Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O jornal Público, vero espelho?

por jpt, em 02.04.13

(Capa de Finta Finta, o livro da jornalista Paola Rolletta, dedicado à história do futebol em Moçambique. A ler pelos interessados na "coisa". A folhear, custosamente, pelos "jornalistas" da "coisa")

 

 

No jornal "Público" um jornalista chamado Tiago Pimentel (hurghh, seremos, ainda que longinquamente "primos"?) consegue titular a sua peça publicada ontem 1.4.2013 (exactamente dois mil e treze!), dedicada ao "Moçambola [a fraca alcunha do campeonato moçambicano de futebol] de ""O "Moçambola" já não é uma liga colonial". Afinal? Já não é?

De onde saem estes jornalistas? Como ascendem à palavra pública? Quem lhes dá a mão? E paga este tipo de verve e a hipotética mente que a sustenta?

publicado às 11:49

[caption id="attachment_36188" align="aligncenter" width="224"] A. Moura, Expedição a Niassa e Tete, 1916, AHU[/caption]

Na sequência do aqui deixei sobre a recente publicação de Os Fantasmas do Rovuma, de Ricardo Marques, livro dedicado à história da I Guerra Mundial em Moçambique, deverá ser interessante assistir a esta conferência:

Os Arquivos das Expedições Militares a Angola e Moçambique na I Guerra Mundial: desafios e perspectivas

Por Graça Barradas, IHC-FCSH da Universidade Nova de Lisboa,

(28 de Novembro, 17.30 horas. AHU, Calçada da Boa-Hora, nº 30, Lisboa)

Comentário: Ana Paula Pires, IHC-FCSH da Universidade Nova de Lisboa

Analisa-se numa perspectiva arquivística, mas também com forte componente histórica, os arquivos dos destacamentos militares “Expedição ao Sul de Angola” e “Expedição Militar a Moçambique” durante a I Guerra Mundial (1914-1918). Estes dois arquivos, sob custódia do AHU-IICT, encontravam-se diluídos na documentação da Direcção-Geral das Colónias do Ministério das Colónias, juntamente com a documentação dos aprovisionamentos e contabilidade das referidas expedições, permanecendo, por isso, praticamente inéditos. Salienta-se aqui a importância da recuperação da estrutura orgânica dos serviços que os produziram e do seu sistema de organização, incluindo a ordem original, para entender a produção documental e reconstituir séries documentais, a fim de permitir uma recuperação eficaz da informação para diversos tipos de estudos históricos e científicos como sejam doenças tropicais, ação militar no âmbito da guerra, engenharia e infra-estruturas de comunicação, mobilidade geográfica, alimentação em campanha, prisioneiros de guerra e justiça militar.

Graça Barradas é licenciada em História da Arte e mestre em Ciências da Informação e Documentação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2009). Actualmente é doutoranda da Facultad Ciencias de la Documentación da Universidad Complutense de Madrid e investigadora integrada do IHC-FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Colaborou em diversos projectos de avaliação e descrição documental, encontrando-se actualmente como bolseira de investigação no projecto “Meio século de ciência colonial: olhares cruzados sobre o arquivo e a actividade científica da Comissão de Cartografia (1883-1936)” no Arquivo Histórico Ultramarino – IICT.

jpt

publicado às 10:04

 

No final de XX Alfredo Margarido escreveu:

 

"Hoje, uma fracção substancial dos teóricos da "portugalidade", fazem da língua o agente mais eficaz da unidade dos homens e dos territórios que foram marcados pela presença portuguesa. Não tendo havido uma grande reflexão anti-colonialista antes das independências, registou-se a necessidade urgente de organizar uma ideologia explicativa: os portugueses foram obrigados a renunciar à dominação política e económica, mas procuraram assegurar o controle da língua.


O drama ... provocado pelo acordo ortográfico ..., deriva dessa inquietação: se a língua não for capaz de assegurar a perenidade da dominação colonial, os portugueses ficarão mais pequenos. A exarcebação da "lusofonia" assente nesse estrume teórico ..."

 

Diante da crise que avassala o meu país, um dia aqui botei: "Desabrigada no pós-1974 a sociedade portuguesa não desenvolveu a economia nacional, agora num contexto concorrencial, e abrigou-se sob o Estado, redistribuidor das benesses europeias (a “cooperação”, como se diz em África). Nesse processo a velha socioeconomia colonial tornou-se uma socioeconomia estatizada, via Estado central e via municípios (e escapámos à “regionalização”). As denúncias moralistas contra o “clientelismo”, o “caciquismo”, o “patrimonialismo” (“os jobs for the boys”) esquecem o acordo social que assentou nisto. Tal como há décadas atrás os teóricos marxistas falavam em “burguesias compradoras” improdutivas no Terceiro Mundo, assistimos ao crescimento de uma “sociedade compradora”, de bens e serviços. E o “FEDERismo” tornou-se o projecto português, não tanto o “federalismo” europeu.No fundo, de forma perversa e até contraditória, Portugal vive agora a efectiva descolonização, ou melhor, vive o processo de acolonização. O proteccionismo colonial morreu e o seu avatar proteccionismo estatal, que protegeu a sociedade após 1975 do embate externo, está moribundo. Há pois uma monumental incongruência (que não é apenas da discussão entre dívida pública e privada) na sociedade, entre o projecto produtivo e a auto-concepção de cidadania."

