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Chandler actual

por jpt, em 11.05.14

 

 

(Re)Leio Chandler, acho que há cerca de 30 anos que dele nada lia. Envelheci eu dado que não é "cool" dizer que um ícone como este envelhece. Enfim. Fica-me este excerto, que tudo tem a ver com o enredo. O do livro (que se foi a filme) e o nosso, português de hoje - mostrando que assim, afinal, pouco terá envelhecido o cerne chandleriano.

 

"- Este negócio de Polícia - disse com ar afável - é um problema levado dos diabos. Assemelha-se bastante à política. Exige pessoas de moral elevada, mas não tem nada que possa atrair pessoas assim. Por isso temos de nos contentar com o que aparece ... e aparecem alguns como este.

 

- Bem sei - admiti [Marlowe] - Já o sabia. E não estou sentido, capitão Webber."

 

[Raymond Chandler, A Dama do Lago, Abril/Controljornal, tradução de Jorge Pinheiro, p. 144]

publicado às 09:40

Poema para uma «saída limpa»

por PSB, em 05.05.14

                                                              Troianos

 

 

São nossos esforços, os dos infortunados;

são nossos esforços como os dos troianos.  

Um pouco conseguimos; um pouco

levantamos a cabeça; e começamos

a ter coragem e boas esperanças.

 

Mas sempre surge alguma coisa que nos pára a nós.

Aquiles junto do fosso à nossa frente

surge e com grandes gritos assusta-nos. –

 

 

São nossos esforços como os dos troianos.

Cuidamos que mudaremos com resolução

e valentia a contrariedade da sorte,

e estamos cá fora para lutar.

 

Mas quando vier o momento decisivo,

o nosso valor e a nossa resolução perdem-se;

a nossa alma fica alterada, paralisa;

e em redor das muralhas corremos

à procura de nos salvarmos pela fuga.

 

Porém a nossa queda é certa. Em cima,

nas muralhas já começou o pranto.

Choram pelas memórias e os sentimentos dos nossos dias.

Amargamente choram por nós Príamo e Hécuba.

 

in Os Poemas, Konstandinos Kavafis, tradução Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio D`Água.

publicado às 23:49
modificado por jpt a 11/7/14 às 04:51

Páscoa 2014

por jpt, em 20.04.14

No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5 e 30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros. "Sonhava sempre com árvores", disse-me a mãe, Plácida Linero, recordando vinte e sete anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata. "Na semana anterior tinha sonhado que ia sozinho num avião de papel de estanho que voava sem tropeçar por entre as amendoeiras", disse-me. Tinha uma reputação bastante bem ganha de intérprete certeira dos sonhos alheios, desde que lhos contassem em jejum, mas não descobrira qualquer augúrio aziago nesses dois sonhos do filho, nem nos restantes sonhos com árvores que ele lhe contara nas manhãs que precederam a sua morte.

publicado às 22:53

 

 

Não sei se será da idade, sublinhada pela velocíssima aproximação ao proto-centenário, mas em olhando para as estantes de ficção cada vez mais me dá para a releitura, como se "revisão da matéria dada":

 

"De facto, o pior dos meus defeitos era uma disposição demasiado jovial, que faria o enlevo de muitos, mas que eu considerava irreconciliável com o desejo dominante de me dar grandes ares e mostrar em público um aspecto sisudo e grave. Por isso tratei de ocultar os meus divertimentos e comecei a olhar à minha volta, pesando os progressos feitos e a minha posição na sociedade. Já era profunda a duplicidade do meu carácter. Muitos homens teriam confessado certos erros de que me considerava culpado; mas com os altos propósitos que visava, não me convinha senão escondê-los, e fazia-o com uma mórbida sensação de vergonha. Assim o ordenava a natureza das minhas aspirações, mais do que a própria degradação dos pecados; ia-se cavando em mim, mais do que na maioria dos mortais, esse profundo fosso que separa o mal do bem e divide e compõe a dualidade da nossa alma. Neste caso eu era levado a meditar, de maneira penetrante e irresistível, naquela pesada lei da vida, que jaz na base da religião e é uma das mais largas fontes das aflições humanas. Ainda que tão entranhadamente dissimulado, não era o que se chama um hipócrita. Ambas as minhas inclinações estavam na força do entusiasmo; não pus maior ardor quando perdi a continência e mergulhei na ignomínia do que quando trabalhei, à luz do dia, pelo avanço dos meus conhecimentos e alívio de dores e tristezas. E aconteceu que o sentido dos meus estudos científicos, que me conduziam à mística e às coisas transcendentes, suscitou e derramou imensa claridade neste carácter de guerra permanente entre o bem e o mal em que me debatia. Em cada dia, as duas partes da minha inteligência, a moral e a intelectual, atraíam-me mais e mais para esta verdade, cuja descoberta parcial fora em mim condenada a tão pavoroso naufrágio: que o homem não realmente uno, mas duplo. Digo duplo, porque o estado do meu conhecimento não passa além desse ponto. Outros poderão prosseguir, outros exceder-me-ão nestes limites; mas atrevo-me a conjecturar que o homem será um dia caracterizado pela sua constituição multiforme, incongruente e cheia de independência."

