionada. O código resvala facilmente para o dogma. Esta distinção, importantíssima para perceber a capacidade de regeneração dum sistema e a falência de outro foi lançada aos olhos dos marxistas por Deleuze e Guattari, mas estes continuaram insensíveis à pequena nuance que faz toda a diferença e caíram. Enchiam a boca com infra-estruturas e supra-estruturas mas não eram sensíveis à linguagem e aos novos problemas que esta a todo o momento faz entrever.

 

Mas não se esgota aqui a importância de alargar o léxico e de aprender palavras novas. O que se passa é que nós aprendemos as palavras em cardume. Os cardumes também se verificam no mundo das Palavras.

 

Os linguistas chamam a isso uma família semântica, mas é um nome tão feio que é melhor ficar pela palavra cardume; um cardume onde há um peixe principal (o significado-mãe), que é vermelho, e onde os outros peixes (os seus filhotes) têm gradações do vermelho ao amarelo (conforme a confiança que pomos no seu significado).

 

A palavra Amor, por exemplo, tem muitos filhotes: carinho, paixão, afecto, desejo, felicidade, desilusão, união, casamento, adultério, filiação, filho, pai, etc.

 

O valor que a gente dá à palavra Amor depende da nossa experiência e por isso a mesma palavra é tão diferente para cada um de nós.

 

Uma rapariga muito apaixonada por um rapaz que a engana e tem outra acha que o Amor tem o sabor do vinagre.

 

O menino que se sente acarinhado e acompanhado pela família e é correspondido pela sua primeira namorada acha que a palavra Amor é um espelho muito limpo, que reflecte as cores exactas de tudo, enquanto para a rapariga desiludida a mesma palavra é um espelho partido, com tosse e sujo de pó.

 

Vemos aqui como aquilo que sentimos, as nossas emoções, podem dar diferentes significados às palavras. E também percebemos como as Palavras-Mãe, como Amor, funcionam como telescópios sobre as suas Palavras-Filhotes. Ampliando ou diminuindo as coisas que sentimos sobre elas.

 

Mas o que vale para o Amor vale também para algumas palavras que aprendemos a considerar como coisas adquiridas e que hoje vale a pena questionar: o binómio Esquerda/Direita na política ou a palavra Tradição. Vale a pena batermos no oco destas palavras, a ver o que têm lá dentro.

«O Outono oxidava a cidade e os seus parques»: um verso de Angel Gonzalez. Tão simples, tão esplêndido e verdadeiro, tão isento dos brilhos que põem em contra-luz metade dos poemas actuais. A ciência esteve na escolha do verbo.

 

A morte do capitão Cook, no Hawai, em 14 de Fevereiro de 1779, dá-me que pensar. Para os hawaianos a divindade estava invariavelmente ligada à figura do estrangeiro e ao espaço exterior. O capitão Cook, cuja chegada à ilha coincidia com os ritos anuais do deus local Lono, foi tomado por um avatar deste. E assim foi tratado durante vários dias. Que desfrute! Mas como no Hawai uma divindade tal não se torna a não ser pelo sacrifício, Cook foi morto para consagrar o elo dos crentes com a divindade. Claro que Cook não estava informado de nada disto. E na realidade não havia modo de se safar da profecia – só denegando-se como Deus. O que seria o mesmo que ofendê-los, assinando a sua sentença de morte. Em qualquer das circunstância estava frito: era o único que no palco não sabia qual era o seu papel.

 

Mas isto faz-nos compreender também, conclui o antropólogo que me conta a história, como o outro é sempre neutralizado pela mediação da cultura, pelo que queremos ver nele.

 

Sensação incómoda que já sentia na pele, após cinco anos de África. Eles só querem encontrar em mim o que se lhes aplica. Nunca me encontro a nu, em relação, a nascer para o acto, mas enquadrado no esquema que montaram para me assimilar. Até ao momento em que decidirem sacrificar-me?