 

Vem isto a propósito da visita de ontem de Angela Merkel a Portugal. À noite ouvi, de raspão, o noticiário da SIC onde Miguel Sousa Tavares comentava essa visita. Tem mais de vinte de anos como figura fundamental da informação televisiva. Escritor afamado, de grande sucesso, gostado. Jornalista, director de publicações. Cronista, viajante, na imagem de cosmopolita. Homem ouvido, seguido. Filho de Francisco Sousa Tavares grande jornalista, advogado e político, entre tanta coisa também o homem que discursou no Largo do Carmo, voz do parto da democracia. Filho da enorme Sophia de Mello Breyner. Sobrinho do grande Ruben A. Casado com Teresa Caeiro, antiga governante, inclusivamente secretária de estado das Artes e Espectáculos (como se "Cultura"). Ponho aqui os laços familiares não por indiscrição, que são públicos e muito honrosos, muito mesmo. Mas porque sublinham o seu capital cultural, e social, a sua legítima pertença à elite cultural portuguesa, na qual não é arrivista. E na qual a sua biografia profissional o sedimenta. Com  isto tudo é pacífico  considerá-lo uma voz do olhar português sobre o mundo.

 

Irado, insurge-se Sousa Tavares que a tradução das palavras da governante alemã tenha sido em "brasileiro" - algo da responsabilidade da embaixada alemã diz-lhe a colega Judite de Sousa (um intérprete brasileiro? um alemão que estudou português no Brasil?) - pois "na nossa terra fala-se a nossa língua", diz o comentador, mais-que-ríspido.

 

Assim, sem mais, no país da lusofonia, esse paleio impensante, retórica vã perseguida desde o alterglobalismo a la BE de Boaventura Sousa Santos até à direita cristã dos paladinos ortógrafos, passando pelo magma inintelectual socialista-republicano até ao actual poder na velha retórica de Braga de Macedo e Morais Sarmento, eis, explícito, cristalizado, o que se pensa sobre a língua, a "nossa língua", com o "nosso sotaque", a que é legítima, o que é legítimo, para efectivar (nossas) portas dentro. Na crise, que se lixe a "lusofonice".

 

Diante da frase xenófoba, racista, colonial, do "dono da língua" "dono da terra" pensei que o dia seguinte fervilharia. De gente irada, democrática, inclusiva, solidária. Ou mesmo, pura e simplesmente, lusófona.

 

Mas nada, nem uma petição, nem um protesto, nem "memes" no facebook. Até gente tão participativa, anteontem revolucionária, furibunda no indignismo, tão atarefada em gritar contra a senhora do Banco da Fome que disse meia dúzia de vacuidades expressando algumas coisas nada populares mas não  tão desacertadas (Portugal vive estruturalmente produzindo muito menos do que consome, algo que o pensamento preguiçoso antropomórfico traduz como "vivemos acima das nossas possibilidades", como se isto (aquilo) fosse uma família) cala-se agora. Desatenta? Nada. Concordante, no tom xenófobo, no teor colonialista. Pois a uma (relativa) perenidade do enquadramento estatal da acção social corresponde uma manutenção cultural, profunda, a estruturar o olhar sobre o real, e o país.

 

Pois para as velhas "massas", cujo internacionalismo se acomoda na tasca onde se atafulham do molho do caracol, e para as elites, com um cosmopolitismo encerrado no bidé, que nem usam, no país o que se fala "é a nossa língua", o "nosso sotaque". Nem notam, nem atentam. A mentezinha colonial(ista), a superioridade pacóvia.

 

E depois, enquanto revolucionam, indignados, contra a "austeridade" que os fere, vão mandando para filhos e enteados, quando não para eles próprios, "ó socorros", "arranja-me um emprego" para onde outros, os "lusófonos" tão amigos que eles são, irmãos mesmo, falam a (afinal) "nossa" língua.

 

Tudo isto, toda esta gente, de sotaque certo e de língua certa, cheios de certezas.  A justificarem bem, infelizmente, todo o descalabro. De agora. E anunciado.

 

Amanhã? Lá estarão todos a ouvir o "miguel". E a indignarem-se.

 

Não há futuro. Com esta gente.

 

jpt

publicado às 18:49

A cooperação portuguesa

por jpt, em 15.02.12

Um bem informado e interessante artigo [pressionada a imagem aumenta] de Manuel Ennes Ferreira sobre o estado da "cooperação" portuguesa (as instituições estatais ligadas à Ajuda Pública ao Desenvolvimento), uma área que tem estado paralisada. De leitura mais do que recomendável, pelo menos para aqueles que se interessam por esta área.

