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Askaris

por jpt, em 05.06.10
O Petromax gostou de ler o O Olho de Hertzog de João Paulo Borges Coelho. E daí que está a colocar uma série de imagens de "askaris", nome dado às tropas africanas recrutadas pelo regime colonial alemão, e que são evocadas nesta obra literária. Aqui lhe "ofereço" uma imagem.jpt

publicado às 11:58

Efeitos do Prémio Leya

por jpt, em 27.03.10

Eduardo Pitta, no Da Literatura transcreve o texto que publicou no Público. E Ana Cristina Leonardo, no Meditação na Pastelaria transcreve (em versão mais longa) o texto que publicou no Expresso. No jornal i, uma entrevista a Bruno Vieira do Amaral. João Paulo Borges Coelho é assim alvo de uma extensa divulgação mediática em Portugal, em particular se considermos o habitual para um escritor moçambicano. Inusitada, com a excepção de Mia Couto, cuja prosa muito particular ganhou mercado vasto há já muito tempo.

Ao longo dos anos JPBC aqui foi muito referido. Por três razões: porque gosto dos livros; porque acho que (até agora) sempre foi muito deficientemente divulgado e distribuído pelas suas editoras; e, fundamentalmente, porque dele sou amigo. Ou melhor, ele faz o favor de me deixar ser seu amigo. Talvez por essa insistência bloguística muita gente me tem perguntado o que dele deve ler ou por onde começar. Ora isto dos livros deve ser a cada um como cada qual. E há também os críticos para nos conduzirem, se assim o entendermos (eu entendo, procuro as leituras segundo a tradição - o cânone -, as críticas e, também, as capas. Às vezes, muito às vezes, pelo tradutor - "se este tipo traduziu deve valer a pena").

Ainda assim para quem me tem perguntado esclareço que o livro que prefiro é, apaixonadamente, este. Se consultarem o post perceberão as razões literárias (e se tiverem curiosidade nos detalhes poderão pressionar a fotografia que ela engrandece).

jpt

publicado às 09:58

Lançamento de peso

por jpt, em 17.03.10
(por AL em antecipação livresca) -É amanhã  que se “estreia” em Lisboa o livro mais recente de João Paulo Borges Coelho – O Olho de Hertzog. O lançamento é na Sociedade de Geografia (Rua das Portas de Santo Antão), às 18:00 horas.

publicado às 21:02

Pitta sobre Borges Coelho

por jpt, em 17.03.10

"Um grande autor", o texto que Eduardo Pitta dedica no PNETLiteratura a João Paulo Borges Coelho.

jpt

publicado às 18:15

Manuel Alegre em Maputo

por jpt, em 05.03.10

O discurso de Manuel Alegre na entrega do prémio Leya ao escritor João Paulo Borges Coelho, a propósito do livro "O Olho de Hertzog". Sim, o culturalismo - mas aceitável, pois discursos protocolares não são os locais para problematizações. E, pelo menos, sem hífens. [Texto retirado da sua página pessoal]

 

Manuel Alegre na entrega do Prémio Leya em Maputo:“A língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação”04-03-2010

O Presidente Samora Machel, pouco antes da sua visita a Portugal, disse a um jornalista português: "Camões não é só vosso, Camões também é nosso". Esta frase, que profundamente sensibilizou o povo português, não foi só uma homenagem ao poeta que na Ilha de Moçambique acabou de escrever o poema que é, de certo modo, um acto de fundação poética de Portugal. O que o Presidente Samora Machel pretendeu significar foi que a língua portuguesa tinha deixado de ser língua de ocupação para passar a ser uma língua de liberdade, de independência e de partilha. Ou como diria Miguel Torga: "um traço de união".

Estranha contradição e, ao mesmo tempo, soberbo privilégio de uma língua que tendo sido a do sistema colonial, foi também a língua em que os povos começaram a pensar e procurar poética e politicamente as suas raízes e a sua identidade. Nos poemas, nas revistas, nos textos fundadores, mais tarde na luta de libertação e finalmente na proclamação da independência.

Língua de luta e poesia. Angola independente já estava nos poemas e nos textos em que Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Mário de Andrade afirmaram a sua angolanidade e proclamaram: "Vamos redescobrir Angola, vamos a ser nós mesmos". E o mesmo aconteceu em Moçambique com os poemas de Craveirinha, Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo e as palavras inspiradas e proféticas de Samora Machel. E também em S. Tomé e Príncipe, com os poemas de Alda Espírito Santo. E na Guiné e Cabo Verde com a escrita e a palavra de Amílcar Cabral. E depois em Timor com os poemas e as armas de Xanana Gusmão. As armas e a poesia andaram juntas. Na mesma língua.

