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No Feedly (2)

por jpt, em 26.01.14

 

- "Balada da Emigração: para o meu pai", no Domadora de Camalães

 

- Um excelente texto: "Cinco mitos em torno das praxes", no A Terceira Noite.

 

- Idem: "A abjecção das praxes", de José Pacheco Pereira no "Público".

 

- "O tempura, o mores", de Rui Rocha no Delito de Opinião, é uma verdadeira delícia.

 

- Sobre a trapalhada do AO90 fica "O acordo ortográfico que veio simplificar a escrita", de Luís Aguiar-Conraria no A Destreza das Dúvidas.

publicado às 19:33

Suprassumo?

por jpt, em 21.09.13

O cartaz, dito outdoor no português dos arrivistas iupies de lisboa dos anos 80s que agora estão desempregados e vão para os países que os acolhem na meia-idade, esses que seriam vendilhões se não fossem mera escumalha, colocado na baixa de Maputo, ali ao lado do 33 andares, diz "suprassumo da fruta". A (minha) família interroga-se, que palavra é esta?, escreve-se assim?, na dúvida de quem não é nem dicionário nem prontuário.

 

Chego a casa e constato, não. A palavra escreve-se supra-sumo. Com o Acordo Ortográfico passa a "suprassumo". Ou seja, em Moçambique, onde o Acordo Ortográfico de 1990 não está em vigor, a treta de um sumo químico que se quer apresentar como natural deve escrever-se "Supra-sumo da fruta". Torna-se óbvio, a campanha foi escrita por um publicitário português, imigrado, que nem respeita a língua do país que o acolhe, que se pensa em casa (e até protestará com quem lhe pede vistos de trabalho, de residência ou coisas assim). Estes c....., que tão f..... foram pelo poder português que até tiveram que emigrar, nem conseguem libertar-se do que lhes meteram na cabeça. Continuam servis. Merecem a deriva. E toda a infelicidade que lhes aconteça. Merda de patrícios.

publicado às 19:46

O espetro do Acordo Ortográfico

por jpt, em 04.06.13

 

Isto é um espectógrafo, grosso modo um aparelho que trabalha com a luz. A RTP, estação pública portuguesa, noticia, até ufana com a capacidade nacional, que "Portugal vai participar na construção do maior espetógrafo do mundo". "Espectro" é uma palavra que a que o malvado Acordo Ortográfico atribui dupla grafia, "espectro" e "espetro". Para os portugueses furiosos anti-brasileiros convirá referir que "espectro" é consignada nesse AO90 como "grafia brasileira", o que lhes desmonta um bocado a grafoxenofobia, sempre tonta como costumam ser os arroubos.

 

O que não percebo é a razão de se retirar a consoante sonante (em Portugal a "pronúncia culta", seja lá o que isso seja, sempre diz "espeCtro") de uma palavra. E também não percebo porque a RTP utiliza a versão "muda" (espÊtro em vez de espÉctro, ambas grafolegítimas). Mais papistas do que o Papa. Ou meros servos de um poder político boçal e ridiculamente neo-colonial? Pobre país, com tantos lacaios. Que miserável espectro de gente. Ou espetro de gente. Que a consoante é aqui o menos importante.

publicado às 07:21

 

O Pedro Correia acaba de publicar "Vozes e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico". E coloca aqui o texto que leu no lançamento do livro. A pensar e a falar bem.

publicado às 04:49

 

Pedro Correia é um jornalista português e fervoroso bloguista, animando, entre outros, os muito lidos blogs Delito de Opinião, onde também colaboro, e o És a Nossa Fé!, no qual também já escrevi.

 

Agora publica Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico, editado pela Guerra & Paz O livro já está à venda e será apresentado em Lisboa na próxima terça-feira, dia 21, a partir das 18.30, na Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa). O Pedro Correia é um adversário deste documento atamancado e do seu bafiento substrato político. E o livro é uma sua contribuição para uma desejável iluminação em Portugal.


Fica aqui o aviso para os visitantes que residam em Portugal, para a participação no lançamento, se possível. E para a leitura e divulgação do livro.