Muita lamento que o autor não tenha conseguido evitar o fel, metendo umas despropositadas (mais que não seja porque contra a economia e racionalidade do texto) "bocas" a Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros. Que isso (que é também sintomático da crispação em que a sociedade portuguesa vegeta) não faça esconder que se justifica ler o texto e nele reflectir. Ainda para mais sendo o autor um dos poucos colunistas habituais na imprensa portuguesa que aborda esta temática - não poderia ele ter escolhido outro artigo para verter o seu fel em formato chocarreiro? De modo a que fosse menos poluente para uma reflexão necessária, urgente e que não tem sido realizada? Que coisa!

jpt

publicado às 13:42

Abaixo referi esta tendência actual dos defensores do Acordo Ortográfico se refugiarem no sarcasmo público, decerto por falta de argumentos verdadeiramente significantes. E logo encontro novo exemplo dessa pobreza intelectual. Na última edição do "Sol" (Moçambique) José António Lima (que nem sempre escreve atoardas) discorda da posição de Vasco Graça Moura (proibição de utilização das novas normas ortográficas no CCB). E termina a sua breve nota sobre o assunto deste modo: "O que se seguirá: a probição de usar novas tecnologias no espaço do CCB? Será este medida insólita só um capricho da sua vaidade pessoal e das suas embirrações? Ou um trauma de infância por os seus pais e avós o obrigarem a escrever com a graphia antiga?"

 

Bom exemplo da redução ao tom imbecil que está a caracterizar os adeptos do AO.

 

Na mesma edição do "Sol" (Moçambique) Pedro Santana Lopes também defende o Acordo Ortográfico. Justiça lhe seja feita, nada se inscrevendo no agora habitual eixo sarcástico-idiota dos restantes defensores. PSL recorda que era secretário de estado da cultura aquando da assinatura do AO e lembra que o desígnio acordista brotou do então primeiro--ministro Cavaco Silva (o que isto deve doer a tantos dos defensores da causa ...). Diz-nos que a preocupação de Cavaco Silva era a de "o  Acordo Ortográfico era essencial para que, no século XXI, o português falado em Portugal não ficasse com um estatuto equivalente ao do latim." Só  me pode surpreender que tal reflexão, de medíocre que é,  tenha influenciado qualquer iniciativa estatal portuguesa. Mas PSL (que, sendo ex-secretário de estado da cultura acompanhante do processo, ex-primeiro-ministro e defensor do acordo, ainda não aderiu às novas regras ...) acaba por justificar o AO - e a sua opinião é importante, até pelos cargos que ocupou:

 

"Não tenho qualquer hesitação em afirmar que é do mais alto interesse nacional que este Acordo seja assumido por toda a comunidade que se exprime oficialmente em português.


Há muitas pessoas que se esquecem do esforço que outros países têm feito para levar outros países nossos irmãos para as respectivas esferas de influência cultural. Estadistas e governantes de formação e ideologia distintas, como Cavaco Silva e Mário Soares, tiveram a noção profunda dessa relevância.


Portugal já perdeu muito tempo, muitas oportunidades, muito dinheiro, muita influência, por se envolver em polémicas estéreis."

 

Como é óbvio (e como de quando em vez aqui tenho referido) esta questão não é sobre grafias. Mas sim sobre concepções do país Portugal e das relações internacionais. Este pequeno trecho, que deveria servir para calar os pobres linguistas que ainda esbracejam, é exemplar para demonstrar a visão deficitária do presente e do futuro que julga encontrar na "ortografia" um dínamo para as relações internacionais. E, como diz candidamente PSL, para que Portugal possa manter os "países irmãos" na "respectiva esfera de influência cultural".

 

Não há sarcasmos que lhes cheguem. Tudo isto é fraco e incompetente em demasia. Inculto.  E, assim, frágil sem encanto.

 

 

jpt

publicado às 13:14

O regresso da "lusofonia"

por jpt, em 10.12.11

 

Um amigo carregou-me, desafiou-me ["há chamussas (chamuças?), anda daí"] para uma conferência no Indy Village, "A comunicação social nas relações Portugal-Moçambique". Onde outro amigo falava. Ali mesclado com o poder vigente em Portugal. Erro meu, fui. Num local hoteleiro de um grupo económico português, uma conferência organizada por um jornal português, transmitida por uma televisão portuguesa, com um ex-ministro português e um ministro português como oradores. Era o que era. Posso, veterano nestas coisas, achar que há outras formas de apresentar projectos e discutir futuros, e de nisso fazer política externa. Outras formas mais competentes, entenda-se. E menos viradas para "dentro" (um "dentro" relativo, pois apenas serve para uns títulos da Lusa, a ocupar alguns fundos de jornal, e pouquíssima gente verá a RTP-África em Portugal). Na prática era um evento ritual.

2011. Os portugueses que falaram, supra-influentes, centrados na lusofonia. Pano para mangas, se lhe analisarmos o discurso. Fico transido, irrito-me, e acabo por meter a foice em seara alheia, sem garbo. Até amigos se irão desagradar com isso, pois para muitos que seguem mais distraídos, a "lusofonia" é igual a "falar português". Não é. É uma tresleitura da história, uma afirmação que presume de comunhão de interesses, de princípios e de valores, de objectivos entre Estados e sociedades. É, mais do que tudo, um projecto político.

O ministro português conseguirá dizer, culminando a sua inenarrável comunicação,  "a RTP-África não tem nação". Às 22 horas poderia eu estar em casa a ver o telejornal português ..., valerá a pena discutir isto? Não sem antes referir, lapidar, que a RTP-África tem como valor máximo (não foi esta a expressão, mas equivale) a lusofonia. Assim como se esta seja coisa indiscutível, naturalizada. Em tempos chamava-se a isto "missão nacional", depois "ideologia do Estado". Afirmou ainda, ancorado na sua biografia (anunciando que cresceu em Angola) que através da língua portuguesa aprendeu, em criança, o "dialecto" quioco. Valerá a pena discutir isto? Um indivíduo que chega a ministro não tem, obrigatoriamente, que dominar linguística ou socioantropologia ou história colonial. Mas se vem falar destas coisas não deveria ter um adjunto que lhe organizasse o discurso, coligindo alguma informação sustentável? Para não provocar um esgar generalizado, que nem sequer compreende. E para poder, reflectindo, estruturar melhor o que pensa das relações actuais e futuras entre as sociedades.