Já no século XIX Almeida Garrett tinha escrito um ode que saudava a independência do Brasil, sublinhando que ela acrescentava a "lusa liberdade". E Portugal existiu sempre naquela "lusitana antiga liberdade" de que falava Camões e que os seus poetas sempre cantaram mesmo quando o povo português era também um povo oprimido.

Língua de múltiplas resistências. Língua de ocupação colonial mas também de libertação nacional. Língua de ditadura sobre o povo português mas também de liberdade resgatada a 25 de Abril de 1974.

Língua de fraternidade entre os combatentes de um e outro lado. E entre resistentes que se encontraram nas mesmas prisões e nos mesmos exílios. Língua dos nossos encontros, desencontros e reencontros. E hoje, sobretudo, língua de amizade, de construção e de futuro.

Esta é a língua que o Prémio Leya pretende divulgar e celebrar.

Como Presidente do Júri, e também como escritor português, é para mim uma honra e um motivo de alegria estar aqui a participar nesta celebração simbólica com o Presidente Armando Guebuza, também ele um confrade da escrita e com o Primeiro Ministro José Sócrates, com quem às vezes converso sobre o papel da língua portuguesa e a necessidade de a trazermos para a linha da frente da acção política na cena internacional.

Porque esta é uma arma que nós temos: a língua como instrumento de cultura, de partilha e desenvolvimento. E como factor de unidade e afirmação internacional da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Temos uma das línguas mais faladas do mundo. É uma grande riqueza para quem não é rico. E se as relações económicas têm cada vez mais um papel essencial, não esquecemos que a língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação.

O Prémio Leya de 2009 foi atribuído ao escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho pelo seu romance "O Olho de Hertzog", um livro surpreendente que vem enriquecer a literatura de língua portuguesa. Pela originalidade da narrativa, que nos restitui, com grande mestria, esta velha cidade e um contexto histórico em que se conjugam os combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas na Primeira Guerra Mundial, o confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, as primeiras greves dos trabalhadores africanos, a riquíssima personagem do jornalista João Albasini, pioneiro do nacionalismo moçambicano, e a busca do Olho de Hertzog, que é uma metáfora da demanda do destino individual e colectivo.

Em nome do júri, quero felicitar João Paulo Borges Coelho e agradecer-lhe a qualidade da sua escrita e a beleza de um romance que nos inquieta, nos reconforta e nos faz acompanhá-lo na procura do mistério do ser que é, ao fim e ao cabo, o próprio mistério de "O Olho de Hertzog".

jpt

publicado às 00:43

Aqui está o "O Olho de Hertzog", o último livro de João Paulo Borges Coelho, obra pela qual lhe foi atribuído o Prémio Leya. A entrega do prémio e o lançamento do livro decorrerão na próxima semana em Maputo, onde será apresentado por Gilberto Matusse. Presumo que nessa mesma altura será colocado à venda em Portugal. Dentro de alguns meses serão lançadas as edições angolana e brasileira. O livro - sobre o qual deixei aqui um breve parágrafo - é apaixonante. Para os habituais leitores de jpbc será obrigatório. E espero que venha a criar mais habituados.

jpt

publicado às 21:03

João Paulo Borges Coelho acaba de ganhar o Prémio Leya, no valor de 100 000 euros. O prémio foi atribuído ao romance inédito "O Olho de Hertzog", uma narrativa aventurosa decorrida no final da I Guerra Mundial entre Moçambique e a África do Sul, concertando a fantástica epopeia do General von Lettow-Vorbeck, o que o torna o grande romance da I Guerra em português, com uma fabulosa e minuciosa construção do Lourenço Marques de então, onde avultam personagens - entre as quais o vulto Albasini, figura lendária das letras locais - cuja múltipla origem transforma a cidade assim criada como um centro do mundo. Sendo uma demanda até policial o livro é um manifesto, da grandeza do local.

JPBC é uma grande figura da prosa ficcional em português. Uma obra muito cuidada, tecida com saber e imaginação e muito interpretável. Escapado - desde o seu primeiro livro - aos exotismos do escritor africano. Merece muito mais atenção, muito mais leituras, do que aquela que lhe vêm dando, do que aquelas que tem tido.