 

(Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro, pp. 115-117)

publicado às 17:53

Ulisses

por jpt, em 01.04.14

 

 

Reli o Odisseia, devagar. Lamentavelmente ao longo da vida fui preguiçoso demais para o percorrer em francês e inglês, e sempre me recusei a ler em prosa. Só o li já graúdo envelhecido, nesta tradução de Frederico Lourenço. A primeira vez devorando-a. Agora, para aí uma década depois, fruindo-a. Antes, muito antes, ficara-me por uma qualquer daquelas pérfidas versões juvenis. Dessas que são sempre de evitar, mesmo que ainda hoje haja o costume de as obrigar na escola, de tal modo que coincidi com a minha filha, ela a sobrevoar uma qualquer adaptação. Não sou pedagogo mas horroriza-me essa prática, com toda a certeza que vale muito mais colocar os jovens a ler um naco de Homero do que uma qualquer simplificação que lhes "conta a história". Não é fazer das crianças um George Steiner, a quem o pai colocou a ler Homero em grego clássico na mais tenra infância (e viu-se no que deu). É ser capaz de pensar que os miúdos se podem divertir a ler trechos, até mirambolantes, quais jogos de vídeo. E alguns deles, um dia, continuarão.

 

Exagero? A narrativa oscila entre aventuras, com uma carga visual incrível, e constantes "hecatombes", entenda-se, comezainas degustadas por razões de sacrifícios rituais. Há melhor para os miúdos? É difícil ler, pois aquilo está em verso? Há algum tempo um amigo, poeta e prosador, resmungava que não tinha gostado do estilo do tradutor. Talvez, mas não tenho o conhecimento da(s) língua(s) e seus conteúdos para me meter a avaliar, e nem a sensibilidade de leitor para tamanho olho crítico. Tinha gostado muito, regostei agora (o mesmo com o Ilíada, com o qual tenho o mesmo percurso) do passo de Frederico Lourenço a mostrar-nos Homero. Viva o tradutor, vivam os bons tradutores.

 

Depois há outra coisa, a qual também me tinha impelido à releitura. Coisa mais para colegas, antropólogos e afins. É que aquilo é muito "nosso", um cruzar de festins (quase potlatchs, mas nem tanto) e circuitos de dádivas. E para mais, sendo um texto fundador, dizem, da literatura universal (ou vá lá, concedo em versão pós-colonial, da literatura "ocidental") bem espremido aquilo é um tratado sobre prestações matrimoniais. Tenho que ir googlar, em busca de quem tenha antropologizado sobre a matéria - será que alguém tem alguma pista para leituras?

 

Finalmente: gostava muito de ter a densidade cultural para poder fundamentar uma sensação havida. Mas não a tenho. Como tal, dito por mim, isto é um mero atrevimento. Mas adianto-o, assim atrevido, qual arrivista. Tudo o que se seguiu, na história intelectual europeia, vem disto:

 

"À deusa deu resposta o prudente Telémaco:

Mentor, como irei? Como o deverei cumprimentar?

Não tenho experiência de palavras subtis; é natural

que um jovem se iniba de interrogar um homem idoso."

 

A ele respondeu a deusa, Atena de olhos garços:

"Telémaco, algumas coisas serás tu a pensar na tua mente;

outras coisas um deus lá porá ..."

 

(Canto III, pp. 52-53)

 

É isso, para além de belo na leitura, é até comovente encontrar este assim, tão recuado.

