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por jpt, em 07.01.07

“A condição de monoglota é uma obsessão romântica. Herder e Hamann acreditavam que cada um de nós tem as raízes no sangue e nos ossos de uma só língua. O que é ao mesmo tempo verdadeiro e falso.” (137)“Para a arraia-míuda como a minha, ser poliglota é uma espécie de limite. É mais do que evidente que existem graus de à-vontade natural, de interioridade … que me serão para sempre inacessíveis. Por outro lado ser poliglota é uma riqueza ilimitada: é uma janela aberta que me permite olhar múltiplas paisagens!” (139)“Ao contrário dos psicólogos e dos sociólogos do Reader’s Digest, que gostariam de nos fazer crer que educar as crianças em várias línguas é uma ocasião de esquizofrenia, sei na minha carne que isso é uma mentira absoluta, que as várias línguas são a promessa de uma profusa riqueza de experiência humana e, talvez, de sobrevivência, quando nos vemos reduzidos à fuga. (…) A vida é maravilhosamente diferente quando se muda de língua …” (140)“Grosso modo, a partir da década de 1890, começou a desenvolver-se uma grande literatura poliglota. Oscar Wilde, que escreveu a sua Salomé em francês, terá sido uma das figuras mais significativas de toda a literatura moderna. A extraterritorialidade do irlandês relativamente ao inglês é um aspecto decisivo. Não sabemos em eu língua(s) Beckett compunha. Nunca falava disso. Borges é poliglota. Repete incessantemente que está mais perto do inglês do que do espanhol. Acima de tudo, há Nabokov: o francês, o russo, o inglês e o anglo-americano, que é ainda outra coisa. Os romances anglo-ingleses, como a Verdadeira Vida de Sebastian Knight e Convite Para Uma Degolação, são muito diferentes, digamos, de Lolita. Nele há, pois, uma comutação quádrupla, ou talvez anda mais do que isso. O maior livro de poesia inglesa, diz-se muitas vezes, é o Milton de 1667, que mistura o hebraico, o grego, o italiano, o latim e o inglês” (139)George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 (2003) [tradução de Miguel Serras Pereira]

publicado às 15:14

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por jpt, em 07.01.07

“A condição de monoglota é uma obsessão romântica. Herder e Hamann acreditavam que cada um de nós tem as raízes no sangue e nos ossos de uma só língua. O que é ao mesmo tempo verdadeiro e falso.” (137)“Para a arraia-míuda como a minha, ser poliglota é uma espécie de limite. É mais do que evidente que existem graus de à-vontade natural, de interioridade … que me serão para sempre inacessíveis. Por outro lado ser poliglota é uma riqueza ilimitada: é uma janela aberta que me permite olhar múltiplas paisagens!” (139)“Ao contrário dos psicólogos e dos sociólogos do Reader’s Digest, que gostariam de nos fazer crer que educar as crianças em várias línguas é uma ocasião de esquizofrenia, sei na minha carne que isso é uma mentira absoluta, que as várias línguas são a promessa de uma profusa riqueza de experiência humana e, talvez, de sobrevivência, quando nos vemos reduzidos à fuga. (…) A vida é maravilhosamente diferente quando se muda de língua …” (140)“Grosso modo, a partir da década de 1890, começou a desenvolver-se uma grande literatura poliglota. Oscar Wilde, que escreveu a sua Salomé em francês, terá sido uma das figuras mais significativas de toda a literatura moderna. A extraterritorialidade do irlandês relativamente ao inglês é um aspecto decisivo. Não sabemos em eu língua(s) Beckett compunha. Nunca falava disso. Borges é poliglota. Repete incessantemente que está mais perto do inglês do que do espanhol. Acima de tudo, há Nabokov: o francês, o russo, o inglês e o anglo-americano, que é ainda outra coisa. Os romances anglo-ingleses, como a Verdadeira Vida de Sebastian Knight e Convite Para Uma Degolação, são muito diferentes, digamos, de Lolita. Nele há, pois, uma comutação quádrupla, ou talvez anda mais do que isso. O maior livro de poesia inglesa, diz-se muitas vezes, é o Milton de 1667, que mistura o hebraico, o grego, o italiano, o latim e o inglês” (139)George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 (2003) [tradução de Miguel Serras Pereira]