Espero que o prémio "abra os olhos" da sua editora para a sua divulgação em Portugal (onde é secundarizado - como constato cada vez que defronto os escaparates portugueses). E também aqui em Moçambique, onde os seus livros chegam a inexistir - ainda que agora, finalmente, comecem a sair as reedições locais. E que seja editado no Brasil, onde estranhamente ainda não o foi. Que eu saiba vão-se aprontando uma tradução em catalão e uma outra em italiano. Tudo isto manifestamente pouco.

[Depois, ele é um tipo fantástico. E isso também vale imenso, ainda que não lhe melhore os livros].

Abaixo ficam as capas dos seus livros. No fim da colecção ficam as suas longínquas bandas desenhadas, um mundo mais antigo mas que de quando em vez regressa - como um pouco neste lindíssimo "O Olho de Hertzog". Vão lá lê-lo, ao autor, vão lá lê-los, aos livros.

jpbcs-coelho-as-duas-sombras-do-rio

jpbc-as-visitas-do-dr-valdez

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 jpt

publicado às 21:08

Alfarrabistas de Maputo

por jpt, em 14.08.09

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Momento feliz, naquele à loja Camillo Alves, cruzamento da Mao-Tsé-Tung com a Kim-Il-Sung, trio toponómico hiper-significante, acabo de encontrar esta raridade - em mau estado, é certo, mas a colmatar um desaparecimento: "No Tempo do Farelahi", o segundo álbum de banda desenhada publicado por João Paulo Borges Coelho, publicado pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco, em 1983.

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Obra de juventude, narra as campanhas de Mouzinho de Albuquerque no norte de Moçambique, entre a Ilha, seu poiso, e os xeicados suaílizados, focos de resistência à ocupação portuguesa. Para fruir. Também para captar algo da história do país. E do universo ficcional de JPBC, o qual regressa recorrentemente na ficção que produz.

Ainda bem que parei o carro ...

publicado às 17:26

Histórias em Língua Portuguesa

por jpt, em 28.04.08

capahistoriaslingua-portuguesa.jpg

Coisas da Feira do Livro: finalmente chega-me à mão este Histórias em Língua Portuguesa (Porto, Ambar, 2007). Histórias (aleluia, não são "estórias") de vários autores, quatorze no total, vindos de vários países. O fio condutor é mesmo esse, o da língua, ficando assim o livro uma coisa algo bocado a bocado. Mas válida, em alguns passos mais, noutros menos.

Interesse especial aqui em Moçambique pois integra um conto de João Paulo Borges Coelho ("Maria Ernestina e as Quatro Senhoras"), inédito como presumo seja característica de todos os outros (o prefácio é de tal forma diletante que apenas o deixa deduzir). Dos outros autores referir gente de blogs: Afonso de Melo, que é uma espécie de D. Sebastião neste blog; António Gregório (que infelizmente apagou o Diário Dócil), Paulinho Assunção e Manuel Jorge Marmelo.

Vale a pena ir à Minerva esgotar a remessa.

publicado às 02:19

O preço dos livros

por jpt, em 31.03.08

É o fim da minha bibliofilia. A surpresa, entrar na livraria e ver dois novos livros, um de poesia de Mia Couto "Idades, Cidades, Divindades", o outro a novela "Hinyambaan" de João Paulo Borges Coelho

 

Deste último ainda lamento o descuido gráfico - as obras dos autores moçambicanos da editora Caminho/Ndjira estiveram durante anos condenadas a serem publicadas com capas de estilo "étnico", nestes casos um afro-hippie muito anos 60 (não discuto a qualidade do trabalho de ilustração - do qual não gosto, mas isso é apenas o meu gosto - mas sim a sua pertinência ideológica). Assim como se o Roth ou o Vidal tivessem que ser editados sob motivos ameríndios new age ou os latino-americanos com reconstruções pré-colombianas. Finalmente foram libertadas desse espartilho. Mas agora ao ver a capa deste "Hinyambaan" vejo uma tolice - para além de feia basta ler para perceber a preguiça do ilustrador. Ou seja, não leu, nem o resumo. A editora a trabalhar mal. Em época de mudança a começar mal.

 

Mas o fundamental está noutro local. Custo de ambos os livros: 550 meticais (25 dolares). Em dois ou três meses as novas edições da Ndjira dobraram o preço (preço normal anterior 275, 300 meticais). A excelente colectânea de poesia de Fernando Couto, saída recentemente, bem maior do que o livro de Mia Couto custa 300 meticais. As reedições das obras de Mia Couto e Paulina Chiziane que a Ndjira está a fazer custam abaixo dos 300 meticais. Ou seja, se a Ndjira pode produzir livros em edição moçambicana (não sei onde as imprime) a preços bem mais baixos por que importa as edições conjuntas Caminho/Ndjira, nas quais só muda o logotipo e o nome da editora, colocando os livros tão mais caros?

