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O Ocidente

por jpt, em 08.01.07

Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa, ou no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde ao modelo spengleriano de um apocalipse racional – ora que só poderá ressuscitar através de uma transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo”. A estes pertenceria a verdadeira “alma”, e a beleza da negritude e do Eros. Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente, e devendo ser compreendido ao mesmo tempo em termos psíquicos e sociais” (70-71)

E também é verdade que a própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (...) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pós-voltairiano. A nossa incapacidade presente de enunciarmos com clareza estes traços manifestos, de convivermos com eles fora de uma rede de culpabilidade e impulsos masoquistas, levanta problemas graves. Na tentativa de aplacarmos* as fúrias do dia de hoje, denegrimos o passado. Manchamos a herança de grandeza em que, sejam quais forem as nossas limitações pessoais, somos convidados a participar pela nossa história, pelas nossas línguas, pela couraça, e se se quiser pelo fardo, da nossa pele. De resto, as evasões, as autonegações e reformulações arbitrárias da memória histórica a que a culpabilidade nos impele são, de um modo geral, inconsistentes. (...) Quase todos os gurus e publicistas ocidentais que apregoam o novo ecumenismo penitencial, que se declaram irmãos de sangue da alma sublevada e vingativa da Ásia ou da África, não vivem mais do que uma mentira retórica. No sentido mais crítico da palavra, encontram-se numa situação falsa. Em virtude das falsas fidelidades a que obriga, esta situação desgasta ainda mais as nossas reservas de inteligência e afectividade. Se quisermos compreender em que pontos, em termos políticos e sociais, o passado clássico errou, teremos que reconhecer não só a incomparável força de criação humana desse passado, como também o que, de modo problemático mas persistente, a ele nos liga” (73-74)

*No texto traduzido surge “aplicarmos”, mas presumo que seja gralha 

George Steiner, No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas Para a Redefinição da Cultura, Lisboa, Relógio d’Água, 1992 (1971) [tradução de Miguel Serras Pereira] - atente-se na data da edição original.

publicado às 11:05

Durão Barroso,

por jpt, em 28.06.05

na sua primeira deslocação a África no seu actual posto esteve cá este fim-de-semana (depois da África do Sul e antes do Congo - sempre me fascinou a resistência física de alguns políticos, em especial os ligados à política externa. Autênticos atletas).

Dois pontos: um, de vital importância económica mas ainda mais simbólica. Foi assinado o acordo de financiamento para a ponte sobre o Zambeze (UE + 2 países membros, talvez Itália e Holanda, não estou certo, e qualquer jornal o poderá indicar). Algo absolutamente crucial, finalmente possibilitando uma ligação rodoviária directa norte-sul. Pois a ponte D. Ana (Sena-Mutarara) é uma alternativa muito falha, ainda que as estradas secundárias aí sejam uma maravilha paisagística - mas falo de economia, não de passeios.

O segundo é o que transpira. Moçambique é um dos países topo no universo ACP, no respeitante à utilização da ajuda externa europeia (Lomé/Cotonou). Diga-se mesmo topo, topo, topo. Ao que consta não há melhor. E é um constar não moçambicano. Mérito de quem aqui executa, os nacionais e os expatriados.

Um bom amigo moçambicano a quem avanço este nada diz-que-diz logo remata, irónico (mas agradado) "Hi, como serão os outros!...". Sim, como serão os outros. Mas ao mesmo tempo, uma brecha no niilismo de alguns. Os niilistas daqui e os niilistas de além. É um suporte ao gradualismo. Esperemos que assim continue.

E um abraço a alguns dos meus amigos gradualistas.

(O gradualismo não é moralista. Nem fervoroso do óptimo. É desenvolvimentista.)

publicado às 01:26

Dívida e Ajuda a África

por jpt, em 21.06.05

Devagar, lá se aflora a política blairiana (Anglo-americana) para África, e começam as críticas, claro está, como se ecoa aqui por exemplo. (Dentro de em breve veremos Bush ser acusado de estatista, de esquerdista, de etc e tal).

Em tudo isto está presente, lá no fundo, a angústia da intervenção política na economia. E daí o primado da recusa da política de ajuda.