Nuno Morais Sarmento, ali orador, apresentado como ex-ministro, homem simpático e educado, referiu a importância da lusofonia, como vector económico. Um discurso para proferir em casa. Como corolário do debate disse que o espaço de desenvolvimento, económico e político, fundamental dos países lusófonos é o espaço da lusofonia. Continua este tipo de afirmações, que não têm qualquer relação com a realidade, nem passada (nem sequer no período colonial as relações económicas portuguesas eram predominantemente com as colónias e o Brasil, caramba) nem presente, e que representam apenas uma total tresleitura da história e um empecilho nas relações actuais entre Estados e sociedades (pelos anti-corpos que criam e, acima de tudo, pelo enorme desconhecimento que indicam). Um discurso de aparência "natural", de conteúdos até por vezes verdadeiramente afectivos (como se interesse não interesseiro), mas que não só é falso como intenta moldar uma realidade que não se lhe ajusta. Morais Sarmento é um antigo político, jurista, tem por cá interesses profissionais e goza de muito boa fama entre os que o conhecem. Também ele não é historiador, nem tampouco historiador económico, nem politólogo (ou antropólogo, ou coisa quejanda), não tem obrigação de olhar analiticamente para o jargão que alguma elite política e alguma lumpen-intelectualidade portuguesa manipulam. Mas, também ele, podia-se aconselhar quando aceita falar em nome (ou suportando) a política do Estado português. E nisso afastar-se, um pouco que seja, dos meros slogans a la carte.

Nelson Saúte, ali falando como intelectual moçambicano e homem da comunicação social (assunto que, à excepção dele, ninguém realmente referiu, e que seria o realmente interessante), lá teve que saltar fora do comboio lusófono, referindo aquilo que normalmente aqui se diz, "sou bantófono". O interessante não é exactamente a sua alocução (Saúte, no mundo da gente das letras moçambicanas será, porventura, o mais culturalmente cosmopolita, como se pode entender lendo-lhe a poesia). O interessante é a imediata contra-reacção - várias pessoas me disseram (na tal chamussa) que "O Nelson estava a fazer política". E muito interessante isto. A "lusofonia" é um conceito (melhor dizendo, é uma noção, mas enfim isso é outra conversa) político, e criticam uma reacção política face a um conceito político. Porquê? Porque naturalizam a ideia lusófona, querem torná-la "lisa" (falar português) e disso partem para uma afirmação de princípios, algo ontológico. Isto é o grau zero da reflexão, da política. E uma muito má propaganda.

Atenção, assistimos a este regresso da "lusofonia" como valor central no discurso do Estado português - há que recordar que por meados da década passada o poder socialista tinha, finalmente, largado as loas à paupérrima noção (inclusivamente com uma presidente do Instituto Camões a explicitar isso). O novo poder trouxe novos protagonistas ao discurso público, e recuperou outros. A "lusofonia global" anda por aí. Estamos em 2011 e regressámos aos anos 90s socialistas. Do impensamento. Mas, acima de tudo, da impreparação. E, pior ainda, uma radical falta de cosmopolitismo. Uma pretensa elite portuguesa, agora (re)acampada no poder, que para pensar os desígnios para o futuro os encerra no antigo império, incapaz de dele se libertar. Não é um neo-colonialismo (como resmungam alguns), que não há esse programa na sociedade portuguesa. É muito pior. É o medo do futuro. Aberto.

Rodapé etnográfico: Depois daquilo, curto interregno na vida a sentir-me exactamente em 1999 quando as incultas e venais "pessoas de mão" de Jaime Gama (sim, os partidos não contam nisto, tal como o tempo que passa nada conta, nada lhes acrescenta) por aqui andavam, a tal breve chamussa (ou chamuça?) à volta da piscina do referido Indy Village. Não me nego. Conversa com colegas académicos, assunto Quelimane (que é assunto do dia) e assunto cimeira Guebuza-Dhlakama em Nampula (que é assunto do semestre), "parabenizando" vencedores apesar de neutral (na prática, por mais que custe às pessoas eu sou um suave pró-frelimista, burguês de Maputo). De repente olho em volta, procurando um rissol. Poucas dezenas de portugueses nos rodeiam. Todos, sem excepção, de casaco azul - é preciso conhecer a estação das chuvas de Maputo para me acompanhar no sorriso, de menosprezo feito, face às fardas. Mesmo naqueles, daqui, que nunca as usam.

Fardas lusófonas? Cabeças lusófonas?

jpt

publicado às 16:19

Numa época em que escasseia a reportagem e inexiste a grande reportagem surge uma enorme surpresa. Uma muitíssimo boa reportagem de José Pedro Castanheira (com colaboração da Paola Rolletta e fotografias de António Pedro Ferreira): O Massacre das Minas de Moatize (2 de Agosto de 1977). Trouxe exemplares da revista mas o texto está acessível (pelo menos por enquanto), aconselho a leitura. Magnífico trabalho, daqueles quem impelem ao "Bravo".