Por cá, em Moçambique, onde a questão acordista é verdadeiramente marginal, uma verdadeira intrusão externa, reina a ideia da sua inevitabilidade a prazo. Pois, indepentemente de ninguém subscrever argumentos positivos em relação ao acordado, a ideia que vai brotando nos discursos sobre o assunto é a de que o AO90 terá que ser aceite, para que não fique Moçambique isolado no seio dos países que usam o português. E até, infelizmente, algumas editoras nacionais se apressaram a adoptar o AO90 que não está em vigor, algo verdadeiramente incompreensível. Até sob o ponto de vista económico, dado que os seus livros não são exportados (nem exportáveis ...).

 

Será este livro, acessível e inteligente, uma boa ocasião para se reflectir e discutir sobre o assunto. Por isso fica o meu aviso para os livreiros moçambicanos, que importem este "Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico" da editora Guerra e Paz. Alimentando uma possível discussão sobre esta intrusão intrometida, inútil, atrevida. Uma rasteira lusofonice. Estou certo que haverá leitores. E, até, poderá haver debate público.

 

E, até, comprometo-me, alguma blogo-publicidade.

publicado às 07:29

Acordismo Ortográfico

por jpt, em 13.05.13

Shoprite, Maputo, porta de empurrar para a geleira das bebidas ...

Exemplo de fonética globalizante, aka glocalismos.

publicado às 20:18

Alguém me consegue explicar o que é o "neorealismo" que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Portuguesa, secção "Camões instituto da cooperação e da língua" apresenta em Maputo?

publicado às 21:59

 

Um bom artigo sobre o Acordo Ortográfico, de Vasco Graça Moura, devastando um pobre texto acordista de Margarita Correia. Para ler também António Guerreiro no seu "O AO90 e os seus trolhas", ainda que eu torça o nariz a um dos argumentos, isso do governo (que surge no texto no lugar de "estado") não ter legitimidade de legislar sobre a língua. Acho que sim, que tem (se assim não fosse quem o poderia fazer?). Deve é fazê-lo com ponderação. E sageza - que são coisas que, nitidamente, faltam ao estado português, grande turbo desta tralha.

publicado às 22:48

 

 

Dedicados principalmente aos leitores em Moçambique, mas claro que para todos que não leram o Público desta semana, aqui transcrevo dois artigos sobre o Acordo Ortográfico, escritos pelas catedráticas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Maria Alzira Seixo e Helena Buescu.

 

Ainda é tempo de parar esta tralha. E de exigir que a cidadania seja escutada. Em todos os países onde o português é língua oficial.

 

Maria Alzira Seixo, "O Acordo Obscurantista" (Público, 10.2013)


Quem diria?! Depois dos míseros tempos salazaristas, em que tudo nos faltava menos o saber escrever, e fruindo o regime democrático, que é suposto respeitar o saber e o esclarecimento, afundamo-nos na penúria social, e até das Letras somos despojados. Não é só da Cultura que sofremos privação, é da sua base, dos caracteres que a constituem, meras formas arbitrárias que ganham, com o tempo (a História), peso e organicidade, tornando-se fundamento da manifestação humana.


De facto, o golpe antidemocrático que constituiu a rejeição, pela Assembleia da República, da petição que solicitou em Maio de 2008 a anulação, ou revisão, do Acordo Ortográfico, então assinada por mais de trinta mil cidadãos no espaço de 50 dias (e ultrapassa já os cem mil), encaminha a geração actual para o obscurantismo na leitura, na produção da escrita e na apreensão dos sinais diacríticos que permitem à criança ir elaborando o seu sistema de conhecimento, em que letras e conceitos, conectados em rede de relações, lhe vão estabelecendo a visão do mundo feita do saber comum e da sensibilidade que a cada uma é própria. É nesse saber, travejado pela Língua Materna (que algumas reformas pontuais usam ir acertando na sua gradual corrosão pelo utente, mas nunca em alteração forçada decidida do exterior, por instâncias de determinação política), que são desfechados pelo Acordo Ortográfico ataques ignaros e aleatórios, com medidas que fazem das alterações ortográficas autênticos ataques a aspectos estruturais da Língua, e ao que ela indicia de experiência humana adquirida. Como quem maltrata a pele do corpo, supondo que nela se não danificam os órgãos, e afinal lhe imprime lesões de irreparável marca para o próprio funcionamento orgânico. Esta metáfora biológica não é de bom tom em certas doxas mas, na verdade, também da sua cumplicidade neste processo aqui se trata.