Honestamente não creio que mais Ajuda Internacional e que o Perdão da Dívida venham resolver o problema do desenvolvimento em África. Tenho muitas dúvidas, tal a complexidade do(s) problema(s). E tal o(s) constrangimento(s) do(s) mercado(s). E porque também me parece que uma metodologia ultra-liberal não arrancará África do subdesenvolvimento.

Mas tudo isto não cabe num post. Não por falta de espaço. Acima de tudo por falta de saber deste Jpt. E neste caso se tivesse algo a dizer de relevante, relevante mesmo, ia vendê-lo, não o machambava gratuito. Mas não tem.

Tem apenas isto, o gemido da corrupção, da falta de liberdade, da inutilidade desta política, desta crescente ajuda e perdão de dívida, ancora não só no referido dogma da intocabilidade da economia. Ancora também numa monumental ignorância. Ignoram os processos político-económicos liberalizadores que foram adoptados/impostos/induzidos e controlados numa variedade de países africanos. Se correctos, benfazejos, desenvolvimentistas, não é o que discuto. Mas que desde há, grosso modo, 15 anos foram espalhados: desestatização das economias e das sociedades, democratização multipartidária, primado da good-governance. Em alguns países surgiu a imagem (tão portuguesa) do "bom aluno", noutros não.

Não digo que funcione, não juro a certeza. Mas vir, a seco, agitar papões sem olhar para o processo, semicerrando os olhos a essa "áfrica" todajuntamiserávelselva, isto é duracell, "e escrevem, e escrevem, e escrevem"...

publicado às 13:20

O perdão da dívida (e Portugal)

por jpt, em 12.06.05

O perdão da dívida a 18 países paupérrimos. Agora. Outros, faseados, se seguirão. Uma grande campanha internacional, uma grande iniciativa política. Não a resolução do problema da pobreza radical, mas também não mero paliativo. E também semi-corolário de um conjunto de dispositivos político-administrativos impostos e apoiados. Portanto não apenas dádiva.

Moçambique foi abrangido, por ser do clube dos mais pobres, triste título. Mas por ter realizado ou estar a realizar vários dos processos sugeridos e/ou impostos. Apesar do niilismo (exógeno mas às vezes também endógeno), esse que se recusa a ver coisas boas porque as há más.

[Recordo que no final do milénio passado, ainda no tempo do ministro das finanças Sousa Franco, Portugal perdoou grande parte da dívida moçambicana, acho que 82%, não estou certo. Um bom passo na altura. Mas nem isso conseguem estrategizar. Mais que não fosse isso.

Constato, nada surpreendido o relativo silêncio português sobre o assunto. Nada que tenha visto na imprensa nos últimos dias. Ontem na RTP o telejornal deu a notícia lá para o fim, apenas um pouco mais de tempo do que o desabamento de terras na China e o Harrods com produtos portugueses, o sal português como coqueluche agora, é assim que lá se olha o mundo. Sobre a questão nem um comentador, nem um comentário, nem um especialista, nem um político. Uma vergonha, este umbiguismo, este vazio.

Hoje nos jornais "de referência" portugueses nem uma chamada de primeira página. No bloguismo luso pouco pouco, que tenha visto (uma pequena parcela, que ele é já infinito, país que somos de bloguistas) apenas uma ou outra referência. E, perdoem-se-me os maus fígados, mais referências ao Sr. Blair, socialismo oblige, do que à verdadeira questão.

Esmorece o país no pequeno quotidiano. E quando, em bico-de-pés, espreita para além do muro ainda o faz apenas a alimentar as tricas internas. Nem cabotagem é, mera lagoa. Ou charco?

A ver vou o telejornal público. Será que acordaram, na ressaca do tintol e da sardinhada?]

adenda: a desradicalizar a coisa, que nos blogs se vai falando: The Serendipitous Cacophonies, o Golfinho (Bono, pois claro) entre decerto muitos outros. Não será um must, mas há gente atenta, bem haja.

publicado às 17:41

Gulag=Guantanamo=Nazismo=Ruanda

por jpt, em 01.06.05
- Sim, sim...bem, tira lá o Ruanda.
- Porquê?
- Porque é diferente dos outros.
- Porquê?
- Bem ... uhhhh, uhhhh...
- Porquê?
- Bem ... uhhh, uhhh ... bem, aqui só entre nós esse não me serve para as minhas discussões.
- Porquê?
- Bem...uhhh, uhhh, tu também....enfim, esses gajos não são pretos?
- Porquê?
- Bem ... és um mal-criado.
- Porquê?
- Adivinho o que estás a pensar.
- Uhhh...Uhhh

publicado às 12:57

...

por jpt, em 28.11.04
(Rui Assubuji)


Sim, já aqui deixei esta Velha que o Kiko captou algures, e que nos é oferecida no livro colectivo Imagem Passa Palavra.