Uma pequena nota, paralela: no texto refere-se que foi vedado ao jornalista o acesso às comunicações diplomáticas de então (as consideradas "secretas"). Recordo o que aqui escrevi aquando da querela intra-ma-schamba devida à (desaparecida, já agora) Wikileaks: "Trabalhei alguns anos numa embaixada, não tenho a visão tortuosa (nem a palerma, para aí blogorepetida, já agora) do trabalho diplomático, necessário e necessariamente informativo sobre a realidade vivida. E necessariamente impublicado. É para isso que existem arquivos e prazos de abertura. Até porque o “tempo” não é obrigatoriamente padronizado como o “imediato”, antropologicamente reduzido ao “quotidiano” [e neste caso regresso à minha besta negra (sem aspas): que um historiador (...) como Rui Tavares considere que os arquivos estatais devam ser imediatamente abertos (...) aterroriza-me quanto ao futuro do meu país. Até quando teremos que ver e ouvir estas aplaudidas pústulas e varizes do execrável e ordinário can-can esquerdista?". Ou seja, defendo a interdição a prazo do acesso os arquivos estatais. Mas que estes estejam vedados à investigação (académica, amadora, jornalística) 34 anos depois parece-me completamente exagerado. Uma sociedade democrática é uma sociedade aberta. Como tal com arquivos abertos. E aberta sobre a sua história e as relações históricas com os outros. Muito negativo este encerramento.

jpt

publicado às 22:03

"Arte Lusófona" nos CFM?

por jpt, em 08.07.11

O Instituto Camões e o Instituto de Investigação Científica e Tropical apresentaram há pouco uma exposição em Maputo, na estação dos caminhos-de-ferro. "Caras e Citações: uma interpelação estética sobre Universidade, Cultura e Desenvolvimento" de Ana de Macedo. A nota que acompanhava o convite definia-a como "um trabalho de design conceptual impresso em telas de grandes dimensões, que nos propõe um diálogo entre as Letras, a História e alguns caminhos da Arte Contemporânea.".

 

Fui ver. Entre o desconfiado ("Desenvolvimento" na arte?) e o curioso (é raro o Camões organizar coisas fora do seu Centro Cultural, alguma especificidade haveria). E acima de tudo pelo local, que é privilegiado. Espaço amplo e coberto, edifício simbólico. E local popular, milhares de pessoas passando. E burguês, com sua loja, galeria e restaurante-bar. Confluência de públicos, algo muito interessante. Em particular pela promessa de uma intervenção (que vozes amigas me anunciavam de grande dimensão física) de arte contemporânea, expressão aqui ainda problemática e até rara. Que tipo de intervenção seria, e como seria a reacção dos públicos a algo que se presume diferente ao aqui habitual?

 

 

O átrio da estação estava assim completado, impossível não comunicar, interagir com os passantes. Depois isto:

 

 

Não vou discutir da estética da apresentação. Nem das suas características técnicas (Trata-se de painéis com congregação de imagens, fotos de intelectuais, alguns populares e um conjunto de citações e alguns slogans.) Pois não é disso, assumidamente, que se trata quando se invoca a "arte contemporânea". Assim de repente fico-me apenas pela consideração do conteúdo, do projecto, (do "conceito" se se quiser regressar à malfadada moda terminológica) que é o realmente significante. Estamos diante de uma peça de arte que quer discutir "Desenvolvimento", e "Cultura" e "Universidade", mesclada com uma crítica a jeito às instituições públicas (CPLP) em versão Ong.

 

Não me parece que a arte tenha que ser revolucionária, nem mesmo que tenha que obrigatoriamente fazer rupturas (ou pelo menos que tenha que fazer rupturas com as rupturas, num incessante processo que é já tradição, o pérfido paradoxo). A grande questão é o que quer dizer.

 

Ora esta arte, que o Camões e o Instituto de Investigação Científica e Tropical trouxeram inusitadamente ao local popular de Maputo, é a arte que nos vem dizer "a lusofonia pode ser aplicada a qualquer parte do mundo". Ou (tres)citando Orlando Ribeiro [um grande intelectual e homem do seu tempo] "Português não é assim um conceito de raça mas antes, mas antes "uma unidade de sentimento e de cultura" que aproximou homens de várias origens".

 

Se esta exposição tivesse sido trazido por estas instituições públicas nacionais para ser apresentada na Escola Portuguesa de Moçambique, também ela pública, eu poderia invectivar a paupérrima "arte oficial" (para facilitar). Como perversora do que poderemos entender como arte, descurada na sua profundidade analítica, facilitadora (técnica e conceptualmente). E como meramente reprodutora da mais básica versão de uma concepção retrógada, ignorante, aplainadora, da história e da actualidade, aquilo a que dantes (?) se chamaria uma "ideologia oficial". Um projecto?  Nem tanto, nesse hipotético caso seria uma acção prejudicial à visão do mundo, pois dela empobrecedora, dos hipotéticos alunos que com ela contactariam.

 

Mas isto foi para o centro da cidade. Com um conteúdo destes trata-se de uma mera acção de propaganda, completamente "fora da placa". E como tal nem se discutem os eventuais méritos ou deméritos da sua dimensão artística. Pois é algo político, mera e incompetentemente político. Apenas dá para perguntar o que é que se passa na cabeça de quem aprova estes projectos. Em que mundo gostariam de viver?

