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Há poucos dias botei aqui sobre a actual imigração portuguesa para Moçambique. Há alguns meses também já aqui a tinha referido, algo influenciado pela torrente de pedidos de informação sobre o país, a vida e as hipóteses de trabalho. A qual apenas acalmou com o texto, tendo regressado, pois continuam constantes os pedidos de informação (alguns até abrasivos, que há gente que é meio doida, do exigente que é).

Agora o António Cabrita acaba de publicar no seu mural de facebook um "Aviso à Navegação", dedicado aos patrícios que têm demandado Moçambique ou que o pensam fazer. De leitura justificada, daí que o transcreva.

AVISO À NAVEGAÇÃO, por António Cabrita

É com grande apreensão que vejo os portugueses chegarem a Maputo às carradas, sem um mínimo de preparação para um mundo rigorosamente nos antípodas e armados da ilusão de que partimos de uma base comum que é a língua.

O que está a acontecer com um casal meu amigo talvez ilustre as dificuldades que aqui encontramos todos os dias: o contrato de arredamento (pagam uma renda de mil dólares) está a chegar ao fim; a vizinha propôs uma subida para 1500 dólares. O casal, medindo pós e contras, contrapropôs 1400 dólares e um contrato para três anos, para obstar passarem todos os anos pela mesma discussão. E já se tratava de um brutal aumento de 400 dólares. Resposta da senhoria: quer um contrato de 1500 para seis meses, enquanto ela faz obras na casa (com eles lá dentro), e depois então fará com eles um novo contrato, no qual procederá a um novo aumento. É delirante. Mas é assim mesmo, porque não existe regulação legislada – muitos dos deputados são senhorios - e os moçambicanos estão contentíssimos com estas levadas de emigrantes ignorantes dos preços do mercado e que aceitam tudo, a qualquer custo. E esta inflação louca é geral, eu também tive de sair há uns meses de uma casa para outra porque me foi pedido um aumento de 400 dólares.

Da mesma forma, o mercado de trabalho está a ficar viciado pelos mesmos motivos. Aterram arquitectos, profes, engenheiros, às centenas de técnicos de todas as áreas, dispostos a aceitarem tudo para não voltarem, para se aguentarem, e estão absolutamente a distorcer as condições de trabalho e a trazer um péssimo ambiente porque ainda por cima vêm armados de uma arrogância que a prazo se desfaz em fumo dado esta ser uma sociedade de códigos comportamentais muito, mas muito, diferentes que só o tempo nos faz adquirir. Sucedem-se os males-entendidos e o aroma a xenofobia sobe no ar.

Efeitos deste desnorte medem-se aos palmos largos, e nos últimos anos Maputo começa a acelerar na inflação para se equiparar aos preços de Angola, à custa dos papalvos das ONGs, empresas estrangeiros, e incautos emigrantes dispostos a tudo.

Meus caros, os ordenados locais não suportam esta inflação descabelada, não apodreçam mais o que já andava a soro. Pede-se bem senso, dignidade e equilíbrio – que talvez comece por se informarem a sério do que seja viver em África antes de se atirarem de cabeça a uma galinha que, lamento informar, não é a dos ovos de ouro.

jpt

publicado às 01:46

Cisões e continuidades

por jpt, em 04.03.12

 

Há dias aqui botei sobre o actual processo de imigração portuguesa em Moçambique. Já sobre isso escrevera no "Patrícios em Moçambique" e também, ainda que indirectamente, no "O Emigrão". Agora este último texto saíu, algo modificado, no Canal de Moçambique.

 

Teve eco, chega-me hoje um e-mail a dar nota disso, acompanhado de um "vai ver". Um eco com contexto. Em finais de 2010 o ma-schamba teve uma cisão, foi encerrado, despejado de textos. Algum tempo depois reagrupámo-nos, todos menos um, e refizemos o blog. Neste "Adeus ma-schamba" contei o acontecido, triste e feio. Agora, um ano e meio depois, o António Botelho de Melo, invoca esse mau passado enquanto intenta chatear-me, em forma de "boca", que, obvia mas embrulhadamente, pretende ser auto-justificação. Em Maputo alguém se deu ao trabalho da digitalização do jornal para que a sua reprodução in-blog embrulhe o seu diagnóstico sobre mim: "intestino-neo-cafreal-pós-colonial". Já rimos ao almoço, mas foi-me um riso triste.

 

Não vou voltar ao assunto ABM no ma-schamba. Repito que tudo o que tive para dizer sobre o triste episódio está aqui. Onde deixei:  "Não sei o que aconteceu com o ABM. E também não sei bem o que aconteceu comigo. Mas, é óbvio, alguma coisa não nos correu bem. E não nos está a correr bem."

 

Um ano e meio depois o ABM decide voltar, e desta fraca forma, à questão. É uma pena, é nítido que não se entendeu. E torna-se visível que não lhe está a correr melhor. Espero que isso acabe. Que lhe corra bem. E que se entenda.

 

jpt

publicado às 17:41

 O texto publicado na edição de ontem no Canal de Moçambique é uma adaptação de um postal que aqui coloquei. Aqui deixo a versão, agradecendo ao amigo que me corrigiu um erro de palmatória na utilização do português acontecido na versão impressa: 

A “Boa Vida” dos portugueses em Moçambique

Acabo de ler na BBC News Africa uma reportagem (assinada por Andrew Harding) sobre o actual processo de imigração portuguesa em Moçambique. O texto surge convenientemente encimado por uma fotografia de areal soalheiro (concedo que, porventura, a escolha pictórica terá sido alheia ao repórter) naquilo que é um típico reflexo dos estereótipos sobre África, (re)apresentada como um enorme resort paradisíaco, onde a fauna e a flora bravias se conjugam as praias de fruição sensorial (e sexual), o edénico natural por vezes entrecortado com uns trechos de miséria “biafrense”, estrategicamente mostrados aquando de uma campanha de donativos ou, mais raramente, de “pacificação”.

Não admira pois que Harding apresente esta peça como “os portugueses encontram a “boa vida” em Moçambique” – pois como não ter uma “boa vida” em tais paradisíacas paragens? Não é uma visão particularmente original, também as revistas do meu Portugal (aquelas que intentam seguir o padrão da “Veja” brasileira) produzem ciclicamente reportagens no mesmo eixo de entendimento, normalmente centradas em famílias exemplares – aqueles que têm apelidos sonantes (“filhos d’algo”, dizia-se em séculos anteriores) e, até, a numerosa prole de bons cristãos – que demandaram as ex-colónias portuguesas e nelas vão habitando com sucesso, saúde e felicidade. Parece que ninguém repara nas parecenças de tudo isto, ainda que em formato actualizado, com a propaganda do “apelo colonial” dos tempos idos.