 

Regularmente peguntam-me porque não se assiste a uma maior desenvoltura na expressão literária moçambicana, entregue à teimosia quixotesca e individual de uma dezena de criadores. Um mercado onde o livro não circula estrangula à partida o diálogo necessário ao repto. Trezentos livros, em média, vendidos por edição e a ausência de crítica literária não auspiciam melhores dias. Mas quero adiantar duas razões para que o marasmo se auto-reproduza: 65% de analfabetização (escuso de comentar a iliteracia) e aquilo que Auden diagnosticava num artigo e que passo a citar: «A inteligência só funciona quando o animal não tem medo. Uma atmosfera de amor e confiança é essencial».

 

Auden foi um dos expoentes da poesia mundial no século XX, e um modelo de equilíbrio e equidade entre as vanguardas e a tradição. Um homem que sabia do que falava, dotado de uma gestão da inteligência que nunca perdia o contacto com o sensível e o vivido, e por isso mais capaz de farejar prontamente em qualquer tecido social o que poderia fragilizar a disseminação da inteligência. Auden respondeu eficazmente à pergunta que repetidamente me fazem.

 

O coração é o que em nós não suporta a fivela do mundo.

 

Nem o sol nem a noite se podem olhar fixamente. Sequer as costas se escrutinam fixamente sem risco de ruptura muscular. É preciso um ângulo de viés, um velamento, o reflexo. Que se drapeje a luz e a sombra se satisfaça numa fenda.

 

Urge por conseguinte achar na palavra o local da incisão, a caligrafia do lume, antes que o vento encontre a sombra que por ele espera em Samarcanda.

 

Uma vez, quando era editor, houve um amigo que me propôs um romance que se propunha retratar gota a gota o deslizamento de uma consciência para a loucura. O meu amigo era psiquiatra e queria descrever essa passagem de forma gradual, graficamente, dir-se-ia, tal como a mudança de olhar do protagonista sobre o mundo que o rodeava. No seu afã descritivo, era um romance aborrecidíssimo, que poderia ter um certo interesse clínico mas resultava mal como coisa literária. Para lhe explicar porque rejeitava o livro fi-lo ler um conto de Cortázar onde um funcionário público (a mesma situação profissional da personagem do livro do meu amigo), agoniado pela mesma vida absolutamente «boring» e alienada (um enquadramento equivalente), à terceira linha, ao espelho onde todos os dias se escanhoa para se pôr apresentável para o serviço, vomita o seu primeiro coelho. Daí para a frente o homem vomita várias gerações de coelhos.

 

O meu amigo apresentava paulatinamente, como um morrinha, o problema, num inventário de razões e de gestos que faziam da narrativa um torresmo, Cortázar coloca-nos velozmente diante do problema e atalha, sem uma explicação, num dilúvio que decapita todas as causalidades. Num navegávamos numa água inquinada, numa neblina sem fim à vista, com outro, o inesperado da situação metia-nos (ao leitor) dentro da barca sacudida por um mar revolto. Não há dúvidas sobre qual das duas narrativas, como leitores, preferiríamos.

 

Corolariamente, não são os “efeitos de realidade” o que mais nos prende numa narrativa mas o que perturba a realidade e, rapidamente, lhe introduz um novo ponto de vista. E nunca devíamos esquecer (maleita que não despega) que o nosso inconsciente não distingue entre os factos e o que imaginamos sobre eles; o que devia há muito estar interiorizado contra as falácias de qualquer entorpecimento naturalista.

 

Jules Laforgue: «Método, método, que queres de mim? Bem sabes que comi do fruto do inconsciente.»

 

Entretanto, para além das qualidades rítmicas e prosódicas, ou da originalidade da trama,  adiantemos uma outra janela para a aferição do quid literário: tal como acontece na poesia, um bom romance, um bom conto, etc., é aquele em que por voltas que demos à frase se constata que não há uma palavra que aí consigamos substituir com vantagem; não há um sinónimo que aí caiba. O que Northrop Fry corrobora: «Em todas as estruturas verbais literárias, a orientação definitiva da significação é interna».