Isto, na mediocridade que transparece, não é inacreditável. É inaceitável.

 

[Alguns dirão que estou a dar uma pancada nos responsáveis aqui vizinhos. Não estou. Estou mesmo crente, sem que tenha sabido de nada, que da sábia Lisboa lhes impingiram isto. E que nessas alturas não há nada a fazer. Apenas suportar. E esperar que passe. Já passou. Até à próxima coisa jeitosa.]

 

jpt

publicado às 01:52

Sobre a RTP, a imprensa estatal e a questão do serviço público convém ler um excelente artigo de José Pacheco Pereira, "o iceberg RTP". Suscita-me apenas uma questão: JPP considera que "a função da RTP África é geoestratégica", consideração com a qual, em princípio, concordo. Mas ocorre-me, se assim é qual será a razão para a estação ser tão má, tão abandonada ao deus-dará?

jpt

publicado às 00:24

O conto de fadas colonial

por jpt, em 25.06.11

 

1. Há cerca de um ano debateu-se neste blog o “Caderno de Memórias Coloniais”, um livro dedicado à demonização da sociedade colona (reuni esses meus textos aqui). Aquela histriónica abordagem fora muito bem acolhida nos meios literato, bloguístico e jornalístico, tendo mesmo sido anunciada pelo Público como o início dos estudos pós-coloniais portugueses. Esse simpático acolhimento muito adveio  do desconhecimento das questões abordadas, por ignorância da literatura e da sociologia histórica. E, acima de tudo, por razões da sociologia da recepção textual, catapultada por redes com impacto mediático na "pequena Lisboa", e seus tentáculos conimbricenses. Mas essa dimensão "comunitária" do apreço colhido pelo livro não se limitou a ecos das redes pessoais dos divulgadores. E foi interessante pois denotou a propensão para um particular olhar colectivo sobre a história recente de Portugal em África.

O resto que fui lendo a esse propósito, mascarado de objectividades, só mostrava da pequenez do contexto e do desinteresse dos locutores. Lembro uma recensão ao livro anunciando que aqueles que não o apreciavam eram os do "outro lado da cidade", assentando metáfora sobre a topografia/sociologia de Lourenço Marques / Maputo, com tudo o que de pejorativo isso implicaria. Ou seja, para esse locutor, também ele português “laurentino” e escritor, todos os que torciam o nariz àquele "Caderno de Memórias Coloniais" seriam da elite colonial, da "Polana", do "Sommerschield", os "fachos", colonialistas.  Ou seus actuais sequazes.  E muitos outros assim o pensaram. Como se justificando o seu entusiasmo por tais dislates.

2. Vi agora Linha da Frente, um programa da RTP dedicado aos deficientes das forças armadas de origem africana e de nacionalidade portuguesa. O meu interesse no tema vem de ter acompanhado, nos finais de 1990s, o desenvolvimento da ADFA em Moçambique (lembro ainda a inauguração da sua sede na Malhangalene). E  depois com a mais abrangente questão relativa às pensões aos antigos combatentes e sua aventada extensão às tropas africanas - que deu origem a um enorme boato, com milhares e milhares de petições recebidas pela Embaixada portuguesa em Maputo. E, mais tarde, pela tese de mestrado do meu colega Elísio Jossias, Entre a Colónia e a Nação: Moçambicanos Deficientes Físicos das Forças Armadas Portuguesa. A problemática destes deficientes é pungente, não só pelos óbvios dramas pessoais que a deficiência provoca como pela inaceitável inércia das instituições portuguesas ao longo de longos anos.

Mas o debate (em blogs e nas redes sociais) que este programa televisivo convocou apologias do "sentir português" das tropas africanas recrutadas nas guerras coloniais - uma retórica recorrente, sempre apagando a pluralidade das causas e dos processos de integração dos africanos nas forças armadas portuguesas. E nisso apagando os vincos e esquinas da sociedade colonial. Ou seja, o desconforto com uma incúria inaceitável do Estado português actual face a responsabilidades históricas para muitos serviu como motivo de enaltecimento daquela "Nação" típica do discurso do Estado Novo. E nisso ressurgiu, num ápice, o elogio do estatuto do indigenato e da ideologia assimilacionista de então, cuja excelência seria exemplificada pela contribuição desses mobilizados para as forças portugueses, 

3. São estas as duas faces da desatenção nacional sobre o passado (ainda) recente em África. Este recorrente elogio do colonial - mesmo que por vezes matizado por alguma distância crítica face ao "colonialismo real" - não tem tanto "capital cultural", os galões académicos e nomeada mediática, de muitos que agora aderem à serôdia denúncia do colonialismo, de facto apenas aplainadora da sociedade colonial. Mas é resistente, e ainda tem uma influência difusa no olhar da sociedade sobre si, no passado e no presente. É certo que África, e o passado colonial, não são hoje muito importantes num Portugal eurocentrado e globalizável, mas o tema não se restringe à efectivação das relações com África.

Esta recuperação do assimilacionismo, e da sua forma particular de "estatuto de indigenato", a afirmação da sua bondade, não é mais nem menos do que a aceitação pública e assumida do estupro cultural, da violação religiosa, da apropriação económica, do “politicídio”, que todo o sistema colonial implicava. E até espanta pela sem-vergonha das declarações e pela sua constante repetição, algo que até poderia aparentar inconsciência - mas não a é.