Falo de golpe antidemocrático porque a democracia não se limita à expressão livre de uma votação que, em liberdade, venha a sancionar uma coisa qualquer. A democracia exige uma responsabilidade de factu (daí que, em certas matérias, se não compadeça com a disciplina partidária) e, acima de tudo, exige competência. E, porque se não pode exigir a todos os deputados que sejam competentes em todas as matérias, é para isso que existem pareceres de especialistas, recursos de cidadãos, as Comissões da Assembleia da República. Ora a petição de 2008 fazia-se acompanhar de nove pareceres de especialistas, e a Comissão de Ética da AR pronunciou-se inequivocamente a favor dos peticionários. Voltou então à votação, e… que fizeram os deputados? Votaram pelo que lhes dizia a manifestação do Saber e da Competência? Não. Fizeram deles tábua rasa, rejeitando a petição de modo discricionário e, portanto, antidemocrático e obscurantista. E foi um triste espectáculo ver, como eu vi, os deputados com decência moral a saírem da sala antes da votação, para não terem de votar contra a sua própria ciência, e observar os partidos políticos perfilarem-se, em maioria, contra a expressão do conhecimento. Um negro momento da nossa democracia!


Agora, os responsáveis políticos brasileiros dão exemplo de sensatez e morigeração, adiando a aplicação dessa absurda disposição legal para a estudar como deve ser, ou então aboli-la de vez. Pois até os países ricos têm despesas mais úteis a fazer do que com alterações de livros e demais material édito, quanto mais nós, já falidos. Certos responsáveis pela promulgação ter-se-ão apercebido do logro em que caíram, movidos por interesses no imediato rendosos, ou por almejados sucessos políticos já na altura em dúvida, a iludirem alguns. Defensor do Acordo, o linguista Evanildo Bechara (que o defendia, pasme-se!, dizendo-o eivado de incorrecções, que nunca poderia servir de base a uma disposição legal de modificação ortográfica – conforme salientava no Parecer apresentado, em 2008, à nossa AR – em contradição de termos que surpreende qualquer leigo, e deixa entrever os jogos de interesses no acto implicados), é agora a personalidade que motiva a decisão da Presidente do Brasil. E, se isto acontece, não há mais razão para Portugal continuar vergado ao torcilhão que já está sofrendo a sua Língua Pátria, com uma utilização abusiva nas escolas, em publicações, nos documentos do Estado.


Porque a pior das falências é a que não tem recuperação! A que condena as crianças à aprendizagem de uma macacada ortográfica que vai de par com obras literárias e outras ainda escritas como deve ser, e se submete à vacilação docente dos educadores, que não estão aptos a ensinar a nova ortografia (porque não podem estar, tão “impossível” de aplicar ela é!), e se sujeitam às emendas desencontradas dos correctores ortográficos (uma espécie de fraudulentos “corretores” de bolsas disfarçados), diferentes uns dos outros, num atropelo ganancioso e aflitivo de caos, e que personificam a máquina, na pior das visões que de Orwell poderíamos herdar, a dominar-nos estupidamente a mente e a criação literária.


É tempo, é ainda tempo! Se saber escrever foi, até hoje, caminho para pensar melhor, com o Acordo Ortográfico pôr-se-ia em prática a máxima ideal para Governos opressores ante os cidadãos que governam: quanto mais analfabetos, melhor… Ora isto não se compadece com um passado de Abril, e se alguém sai beneficiado não é, pela certa, o cidadão, nem a cultura, nem a política – pelo menos a de espinha direita! Saúde-se, pois, o baque de consciência de Evanildo Bechara, e a hora feliz em que Dilma Rousseff atalhou: “Alto! e pára o baile” – em vez de “para o baile”, como quer o Acordo, que tira o acento a “pára” assimilando-o a “para”, confundindo movimento com inacção, numa simbólica emblemática dos seus confusos objectivos. Contra esta confusão do entendimento, corrijamos de vez a monstruosidade que nos sai tão cara: em dinheiro que não temos, e no saber que é nosso, e alguns se interessam em destruir.