Tal a recorrência que já não me surpreende esta lenga-lenga jornalística. Desta vez apenas o facto de coincidir com o relativo frisson que grassa na “comunidade” portuguesa [um termo muito incorrecto pois remetendo para uma inexistente organicidade] de Maputo, agitada em troca de mensagens telefónicas e electrónicas, aflita com o recrudescimento da criminalidade e, em especial, com a introdução desta relativa novidade dos raptos para resgate. Alguns engulhos na tal “boa vida”?

São percepções. Ambas algo superficiais. Algo exagerado o frisson face aos raptos (“o que vamos fazer com os nossos filhos?” é algo que ouço todos os dias) mas as percepções colectivas são … as percepções colectivas. E são sempre realidade, constituem-na. E também superficial a jornalística – mais que não seja porque Moçambique não é uma praia. E também porque a imigração não é um passeio, exige distanciamento, abandono, adaptação. Dores e sabores. E saberes. Mas, também neste caso, as percepções jornalísticas são … as percepções jornalísticas. E também constroem a realidade.

Enfim, quanto ao real. Muitos portugueses a chegarem, a fugir à crise nacional e europeia. Três pontos: a) como qualquer vaga migratória isto levantará questões no mercado de trabalho (que aqui assumiram, assumem e assumirão uma linguagem que remete para as realidades históricas do racismo e do colonialismo). É assim, será assim; b) muita gente chega mal preparada ou seja, com a atitude errada. Altaneira, entenda-se (é também o maldito “complexo do Equador”, que torna “doutor” quem o atravessa – coisa que não é de agora). Muita gente não a tem, vem trabalhar e viver. Esta última leva por tabela, catalogada como “tuga” (ou xi-colono) devida à tonta arrogância de uma parcela de patrícios que não percebem onde estão (“senhor(a), você está no estrangeiro” é coisa que muitas vezes me (nos) apetece dizer); c) e há gente patrícia mais antiga aqui a resmungar contra os que chegam agora, “que raio de gente, etc e tal“, como se fossem burgueses laurentinos enjoados com as levas de colonos rurais aportando nos velhos paquetes. Esquecem-se, obviamente, que também chegaram um dia (há dois anos, cinco, quinze – como eu – ou, poucos, há mais anos ainda).

Será preciso entender que as pessoas que emigram não são embaixadores, é gente que vem trabalhar, com as suas características, boas e más. E nisso, esperando que haja tino patrício, saber da pluralidade de biografias e personalidades. Como em todo o mundo. Que quem vier por bem encontre a tal “good life” e a reproduza em seu torno. Assim espero.

jpt

publicado às 17:52

Uma interessante reportagem de Andrew Harding, na BBC News Africa sobre os portugueses em Moçambique. Enquanto a "comunidade" [termo muito incorrecto pois remetendo para uma inexistente organicidade] portuguesa de Maputo se agita com feixes de mensagens telefónicas e electrónicas, aflita com o recrudescimento da criminalidade e, em especial, com a introdução desta relativa novidade dos raptos para resgate, a BBC intitula a reportagem como "portugueses encontram a boa vida em Moçambique".

São percepções. Ambas algo superficiais. Algo exagerado o frisson face aos raptos ("o que vamos fazer com os nossos filhos?" é algo que ouço todos os dias) mas as percepções colectivas são ... as percepções colectivas. E são sempre realidade, constituem-na. E também superficial a jornalística - mais que não seja porque Moçambique não é uma praia (ver a foto, que encima a reportagem, típico eurocentrismo a dividir África entre o resort paradisíaco, e de fruição sexual, e a miséria radical "biafrense", a mostrar quando estrategicamente necessário). Mas, também neste caso, as percepções jornalísticas são ... as percepções jornalísticas. E também constroem a realidade.

Enfim, quanto ao real. Muitos portugueses a chegarem, a fugir à crise nacional e europeia. Três pontos: a) como qualquer vaga migratória isso vai levantar questões no mercado de trabalho (que aqui assumiram, assumem e vão assumir uma linguagem que remete para as realidades históricas do racismo e do colonialismo). É assim, será assim; b) muita gente chega mal preparada ou seja, com a atitude errada. Altaneira, entenda-se (é também o maldito "complexo do Equador", que torna "doutor" quem o atravessa - coisa que não é de agora). Muita gente não a tem, vem trabalhar e viver. Esta última leva por tabela, catalogada como "tuga" (ou xi-colono) devida à tonta arrogância de uma parcela de patrícios que não percebem onde estão ("senhor(a), você está no estrangeiro" é coisa que muitas vezes me (nos) apetece dizer); c) e há gente patrícia mais antiga aqui a resmungar contra os que chegam agora, "que raio de gente, etc e tal", como se fossem laurentinos enjoados com os colonos rurais, transmontanos ou madeirenses, vindos para o Chockwé nos tempos idos. Esquecem-se, obviamente, que também chegaram um dia (há dois anos, cinco, quinze - como eu - ou, poucos, há mais anos ainda).

Será preciso entender que as pessoas que emigram não são embaixadores, é gente que vem trabalhar, com as suas características, boas e más. E nisso, esperando que haja tino patrício, saber da pluralidade de biografias e personalidades. Como em todo o mundo. Que quem vier por bem encontre a tal "good life" e a reproduza em seu torno. Assim espero.

Finalmente, e regressando à reportagem da BBC, retiro uma citação de Daniel David (da Soico), falando sobre esta chegada de imigrantes portugueses e sobre os processos de que ela deriva e dos que pode causar por cá: "we must expose ourselves to good governance and accountability in order not to have the same problems that Europe is having now ...". Aqueles que vão lendo o ma-schamba há mais tempo podem imaginar o meu sorriso diante disto, tanta a irritação havida ao longo dos anos a ver o meu país sem "good governance nem accountability" enquanto perorava no conjunto de doadores sobre a necessidade de expandir estes conceitos/práticas em África.

Não há dúvida, esta crise vem também, e não só pela disseminação da presença chinesa, alterar o paradigma da cooperação.

jpt

publicado às 10:06

O Emigrão

por jpt, em 24.12.11

 

Um dos excelentes volumes que Manuela Ribeiro Sanches organizou e fez publicar na Livros Cotovia é a colectânea "Portugal não é um país pequeno. Contar o "império" na pós-colonialidade" (2006), 14 preciosos textos dedicados às narrativas coloniais portuguesas [assim mesmo, sem exagero, e dos quais gosto de salientar, com a injustiça do interesse próprio, os artigos de João Leal e de Harry West]. O volume é posfaciado, em jeito de "comentário", por Miguel Vale de Almeida [MVA] com um texto de grande actualidade.