publicado às 15:14

Escrita feminina

por jpt, em 07.01.07

"P: E quanto ao dualismo da escrita masculina por oposição à escrita feminina.?G.S. Nas melhores mulheres escritoras, está ausente. Seria impossível dizer onde está a "feminidade" numa página anónima de George Eliot ou de George Sand; talvez se deixe vagamente entrever nas Bronte; mas decerto que não em Jane Austen, que era muito simplesmente melhor do que qualquer outro escritor do sexo masculino. Não diferente, mas melhor: mais precisa, incisiva, cheia de humor, de espírito, irónica, condensada. Hoje as coisas são diferentes. Hoje, a questão deu lugar a uma causa, a uma vontade de desforra, a uma esperança eminentemente consciente. Há diferenças importantes, tenho a certeza. O que é muito triste, porque nunca há senão uma escrita boa e uma escrita má." (141)George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 (2003) [tradução de Miguel Serras Pereira]Tardia nota a propósito do 2ª Encontro de Escritores Hispano-Africanos, aqui realizado em Novembro, uma preguiçosa organização que colocou seis escritores e alguns académicos, e os persistentes assistentes, a discutirem durante quatro dias o assunto "Escrita Feminina".

publicado às 14:46

Escrita feminina

por jpt, em 07.01.07

"P: E quanto ao dualismo da escrita masculina por oposição à escrita feminina.?G.S. Nas melhores mulheres escritoras, está ausente. Seria impossível dizer onde está a "feminidade" numa página anónima de George Eliot ou de George Sand; talvez se deixe vagamente entrever nas Bronte; mas decerto que não em Jane Austen, que era muito simplesmente melhor do que qualquer outro escritor do sexo masculino. Não diferente, mas melhor: mais precisa, incisiva, cheia de humor, de espírito, irónica, condensada. Hoje as coisas são diferentes. Hoje, a questão deu lugar a uma causa, a uma vontade de desforra, a uma esperança eminentemente consciente. Há diferenças importantes, tenho a certeza. O que é muito triste, porque nunca há senão uma escrita boa e uma escrita má." (141)George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 (2003) [tradução de Miguel Serras Pereira]Tardia nota a propósito do 2ª Encontro de Escritores Hispano-Africanos, aqui realizado em Novembro, uma preguiçosa organização que colocou seis escritores e alguns académicos, e os persistentes assistentes, a discutirem durante quatro dias o assunto "Escrita Feminina".

publicado às 14:46

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por jpt, em 03.10.06

steinerlogocratascapa

 

"Seja como for, não haverá decerto regresso ao eu clássico! Haverá a emergência muito lenta de uma nova forma de colectividade? A imagem, para mim, é a do coro antigo, e sabemos que o nosso teatro, a nossa literatura, a nossa poesia, se libertaram muito lentamente da oralidade do coro, que só após milénios de colectividade se destacou uma voz ... Sob certos aspectos o mundo da Web é a oralidade colectiva. Estamos perante qualquer coisa que é, ao mesmo tempo, ultramoderna e arcaica (como é sempre o caso na dialéctica do movimento duplo), mas em ruptura com a individualidade clássica." (149)"A sensibilidade ocidental, experimentada nos reconhecimentos interiores que continuam a ser os nossos, tem uma dupla origem: Atenas e Jerusalém. Mais exactamente: a nossa herança de pensamento e de ética, a nossa leitura da identidade e da morte vêm de Sócrates e de Jesus da Nazaré. Nenhum dos dois pertence ao mundo dos autores ou, menos ainda, da publicação." (70)"No extremo oposto [à prática escolástica medieval], no concetto platónico, o intercâmbio oral permite, ou até mesmo autoriza um desafio imediato, contradeclarações e correcções. Permite ao interlocutor corrigir as teses, se necessário virá-las ao contrário, à luz de uma busca e de uma exploração compartilhadas. A oralidade aspira à verdade, à honestidade da autocorrecção, à democracia, por assim dizer, da intuição partilhada ..." (72)[George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d'Água, 2006]

publicado às 17:37

CapaSteinerNostalgia.jpg

"Sei que não está na moda afirmar o que se segue, mas a procura abnegada da verdade abstracta é culturalmente específica: a sua história é relativamente curta, e possui uma geografia muito própria".