 

 

 

publicado às 09:58

Huck Finn

por jpt, em 23.01.14

 

Há algum tempo, quando reli Tom Sawyer de Mark Twain deixei aqui (acompanhando um excerto delicioso): "porque está isto na "biblioteca juvenil", por que é que nos juvenilizam os livros e assim os abandonamos? O que está neste Tom Sawyer que não seja adulto?". Só se for para reduzir a atenção, minimizar-lhe a densidade. Ando agora com o Huckleberry Finn, a mesma coisa. Deixo este excerto, que obviamente não é para aligeirar como literatura juvenil, é uma pérola, um tratado. Lembrando que se uma citação é sempre uma amputação no caso de Mark Twain é até uma traição, que a prosa é sempre deliciosa, na sua completude. Que nunca leu que vá ler, é o conselho. Mas, mais importante, quem leu em puto regresse agora:

 

Aqueles canalhas tinham feito quatrocentos e sessenta e cinco dólares naquelas três noites. Eu nunca tinha visto tanto dinheiro junto anteriormente. Passado um bocado, quando eles já estavam a dormir e a ressonar, Jim disse:

- Huck, não ficar todo surpreso por rei se portar assim?

- Não - respondi -, nem por isso.

- E porque não ficar, Huck?

- Ora, porque acho que lhes está no sangue. São todos iguais.

- Mas, Huck, estes nossos rei ser verdadeiro canalha; ser mesmo isso que são; ser verdadeiros canalha.

- Bem, é isso que eu estava a dizer. Tanto quanto sei, todos os reis são em grande parte canalhas.

- Isso ser verdade?

- Assim que leres alguma coisa a respeito deles, vais ver. (...) Não conheces os reis, Jim, mas eu sim. E este nosso velho rei é um dos mais limpos que já apareceram na história. (...) O que quero dizer é que os reis são reis, e tem de se lhes fazer concessões. Se os considerarmos a todos em conjunto, até são um bando bastante normal. É a maneira como são educados.

- Mas estes cheirar muito a danação, Huck.

- Bem, todos eles cheiram, Jim. Não podemos evitar a maneira como um rei cheira. A história não diz que há uma maneira especial. 

- Ora, o duque ser nalgumas maneiras um homem que se gosta mais.

- Sim, o duque é diferente. Mas não muito diferente. Este é um tipo de duque muito medíocre. Quando está bêbedo, nem um homem míope o conseguia distinguir de um rei.

- Bom, de qualquer maneira, eu não querer ver nenhum mais, Huck. Isto ser tudo o que eu poder dizer.

- Também sou da mesma opinião, Jim. Mas eles estão nas nossas mãos e temos de nos lembrar quem eles são, e fazer concessões. Às vezes gostava de ouvir falar de um país que não tivesse reis.

 

Não valia a pena dizer a Jim que eles não eram mesmo um rei e um duque. Não teria servido de nada e, além disso, era aquilo que eu dissera: não se conseguia distingui-los dos verdadeiros. 

 

(As Aventuras de Huckleberry Finn, Edições Nelson de Matos, pp. 220-222)

 

 

 

publicado às 21:19

Diz Rentes de Carvalho:

por jpt, em 03.01.14

O escritor no seu blog Tempo Contado deixa Com tristeza o digo e consolo não sinto: na minha idade é nula a esperança que tenho de ver Portugal sair do atoleiro e da miséria. Resta-me o sonho de que os que agora são jovens, e os que vierem, construam um país de que se possam orgulhar e não lhes doa como este a mim dói.

publicado às 08:47

2013: a guerra do Afeganistão

por jpt, em 28.12.13

 

Isto de entrar nas estantes paternas e nos exemplares avoengos é sempre interessante. Agora um "Cartas Bárbaras", uma segunda edição de 1907, comprado pelo meu avô paterno em Coimbra em 1911. Eça é espantosamente contemporâneo, e não apenas no desvendar da mesquinhez lisboeta:

 

 

“Os inglezes estão experimentando, no seu atribulado imperio da India, a verdade d’esse humoristico logar commum do seculo XVIII: “A Historia é uma velhota que se repete sem cessar”.

 

O Fado ou a Providencia, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episodios da campanha do Afghanistan em 1847, está fazendo simplesmente uma copia servil, revelando assim um imaginação exhausta.