Nele MVA utiliza o célebre episódio do "arrastão" acontecido a 10 de Junho de 2005 para dissecar o Portugal de então (de agora). A explosão do boato de um arrastão na praia de Carcavelos provocado por jovens negros, ditos "imigrantes de segunda ou terceira geração" (em sim mesmo uma expressão sintomática) oriundos de bairros periféricos da grande Lisboa, e que causou uma enorme comoção nacional, reacções abruptas na comunicação social, histeria securitária, manifestações da extrema-direita contra a imigração (e, em contra-corrente, veio mesmo a nomear o mais conhecido blog de esquerda do então crescente bloguismo português).  Na realidade o arrastão não aconteceu, enquanto facto, foi um mal-entendido no local exponenciado pela ligação não-mediada (não demorada, direi) entre os cidadãos (seus telemóveis e computadores) e a imprensa. Nesse eixo de comunicação o rumor assumiu carácter constitutivo do real, e o arrastão aconteceu - não na praia de Carcavelos, como muito bem diz MVA, mas nas mentes e temores de inúmeros portugueses.

O autor retira deste acontecimento duas conclusões sobre as auto-representações de Portugal, por ele desnudadas:

a) o papel da imigração como delas constitutivo. Com efeito na endo-narrativa nacional ao Portugal colonial que "não era um país pequeno" [o volume leva como título a célebre palavra de ordem colonial "Portugal não é um país pequeno", cujo iconografia abaixo reproduzo], imperial, atrasado, anti-democrático, isolado e de emigração, e assim pequeno, sucedeu um Portugal póscolonial, "pequeno" na sua geografia, mas democrático, europeísta, desenvolvido e de imigração, e assim "grande" no seu cosmopolitismo. A transição emigração-imigração é assim uma dimensão crucial da representação da "grandeza" portuguesa, da perenidade desta acrescento eu. Pois ao pequeno Portugal de emigrantes sucedeu-se o grande Portugal de imigrantes [ainda que o autor lembre, já em 2006, o quão factualmente (numericamente) errada era esta ideia, dado o crescimento da emigração portuguesa ser notório];

b) por outro lado MVA frisa que o episódio do "arrastão" e o tom racialista, xenófobo e racista que o rumor assumiu, bem como o das reacções havidas, desnudou as contradições das características subjacentes ao velho discurso lusotropicalista (e lusófono) da inexistência de racismo na sociedade portuguesa, concepções assentes no escamotear das dimensões racialistas e racistas que as produziram em pleno regime colonial. Concepções de exclusão, temor e de crença numa superioridade que, como o episódio mostrou, subsistem na actualidade mesmo que menos explícitas nos discursos do quotidiano.

Nestes últimos dias não pude deixar de recordar este texto a propósito da polémica em torno da entrevista de Pedro Passos Coelho [ler aqui; sobre isso já escrevi 1, 2 3] em que o primeiro ministro terá mandado emigrar os professores desempregados. Esta interpretação da entrevista correu célere, provocando grande comoção nacional: o presidente corrigiu-o, o proto-candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa criticou-o, a oposição em peso também, o sindicalismo bramou, enquanto alguns do seu círculo tentaram uma inábil fuga em frente, em particular Paulo Rangel, ou recuperam velhas declarações desse teor de responsáveis socialistas. Mas nada disso funciona, é apagar fogos com gasolina.

De súbito brotou uma  onda de repulsa pelas palavras de PPC , na imprensa (entre inúmeros exemplos o institucional Expresso dá-lhe capa, a SIC realiza uma entrevista fazendo também intervir, em golpe de asa, questões associadas à "condição feminina") e bloguismo, nas fervilhantes redes sociais, nas conversas (até em Maputo). Coros de protestos surgiram por todo o lado, uma patética carta mandando o governo emigrar tem eco espantoso, a imprensa rejubila, os cartoons sucedem-se, académicos que tantas vezes ouvi protestar contra o excesso e falta de qualidade e de pertinência do ensino superior descentralizado (na multiplicidade distrital e na "universitarização" dos institutos politécnicos) e do privado (explicitamente considerados como produtores de professores lumpenizados) erguem-se, irados, acompanhando escritores, jornalistas e outros fazedores de opinião, e até o mundo de Salazar, aquele produtor do "salto", da emigração clandestina e miserável, é agitado como avatar dos objectivos deste governo, pelas teclas da velhíssima extrema-esquerda delinquente e reproduzida, em catadupa, pelos seus antigos adversários. Também na direita nacionalista se ouvem impropérios, e até já (pelo menos nos passos perdidos do facebook) apelos à expulsão dos imigrantes. Certo que a crise actual acicata os cidadãos contra o poder, e em particular o uso da palavra pública (hoje felizmente tão disseminada) dos sectores da oposição, mas a dimensão e os contornos deste episódio aparentam ultrapassar essas dimensões, (re)iluminando características centrais das representações dos portugueses sobre o seu país.

Na verdade PPC não disse o que se lhe aponta, tudo isto é um verdadeiro Emigrão. Não regresso em detalhe às suas declarações. Mas qualquer leitura desapaixonada poderá constatar que PPC anuncia o fim do ciclo emigratório para Angola [140 000 pessoas, ao que consta, e a esmagadora maioria na última década, após a morte de Jonas Savimbi], algo óbvio para quem viva em Maputo e constate aqui os patrícios regressados ou oriundos daquele país. E que apela a uma reconversão profissional dos cidadãos portugueses. Uma linha de pensamento inversa da que lhe atribuem. Mas o conteúdo efectivo das afirmações não é verdadeiramente importante pois, como muitos me têm afirmado, "não disse mas parece ter dito", denotando o quanto todo este processo ancora numa vontade interpretativa, de adesão ao rumor. De crença, de querer crer. O rumor social assumiu tal virulência que se torna realidade. Fenecerá agora com as festas natalícias e será, já menos potente, recuperado na guerrilha política subsequente.