(George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [1974], p. 71)

publicado às 12:15

CapaSteinerNostalgia.jpg

"A impressão ocidental de insucesso, de potencial caos sociopolítico, conduziu igualmente a uma reacção contra o centralismo étnico e cultural que caracteriza o pensamento europeu e anglo-saxão ... A ideia de que a civilização ocidental é superior a todas as outras e de que a filosofia, ciência e instituições políticas ocidentais estão manifestamente destinadas a conduzir e transformar o globo deixou de ser uma evidência. Muitos ocidentais, especialmente os jovens, acham-na odiosa. Aterrados pela loucura das guerras imperialistas e irados com a devastação ecológica causada pela tecnologia ocidental, hippies e freaks, militantes libertários e vagabundos místicos viraram-se para outras culturas. São as tradições da Ásia, dos índios americanos ou dos africanos negros que os atraem. É entre esses povos que encontram as qualidades de dignidade, solidariedade comunal, invenção mitológica e envolvimento com as ordens vegetais e animais que o homem ocidental perdeu ou erradicou brutalmente. Esta busca da inocência contém muitas vezes um impulso genuíno de reparação. Onde o pai colonial massacrou e explorou, o filho hippie procurar preservar ou compensar."

(George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [1974], pp. 66-67)

publicado às 12:12

Sonho Colonial

por jpt, em 12.01.06
CafeContinental.jpgCafeScala.jpg

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés ... Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da "ideia de Europa"[G. Steiner, A Ideia de Europa, Gradiva, 2005]

publicado às 17:37

O Erotismo e o Ensino, em Steiner

por jpt, em 28.07.05

"O erotismo, encoberto ou declarado, em fantasia ou em actos, encontra-se intimamente ligado ao acto de ensinar, à fenomenologia da relação entre Mestre e discípulo. Este facto elementar tem sido trivializado através de uma fixação no assédio sexual. Mas continua a ser central. Como poderia ser de outro modo? O pulso do ensino é a persuasão. O professor solicita atenção, concordância e, idealmente, divergência colaborativa ... A dinâmica é a mesma: construir uma comunidade de comunicação, uma coerência de sentimentos, paixões e rejeições partilhados. Na persuasão, na solicitação, seja ela do tipo mais abstracto e teórico - a demonstração de um teorema matemático, o ensino do contraponto musical - verifica-se um inelutável processo de sedução, voluntário ou acidental ... Na emissão e recepção, o psicológico e o físico são absolutamente inseparáveis (veja-se uma aula de ballet). O processo exige o envolvimento da mente e do corpo."[George Steiner, As Lições dos Mestres, Gradiva, pp. 30-31]

publicado às 22:02

Satanás

por jpt, em 20.06.05

"Surpreendentemente, o Satanás de Job sugere a figura do crítico. Mantém com a Divindade essa intimidade marcada de azedume que é demasiadas vezes a dos críticos com os artistas. Talvez o seu papel tenha sido determinante: talvez Satanás tenha impelido Deus a criar. "Mostra-me", troveja o crítico e teorizador. E assim que a criação se desdobra diante dos seus olhos, Satanás começa a procurar-lhe os defeitos. Ironiza sobre a auto-satisfação do Criador, sobre o seu "muito bom"."

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, p. 61]

publicado às 11:11

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por jpt, em 04.04.05

"Ao contrário do que pretende o cliché, o irmão da morte talvez não seja o sono, mas a arte, e em particular a música. Ao mesmo tempo que exprime na sua essência a vitalidade, a força da vida e o prodígio da crição, a obra de arte é acompanhada por uma dupla sombra: a da sua possível ou preferível inexistência, e a do seu desaparecimento."[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água]

publicado às 23:42

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por jpt, em 02.04.05

"Walter Benjamim sonhava publicar um livro inteiramente composto de citações. Pelo meu lado, falta-me a originalidade necessária para tanto."

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Lisboa, Relógio d'Água]

publicado às 08:56

Música

por jpt, em 04.03.05
Ao contrário do que pretende o cliché, o irmão da morte talvez não seja o sono, mas a arte, e em particular a música. Ao mesmo tempo que exprime na sua essência a vitalidade, a força da vida e o prodígio da crição, a obra de arte é acompanhada por uma dupla sombra: a da sua possível ou preferível inexistência, e a do seu desaparecimento.[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água]

publicado às 08:03


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