Maria Alzira Seixo

Professora catedrática de Literaturas Românicas


 

Helena Buescu, "Nem gregos nem troianos: assim-assim" (Público, 8.1.2013)


Há dias, a Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, adiou a obrigatoriedade de implementação do “Acordo” Ortográfico para 2016. Fê-lo com base numa petição que reuniu 20.000 assinaturas. Em Portugal, uma igual petição reuniu mais de 130.000, e não teve qualquer eco. 130.000 assinaturas num país cuja população é incomparavelmente menor do que no Brasil.


Devemos aproveitar para reflectir seriamente sobre o “A”O e os seus efeitos em Portugal. O exemplo vem-nos, aliás, do próprio Brasil. Nesse país, os argumentos aduzidos apontam para críticas de ordem científica ao “A”O. E junta-se a essas críticas o argumento da necessidade de uma “maior simplificação” da ortografia da língua portuguesa. Além de que por exemplo o linguista Evanildo Bechara assegura que o “A”O precisa de ser revisto. Revisto – e nem ainda entrou em vigor! Isto diz bem da consistência científica de um dos maiores atentados feitos à língua portuguesa.


Naturalmente, este adiamento sublinha a bondade das críticas feitas ao “Acordo”, mostrando que nem em Portugal nem no Brasil (nem nos outros países lusófonos, que mostraram grandes reticências, sendo que Angola ainda não o ratificou) ele conseguiu um consenso mínimo em termos científicos.


A grande questão, agora, é saber se realmente há base científica para que algum dia ele venha a existir. Com este ponto suplementar: a partir do momento em que várias declarações, no Brasil, apontam para a necessidade de uma maior “simplificação” da língua portuguesa, o que se impõe perguntar em Portugal é: queremos nós, em Portugal, “simplificar” (seja o que for que isto queira dizer!) a língua? Ou privilegiamos (legitimamente também) a história da língua portuguesa na Europa, guardando por exemplo alguns traços etimológicos da sua origem e evolução ao longo dos séculos?


Simplificando a pergunta: haverá base, em termos de uma política científica do Português, para um acordo que não parece agradar nem a gregos nem a troianos? A resposta talvez seja: “Assim-assim.” Em Portugal, é sob esta fórmula que se costuma esconder a falta de coragem e a aceitação tristonha do império da realidade, quando mais vale não pensar.


Em 2016, eis um cenário muito possível: Angola manterá a ortografia existente anterior ao “Acordo”. Portugal seguirá, se não conseguir inverter o statu quo, o pobre “acordês”. E o Brasil terá entretanto revisto e certamente “melhorado” o “Acordo”, escrevendo numa terceira ortografia. Resumindo: cada qual escreverá de sua maneira, e ter-se-á esfrangalhado a ortografia comum que, até agora, era seguida por todos os países lusófonos, com excepção do Brasil. Ou seja: será um verdadeiro “acordo português”, em que ninguém sabe acordar.


Helena Buescu

Professora catedrática, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.


(artigos encontrados no obrigatório ILC contra o Acordo Ortográfico)

 

jpt

publicado às 01:24

"A Viagem" de Tatiana Pinto

por jpt, em 24.11.12

 

Acabado de publicar, lançado hoje mesmo, este novo livro da colecção "Contos e Histórias de Moçambique", uma série infanto-juvenil que é uma iniciativa da Escola Portuguesa de Moçambique - Centro de Ensino de Língua Portuguesa. É o "A Viagem", uma adaptação de um conto moçambicano (recolhido por Junod, e muito saudavelmente apresentado no final do livro).  As belas ilustrações são um produto colectivo, com base em trabalhos originais do artesão Tomás Muchanga, editados por Luís Cardoso (um resultado muito bem conseguido). O texto é de Tatiana Pinto, no que é já o seu segundo livro (a Tatiana é muito querida nesta família, o que nos incrementa o desvelo com que acompanhamos esta sua via literária). O tema é a afirmação de género (entenda-se, a igualdade de estatutos e direitos), mas abordada com um carinho nada invectivador, uma sedução literária a fruir, uma atitude intelectual a partilhar.