Mas trago-a outra vez, por ela que tanto o justifica, mas também pelo texto que a acompanha, "A Velha a Rir". A autora, Hélia Correia, é escritora, não lhe exijo requebros e cuidados de ensaísta, de gente das academias, a esculpirem conceitos antes das botaduras (e quantas vezes assim a tudo esfarelarem). Escritora, Hélia Correia, é aqui apenas um espelho, do ainda seu tempo, da ainda sua gente. Diz ela, desta Velha que o Kiko apanhou:

"Esta velha pertence a um grupo humano que nunca se afastou demais do chão. Nem sei se haverá nela cristianismo, mas a sua aliança espiritual faz-se decerto com natureza e os antepassados que ela integra. Não é inteiramente um indivíduo, porque pertence ao corpo da aldeia, respira, sofre e alegra-se em uníssono. Alguma coisa envolve as casas e as famílias, um calor de matilha, a concordância genética do sangue. E tudo se alicerça na memória e na grande energia da linguagem com mais longevidade e arquitectura do que as nossas cidades tecnológicas" (Imagem Passa Palavra, p. 118).

Confesso que já nem me intriga a persistência desta ideia do africano em comunhão com a natureza, uma comunhão que é também com os seus, pois eles próprios tão naturais. Tamanha que esse "indivíduo" ainda não brotou em gente magma. Nem tampouco despontou esse deus, cristão claro, deus superior porque apartado do meio envolvente, natureza e antepassados; e que destes aparta, que se crê num deus produtor de indivíduos, que a sua graça é também a razão, uma estranha teologia tantas vezes inconsciente, mas enfim...

Esta constante crença no homem natural em África, deficitário pois claro, surge por vezes negativa, apenas racista ou somente sofredora com a, ainda assim, magestosa selva a la Conrad - e isso que tanto se nota por cá, com tanta gente chamando "mato" aquilo que foi desmatado (e cultivado) pela população.

Mas, e como neste caso, surge também como se positiva, num fado do bom selvagem. Como o encontram não sei - ao ler isto saltou-me, do fundo da memória, uma Hélia Correia aqui vinda em 1997 por mão do Travessias/Identidades, em absoluto êxtase naturalista com esta "África tão pura" que encontrava nos meandros dos prédios de Maputo.

Já disse, não me intriga a persistência destes preconceitos. Nem me choca o evolucionismo ignaro neste tipo de textos tão bem-intencionados, até querendo-se poéticos. Nem o racismo explícito (não, não é implícito!) ainda que tão apreciador e até solidário. Pois textos destes são espelho violento de quem, afinal, não percebe nada do seu próprio meio e do seu próprio eu, e como tal se desnuda no imaginar de tantos deficits alheios.

publicado às 23:29

Costa do Marfim

por jpt, em 07.11.04

A reacção francesa na Costa do Marfim, e o apoio unânime que recebeu vão ter efeitos duradouros. [textos abaixo transcritos, ainda que preveja a sua rápida desactualização]

Por um lado regressa a velha questão da separação das missões da ONU: deverão ser de "manutenção de paz" ou de "construção de paz"? Questão de implicações vastissimas. Por outro lado irá levantar inúmeras dificuldades à efectivação de novas missões. Quanto ao apoio e participação por parte dos países e organizações regionais.

É notório o desconforto, e até a ineficácia, de missões militares de manutenção de paz impossibilitadas de um efectivo uso da força - e o caso do Ruanda, mesmo que velho de dez anos, nunca nos deverá sair da mesa de cabeceira.

Mas também será notório que a afirmar-se o paradigma da utilização da força por parte das missões da ONU isso implicará que os países participantes voltem a ser, em exclusivo, "os suspeitos do costume". Então em África nem se discutirá, com mais ou menos exércitos subcontratados, nigeriano ou outros, explicitar-se-á a velha ordem, essa territorialidade imperial que teima em subsistir nas mentes e na ordem política internacional.