 

Peguemos em Setentrião de João Paulo Borges Coelho, por exemplo, e tente-se substituir uma palavra por sinónimo, uma expressão por outra: o parágrafo inteiro desfazer-se-ia, as palavras aí, mais do que servirem a função, estão engatadas. A língua parece galvanizada pela corrente de um inexaurível fluido que a resgata da opacidade. E não há nada a fazer, onde quer que se coloque o escopro não se acha uma brecha, uma desafinação, superfície oca: a pancada não pode senão ressaltar. Nestes livros, todas as palavras, como acontece com as notas musicais na Sinfonia Eroica, de Beethoven (di-lo Leonardo Bernstein), são as únicas e necessárias ao desenvolvimento daquela pauta. Uma palavra diferente e o romance seria outro.

 

Diga-se que o mesmo se verifica em Passos em Volta, de Herberto Hélder, em Nome de Guerra, de Almada Negreiros, em Todo o Nome do Mundo, de José Amaro Dionísio, em Maina Mendes ou Casas Pardas de Maria Velho da Costa, em Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa, em Na Tua Face, de Vergílio Ferreira, em Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, em Ambulância, de Manuel da Silva Ramos, em Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar, entre muitos. Curiosamente, nenhum destes livros é estudado nas escolas, pelo menos em Portugal e Moçambique

 

Ao invés, a minha filha adolescente, que nas aulas tenta sobreviver ao aprendizado de figuras como a prolepse e a prosopopeia e que numa semana estuda a metonímia e noutra se amanha com a personificação, em vez de ser convidada a participar em vivas discussões acerca do que falam as obras (2), vê-se coagida pela pressão do mercado, que as escolas não sacodem, a ler livros de género, programados para o formato juvenil. Em vez de se confrontarem com Melville, Dickens, Mark Twain, Kafka, Paul Auster, os adolescentes são induzidos a ler livros em que infelizmente, por mais engenhosas que sejam as tramas, a linguagem se apresenta desmotivada - i.é, qualquer bom escritor pegaria naquelas “informações” e acharia uma forma mais rápida, eficaz e expressiva de as fazer passar, visto que, como no grosso dos best-sellers, nestas aventuras qualquer palavra se pode substituir por outra.

 

Não sei como pode ela apanhar o gosto pela literatura em livros onde, em nome da pedagogia, as palavras estão desvalorizadas e são moedas gastas, onde já não se vê a efígie.

 

Só vejo um meio de minimizar os estragos: é pegar em alguns contos de Jorge Luís Borges, ou de Conrad, e levá-la a fazer cópias, de modo a que ela sinta o exacto valor de uma palavra na frase; se ela estiver com idade para isso, induzi-la a copiar O Relatório sobre Cegos, do Sabato.

 

Eis um exercício de que não se sai indemne e pelo qual se percebe que a literatura é uma experiência vital e não um mero entretenimento para consumidores de informação; e há a hipótese dos seus efeitos sobrevoarem a alergia para se converterem num amor à literatura.

 

«A poesia é um dos destinos da palavra», regista Bachelard. Por isso é e será imorredoura enquanto houver linguagem. Minimizar a poesia, querer reduzi-la à irrelevância, expõe na palavra a sua sombra em carne viva. Porque só a poesia cura a palavra e lhe dá ventilação. Sem a poesia, a palavra é um quarto carcomido pelo bolor, onde não chega a luz. A palavra tende a fossilizar, a poesia age como o emoliente que restitui a mobilidade às suas articulações.

 

A décima segunda página é o ancoradouro ideal para ceder ao imperativo de citar Walter Benjamin, numa das suas mais famosas proposições: «Todo o grande acto estético e criador repousa sobre um fundo de barbárie». Esta frase tem pelo menos três significados: a) é preciso romper as conveniências gramaticais para se firmar o novo; b) por vezes a violência implanta as suas regras e o esquecimento no sítio das ruínas; c) a maneira mais eficiente de não dizer nada (a barbárie denega a reciprocidade) é a de comer, luxuosamente, pela calada.