 

Um livro bonito, a usar e a ofertar. Gostámos muito.

 

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Uma nota, completamente lateral ao livro e aos autores, ortográfica que é. E antipática:

 

[eu tinha refeito o texto e retirado esta nota, deixando-a para um texto autónomo sobre a matéria. Acontece que este postal já estava comentado, referindo-a. Assim opto por voltar à "primeira forma"]

 

A EPM-CELP é uma instituição do estado português que nasceu como de "cooperação" no ensino (ainda que de facto seja algo diverso). Como tal faz-me alguma confusão que edite, em Moçambique, e para Moçambique (e, inclusivamente, para distribuição "gratuita nas escolas públicas e centros infantis de poucos recursos" no país), uma obra de escritora e artistas moçambicanos numa grafia que não é a nacional. Não só, nem fundamentalmente, por aquilo que tantos vão dizendo, isso de que a adopção do acordo ortográfico no contexto português assenta numa ilegalidade. Mas porque - e apesar de haver os tristes antecedentes locais, muito tristes acho, tão tristes que nem os adjectivo, da Ndjira (uma sucursal da Leya/Caminho, a olhar para aqui como se fosse Lisboa) e da própria Marimbique (a dizer-me que a olhar o futuro inevitável, e eu a não concordar) -, não me parece muito curial que o estado português (através da sua escola) edite aqui (repito, edite aqui) e dissemine - gratuitamente - a grafia que não está acordada no país. É uma espécie de (pouco) subtil imposição, um fait accompli desrespeitador da soberania (gráfica) local. Entenda-se, uma coisa é ensinar dentro de portas da Escola Portuguesa (onde a adopção é criticável, mas compreensível dada a pressão política), outra é publicar para distribuir fora de portas - sendo que, ainda por cima, nem em Portugal é obrigatória a utilização da "nova" grafia.

 

Ou seja, é uma questão cultural mas também uma questão política.

 

Estou a ser antipático? Poluindo a nota sobre a obra da amiga, cutucando a equipa editorial, gente amiga, resmungando com a EPM, cheia de gente amiga? Talvez. Mas é a minha forma de ser "ativista" (sic) face a uma "colecção" (sic). Para bons entendedores duas citações chegarão. Não é uma gralha (à escolha, qual delas o poderá ser). É apenas o confusionismo. O confusionismo gráfico que reina entre os colaboracionistas com o obscurantismo. Lusófono. Perdão, luso-tropical. Ele próprio confusionista. Ontologicamente confusionista.

 

jpt

publicado às 01:12

 

Um excelente texto de Vasco Graça Moura. Sobre o acordo ortográfico e, a esse propósito, sobre o desnorte da sociedade portuguesa. Acertado. E doloroso. Partilho-o aqui, muito em particular para os visitantes moçambicanos. Porventura menos atentos a esta questão, que ainda não os assombra, pois vivendo em "país livre do acordo ortográfico". E para que não venham a cair sob o mesmo estrupício. E, já agora, para que possam fruir dos elogios que VGM distribui pela África Austral:

 

O Acordo, outra vez


As questões de fundo relativas à aplicação do Acordo Ortográfico continuam por resolver. Não entrou em vigor, mas há sectores, tanto oficiais como privados, em que vigora sem rodeios especiais o princípio do faz-de-conta. Faz-se de conta que o Acordo já se aplica de pleno e estropia-se alegremente a nossa língua. Jornais e editoras continuam a fazê-lo da maneira mais bárbara. Há já alguns livros importantes que saem cheios dos correspondentes aleijões. E eles só não vieram ainda afectar uma série de clássicos da língua pela razão singela de que cada vez menos se cura de editá-los e pô-los ao alcance de toda a gente.