 

30 a 50% de aumento no preço de capa em três meses? É uma decisão empresarial, não posso protestar, apenas lamentar. Mas a 25 dolares cada livrinho paro. Se comprava tudo o que saía de ficção e poesia nem pensar em continuar, não posso. É o fim da minha bibliofilia. Alguém me empresta os livros? Nem que seja para reproduzir as capas e colocá-las aqui...

publicado às 02:42

Fátima Mendonça emprestou ao Ma-schamba o texto "Ovídio e Kafka nas Margens do Lúrio", com o qual apresentou "Campo de Trânsito" de João Paulo Borges Coelho (Ndjira/Caminho, 2007). Ei-lo, sendo de referir que modifiquei a pontuação, introduzindo alguns parágrafos, de molde a facilitar a leitura em ecrã. Que me desculpe a autora.

 

 

Ovídio e Kafka nas margens do LúrioPor Fátima MendonçaLisboa, 4 de Julho de 2007

 

Em 2005, aquando da apresentação de Setentrião na Associação dos Escritores Moçambicanos em Maputo, admiti sem constrangimento que, embora tenha o privilégio de partilhar com João Paulo Borges Coelho uma profissão (docente) em área com afinidades com a sua e, de para além disso, nos unirem laços de amizade, não me sinto na posição incómoda, de o meu papel - aqui e agora - poder ser interpretado como acto 'tribal', ritualizado sob a forma de panegírico. Podendo mesmo ter como agravante o facto de desde a sua revelação como escritor de ficção ter tido o privilégio de ler nos seus formatos iniciais os originais que vieram dar origem aos já com este, seis livros publicados desde 2003. Tal como disse na altura e repito aqui em espaço e a um público totalmente diferentes daqueles a que nos habituaram estes actos em Maputo, não sinto constrangimento por legitimar publicamente o meu entusiasmo pelo aparecimento, nas letras moçambicanas, de uma voz diferente, que tentarei aqui descrever, guiada pela consciência de ser, tão somente e parafraseando António Cândido, intermediária entre a obra e o leitor, sendo o meu papel secundário relativamente à obra que comento e podendo apenas servir de impulso para que os leitores participem, por conta própria, nessa extraordinária aventura de liberdade que é a literatura.

 

Quase 2 500 anos de reflexão a ocidente, sobre a palavra escrita e as suas potencialidades retóricas remetem-nos, hoje, para posicionamentos que privilegiam o acto de leitura como meio para completar, ou mesmo materializar, essas intenções textuais que comumente designamos por significações, sendo o seu resultado múltiplo e variado, visto que depende em grande medida do lugar em que nos colocamos enquanto agentes, mas também sujeitos dessa leitura. Este Campo de trânsito é um dos bons exemplos em que se pode apoiar esta formulação teórica. De facto creio poder antecipar diferentes situações de entendimento deste estória, consoante as e vivências pessoais de quem lê e respectivas expectativas de leitura. O que relata este livro? Onde se localizam e o que são os três espaços/campo de trânsito/campo antigo e campo novos onde decorre a narrativa? Que paralelos estabelecer entre as bizarras personagens que a modelam e o universo das nossas experiências?Resposta tanto mais difícil quanto o autor, - como diria José Craveirinha - nos dribla permanentemente, obrigando-nos a um exercício de pesquisa que nos reenvia tanto para a memória colectiva como para o conhecimento individual da História e Geografia do país (Moçambique?) onde - supomos nós - decorrem os acontecimentos. E esta suposição decorre apenas do facto de o autor ser moçambicano e de como leitores estarmos munidos do preconceito de que o espaço da narrativa é o espaço de origem do escritor. O que também não significa que não seja. O que pretendo mostrar é que o autor se furta a essa identificação biunívoca de forma quase provocatória, utilizando alguns deliberados e ardilosos mecanismos.