 

Em 1847 os inglezes, “por uma Razão d’Estado, um necessidade de fronteiras scientíficas, a segurança do imperio, uma barreira ao dominio russo da Asia …” e outras cousas vagas que os politicos da India rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes – invadem o Afghanistan, e ahi vão aniquilando tribus seculares, desmantelando villas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornaes têm telegrafado a victoria, o exercito, acampando á beira dos arroios e nos vergeis de Cabul, desaperta o correame, e fuma o cachimbo da paz … Assim é exactamente em 1880.

 

No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes energicos, Messias indigenas, vão percorrendo o territorio, e com os grandes nomes de Patria e de Religião, prégam a guerra santa: as tribus reunem-se, as familias feodaes correm com os seus troços de cavalaria, principais rivaes juntam-se no odio hereditario contra o estrangeiro, o homem vermelho, e em pouco tempo é todo ou um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a estrada da India… E quando por alli apparecer, emfim, o grosso do exercito inglez, á volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito secco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquella massa barbara vola-lhe em cima e aniquila-o.

 

Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exercito refugiam-se n’alguma das cidades de fronteira, que ora é Ghasnat ora Candahar: os afghans correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientaes: o general sitiado, que n’essas guerras asiaticas pôde sempre communicar, telegrapha para o viso-rei da India, reclamando com furor reforços, chá e assucar! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou ha dias este grito de gulodice britannica; o inglez, sem chá, bate-se frouxamente). Então o governo da India, gastando milhões de libras, como quem gasta agua, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colllinas de assucar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, rebanhos de cavallos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa … Foi assim em 1847, assim é em 1880.

 

Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras columnas de tropa india, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora: d’ahi começa uma marcha assoladora, com cincoenta mil camelos de bagagens, telegraphos, machinas hydraulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornaes. Uma manhã avista-se Candahar ou Ghasnat – e n’um momento, é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exercito afghan, com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneraveis codubrinas do modelo das qu’outrora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Candahar está livre! Hurrah! – Faz-se imediatamente d’isto uma canção patriotica: e a façanha é por toda a Inglaterra popularisada n’uma estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com vehemencia, no primeiro plano, entre cavallos empinados e granadeiros bellos como Apollos que expiram em attitude nobre! Foi assim em 1847; ha-de ser assim em 1880. (…)

 

E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriotica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa n’uma pagina de chronica … (…)

 

No entanto a Inglaterra goza por algum tempo a “grande victoria no Afghanistan” – com a certeza de ter de recomeçar, d’aqui a dez annos ou quinze annos, porque nem póde conquistar e annexar um vasto reino, que é grande como a França, nem póde consentir, collados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanaticos, batalhadores e hostis. "Politica" por tanto é debilital-os periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades de um grande imperio. “

 

[Eça de Queiroz, “Afghanistan e Irlanda” in Cartas de Inglaterra. Porto: Livraria Chardon, 1907 (2ª edição), pp. 1-5] – adquirido em Coimbra em 1911

publicado às 15:40

Mark Twain, Tom Sawyer e Huck Finn

por jpt, em 17.11.13

 

Uma das padronizações mais notáveis é a acontecida na iconografias das personagens icónicas. Pois à excepção das actrizes mais voluptuosas e do mundo rock (sendo este o inverso, pois num processo de infantilização), o molde sobre o qual constituímos as imagens desses "heróis" (semi-divinos) constrói-se sobre uma amálgama de fotografias das respectivas maturidades ou mesmo decrepitudes, uma verdadeira contradição se os pensarmos como "aqueles que por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando". Quando imagino Borges, Miles, Lévi-Strauss, Karajan, Lee Marvin, Firth, Tolstoi e tantos outros, logo me deparo com anciões habitantes da minha memória. Nada contra estes, tudo contra o seu império. Por isso gosto de recolectar estes retratos dos artistas quando jovens ... Aqui partilho um desses, que acabo de encontrar: Mark Twain, fotografado cerca de 1850. E nisto lembro-me, e replico-o, de um postal que escrevi quando reli o seu "Tom Sawyer", com um excerto soberbo. Fica aqui:

 

 

Regressar a Tom Sawyer é uma verdadeira máquina do tempo. O que me leva a repetir-me, porque está isto na "biblioteca juvenil", por que é que nos juvenilizam os livros e assim os abandonamos? O que está neste Tom Sawyer que não seja adulto? Será a paixão quase mortal entre Tom e Becky? Ou a maldade, cruelmente castigada, de Injun Joe? A cobiça que a tanto risco e coragem conduz, e que será magnificamente recompensada? O que haverá mais radicalmente adulto do que a confrontação (final) entre os ideais de liberdade de Tom Sawyer, afinal urbano e integrável, e Huck Finn, o radical libertário. O verdadeiro libertário, diga-se, tão necessário nestes hojes de institucionalizações, de (falsos) Tom Sawyers:

 

"Não me digas nada, Tom. Já o tentei e não resultou. Não resulta, Tom. Não é para mim, não estou habituado a isso. A viúva é boa para mim e minha amiga, mas não consigo aguentar aqueles hábitos. Todas as manhãs me faz levantar à mesma hora, obriga-me a lavar e a pentear; não me deixa dormir no barracão de lenha; tenha de usar aquelas malditas roupas que me sufocam, Tom, porque parece que o ar não consegue passar através delas; e são tão bonitas que não me posso sentar, nem deitar, nem rebolar no chão quando as tenho vestidas. (...) Ali dentro não posso apanhar uma mosca nem mascar. Tenho de andar calçado durante todo o domingo. A viúva só come ao som de uma sineta, vai-se deitar ao som de uma sineta, levanta-se ao som de uma sineta. Naquela casa, é tudo tão horrivelmente regular que o corpo de uma pessoa não o consegue aguentar. (...) E a comida é demasiado fácil, não me interessa muita comida assim. (...) A viúva não me deixa fumar, não me deixa gritar, não me deixa bocejar, não me deixa espreguiçar, nem coçar ao pé de outras pessoas. (...) E ainda pior, está sempre a rezar. (...) Tive de fugir, Tom, tive mesmo de fugir! Não, Tom, não me interessa ser rico e não quero viver naquelas malditas casas onde parece que falta o ar. Gosto dos bosques e do rio e das barricas, e é aqui que vou ficar. O resto que vá para o diabo! Já tínhamos as espingardas e o esconderijo, e tínhamos combinado ser ladrões. (...) Tom aproveitou aquela oportunidade:


- Ouve lá, Huck, ser rico não me vai impedir de ser ladrão.


- Não! Estás mesmo a falar a sério, Tom?


- Tão sério como estar aqui à tua frente. Mas Huck, não te podemos aceitar na quadrilha se não fores respeitável.


A alegria de Huck pareceu desaparecer.


- Não me deixas entrar, Tom? Mas deixaste-me ser pirata, não deixaste?


- Sim, mas isso é diferente. Um ladrão é alguém que tem uma categoria mais alta do que um pirata. Isso é uma coisa que todas as pessoas sabem. Em muitos países, até têm elevadas posições de nobreza, entre duques e coisas assim." (294-295)

 

 

[Mark Twain, As Aventuras deTom Sawyer, Edições Nelson de Matos (Tradução de Maria João Freire de Andrade)]

 

jpt

publicado às 03:18

Sobre o(s) debate(s)

por jpt, em 09.09.13

 

 

"A dialéctica erística é a arte de disputar, e isto de tal forma que se tenha sempre razão, quer seja ou não o caso - per fas e nefas (por qualquer meio). [...] De onde vem isso? Da mediocridade natural da espécie humana. Se não fosse esse o caso, se fôssemos essencialmente honestos, não teríamos outro fito, em qualquer debate, senão o de fazer surgir a verdade, sem cuidarmos de saber se ela é conforme à opinião que anteriormente defendêramos ou à do adversário: o que não teria importância alguma, ou pelo menos seria inteiramente secundário. Mas, tal como as coisas são, é isso o que mais importa. A vaidade inata, particularmente irritável no que se refere às nossas faculdades intelectuais, não quer aceitar que a nossa afirmação se revele falsa, nem que a do opositor seja justa. Para se sair desta dificuldade, cada um deveria simplesmente esforçar-se por não exprimir senão juízos justos, o que deveria incitar a que se pensasse primeiro e se falasse depois. Mas, na maior parte dos homens, a vaidade inata faz-se acompanhar da loquacidade e pela desonestidade inata. Falam antes de pensarem, e mesmo que tardiamente se dêem conta de que a sua afirmação é falsa e de que estão errados, as aparências hão-de por força provar o contrário. O interesse pela verdade, que pode presumir-se ser o único motivo que os guiava ao afirmar uma tese alegadamente verdadeira, cede então o passo aos interesses da vaidade: e assim o verdadeiro há-de parecer falso, e o falso, verdadeiro. [...] É assim que a fraqueza da nossa inteligência e a perversidade da nossa vontade se sustentam mutuamente; e que, em geral, aquele que debate não luta pela verdade, mas sim pela sua tese ..." (Arthur Schopenhauer, A Arte de Ter Sempre Razão. Lisboa, Frenesi, tradução de Jorge P. Pires, pp. 22-23)

publicado às 18:54

Ser como deus

por jpt, em 02.07.13

 