Ninguém parece ter sequer acordado para a necessidade de uma revisão. As duas grafias coexistem, porque, felizmente, um quotidiano importante e uma grande parte dos colaboradores da imprensa lusitana se mantêm fiéis à grafia anterior e esta é, por enquanto, a única que, legalmente, pode e deve ser aplicada. Toda a gente sabe que é assim e não vale a pena repeti-lo.


É possível que o lobby das editoras, depois de se ter precipitado na adopção do Acordo em livros escolares, manuais, dicionários e agora noutras publicações, procure impor essa coisa sem nome em todos os sectores da vida nacional, em especial no escolar. Também é possível que o poder não saiba lá muito bem o que fazer, seguindo e alimentando, neste aspecto, a desorientação das escolas.


Os partidos políticos com assento parlamentar têm vindo a pactuar, sem excepção, com esse estado de coisas. Ninguém lucra absolutamente nada com ele. Mas tudo isso redundaria apenas num simples exercício de humor de gosto discutível, se não se traduzisse numa violência quotidiana contra a língua. E o certo é que, se as coisas continuarem assim, dentro de uma geração ninguém conseguirá pronunciar correctamente a língua portuguesa tal como ela é falada deste lado do Atlântico.


Por outro lado, o que interessa, para além da questão jurídica e cultural de fundo, é uma questão política assaz bizarra. E a questão política actualmente resume-se a isto: estão a ser aplicadas não uma, mas três grafias da língua portuguesa. A correcta, em países como Angola e Moçambique, a brasileira (no Brasil) e a pateta (em Portugal e não se sabe em que outras paragens). Os representantes dos Estados-membros na CPLP, esses, devem dar pulinhos de corça alvoroçada e do mais puro regozijo com tão portentoso contributo que a organização deu para unificar a grafia do português.


Enquanto se anda nestes preparos, toda a gente se esqueceu do famigerado vocabulário ortográfico comum. Onde pára o dito? Dele, ninguém sabe dizer nada, como da formosa Mariquinhas... Até agora, o vocabulário peca pela inexistência pura e simples e ninguém se preocupou com a superação de tão momentosa dificuldade. Ora não parece que actualmente, com as restrições que afectam tantas áreas da investigação e da diplomacia, haja qualquer possibilidade de ele ser concretizado.


Entre as consequências relevantes dessa inexistência conta-se a impossibilidade de aplicar o Acordo de cuja entrada em vigor o vocabulário comum é condição prévia, por muito que isso pese ao Prof. Evanildo Bechara, que lê a exigência correspondente como se ela unicamente se reportasse ao vocabulário técnico e científico. É de lamentar que, na pessoa do ilustre académico, a interpretação jurídica não consiga acompanhar o saber do linguista emérito.


Alem disso, é muito de estranhar que, no ano em que o Brasil se apresenta em Portugal e Portugal se apresenta no Brasil com tanta pompa e circunstância, nenhum dos países interessados tenha feito qualquer reparo à maneira como a grafia do português, que se pretende oficial e oficiosamente seja agora adoptada em Portugal, consagra uma série de enormidades que não estão, nem podem estar, a ser aplicadas no Brasil e que aumentam a desconformidade com a maneira como a língua se escreve de um lado e do outro.


Talvez tenhamos de esperar que se realize um ano de Angola em Portugal e de Portugal em Angola para o problema merecer atenção. E então não será de estranhar que tenhamos de agradecer aos angolanos um rigor na grafia da nossa língua de que, por cá, nós portugueses já não somos capazes.


jpt

publicado às 19:48

 

No final de XX Alfredo Margarido escreveu:

 

"Hoje, uma fracção substancial dos teóricos da "portugalidade", fazem da língua o agente mais eficaz da unidade dos homens e dos territórios que foram marcados pela presença portuguesa. Não tendo havido uma grande reflexão anti-colonialista antes das independências, registou-se a necessidade urgente de organizar uma ideologia explicativa: os portugueses foram obrigados a renunciar à dominação política e económica, mas procuraram assegurar o controle da língua.


O drama ... provocado pelo acordo ortográfico ..., deriva dessa inquietação: se a língua não for capaz de assegurar a perenidade da dominação colonial, os portugueses ficarão mais pequenos. A exarcebação da "lusofonia" assente nesse estrume teórico ..."