Nestes ainda apologistas do regime colonial é corrente desvalorizar as visões menos abonatórias daquela realidade, afirmando-as meras “opiniões”, infundamentadas por desconhecimento. Enquanto reclamam as suas interpretações como validadas pela experiência vivencial - "nós(/eu) estávamos lá, sabemos como realmente foi". Como se as memórias biográficas, por si só, lhes legitimem as interpretações do passado – querendo elidir que, de facto, negam a empiria, a qual sempre é opaca, como é sabido.

De facto, trata-se de um relativismo que alastra até aos que, mesmo não concordando com este "ardor colonial", o contextualizam, vendo-o (explicando-o) como fruto da peculiar sensibilidade daqueles que sofreram o fim do Império e que, devido a esse trauma, assim constroem as suas próprias visões do mundo. Ou seja, aceitando que uma identidade (multi)biográfica - como se de "tribo" tratasse - elabora o mundo de forma diversa e sobre ele opina, assim legitimamente.

4. Tópico habitual nos saudosistas do regime colonial é a reclamação do não-enriquecimento colono, próprio (ou familiar), como prova da benevolência colonial. Ora essa é essa uma linha fundamental pois abre caminho, para quem não chega lá de outra forma, ao que realmente interessa. A sociedade colona portuguesa era compósita e por isso mesmo atoardas denunciadoras, maximalistas, como as do livro que acima referi, são meros bibelots kitsch

O que será interessante, e relevante, é recuperar a multiplicidade dessa sociedade, não apagar a especificidade de contextos e de grupos e percursos diversos. Não apenas económicos. Mas também das múltiplas formas de integração e das componentes que as terão influenciado, e também das formas de construção de alteridades, e das mundivisões que comandaram as práticas, e cujas refracções são nosso legado. Nisso não demonizar os seus agentes, colonos (ou colonizados), como se espantalhos. Nem mesmo os colonialistas. Mas nunca apagando os traços fundamentais, pois estruturantes, da complexa realidade que foi. Coisa que os denuncionistas não conseguem (nem se interessam), coisa que os apologistas não querem (talvez não consigam). 

5. Nesta incapacidade de entender as dinâmicas do passado, um “invisualidade” que raia o negacionismo irracional, há um potencial de afecto. Às vezes um afecto ciumento, de facto saudosista. Pois promove uma atenção sobre as antigas colónias, sempre apontando os falhanços e as malevolências pós-independências. Assim os percursos dos Estados africanos, e em particular as suas actuais diferenciações socioeconómicas, as dinâmicas de exploração interna, enormes e terríveis, são reclamados como prova óbvia da benevolência anterior, da legitimação colonial.

Mas há algo fundamental que nunca é referido neste feixe discursivo. É que os actuais projectos de exploração, de apropriação, de transformação violenta e indesejada (não-requerida), o desígnio de poder, a realidade actual, já não são “nossos”. Um "nossos" de país, donde sociedade complexa, hierarquizada, diferenciada, onde tantos não eram (nem se sentiam) possidentes, e onde as acções e concepções eram múltiplas. Mas onde presidia uma identidade comum, que baseava direitos comuns subordinadores de outrem, e confrontada com uma realidade apropriada, assim subordinada.

Ou seja, o que os nostálgicos e apologistas do regime colonial de facto repudiam é esta liberdade de não ser colono. É essa liberdade que repudiam nos seus elogios ao “indigenato” e ao assimilacionismo.  É esta democraticidade que estes reclamados democratas (quando o são) não sentem. Com tudo o que défice de cidadania, no próprio Portugal, que isso anuncia. E também por isso a indignação face a compatriotas que ainda hoje, tão anacronicamente, valorizam a opressão e o activar (de múltiplas formas e com diferentíssimos estatutos) desse malfadado desígnio de então.

6. Em 1971, em Lourenço Marques, António Quadros assinando João Pedro Grabato Dias (A Arca. Ode Didáctica na Primeira Pessoa, cxcix, Lourenço Marques, edição do autor) escreveu: 

Sei que são meus senhores, é quanto basta / para saber-me escravo e infeliz  / E ainda que os soubera forcejando / unicamente por interesse meu / e por meu bem, sem causas de malícia, / eu lhes negara o gosto de o fazer / e o direito de impor-me o que nem sei / se desejo. E ainda que inocentes / de propósito cru de magoar-me / eu os negara porque são senhores.

40 anos depois ainda soam os lamentos de que no "nosso tempo" não era assim. E os resmungos do que foi perdido, das feridas próprias ou alheias, da injustiça sofrida. Um ressentimento que reclama este futuro. E também por uma compensação. Moral. Quantas vezes por via do reconhecimento, atento, até quotidiano, da malevolência alheia, até da incompetência.