A leitura do "A Maldição de Ondina", de António Cabrita, e talvez não só pelas desbragadas aventuras nos aposentos da ausente Rita Hayworth que ali são afloradas, lembrou-me este "O Conquistador" de Almeida Faria, onde também algo surge acontecido na alcofa da longínqua Gloria Swanson. E deste belíssimo livro retiro um extraordinário naco. Também porque actual, e tanto:

 

"A atracção que as camas exercem sobre - ou sob - mim terá as suas raízes na minha vocação hibernativa. Lamento não pertencer às espécies que desaparecem da circulação durante o inverno. Não que pretendesse dormir três meses seguidos. Seria pelo contrário tão activo, que me faltaria o tempo e a vontade de sair do quarto. Nada de conclusões apressadas. Não me refiro apenas àqueles actos que os antigos confiavam ao lectus genialis, destinado à génese e perpetuação do género humano. Também me agrada ficar de papo para o ar, transformando a cama no lectus lucubratorius em que os romanos abastados se entregavam à cogitação, embora eu suspeite que aproveitavam para passar pelas brasas. Das minhas mais antigas lembranças, as melhores são das doenças ligeiras que me davam direito a uns dias deitado. (...) No calor protector da cama, eu sonhava, lia, viajava em imaginação, divagava numa preguiça igual à dos deuses do Olimpo, perdidos nas alturas, por cima do azul, recostados em almofadas de nuvens, preenchendo a sua eternidade com banquetes onde a música das esferas criava ambiente aos platónicos diálogos, às disputas eventuais e às menos platónicas bacanais. Aquilo que distinguia os deuses dos mortais - para além, claro, da imortalidade - era o ócio total e o seu corolário de orgias generalizadas e sem ideia de pecado. Mesmo se certas deusas escapavam à regra, persistindo numa birrenta e embirrante virgindade, dedicando-se à caça e a outras banalidades; e apesar de nem todos os deuses estarem à altura da extraterrena libertinagem, no conjunto eles constituíam o modelo impossível do que eu queria, embora injustamente condenado a nunca, nem por sombras, lá chegar.

Numa tarde de feliz e falso resfriado, na época pubertária em que não pensava senão em Kama-Sutras e camas-supras e naquilo que até os dinossauros faziam, como Deus mandava e como só Deus sabia, li que Ulisses, há oito anos de serviço cívico ao leito de Calipso, ansiava por deixar a ilha de Ogígia e regressar à condenada condição mortal que o aguardava em Ítaca. Fiquei furioso: achei o cúmulo que alguém preferisse a decadência física às intermináveis delícias da ninfa e da ilha. Que bestice! Seria crível que um herói, conceituado após uma década de passamentos bélicos, se fartasse dos menos trabalhosos feitos eróticos? Nunca gramei guerreiros. Desde então detestei-os."

publicado às 15:06

O mundo tal como vai

por jpt, em 16.04.13

 (busto de Voltaire)

 

 Em "O Mundo tal como vai" Voltaire conta-nos que Ituriel é "um dos génios que presidem aos impérios do mundo", tendo a tutela do "departamento da Ásia". Certo dia convoca o cita Babouc, e envia-o a Persepólis, capital da Pérsia, com o encargo de relatar detalhadamente o que lá encontrará, pois na última assembleia dos génios da Alta Ásia houve discussão sobre o destino a dar a esse reino, fartos que estão das "loucuras e dos excessos dos Persas". Estão os génios na dúvida, ou corrigi-la ou exterminá-la.

Lá foi Babouc, encontrando por lá do pior, do mais imoral e corrupto. Mas não só. Após algum tempo chegou o momento de terminar a sua missão: "Afeiçoara-se à cidade, onde o povo era educado, doce e benfazejo, embora imprudente, maldizente e cheio de presunção. Temia que Persepólis fosse condenada; temia o relato que iria entregar. Eis o que fez para apresentar de modo favorável essa descrição. Encomendou aos melhores profissionais de fundição da cidade uma pequena estátua composta de todos os metais, das terras e das pedras mais preciosas e mais vis e levou-a a Ituriel:

-Despedaçareis esta bonita estátua - perguntou Babouc - só porque não é toda de ouro e diamantes?

