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Religião em Hugo Pratt

por jpt, em 16.08.06
- "Qual poderia ser a sua religião?- A procura. Eu procuro a verdade, mas sei que nunca a atingirei completamente. Se um dia chegasse à conclusão de que a alcançara, deveria achar que não era possível, que algo me havia escapado e que tinha de prosseguir. Qualquer pessoa que acredite deter a verdade é potencialmente perigosa - e essa é a razão principal por que desconfio de todos os que professam uma religião. No que a mim diz respeito, creio nunca ter atingido a verdade, nem sequer a minha verdade. A verdade é inatingível, o mais que podemos é ter a esperança de nos aproximarmos dela. É este o meu próprio dogma. Se tenho uma religião, é a da procura, da procura que tende para a Verdade."
Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões (Entrevistas com Dominique Petitfaux). Precedido de uma Abertura Irlandesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1995, p. 251

publicado às 23:00

Hugo Pratt na África Austral

por jpt, em 05.08.06


Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil. Memórias e Reflexões. (Entrevistas com Dominique Petitfaux), Lisboa, Relógio d'Água, 2005

Um livro delicioso, uma auto-biografia de Pratt em forma de entrevistas. Com grande ênfase num louco ciclo juvenil, da infância veneziana à puberdade (feita adolescência) etíope e ao regresso adolescente à Itália do fim-de-guerra. Coisas de na leitura se oscilar até o "admirável mentiroso" tanta a efabulação que sugere um real espantoso, ultrapassando a ficção. Aí e depois uma vida venturosa e aventurosa. E também, e tão raro é vê-lo dito hoje, tempos de outras ideologias normativas, a afirmação de uma sublime e constante demanda das mulheres: "as mulheres de Pratt" que tão genialmente soube partilhar nas "mulheres de Corto".

Destas memórias cito o episódio, de um notório realismo absurdo:



" - Que ia fazer a Angola?

- Nessa época, Angola era dirigida por Agostinho Neto, que era apoiado militarmente pelos soviéticos e pelos cubanos. Eu tinha sido oficialmente convidado pelo Governo angolano, consequência sem dúvida da minha colaboração no semanário Pif [JPT: propriedade do Partido Comunista Francês]. Além disso, Cush, a minha personagem das Etiópicas, era popular em Angola, viam nele um exemplo de militante revolucionário. O partido de Neto, o MPLA, ocupou-se pois de mim durante toda a minha estadia. Pediram-me que organizasse uma escola de desenhadores que ajudassem os angolanos a recuperar a identidade perdida durante a colonização portuguesa. Acabei por ser considerado como um membro do governo revolucionário, e a esse título não era pago, ao passo que os meus colaboradores eram pagos em dólares. Tinham-me dado uma arma, porque os membros do Governo corriam o risco de ser atacados pelo movimento adverso, a UNITA, que controlava uma boa parte do país e desencadeava acções de guerrilha na própria capital, Luanda. À noite, era protegido por milicianos. Patrícia Zanotti, que tinha então dezasseis anos, ficava inquieta quando a deixávamos sozinha.

Foi durante essa viagem que nasceu a minha cumplicidade com ela. O pai acompanhava-me para ver se havia possibilidade de criar em Angola uma estância de férias. Ainda não havia ministro de Turismo, apenas um general que tinha de fazer de conta que era responsável desse sector, mas não percebia patavina do assunto. O diálogo entre Zanotti e ele foi pois extraordinariamente bizarro. Ao fim e ao cabo, a estadia revelou-se apaixonante. Evidentemente, fui utilizado para fins de propaganda, exibiam-me, pediam-me que usasse da palavra em reuniões, mas isso não me incomodava, pois achava toda aquela gente muito simpática. Eles intitulavam-se representantes do marxismo-leninismo, e nos meus discursos, eu ia demasiado longe para eles. Uma vez, mencionei Trotski, e eles disseram-me: "Em privado podes falar de Trotski, mas em público não se deve!". Passaram-se assim três semanas, depois decidi vir-me embora." (152)

publicado às 09:02

Putas

por jpt, em 26.11.04

[Esmeralda, por Milo Manara]

Há textos que ficam para trás, e é irremediável. Não porque percam a "ocasião", isso da tal "ocasião" não é mais do que estupidez armada em razão. Mas porque se lhes perde a intensidade, vai-se-lhes diluindo a lenga-lenga e, pior, esbatendo o tom. Acontece-me, sempre. Mas há um em especial que continua a lembrar-me que ainda não saiu à rua. Ainda que agora alquebrado.

Há meses o Bruno Sena Martins narrava a sua primeira experiência numa casa de "alterne", para lá arrastado por um simpático camionista na sequência de uma avaria , umas cervejas partilhadas num meio de estrada enquanto aguardava reboque salvador.

O tom do Bruno era mais que desagradado, com o discurso do camionista e o putedo envolvente, com o qual nem falara. A mim o texto de então provocou-me ânsias de botadura. Talvez porque ele é também antropólogo, decerto por que no Avatares do Desejo se escreve muito, e bem, sobre mulheres (melhor dizendo, sobre ícones). E aqui tão diferente, tão afastado, lhe surgia o olhar.

Ainda comecei a ripostar, aqui coloquei um bocado de uma velha história minha, uma entre outras tantas. Nem era contraposição, queria apenas um cruzar de olhares, óbvio rescaldo de biografias, andanças e lugares bem diversos. E, parece-me notório, de idades diferentes.

Mas depois outras coisas se disseram urgentes e isto, vejo-o agora afinal tão mais cá do fundo, foi ficando para trás. Claro que já não tenho o afã da lenga-lenga nem a clareza do tom. Esse tal texto que desejei morreu, com pena minha. Mas cá dentro ainda resmunga um eco que o Bruno recebeu. Dizia um comentador, ali algo cúmplice no des-gosto, no des-prezo: "Espero que tenhas bebido pelo gargalo" (às tais cervejas, é claro).

E é mesmo com esse nojinho, esse arrepiozinho, que há meses que cá por dentro algo resmunga, e não se cala. Então é para tais desconfortos que aqui trago esta minha amiga, com quem costumo partilhar os copos neste bar

[Esmeralda, por Hugo Pratt]

Dirão, alguns mais sozinhos, que a Esmeralda não é uma qualquer, que nunca a encontram por aí. Sim, garanto que não é, concordo. Mas também, qual o problema? Pois ainda que por esses bares todos da minha vida tenha encontrado um ou dois Steiner nunca vi (nem em blogs) nenhum Corto. Nem mesmo o Rasputine, nessa sua radical maldade porque tão ingénua. Pois não somos todos tão mais mortais?

publicado às 23:21


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