 

Diante da crise que avassala o meu país, um dia aqui botei: "Desabrigada no pós-1974 a sociedade portuguesa não desenvolveu a economia nacional, agora num contexto concorrencial, e abrigou-se sob o Estado, redistribuidor das benesses europeias (a “cooperação”, como se diz em África). Nesse processo a velha socioeconomia colonial tornou-se uma socioeconomia estatizada, via Estado central e via municípios (e escapámos à “regionalização”). As denúncias moralistas contra o “clientelismo”, o “caciquismo”, o “patrimonialismo” (“os jobs for the boys”) esquecem o acordo social que assentou nisto. Tal como há décadas atrás os teóricos marxistas falavam em “burguesias compradoras” improdutivas no Terceiro Mundo, assistimos ao crescimento de uma “sociedade compradora”, de bens e serviços. E o “FEDERismo” tornou-se o projecto português, não tanto o “federalismo” europeu.No fundo, de forma perversa e até contraditória, Portugal vive agora a efectiva descolonização, ou melhor, vive o processo de acolonização. O proteccionismo colonial morreu e o seu avatar proteccionismo estatal, que protegeu a sociedade após 1975 do embate externo, está moribundo. Há pois uma monumental incongruência (que não é apenas da discussão entre dívida pública e privada) na sociedade, entre o projecto produtivo e a auto-concepção de cidadania."

 

Vem isto a propósito da visita de ontem de Angela Merkel a Portugal. À noite ouvi, de raspão, o noticiário da SIC onde Miguel Sousa Tavares comentava essa visita. Tem mais de vinte de anos como figura fundamental da informação televisiva. Escritor afamado, de grande sucesso, gostado. Jornalista, director de publicações. Cronista, viajante, na imagem de cosmopolita. Homem ouvido, seguido. Filho de Francisco Sousa Tavares grande jornalista, advogado e político, entre tanta coisa também o homem que discursou no Largo do Carmo, voz do parto da democracia. Filho da enorme Sophia de Mello Breyner. Sobrinho do grande Ruben A. Casado com Teresa Caeiro, antiga governante, inclusivamente secretária de estado das Artes e Espectáculos (como se "Cultura"). Ponho aqui os laços familiares não por indiscrição, que são públicos e muito honrosos, muito mesmo. Mas porque sublinham o seu capital cultural, e social, a sua legítima pertença à elite cultural portuguesa, na qual não é arrivista. E na qual a sua biografia profissional o sedimenta. Com  isto tudo é pacífico  considerá-lo uma voz do olhar português sobre o mundo.

 

Irado, insurge-se Sousa Tavares que a tradução das palavras da governante alemã tenha sido em "brasileiro" - algo da responsabilidade da embaixada alemã diz-lhe a colega Judite de Sousa (um intérprete brasileiro? um alemão que estudou português no Brasil?) - pois "na nossa terra fala-se a nossa língua", diz o comentador, mais-que-ríspido.

 

Assim, sem mais, no país da lusofonia, esse paleio impensante, retórica vã perseguida desde o alterglobalismo a la BE de Boaventura Sousa Santos até à direita cristã dos paladinos ortógrafos, passando pelo magma inintelectual socialista-republicano até ao actual poder na velha retórica de Braga de Macedo e Morais Sarmento, eis, explícito, cristalizado, o que se pensa sobre a língua, a "nossa língua", com o "nosso sotaque", a que é legítima, o que é legítimo, para efectivar (nossas) portas dentro. Na crise, que se lixe a "lusofonice".

 

Diante da frase xenófoba, racista, colonial, do "dono da língua" "dono da terra" pensei que o dia seguinte fervilharia. De gente irada, democrática, inclusiva, solidária. Ou mesmo, pura e simplesmente, lusófona.