 

Começo pelo registo do narrador entidade privilegiada deste romance pelo seu caracter omnisciente: já nas anteriores narrativas de Borges Coelho nos deparávamos com uma uma expressão linguística de cristalina limpidez, avessa a exibições exóticas, retomando um campo da literatura moçambicana (do qual andamos distraídos) que tem os seus antecedentes em textos referência como Nós Matámos o Cão Tinhoso de Luís Bernardo Honwana e Contos e Lendas de Carneiro Gonçalves, pela sua ordenação ática, reduzida à expressão do essencial, substância pura quase, que se pode dizer clássica em todos os sentidos. Neste romance vai mais longe no manejo da língua, trocando-nos a nós leitores as referências de lugar: de facto, se observarmos algum do léxico utilizado só podemos concluir que o efeito produzido é de ocultação e não de revelação.

 

Recusando o chamado lugar comum que desde a antiguidade se insere na lógica de encaminhamento da leitura, esta escrita introduz pois a indeterminação na construção pelo leitor do espaço da narrativa. Fugindo aos registos lexicais da língua falada em Moçambique, o autor opta sucessivamente por registos neutros que não correspondem a determinadas expectativas de leitura: onde seria normal o uso de machamba, aparece repetidas vezes horta, o mesmo acontecendo com frigorífico que substitui a moçambicana geleira; onde o mortífero crocodilo nos ajudaria a localizar a massa de água no Zambeze, surge o genérico sáurio, onde os marcados dumba-nengue ou chungamoyo nos encaminhariam para o nosso quotidiano mercado informal, dá-se preferência à neutra feira e onde nos pareceria lógico que a mulher do professor plantasse milho, surgem anódinas couves, o mesmo acontecendo com inesperadas alcachofras e espargos. Que provavelmente crescem em Moçambique mas zonas fronteiriças com o Zimbabwe mas que não correspondem a lugares comuns já consagrados na literatura moçambicana e por isso afastam a narrativa da referencialidade.

 

Esta estratégia de distanciamento produz pois alguns efeitos na leitura: por um lado faz o texto escapar ao fascínio antropológico que tanto parece seduzir alguns estudiosos das literaturas africanas, aspecto criticado duramente pelo escritor nigeriano Chinua Achebe, como sendo uma desvalorização destas literaturas. Obrigamo-nos assim a ler esta narrativa por aquilo o que é, ficção literária, furtando-se até à obrigatoriedade editorial dos clássicos glossários, esse exercício de tradução, inutilmente explicativo, que transforma o texto de ficção em objecto antropológico.

 

Por outro retira-lhe as possibilidades de relação directa com factos históricos. Sabendo nós que o autor faz investigação histórica numa área coincidente com o ambiente que envolve a trama do romance - defesa e segurança - e que por isso tem um visão privilegiada dos respectivos comportamentos individuais e colectivos, teremos de admitir que esse trabalho hermenêutico possa também servir como matéria prima de uma engenharia criativa.

 

Mas não me parece pacífico afirmar que este romance tem como assunto os campos de reeducação surgidos pouco depois da independência de Moçambique, na lógica de procedimentos análogos noutros lugares e épocas, baseada na crença da possibilidade da construção do Homem Novo, e que constituiriam mais tarde uma reserva de recrutamento para a Renamo. Julgo que esse facto histórico ou elementos com ele associados poderão ter funcionado como sugestão para a criação de ambientes (por ex. a forma como se fazia a chamada dos prisioneiros e a aceitação passiva da sua situação, as elucubrações ideológicas do professor, a organização burocrática do Director do campo de trânsito). Mas o romance passa ao lado da recuperação histórica desses factos porque astutamente o romancista se separa do historiador. E não me parece que o faça para evitar melindres, tratando-se embora de um assunto ainda hoje incómodo nos meios militares e políticos de Moçambique.

 

Fá-lo, quanto a mim, porque há no romancista que é João Paulo Borges Coelho essa capacidade essencial de galgar os limites da racionalidade manipulando sabiamente as categorias de Tempo e de Espaço de acordo com critérios só admitidos pela Arte. Com fragmentos da História (re) institui um cenário ficcionado, onde cabem todas as situações possíveis de confronto e aliança entre os aparelhos de um Estado totalitário - no romance representados pelo Director, o Bexigoso e o Professor e os resíduos da organização social que o precedeu - representado pelo Chefe da aldeia e o agente duplo que descobrimos ser o Vendedor de chá. Estado totalitário em que a massificação - traduzida na uniformização das categorias dos prisioneiros da cada um dos campos - reduz os indivíduos a um colectivo de onde se vai ausentando a marca do humano.