Mas o que este Emigrão me traz são exactamente os dois pontos que MVA sublinhou no perspicaz texto a que acima aludi, estruturantes da representação dominante sobre Portugal e, como se nota agora, vigentes em contextos que - em parte - aparentam ser ideologicamente diversos. Mas assim bem mais unos do que apartados:

a) o lugar da e/imigração na narrativa actual da portugalidade. Nesta a ideia de uma "grandeza" (cosmopolita, desenvolmentista) de Portugal assenta no facto de ser receptor de mão-de-obra e não seu exportador. Mesmo que essa ideia não corresponda à realidade factual Face à crise financeira e económica actual o normal ascender da realidade da emigração, já duradoura, para a esfera pública, política, devasta a auto-representação (algo mistificada, sublinhe-se) portuguesa - e também por isso a conjugação na indignação da direita mais nacionalista com os sectores de esquerda, e mesmo a sua penetração em políticos ligados à área do poder. O drama deste Emigrão deriva da ideia de que Portugal se apequena, se descosmopolitiza neste processo. O aparente desvaler aos professores excedentários surge como a realidade desvalida do país e do seu futuro. A funda questão não é pois a da referência à emigração pelo poder político mas sim a da sua não elisão, dado o seu carácter poluente. Pois agora que de novo país emigrante como recuperar a "grandeza" nacional, vector considerado necessário na configuração simbólica?

b) a perenidade da visão lusocêntrica do real, a tal manipulação de um lusotropicalismo (actualizado em lusofonia). Com efeito as ditas "propostas" de emigração de professores desempregados para África não são discutidas na sua viabilidade política ou prática, nisso sobressaindo a ideia generalizada de que elas são possíveis e, até, desejadas alhures. Se por um lado isto recupera acriticamente a imagem colonial de uma sociedade portuguesa produtora de civilização alhures através da acção pedagógica (algo tão bem abordado no recente "Livros Brancos, Almas Negras. A "missão civilizadora" do colonialismo português, c. 1870-1930", de Miguel Bandeira Jerónimo, ICS, 2010), torna-se também óbvio que a esta recepção corresponde a ideia do "espaço plano", "afectivo" da lusofonia, o tal espaço lusotropical desprovido das rugas da conflitualidade colonial (e até actual). Mas este complexo da actual representação póscolonial portuguesa é ainda sublinhado pela introdução explícita das hierarquizações consideradas aceitáveis ("naturais"). E isso é cristalino quando discursos sobre a emigração de quadros elevados (inseridos em grandes empresas ou em esquemas multilaterais) não são questionados, incidindo a crítica apenas sobre a hipotética proposta de emigração de sectores não privilegiados. Que, como é óbvio, colocariam em causa a supremacia sociológica e económica da mão-de-obra portuguesa no amplexo lusófono.

Ou seja, tal como no caso do "arrastão" este "emigrão" demonstra bem as dimensões de hierarquização racial e socioeconómica internacionais (póscoloniais) que suportam a representação da portugalidade. E o seu, afinal, pouco cosmopolitismo.

Adenda: aqui fica a o célebre cartaz colonial do "Portugal não é um país pequeno" que dá título (e temática abrangente) à obra de organizada por Manuela Ribeiro Sanches.

jpt

publicado às 03:26

 

Sururu em Portugal. O secretário-geral do Partido Socialista afirma-se "chocado", o líder sindicalista dos professores apela à emigração do primeiro-ministro, meio mundo resmunga contra Passos Coelho, nos blogs, nos jornais, nas redes sociais. O primeiro-ministro, dizem, mandou os professores emigrar, uma espécie de "Arreda", "ponham-se na rua". Eu, professor emigrado, e que sei que se voltasse para Portugal nestes meus quase 50 anos estaria em maus lençóis (ou, para ser mais certeiro, em nenhuns lençóis), fico aturdido. Então o homem diz uma coisa dessas, desrespeitando a classe profissional? Dando trunfos destes aos adversários políticos, ainda para mais nesta altura de grande crise? É inacreditável.

 

Depois, e por culpa do Cachimbo de Magritte vou ler o que o primeiro-ministro disse [aqui]. Vou citar a parte que tanta celeuma provocou. Mas o contexto da entrevista é óbvio, colocam-lhe questões sobre a emigração para Angola e Brasil, e sobre a exportação de bens e serviços para esses países. Depois:

 

CM - Para já, estamos a exportar mão-de-obra, cérebros, massa cinzenta...

PPC- Mas bens e serviços também.

CM- É certo que sim. Mas esteve em Angola recentemente. É um país que pode receber portugueses para trabalhar essencialmente em que áreas? Na Educação, por exemplo?

PPC- Angola não é um destino de mão-de-obra portuguesa, excepto de mão-de-obra muito qualificada.

CM- Não é? 140 mil portugueses...

PPC- Já tem sido. É difícil que possa ser muito mais. Angola já foi, para muitas empresas portuguesas, uma oportunidade de crescimento alternativo ao mercado interno e ao mercado europeu. Tem sido assim, sobretudo nos últimos 5/7 anos. É muito pouco provável que haja capacidade em Angola para absorver muita mão-de-obra portuguesa. O que não quer dizer que não possa ainda vir a receber certo tipo de mão-de-obra muito qualificada em certos segmentos.

CM- Por exemplo?

PPC- Em tudo o que tem a ver com tecnologias de informação e do conhecimento, ainda em áreas muito relacionadas com a Saúde, com a Educação, com a área ambiental, com comunicações. Todas estas que referi, além das tradicionais, que já lá estão implantadas e que têm que ver com infra-estruturas nos mais diversificados domínios, infra-estruturas rodoviárias, marítimo-portuárias, ferroviárias, logísticas. Como sabem, as empresas portuguesas, desse ponto de vista, não ficam a dever nada às grandes empresas estrangeiras que estão implantadas em Angola.

CM- Por exemplo, aos professores excedentários que temos, e temos muitos, aconselharia a abandonarem a sua zona de conforto e a procurarem emprego noutro sítio?

PPC- Em Angola e não só. O Brasil também tem uma grande necessidade, ao nível do ensino básico e secundário, de mão--de-obra qualificada. Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm, nesta altura, ocupação. E o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. Estamos com uma demografia decrescente, como todos sabem, e, portanto, nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma, ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa.

 

Ou seja, perguntam ao PM o que se pode exportar para Angola e Brasil, dada a crise na Europa, nosso grande mercado. Perguntam-lhe que áreas de actividade serão as melhores em Angola. E as mais chamativas para emigração. Ele refere algumas, em áreas determinadas e em trabalhadores de elevada formação. Perguntam-lhe se os professores excedentários poderão emigrar para  Angola. Passos Coelho já tinha referido (algo que todos sabem): a) há crise generalizada; b) há desemprego.  E sobre esta matéria do futuro profissional dos professores diz: c) há falta de alunos, há excesso de professores; d) há crise demográfica, o que torna o problema de longo prazo; e) não há mercado privado para substituir os empregos estatais. Pelo que os desempregados devem tentar alguma formação e de reconversão profissional (a crise no sector é, entenda-se, de longo prazo). Ou então em "querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa". E mesmo neste caso tem a lucidez (raríssima em políticos de Lisboa) de remeter essa hipótese de uma emigração de docentes fundamentalmente para o Brasil, pois é óbvio que a integração de docentes portugueses nos sistemas educativos africanos levantam questões que muito ultrapassam a vontade migratória.