Para bom entendedor, meia palavra basta, e Ituriel resolveu nem sequer pensar em corrigir Persepólis e deixar andar o mundo tal como vai.

- Porque - disse - se nem tudo está bem tudo é admissível."

publicado às 20:30

Homens e deus(es)

por jpt, em 16.04.13

 (Zeus)

 

Dado que à minha filha foi comandado que lesse o "Ulisses" de Maria Alberta Menéres (e eu continuo com muitas dúvidas sobre se estas "adaptações" para infantes não serão prejudiciais) pus-me a reler a "Odisseia". Para logo ao abri-la poder partilhar (por cima da "adaptação") isto, que está no âmago de tudo o que entre nós anda, e que deveria estar na mente de todos, e ainda mais nas dos tais "infanto-juvenis":

 

"Mas para longe se afastara Posídon, para junto dos Etíopes,

desse Etíopes divididos, mais remotos dentre os homens;

uns encontram-se onde nasce, outros onde se pôs o Sol.

Para lá se afastara Posídon, para deles receber

uma hecatombe de carneiros e touros;

e aí se deleitou no festim. Quanto aos outros deuses,

no palácio de Zeus Olímpio se encontravam reunidos.

E o primeiro a falar o pai dos homens e dos deuses [Zeus],

Pois ao coração lhe vinha a memória do irrepreensível Egisto,

a quem assassinara Orestes, filho de Agamémmnon.

A pensar nele se dirigiu assim aos outros imortais:


"Vede bem como os mortais acusam os deuses!

De nós (dizem) provêm as desgraças, quando são eles,

pela sua loucura, que sofrem mais do que deviam!

Como agora Egisto, além do que lhe era permitido,

do Atrida desposou a mulher, matando Agamémnon

à sua chegada, sabendo bem da íngreme desgraça -

pois lha tínhamos predito ao mandarmos

Hermes, o vigilante Matador de Argos:

que não matasse Agamémnon nem lhe tirasse a esposa,

pois pela mão de Orestes chegaria a vingança do Atrida,

quando atingisse a idade adulta e saudades da terra sentisse.

Assim lhe falou Hermes, mas seus bons conselhos o espírito

de Egisto não convenceram. Agora pagou tudo de uma vez."

publicado às 20:27

Balada da Ameixa Seca

por jpt, em 16.04.13



Balada da Ameixa Seca

 

Vai à mercearia e compra ameixa seca,

P'ra o intestino a ameixa é levada da breca!

 

O mal do Ocidente - quem há que não o sinta? -

é não ter a tripa sempre limpa.

 

Com seus altos valores, o Ocidente

dá por demais ao dente, dá por demais ao dente.

 

Põe-me os olhos nos povos que só comem arroz:

dão melhores guerrilheiros do que nós.

 

Um saquitel de arroz, uma biciclet',

arma na bandoleira - e lá vai o viet.

 

"Noss'povo" ao contrário, como o que apanha à mão.

Até parece fome de muita geração!

 

E larga, já comido, o corpo em qualquer canto.

Sonha Terceiro Mundo e é Europa, entretanto.

 

Encostado ao sobreiro ou ao ficheiro,

"Noss'povo" já nada tem de marinheiro.

 

Sua tripa, represa, é trabalhosa.

Sua prosápia já só é má prosa.

 

Portugal-do-casqueiro à Europa-das-latas

manda cortiça, vinho, diplomatas.

 

Espera contrapartidas: sol-e-vistas

é cartaz que atrai muitos turistas.

 

Mas com a ameixa seca - coisa pouca! - 

é que pode acordar sem amargos de boca.

 

Vai à mercearia e compra ameixa seca.

P'ra o intestino a ameixa é levada da breca!

 

(Alexandre O'Neill)

publicado às 20:24

Voltaire e as belas artes

por jpt, em 16.04.13

 

"De qualquer das formas, a sífilis assemelha-se às belas artes: não há como saber quem a inventou; todavia, com o tempo, deram a volta à Europa, à Ásia, à África e à América" (109, "Os ouvidos do conde de Chesterfield e o capelão Goudman")

publicado às 20:20


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