E entre estas opções qual a escolher?

Ainda que compreendendo a reacção francesa será de desejar a rápida reafirmação do paradigma "manutenção de paz". E o da multiplicidade das forças nacionais envolvidas.

YAMOUSSOUKRO, 6 Nov 2004 (IRIN) - Ivorian government warplanes bombed a French military base on Saturday, killing nine peacekeepers and wounding 31 as Cote d’Ivoire's army continued its offensive on the rebel-held north for the third day.

The French military said a US national had also been killed in the attack on the town of Bouake, the stronghold of the New Forces group.

“We retaliated and destroyed two Sukhoi 25s [warplanes] on the ground at Yamoussoukro airport,” Col Henri Aussavy, spokesman for the French peacekeeping force in Cote d’Ivoire, told IRIN.

The order to retaliate came directly from French President Jacques Chirac in Paris.

“(He) ordered the immediate destruction of the Ivorian military resources used in violation of the ceasefire,” his office said in a statement.

Defence Minister Michele Alliot-Marie said later that five Ivorian government helicopters had also been destroyed.

The UN Security Council held an emergency meeting in New York on Saturday to discuss the Ivorian crisis.

Some 4,000 French peacekeepers along with 6,000 UN troops patrol a buffer zone that cuts through Cote d’Ivoire, dividing the world’s top cocoa producer into a rebel-held north and a government-controlled south.

A ceasefire between Ivorian President Laurent Gbagbo and the rebels had been in place for eighteen months, until government war planes launched an aerial assault on Thursday.

On Saturday, shooting broke out in the main southern city Abidjan as French forces clashed with Ivorian troops around the international airport.

Humanitarian sources in Abidjan said pro-Gbagbo militants, known as the Young Patriots, had set fire to three French grammar schools in the city and looted French property.

The militants also descended on the French military base and the offices of the UN Mission in Cote d’Ivoire (ONUCI) to demonstrate and voice their anger over the retaliatory strikes carried out by the French.

The French government said on Saturday it had dispatched three warplanes on standby to Libreville, Gabon, where France also has a military base.

“The situation is deteriorating in Abidjan,” Aussavy of the French forces said.

An anti-French demonstration was also staged at Man, a town held by the rebels in the west of the country near the border with Liberia. French military sources said the protesters threw Molotov cocktails and stones at the peacekeepers, whom they accused of not taking action against the government army.

Rebel leader Guillaume Soro made a similar complaint. “You are going to see a massacre in Abidjan,” he told IRIN on Saturday. “We are going to have a catastrophic situation because of France’s hesitation.”

The Ivorian government’s offensive began on Thursday when its warplanes unleashed bombs on the central town of Bouake, and Korhogo, another rebel stronghold further north. On Friday the air attacks continued against several towns east and west of Bouake.

Soro said on Saturday that there had been fighting on the ground between his rebel troops and the government forces in Bouake. He also confirmed the two sides had clashed in the town of Zouen-Houenien, near the Liberian border, and at the nearby Ity gold mine.

Medecins sans Frontieres, which runs a hospital in Bouake, said its emergency services had admitted 11 seriously wounded people on Saturday, bringing the total for the past three days to 50, and that more were expected.

publicado às 08:14

Atropelamentos

por jpt, em 05.04.04

Há uns meses participei numa missão internacional aqui decorrida. No briefing, longo diga-se, sobre a situação, objectivos e cuidados logísticos os organizadores sublinharam que em caso de atropelamento os membros da missão deveriam afastar-se do local o mais rápido possível, dirigindo-se à esquadra mais próxima. Tudo isso devido ao perigo de linchamento popular em que os condutores envolvidos incorrem.