 

Conclusão dos seus oponentes, Tó-Zé Seguro à frente? O primeiro-ministro mandou os professores desempregados emigrar! Eu consigo perceber muitas das pessoas que escrevem na internet repetindo que o tipo é que devia emigrar. Qualquer tipo que tenha um blog e, principalmente, um mural de facebook sabe que há imensa gente que pura e simplesmente não lê o que clica (o célebre "like" do facebook) e o que comenta. É a urgência de ser, de existir, através do cliquismo, da assinatura na petição, no urro, no choro. Há imensa gente que vive no eco, nada mais.

 

Mas aqueles que têm algum tipo de responsabilidade, e nisso vai à frente o Tó-Zé Seguro, que tralha é esta? É pura desonestidade intelectual. E se nunca é altura para essa politiquice no estado em que as coisas andam muito menos o é. Este é aquele tipo de manipulação rasteira que deve ser cobrada. Com apupos. E, mais do que tudo, com votos.

 

jpt

publicado às 04:49

Frango com piri-piri

por jpt, em 03.12.11

Nando's é uma cadeia de comida-rápida, com todos os defeitos que essa "linha de trabalho" apresenta. Por outras palavras, a experiência gastronómica não será saudável e o palato não sai particularmente recompensado (pelo menos para um palato minimamente educado). Tem como característica muito particular ser de origem portuguesa, mais exactamente "pôrra" - meus patrícios deslocados de Moçambique para a África do Sul fundaram o grupo em 1987 (ler a história do grupo é interessante, pelo enraizamento que faz numa simpática versão da história portuguesa e da sua - algo mitológica - gastronomia).

No fundo Nando's capitalizou (e bem) a imagem de excelência que os sul-africanos tinham da gastronomia portuguesa em Moçambique - o "frango grelhado com piri-piri" deliciava sul-africanos (boers ou britânicos) - fanáticos, como se sabe da vaca na grelha - e juntamente com o camarão, as praias de água quente (e o sexo interracial com prostitutas baratas) fazia de Moçambique um lugar de idílio no tempo colonial para os turistas sul-africanos (já o jogo, item cultural da cultura vizinha, era mais para os bantustões).

[Como se vê as apetências turísticas não mudam muito com o tempo. Talvez fosse bom pensar nelas quando se apregoa o turismo como vector de desenvolvimento - mas não é disso que me ocupo neste pacífico sábado matinal.]

Hoje em dia o grupo está espalhado pelo mundo, qual império de Carlos V. Um sucesso fruto da sua manipulação do piri-piri. Mas não só, pois nos tempos de hoje um política empresarial implica a publicidade (dita, pelos ideólogos do sistema, comunicação). De quando em vez a Nando's surge com um anúncio (ou reclame) bem sacado. Agora um novo faz as delícias e polémica no país vizinho

E funciona, juro que na próxima vez que for ao mall (xóping center, em português) de Neilspruit me sentarei no Nando's.

jpt

publicado às 12:20

( Agamemnon)

 

 

"Ainda tens blogue? Isso é tão primeira década do século...", no ABC do PPM

Manuel Maria Carrilho num excelente "Indignados ... e depois". Um excerto: "

"Tudo hoje aponta, a meu ver, para o facto de a crise que estamos a viver exigir uma revolução no modo de fazer política. Mas uma revolução que aumente a sua eficácia, e esse é sem dúvida o grande problema que os movimentos de “indignados” enfrentam. Porque é bom não ter ilusões: a indignação, apesar de ser um forte detonador mediático, é na verdade um fraco operador político. A razão é que, por um lado, ela combina bem demais com a insatisfação típica do individualismo contemporâneo e da sua interminável reivindicação de direitos. E, por outro lado, porque ela se apoia mais em sentimentos do que em ideias, e acredita mais em palavras do que em programas."

No meio do folclorismo e do linearismo da palavra pública Carrilho é um teclado raro. Único?

"Se a palavra perde o acento, os novos dicionários (consulte-se o mais recente Houaiss, em dois gordos volumes já sob a designação de “Atual”) reservam um parêntese para explicar que aquele “o” vale “ó”. Ou seja: o que a própria palavra indicava sem dúvidas agora vai exigir um professor aplicado ou um dicionário à mão. Excelente negócio.", em "Nem Saramago escapa", artigo de Nuno Pacheco no jornal Público, transcrito no ILC Contra o Acordo Ortográfico.

Já agora, face a tanta contestação a este serôdio produto Acordo Ortográfico (campanhas de cidadania, refutação por parte da elite intelectual e artística, recusa de jornais de referência), que tem a dizer Francisco José Viegas, secretário de estado da Cultura?. Sim, é um adepto do acordo, foi-o dizendo ao longos dos anos. Mas como governante, que diz à sociedade? Ou por outra forma, para além do respeito e da amizade (e do confradismo bloguístico) que lhe dedico: o acordo é uma decisão política criticável (em meu entender, que é claro que não é absoluto, inculta). E ao governante cumpre deixar cair a cabeça no cepo, auto-imolando-se para defender o disparate por outros cometido, e por ele defendida. E a nós, cidadãos, cumpre decepá-lo. Se Agamémnon sacrificou a filha em busca de bons ventos bem que podemos sacrificar um confrade em busca dos nossos acentos.

A Líbia como mundo tribal, mero objecto dos líderes da Santa Aliança, diz-nos José Pacheco Pereira. Não me chega.

Homenagem a Eugénio Lisboa, um homem (também) daqui. Sobre EL ainda um texto Francisco Seixas da Costa.

Eu Quero Emigrar: Web site que proporciona aos clientes acompanhamento e ajuda em todo o processo de emigração, repara o Paulo Pinto Mascarenhas, algo sintomático sobre a situação de Portugal.

Recordo que há cerca de duas semanas deixei no meu mural do facebook um "estado" (de espírito), explicitando que não tenho contactos nem conhecimentos que possam facilitar a obtenção de empregos/trabalhos aqui em Moçambique para candidatos a imigrantes portugueses. Isto devido aos constantes pedidos de ajuda/informação que vinha recebendo nos últimos meses, algo potenciado pelas ligações via facebook e blog. Mas continuam, na última sexta-feira estando no meu gabinete a escrever deixei o "chat" do facebook disponível. Em 50 minutos três pessoas (uma amiga, um natural de Moçambique até com conhecimentos comuns, um "amigo-FB") surgiram a pedir informações. A coisa está frenética.

As Crónicas do Planeta Oval, de Pedro Picoito no Cachimbo de Magritte foi o melhor que li em português sobre o Mundial de râguebi. Obrigado.

"A Mascote", de Fernando Sousa no Delito de Opinião, uma dolorosa memória sobre a guerra colonial em Moçambique. Tem subtexto? Terá, mas essa é a condição do memorialismo.