 

Eis uma invejável habilidade que às vezes se encontra por estes lados, uma técnica voluptuosa de iludir dificuldades e trabalhos: comendo pela calada. Contudo, a literatura não admite subterfúgios, levezas, frescuras. A literatura é um acto de disciplina e exige um interminável trabalho de espaldar, uma correcção sem descanso e permanente leitura. Daí que seja contra as argúcias e mentiras da “ingenuidade” que este livro se apresenta.

 

É sabido, a ignorância nunca gosta de nada que a obrigue a olhar uma segunda vez para a página. A poetisa russa Marina Tsvietaieva explica o mecanismo: «Não amar uma obra (…) é não a reconhecer: não reconhecer nela o já conhecido. (…) A primeira causa é a falta de preparação para ela. A gente do campo, quando se encontra na cidade, demora muito a apreciar os nossos pratos. Tal como as crianças – recusam os novos sabores. Viram a cabeça espontaneamente. Não vejo nada (neste quadro) e por isso não quero olhá-lo – e para o ver é preciso olhá-lo, para descobrir algo nele – há que olhá-lo bastante tempo. Esperança equívoco do olho habituado a ver à primeira vista…».

 

Ora, na literatura, uma das mais labirinticas metrópoles do mundo, somos invariavelmente leigos, camponeses. Não há modo de escapar a esta condição, cada obra nova interpela-nos, desautoriza-nos, come-nos as papas na barriga, mostra como o nosso paladar não estava preparado. E o nosso primeiro dever consiste em afastar o fantasma renitente que no mais secreto de nós insiste em ordenar não proves esse prato. Afastemos a prudência e entreguemo-nos aos sabores inesperados – eis um desiquilíbrio momentâneo que a prazo nos capacitará para a arte do funâmbulo.

Viver não é preciso, navegar é preciso, ensina-nos a canção.

 

Confesso que nunca gostei de escrever sobre literatura, fi-lo sempre em sacrifício, porque tinha de ser ou a pedido de um amigo. Nem boto palavra do palanque académico, sou simplesmente um leitor voraz (ainda que pouco sistemático) e um escritor que ama as palavras e o seu ofício e, em Moçambique, não partilhar o pouco que sei seria sinal de uma soberba em que me não reconheço.

 

Ficam para um outro volume textos mais alentados sobre Mia Couto, Borges Coelho, Ba Ka Khosa (todos inéditos), e outros narradores, mas havia que abrir uma primeira janela antes que a casa ganhasse bolor. E esta primeira janela incide na praia da poesia.

 

Oitenta por cento do livro respeita a autores moçambicanos, o mais são as minhas prospecções no mar da poesia, mas que mantive no corpo do livro porque contêm informações que julgo úteis ao amador de poesia em Moçambique.

 

Foi assim este livro extraído a-conta-gotas (ao ritmo de artigos, de nótulas do meu diário, ou de prefácios) - espero bem que seja mais rápido a ler.

 

E haja paciência, afinal estamos em terra onde nem sempre é líquida a utilidade de saber para que servem os elevadores.

 

Às quartas e sextas, de manhã, dou consultas de ortopedia – é favor inscreverem-se.

 

jpt

publicado às 18:19


3 comentários

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De VA a 31.01.2011 às 16:36

obrigada. :)
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De Teresa Mascarenhas a 02.02.2011 às 00:33

Confesso que tive de ler/tomar 2 drinks : O 1º "small" , a tomar/ler em circulo(?) , ma tête qui tourne... será k este drink me vai fazer mal? O 2º o tal " long drink " , sim gostei mto / senti /apreciei . O drink / prefácio , era/é de excelente qualidade e portanto nada de ressacas :) Agradeço bastante a possibilidade !
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De cg a 01.02.2011 às 21:42

magnífico! e obrigado também, claro :-)

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