 

Mas nada, nem uma petição, nem um protesto, nem "memes" no facebook. Até gente tão participativa, anteontem revolucionária, furibunda no indignismo, tão atarefada em gritar contra a senhora do Banco da Fome que disse meia dúzia de vacuidades expressando algumas coisas nada populares mas não  tão desacertadas (Portugal vive estruturalmente produzindo muito menos do que consome, algo que o pensamento preguiçoso antropomórfico traduz como "vivemos acima das nossas possibilidades", como se isto (aquilo) fosse uma família) cala-se agora. Desatenta? Nada. Concordante, no tom xenófobo, no teor colonialista. Pois a uma (relativa) perenidade do enquadramento estatal da acção social corresponde uma manutenção cultural, profunda, a estruturar o olhar sobre o real, e o país.

 

Pois para as velhas "massas", cujo internacionalismo se acomoda na tasca onde se atafulham do molho do caracol, e para as elites, com um cosmopolitismo encerrado no bidé, que nem usam, no país o que se fala "é a nossa língua", o "nosso sotaque". Nem notam, nem atentam. A mentezinha colonial(ista), a superioridade pacóvia.

 

E depois, enquanto revolucionam, indignados, contra a "austeridade" que os fere, vão mandando para filhos e enteados, quando não para eles próprios, "ó socorros", "arranja-me um emprego" para onde outros, os "lusófonos" tão amigos que eles são, irmãos mesmo, falam a (afinal) "nossa" língua.

 

Tudo isto, toda esta gente, de sotaque certo e de língua certa, cheios de certezas.  A justificarem bem, infelizmente, todo o descalabro. De agora. E anunciado.

 

Amanhã? Lá estarão todos a ouvir o "miguel". E a indignarem-se.

 

Não há futuro. Com esta gente.

 

jpt

publicado às 18:49

O invito Acordo Ortográfico

por jpt, em 19.10.12

 

João Roque Dias é um incansável pontapeador do "acordismo". Agora mesmo publica esta imagem, retirada da TVI, esse bastião da imprensa portuguesa. Não resisto a reproduzir esta pérola do desmancho ortográfico (esse que tantas simpatias provoca, aqui mesmo abaixo me acusam de torpes vilanias apenas por resmungar contra a retirada dos "c"s), a bandalheira que provocou, os tontos a quererem estar na linha da frente. Enfim, aqui fica a homenagem à urbe do Porto, a sempre "invita" cidade, berço do meu pai.

 

jpt

publicado às 19:04

A poesia e o acordo ortográfico

por jpt, em 19.10.12

 

Nelson Saúte neste seu recentíssimo "Livro do Norte e outros poemas" (edição Marimbique) distribui os poemas por cinco "livros". Andando pelo "Livro Terceiro", onde mais lírico surge, encontro este 

 

O espetador arrebatado


Duas insofismáveis pernas

incapazes de esclarecer o arrebatado espetador

que se enleva nos avatares da dança

na irremedimível geografia da sala.


E hesito. Saúte de súbito brejeiro, até mesmo perdido na charneca do mau-gosto? Ou, logo logo depreendo, apenas um poeta vitimizado, graficamente amputado, seu pobre corpo escanhoado pelo austero bisturi "lusófono"?

 

jpt

publicado às 11:26

O som do Acordo Ortográfico

por jpt, em 14.10.12

 

A aluna tem 10 anos. Está no 6º ano de escolaridade. Boa aluna e lê bem, bastante bem. Para a disciplina de Matemática tem um "Caderno de Actividades" (de Ana Ribeiro Rosa, Lourdes Neves e Natália Vaz. Publicado por Raiz Editora). Hoje realiza a Ficha 7 dedicada a "Números Naturais". Uma das perguntas é esta:

 

"Que conjeturas fazes sobre os números que podem ser escritos como potências de base 2?".

 

A aluna, a qual, e repito, lê bem, lê-me: "Que conjetúras fazes sobre os números que podem ser escritos como potências de base 2?". Eu emendo-a, de imediato, digo-lhe "conjéturas". Ela responde-me: "mas não está lá nada para que seja assim!". Eu mantenho a emenda. Apenas com o argumento da autoridade, claro, dado que estou graficamente desprovido de qualquer outro. Ela aceita, pudera. Mas resmungando (pois "quem sai aos seus ...").

 

jpt

publicado às 17:51


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