"Algumas ideias sobre a Europa", de Luis Naves no Forte Apache. Bem calibradas. E também a fazer-me lembrar o "Porreiro, pá!" do Tratado de Lisboa.

"Compreender a Dívida Pública", porque é tudo muito mais complexo do que o clubismo diz. Encontra-se no Klepsýdra.

jpt

publicado às 08:03

Uns imigrantes na Matola

por jpt, em 03.09.11

[Matola-rio]

 

Visito patrícios ali na Matola-rio, coisas do convívio das nossas filhas, também eles regressados de férias na terra. Eu, o pai de cá, e ele, o pai ali, partilhamos as nossas 2Ms e as impressões de como "aquilo" está. Algo angustiados, claro, a "pátria amada" não o é menos porque longínqua. Grave a situação, concordamos. E generalizada, que o que se passa no toda a Europa neste Agosto é aflitivo. "E os gregos e os espanhóis, como protestam! Como se manifestam! Onde é que aquilo acabará?", diz-me o patrício amigo. "E os portugueses nada", concordamos.

 

E ocorre-me, de súbito e de rajada: "Hé pá, os portugueses sabem como é. Os gajos manifestam-se, a gente emigra." E rimo-nos. Entristecidos, até. Ele diz-me "vou buscar mais umas", 2Ms claro. "Tá bem", respondo. E falamos de outras coisas.

 

jpt

publicado às 20:28

Nós e os outros

por jpt, em 23.07.11

[Colagem de Pep Ventosa]

 

Talvez por mera coincidência ultimamente tenho sido quase sempre servida por portugueses quando viajo pela Europa. Numa viagem recente, a camareira do meu quarto no hotel em Geneva era portuguesa; a senhora que limpava o meu quarto de hotel em Amsterdão era portuguesa; a rapariga do restaurante em Zurique, era portuguesa. Portugueses também o rapaz do balcão do Costa Caffee em Heathrow e da baiuca de café em Schiphol. E poderia continuar a enumerar este tipo de encontros por essa Europa fora.Mas o que hoje aqui me traz, a este post, foi a deliciosa conversa que tive com a camareira de Geneva. Perguntei-lhe se gostava de estar na Suíça – pergunta aliás que faço quase sempre pela geral candura das respostas e por nos levar na senda da diáspora familiar. Sim, gosto muito. E contou-me a partida do pai (a salto), primeiro; as dificuldades de um início de vida; a vinda dela ainda criança e da mãe que a ele se juntaram; a língua que não entendiam, os costumes que não conheciam; os quase 40 anos de vida expatriada... Mas dantes era melhor, sabe?, agora já não é a mesma coisa; agora vêm para aí os da Europa do Leste. E remata num abanar de cabeça desaprovador: Isto está a ficar cheio de estrangeiros!

 

AL

publicado às 03:27

Onde está Luís Amado?

por jpt, em 23.05.11

 

Para além da pobreza generalizada que este filme mostra, uma prostituição da política que demonstra bem a essência do PS XXI, refiro as declarações da imigrante moçambicana participante no comício do PS em Évora: "vem da embaixada de Moçambique ... vem da embaixada de Moçambique para aqui ...

 

Abaixo liguei outro filme onde outro imigrante moçambicano referia o mesmo facto. Noto que ambos têm um frágil português, denotando fragilidade socioeconómica: é óbvio que não são imigrantes actuando em defesa dos seus legítimos interesses políticos - como encontro afirmado por João Roque dos Santos, um "jovem socialista" da Jota, lesto a defender o indefensável, deturpando a realidade e amesquinhando aqueles que, verdadeiramente, se atrevem a ter posições de cidadania em terra estrangeira, e quantas vezes tão difícil. (um verdadeiro exemplo da "alma socialista", é decorar o seu nome que daqui a uns tempos irá longe).

 

Sem rodeios, onde está Luís Amado, o ainda MNE português? O que tem a dizer disto? Ou considerará normal que as embaixadas intervenham na campanha eleitoral?

jpt

publicado às 13:24

Patrícios em Moçambique

por jpt, em 18.05.11

 

Muitos os patrícios que chegam a Moçambique, ainda que não saiba os números. Há o caso particular, sazonal, desses "contactos" do AICEP, um escândalo de programa que tem gasto milhares ao longo dos anos e o qual consiste em pagar estágios no estrangeiro a jovens licenciados, que aportam a empresas que, na sua maioria, não estão  interessadas/preparadas para os receber. Basta falar com uma meia dúzia para perceber a radical ineficiência disso tudo (para exemplo-mor há alguns anos a mão-cheia de "contactos" em Moçambique foram proibidos de trabalhar, andaram para aí meio ano sem nada para fazer, pois ninguém tinha assinado protocolo inter-estatal que lhes permitisse aqui trabalhar). E, para além das ineficiências que se vão acumulando e da decadência dos critérios de selecção, o pérfido é a base disso: o Estado (via AICEP) paga a jovens para que eles preparem a emigração. Chama-se a isto, no jargão de Basílio Horta, "internacionalização". Mas para o assunto aqui abordado isso é assunto de somenos, apenas mais uma nulidade do poder que sofremos.

 

Regresso aos (i)migrantes patrícios. Uns jovens, outros menos jovens, coisas da sociologia portuguesa. Emigrantes, como eu. Não vou entrar em generalizações, ainda para mais falando de cima do palanque do senso comum. Sei de outra coisa, que chegam muitos, e que encontram um ambiente bem diverso daquele que ocorreu em finais de XX, aquando terminava a década de 90, onde a parvoíce do "Regresso dos Portugueses", imbecis títulos com que Expresso (Maria João Avillez, um texto tétrico) e Grande Reportagem (Francisco Camacho, um escroque) inundaram as mesas de Maputo, reforçando as feridas nas sensibilidades locais. Lembro o frisson provocado por uma entrevista de Manuel Tomé, homem afável, então secretário-geral da Frelimo, quando referia o desconforto com a chegada de portugueses para "abrir sapatarias e talhos". E ainda mais a entrevista do então cardeal de Maputo, homem gentil, que no "Domingo" se indignava com a quantidade de brancos que se viam na cidade, em particular nos restaurantes da Nyerere. Com as constantes notícias nos jornais sobre "malevolências", umas decerto que existentes outras verdadeiramente inventadas (lembro-me de ter publicado no Domingo uma carta defendendo um amigo vítima de uma iníqua campanha de calúnias no "independente" Savana).