 

Reduzidas a números ou a funções as personagens metamorfoseiam-se na consciência singular de Mundau, fundidas numa animalidade emergente a partir das mãos (as dos Director são aranhas, as dos prisioneiros do campo antigo são a lesmas, a mão mutilada da mulher do professor é uma pinça de insecto) ou a um estado natural (as mãos do chefe da aldeia são raízes e as da filha talos). E não me parece ocasional o facto de ser o estado natural - floresta animais e água - que prevalece nas descrições do narrador, sobrepondo-se na sua pujança aos humanos seres massificados ao serviço de uma Ideia.

 

Na visão do narrador essa organização totalitária só aparentemente está condenada, pois tal como anuncia no final, embora autodissolvida pela rebelião dos prisioneiros do Campo antigo e do Campo novo, irá renascer, restando-nos, como no início, um qualquer Mundau, culpado sem culpa e um Bexigoso acusador sem acusação. Até que uma nova ordem se instale e tudo recomece em ciclo fechado como nos Mitos: Revolução permanente ou caos niilista?

 

O efeito de perplexidade a que nos conduz o narrador perante a realidade descrita/narrada, que se recusa permanentemente a ser captada de forma imediata decorre quanto a mim dessa estratégia discursiva de distanciamento relativamente a qualquer possível realidade e conhecida, porque só isso vai permitir a entrada no campo das analogias. O resto e evoco de novo José Craveirinha são coincidências. Já os antigos sabiam disso e Kafka, mais próximo do nosso Tempo melhor que ninguém. Trata-se pois aqui de contar uma história verosímil - que poderia ser relatada como reportagem ou notícia -, e que poderá eventualmente ter como substracto, factos ou acontecimentos ocorridos, com recursos narrativos que a conduzem ao absurdo e a transformam numa narrativa portadora de uma forte consistência ontológica, aberta a simbologias várias, e por isso resistente a uma leitura marcada pelos pressupostos do realismo. Com uma linguagem deliberada e ostensivamente depurada, reveladora de um domínio absoluto sobre a escrita, o que vem colocar definitivamente a ficção narrativa no mesmo nível de maturidade da poesia que desde Craveirinha e Knopfli até Heliodoro Baptista, Eduardo White ou Luís Carlos Patraquim se instituiu como um dos pilares da moderna cultura letrada moçambicana.

 

publicado às 19:38

...

por jpt, em 08.11.07
Leónidas Ntsato de visita à ilha Nhamichendjeze (Rio Zambeze, Província de Tete).

"Leónidas Ntsato piscou os olhos. A fita negra da margem alongava-se na vertical: à esquerda, o céu brilhante; à direita, com uma cor quase idêntica, o rio fugindo para o alto. Subindo essas íngremes águas avançava penosamente uma almadia mas estava demasiado distante para que ele pudesse reconhecer o remador. Só o seu casco escuro cuja nitidez contrastava com o reflexo trémulo que fazia nas águas - tudo vertical, as duas manchas solidárias trepando para o alto.

 

 

E assim era porque Leónidas Ntsato se encontrava deitado com a face pousada na areia da pequena praia fluvial."

(João Paulo Borges Coelho, As Duas Sombras do Rio, Maputo, Ndjira, 2003)

publicado às 10:26

Textos para ler

por jpt, em 19.09.07

Uma crítica a "Campo de Trânsito" de João Paulo Borges Coelho, assinada por Teresa Sá Couto. Um livro de que se tem falado bem menos do que esperei.

 

Sobre a apresentação na Ilha da exposição "A Ilha de Moçambique a Preto e Cor", de Luís Abelard e Sérgio Santimano, no 2+2=5.

 

Paulo Varela Gomes sobre os Olivais, um texto no Blitz de 1985.

publicado às 06:21

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por jpt, em 12.07.07

Na apresentação do Campo de Trânsito, não muito concorrida e sem chamussas, aparece um tipo que me parece conhecido. Vindo de propósito para o evento de Almeirim (assim como da Manhiça a Maputo), não haja dúvida o Carlos Gil está na estrada outra vez. E é um gajo porreiro, pena os jantares muito concorridos nunca darem para grandes conversas. Até à próxima ó mangusso ...

publicado às 16:07

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por jpt, em 12.07.07

Na apresentação do Campo de Trânsito, não muito concorrida e sem chamussas, aparece um tipo que me parece conhecido. Vindo de propósito para o evento de Almeirim (assim como da Manhiça a Maputo), não haja dúvida o Carlos Gil está na estrada outra vez. E é um gajo porreiro, pena os jantares muito concorridos nunca darem para grandes conversas. Até à próxima ó mangusso ...

publicado às 16:07


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