Insurgi-me na altura. Referi a ausência de dados efectivos sobre situações semelhantes. Sublinhei a escassez de ambulâncias no país, salientando a importância de acompanhamento dos feridos aos hospitais e centros de saúde, ainda que quebrando a regra de ouro dos serviços de saúde alhures, não tocar num acidentado.Hoje telefona-me um colega amigo, abatido. Durante o fim-de-semana teve a infelicidade de atropelar mortalmente um peão, uma situação malfadada que lhe foi completamente impossível de evitar. E, em pleno grande Maputo, após alguns minutos no local do acidente, esperando os socorros já então inúteis, teve que fugir do local aproveitando a boleia do primeiro carro que passou, pois o linchamento ia iniciar-se.Sem leituras apressadas logo me surgem estes episódios como demonstrativos do profundo hiato existente entre uma população desapossada e todos os seus patrícios que, pelo menos, partilham da benesse de uma viatura, desse extraordinário signo de distinção. Gente de um outro mundo, culpada de imediato. Atropelamentos feitos catarse de uma extrema estratificação?

publicado às 08:43

O obelisco de Axum

por jpt, em 11.02.04

Realce total para a notícia de que a Itália se apresta em devolver o obelisco de Axum à Etiópia. A questão da devolução de itens cruciais do património cultural é vasta, e de nada serve abordá-la a correr (a meio de uma manhã de trabalho então nem pensar). Mas a pausa do café dá para saudar este caso particular. E lembrar que este não é nada um caso particularmente africano, como o demonstram as reclamações gregas junto ao Reino Unido. Como o lembrou, deliciosamente, V. Graça Moura na carta dirigida ao Ministro (dos Negócios Estrangeiros?) francês no ano passado, a reboque da questão iraquiana, então exigindo a devolução do produto das pilhagens napoleónicas.

Sem dogmatismo esta é questão em que cada caso é um caso. Lembro o impacto que teve na África do Sul, também no ano passado (?), a devolução dos restos mortais da mulher Khoi-San levada para a Europa nos inícios do século XIX como curiosidade científica e circense.

Finalmente, regressar a esta notícia, citando-lhe um aspecto que abala algumas certezas incertas com que vamos olhando para estas questões: "Até aqui os governos italianos tinham recusado todos os pedidos de devolução, garantindo que a Etiópia não estava em condições de assegurar a sua preservação. Mais de 60 anos depois, a realidade vem provar o contrário: o obelisco que ficou em Roma foi atingido por um raio e está muito danificado pela poluição, os dois monólitos que ficaram em Axum encontram-se em perfeito estado de conservação." refere o Público.

Enfim, caso a seguir com interesse. Até pelas implicações de precedente que poderá vir a ter.

publicado às 23:56

Mil Desculpas

por jpt, em 27.01.04

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Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.

Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui há, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, enfim, que pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que até foi pior nem que seja por mais recente.

Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso que já se quer ir embora, também eu insisti muito e ela só veio para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, apenas ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.

É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, tenho que marcar reuniões para depois, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para nos ouvirem, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.

Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.

A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer documentos mas vim sem a carteira, só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Às pessoas com quem vou falando é que não poderei vir a dar, bem que lhes peço as moradas para ir depois lhes entregar pessoalmente o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam de mim. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os marcos que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim...

Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.

Eu agora vou até ali à Praça da Independência, aliás lá na Fortaleza tenho que pedir redobradas desculpas, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.

A rapaziada amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito...Ir até ao núcleo ver as novas obras?...é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas desculpem hoje prefiro ficar por aqui, na baixa, olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo fez, mandou fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande... Ó Ana, que é isso?, não aconteceu nada aqui ao Texeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, diz-me um poema.

Vejam, como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me...? ...chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver ...? nada, quem sou eu ... não resolvo nada... a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves... não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me...

********************

Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.

Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro... O qué? ... o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, eu cá sigo o meu Governo, o meu Estado, muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas por isso, é pá, essas ficam para daqui a umas décadas.

Qué?...afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não...também vocês, têm cada ideia!

Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.

[Setembro 2001, a propósito da Conferência Internacional sobre o Racismo, Durban]

 

publicado às 09:04

Blatter sobre o futebol actual

por jpt, em 17.12.03
Mr. Blatter, afinal?Acabadinho de roubar do "Jogo"..."Joseph Blatter disse o que lhe vai na alma ao prestigiado "Financial Times". O presidente da FIFA não usou de meias palavras para definir o estado actual do desporto-rei: "Os principais clubes europeus funcionam cada vez mais como verdadeiros neocolonialistas, implicando-se na violação social e económica, ao roubarem aos países em desenvolvimento os seus melhores jogadores"."

publicado às 12:48


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