 

Hoje em dia é diferente. Mais uma década passou sobre a independência e as feridas do colonialismo. A esmagadora maioria da população é jovem, não estruturou a sua concepção do mundo nos "tempos". Cahora-Bassa, essa cruz maligna nas relações entre Estados (e sociedades), foi entregue tal como estava contratualizado (mas não foi "revertida", ficção nacionalista local que os portugueses não têm que assumir, apesar de Jaime Gama o ter, diligentemente, feito).  A elite moçambicana, e a própria sociedade, está mais aberta ao mundo, menos temerosa da invasão estrangeira, fruto da economia do mercado e do fim da ficção da auto-suficiência, da perenidade da paz, da globalização, da entrada em múltiplas frentes internacionais, do processo de integração regional, das articulações económicas em vários palcos, das imigrações paquistanesas, centro-africanas, chinesas, até brasileiras e americanas ligados a grandes empresas, etc (ainda que sendo processos muito diversos todos significam a entrada de assinaláveis quantidades de estrangeiros no país). E está mais aburguesada, ou seja há criação óbvia de uma pequena-burguesia bem mais vasta do que há uma década. "Por fim, mas não menos importante" a elite socialista portuguesa, profundamente imbrincada nos negócios, estabeleceu competentes relações com a elite económica moçambicana, o que sendo acima de tudo benéfico para os interessados des-demoniza o "tuga" ao nível das elites. E há, claro, a "almofada" ismaelita. Assim de rajada é um conjunto, incompleto, de factores que produzem uma menor crispação face ao surto de imigração portuguesa, pessoal e empresarial em Moçambique (em Maputo?).

 

Sim, não há hoje as constantes investidas políticas e mediáticas que aconteciam em finais de 1990s contra interesses ou imigrantes portugueses. Estes vão crescendo, dizem-me que em Portugal há, não só uma crise de país adornado mas também a ideia de que "Moçambique está a dar" (ecos das pesquisas de petróleo e do carvão, confusões sobre destinos austrais, escolha-se). Enfim, à vista desarmada é óbvio que há mais patrícios em Maputo.

 

Eu, aqui imigrado há 14 anos, tenho algum conselho de mais-velho? Tenho. Não se esqueçam de que estão no estrangeiro. Há tiques, deixemos-nos de rodeios, há tiques inadmissíveis. Não são generalizados, mas por cada tuga que julga que pode partir a loiça por dá aquela palha é uma imagem que se reproduz para todos os outros. São, e é uma imagem que vem do tempo colonial, os "matrecos". A falar de alto com a pretalhada. Ainda há. São a minoria. Mas ainda há. Uma vergonha. E uma violência para os patrícios médios, com seus defeitos e qualidades, que assim ficam(os) grudados à imagem do boçalismo patenteado por aqueles a quem a febre do Equador atacou.

 

Depois há boa gente, má gente, e acima de tudo média gente. A arriscar(mos) na vida, a tentar fazê-la o melhor. Muita gente a chegar - e eu à espera de que o ambiente vá virar um pouco. Um pouco à imagem de há 20 anos atrás em Portugal quando aquelas turbas de tipas e tipos vestidos de fio dental a sambarem, apaneleirados, nos gélidos e chuvosos carnavais de Torres Vedras, Lourosa ou Sesimbra, a masturbarem-se com o Rubens de Falco ou a Sónia Braga, que de repente viraram inimigos mortais dos malandros dos "dentistas brasileiros", filhosdaputa a roubaram-nos o trabalho. Ou seja, não será o problema político, das imagens políticas de há alguns anos atrás, até do confronto face às elites políticas e económicas, será o eterno problema da concorrência no mercado de trabalho que poderá criar problemas na recepção do surto migratório.

 

Sem exagero, e assim de repente até a mim, falido professor, me chegam constantes pedidos de apoio ou informação. O que fazer, que trabalhos, a quem perguntar, como se estabelecer (honestamente eu devia era passar à ilustre profissão de "facilitador", pelo menos alguma melhoria económica sentiria). Ora quando um antropólogo desvalido é fonte de informação a consultar para enquadrar processos migratórios é porque há muito movimento. E gente desapoiada.

 

De tudo um pouco. Gente muito competente (a semana passada um familiar de familiar passou por cá, no intuito de criar uma filial, deixou-nos um portfolio da actividade do seu atelier, de uma qualidade fabulosa), gente média (somos a maioria). E gente fraquinha - no raio das atitudes, sim, os tais "matrecos". Mas também gente muito mal preparada. Hoje, e é a causa para este despejo apressado, ainda que há muito pense em escrever algo (mas mais cuidado) sobre o assunto, recebo mais uma mensagem, um jovem perguntando-me por "agências de recrutamento" (!!??) para trabalhar em Moçambique. Nisso apresentava-se como licenciado, preparado para trabalhar em 2 ou 3 áreas de actividade, entre as quais "recursus humanos" (?!).

 

Assim estamos mal ... Mas há trabalho para "recursos humanos". Não matrecos.

 

jpt

 

publicado às 02:21

[imagem encontrada aqui]"Raro final de tarde no Mundo’s, entre 2M’s e Jamesons está a mesa composta, e mais se irá compondo com os saídos da Mtomoni, esses acorridos ao dia da “pátria amada” deles ou doutros.". Nisto chega um patrício e anuncia, sonoramente corrosivo: "Somos o maior exportador mundial de cortiça!". O quê?, resmungamos incompreendendo-lhe a oportunidade. "Veio cá um secretário de estado qualquer dizer-nos isso no discurso do 10 de Junho". E rimo-nos, bastante, joviais os vizinhos, (muito) amargos os patrícios.E lembro-me de um outro desses, Vitalino Canas, em poses semelhantes. Mais do mesmo, está visto. Quem escolherá estes bimbos?Adenda: abaixo na caixa de comentários o veterano comentador "Lowlander" explica das razões dessa produtividade. Convém ver, e nisso se sublinhando a parvoíce argumentativa de Sua Excelência.jpt

publicado às 09:05

Emigração

por jpt, em 19.02.10

 

CONSULADO GERAL DE PORTUGALMAPUTO

Envio as minhas saudações à comunidade portuguesa na área de jurisdição deste Consulado Geral e gostaria de informar que S.Exa o Primeiro Ministro de Portugal, Eng. José Sócrates, visitará oficialmente Moçambique, nos próximos dias 3, 4 e 5 de Março, acompanhado de vários outros membros do Governo e de uma delegação de empresários.

Sem prejuízo de informações adicionais que entretanto serão enviadas, gostaria desde já de salientar a intenção de o Primeiro- Ministro se encontrar na ocasião com a Comunidade Portuguesa, no dia 3 de Março, primeiro dia da visita.

Toda a comunidade portuguesa está convidada para este encontro. Porém, por motivos de segurança, as pessoas que nele tencionarem participar deverão estar munidas do respectivo convite, para exibir à entrada, facilitando a entrada no recinto. Os convites deverão ser levantados neste Consulado-Geral, a partir da próxima quinta-feira, dia 25 de Fevereiro, dentro do horário de abertura ao público, ou seja, das 8,30 às 14 horas.

[Comunicação divulgada pela Cônsul-Geral de Portugal em Maputo, a excelente Graça Gonçalves Pereira. E aqui transcrita por jpt]

publicado às 17:17

(N)A "Pátria Amada"

por jpt, em 04.01.10
Lisboa

 

1. Inverno. Um calor de estalagmites.

 

Dizer

[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]

 

2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à "terra" é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto.  E depois ... basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano "horror").

 

 

avc

 

3. A gula. Crise? E é um "trocadilho" fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais ... Aliás, a cada um o seu sapatão.

 

 

paulo duarte

 

4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: "Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo". Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!

 

pai natal

 

5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos "entes queridos", esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ....

 

stuyvesant logo

 

6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.

 

Corcunda de notre dame

 

7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.

 

asterix

 

8. Cultura. Na revista "Os Meus Livros" (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna "Caldeirada de Letras" (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: "Astérix Ortografix". A propósito da edição do "O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro" (fraquinho, já agora) uma crítica as  novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).

 

Artis

 

9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante "Sinal Vermelho"), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas - aprecio o acto). Mas mais do que isso - e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala - de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e - aí sim, lamentavelmente - desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ....

 

onesimo marx e darwin

 

10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este "De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias" (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: "Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude - a arethé grega - que não poderá nunca ser legislado." (125)

 

sporting logo

 

11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão - como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto "Projecto Roquette", é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela "falta de alternativas".

 

fnac

 

12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas "ruas da amargura". Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada "literatura leve", a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma "plana" - em particular expressa nos registos da "exo-ajuda" e do chamado "romance histórico".

 

Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate - aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o "estado da arte" a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:

 

1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O'Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.

 

Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.

 

Charme Discreto da Burguesia 2

 

13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.

 

Ler Dezembro 2009

 

14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna "Booktailoring", de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado...) o texto "Um jogo entre linhas" que aponta os "jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009". Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: "tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica", resmungo-me. Pois na "selecção nacional" deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler... Absurdo. Mas um absurdo sintomático.

 

jornal i

 

15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um "é de direita mas ...". Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta ...

 

Jose Cutileiro Bilhetes de Colares

 

 

16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um "apelo às dádivas". Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção "Horas Extraordinárias" que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo "Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)", "porventura" de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que "Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa." (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: "Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja...". Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos...

 

fontes pereira de melo

 

17. Política. Nenhum dos meus amigos - desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o "fontismo" cansado, travestido de "desenvolvimento", do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?

 

Amalia

 

18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão "de ir às lágrimas". Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso "não aprendi nada". E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?

 

Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito  -  que se pretenderia? -  é atirado para um "posfácio", de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem  modismo para "espantar a classe média baixa". Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz "arte!". Olhar um cilindro branco com espelho atrás, "um artista (Amália) solitário no palco". Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual - com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto "contemporâneo" faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?

 

Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: "ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976"... Xailes no chão?!

 

sahara ocidental

 

19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal "i", anunciando que Marrocos é "o polícia da Europa". O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta "política real". Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo "alqaediano" seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão - como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de "fundamentalismo"/"integrismo" islâmico quando Marrocos  procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.

 

Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o "distante" assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma "causa justa" e pronto. Aliás, prontos ...

 

 

20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande ...

 

 

Liceu Camões

 

21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos "bons tempos" em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de "progressistas", até gente oposicionista germinada no velho Liceu - mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que "eles" até a "doutores" vão.

 

k-el-quijote-de-la-farola-web1

 

22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a "punição" que Guevara lhe fez).

 

Korda6Korda5 Mão de Fidel

 

Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu "gigantismo". A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.

 

Korda1 - mulheres

 

Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de "cosmopolitismo" (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do "fidelismo", de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.

 

Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo - que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção "fidelista", obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão - coisas que tão bem "sabem" para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que "a exposição é daquelas que se recebem". E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.

 

gravata

 

23. A gravata. Penso que foi no jornal "Sol", uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos "sossegar", afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.

 

Escaparate

 

24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor - desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: "a literatura é o que tem que ser!". Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta "V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?", ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, "Nenhuma". A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me "queres ouvir isto?" e eu, mais assim como eu, logo riposto: "tira essa merda!".

 

Rolling-Stones-Let-It-Bleed

 

25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da "Fanfarra para um homem comum" e logo surge a  "You can't always get what you want" dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca .... uma castanha assada.

 

coppola tetro

 

26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.

 

jose policarpo

 

27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a "indiferença, agnosticismo e ateísmo" na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre "indiferença" e "ateísmo". Que "indiferença"? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum ...

 

Homem em Furia

 

28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: "Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro."

 

record

 

29. Acordo Ortográfico.Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são "encenadores" que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record - pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da "presença" e "expansão" da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em "desejos pensantes"), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a "escrita é uma convenção" dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a "grafia não influencia a fala", dizem "professores" sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).

 

Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso ...

 

cafe bica

 

30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma "bica" (aliás, "café", "expresso", "italiana") decente. Os estabelecimentos  comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?

 

PResepio

 

31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, "Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da "família". Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.

 

Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): "ser punk em 1980 ..." (onde é que eu já li isto? ...).

 

enchidos

 

32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao "estado do país", claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num "isto está mau" - mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me "O casamento é um contrato entre dois indivíduos". Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista ... tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.

Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem - e até já veio - exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?

 

PortoVintage

 

33. Ideias Feitas?. "À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao "estado do país", claro. Donde ao casamento homossexual - que o resto foi resumido, como sempre, num "isto está mau" - mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação" [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação - e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar - quando um conviva comensal rematou, glorioso: "vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos".

 

Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre ...

 

bachhaydn

 

34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música - um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia - deixo-me, como sempre, a "olhar" público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada "civilização", forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos - nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais "burgueses" à Praça de Espanha, mais "populares" (menos "cívicos", menos "civilizados") em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.

 

Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.

 

Jornal de Letras 1

 

35. A cremação da dita e ainda das suas primas. Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, "dez anos de letras, artes e ideias". Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das "ideias" ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, "História do Pensamento Filosófico Português", coordenada por Pedro Calafate, "Portugal Extemporâneo" de Carlos Leone). Depois ... Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o "Portugal Medo de Existir" ("os portugueses são ...").

 

Entenda-se, dois artigos sobre "ideias", um sobre "ensaios". Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de ... olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].

 

É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

 

inhamabane

 

36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.

 

jpt

publicado às 17:37


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