Na prática, tanto denuncionistas (invectivando os demónios próprios) como apologistas (carregando sobre os demónios alheios) continuam o seu conto de fadas colonial: "... a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação." (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

Democraticamente têm todo o direito de o narrarem, ao conto de fadas de cada um. Mas não podem exigir respeito. Intelectual.

publicado às 19:15

Patrícios em Moçambique

por jpt, em 18.05.11

 

Muitos os patrícios que chegam a Moçambique, ainda que não saiba os números. Há o caso particular, sazonal, desses "contactos" do AICEP, um escândalo de programa que tem gasto milhares ao longo dos anos e o qual consiste em pagar estágios no estrangeiro a jovens licenciados, que aportam a empresas que, na sua maioria, não estão  interessadas/preparadas para os receber. Basta falar com uma meia dúzia para perceber a radical ineficiência disso tudo (para exemplo-mor há alguns anos a mão-cheia de "contactos" em Moçambique foram proibidos de trabalhar, andaram para aí meio ano sem nada para fazer, pois ninguém tinha assinado protocolo inter-estatal que lhes permitisse aqui trabalhar). E, para além das ineficiências que se vão acumulando e da decadência dos critérios de selecção, o pérfido é a base disso: o Estado (via AICEP) paga a jovens para que eles preparem a emigração. Chama-se a isto, no jargão de Basílio Horta, "internacionalização". Mas para o assunto aqui abordado isso é assunto de somenos, apenas mais uma nulidade do poder que sofremos.

 

Regresso aos (i)migrantes patrícios. Uns jovens, outros menos jovens, coisas da sociologia portuguesa. Emigrantes, como eu. Não vou entrar em generalizações, ainda para mais falando de cima do palanque do senso comum. Sei de outra coisa, que chegam muitos, e que encontram um ambiente bem diverso daquele que ocorreu em finais de XX, aquando terminava a década de 90, onde a parvoíce do "Regresso dos Portugueses", imbecis títulos com que Expresso (Maria João Avillez, um texto tétrico) e Grande Reportagem (Francisco Camacho, um escroque) inundaram as mesas de Maputo, reforçando as feridas nas sensibilidades locais. Lembro o frisson provocado por uma entrevista de Manuel Tomé, homem afável, então secretário-geral da Frelimo, quando referia o desconforto com a chegada de portugueses para "abrir sapatarias e talhos". E ainda mais a entrevista do então cardeal de Maputo, homem gentil, que no "Domingo" se indignava com a quantidade de brancos que se viam na cidade, em particular nos restaurantes da Nyerere. Com as constantes notícias nos jornais sobre "malevolências", umas decerto que existentes outras verdadeiramente inventadas (lembro-me de ter publicado no Domingo uma carta defendendo um amigo vítima de uma iníqua campanha de calúnias no "independente" Savana).

 

Hoje em dia é diferente. Mais uma década passou sobre a independência e as feridas do colonialismo. A esmagadora maioria da população é jovem, não estruturou a sua concepção do mundo nos "tempos". Cahora-Bassa, essa cruz maligna nas relações entre Estados (e sociedades), foi entregue tal como estava contratualizado (mas não foi "revertida", ficção nacionalista local que os portugueses não têm que assumir, apesar de Jaime Gama o ter, diligentemente, feito).  A elite moçambicana, e a própria sociedade, está mais aberta ao mundo, menos temerosa da invasão estrangeira, fruto da economia do mercado e do fim da ficção da auto-suficiência, da perenidade da paz, da globalização, da entrada em múltiplas frentes internacionais, do processo de integração regional, das articulações económicas em vários palcos, das imigrações paquistanesas, centro-africanas, chinesas, até brasileiras e americanas ligados a grandes empresas, etc (ainda que sendo processos muito diversos todos significam a entrada de assinaláveis quantidades de estrangeiros no país). E está mais aburguesada, ou seja há criação óbvia de uma pequena-burguesia bem mais vasta do que há uma década. "Por fim, mas não menos importante" a elite socialista portuguesa, profundamente imbrincada nos negócios, estabeleceu competentes relações com a elite económica moçambicana, o que sendo acima de tudo benéfico para os interessados des-demoniza o "tuga" ao nível das elites. E há, claro, a "almofada" ismaelita. Assim de rajada é um conjunto, incompleto, de factores que produzem uma menor crispação face ao surto de imigração portuguesa, pessoal e empresarial em Moçambique (em Maputo?).

 

Sim, não há hoje as constantes investidas políticas e mediáticas que aconteciam em finais de 1990s contra interesses ou imigrantes portugueses. Estes vão crescendo, dizem-me que em Portugal há, não só uma crise de país adornado mas também a ideia de que "Moçambique está a dar" (ecos das pesquisas de petróleo e do carvão, confusões sobre destinos austrais, escolha-se). Enfim, à vista desarmada é óbvio que há mais patrícios em Maputo.

 

Eu, aqui imigrado há 14 anos, tenho algum conselho de mais-velho? Tenho. Não se esqueçam de que estão no estrangeiro. Há tiques, deixemos-nos de rodeios, há tiques inadmissíveis. Não são generalizados, mas por cada tuga que julga que pode partir a loiça por dá aquela palha é uma imagem que se reproduz para todos os outros. São, e é uma imagem que vem do tempo colonial, os "matrecos". A falar de alto com a pretalhada. Ainda há. São a minoria. Mas ainda há. Uma vergonha. E uma violência para os patrícios médios, com seus defeitos e qualidades, que assim ficam(os) grudados à imagem do boçalismo patenteado por aqueles a quem a febre do Equador atacou.

 

Depois há boa gente, má gente, e acima de tudo média gente. A arriscar(mos) na vida, a tentar fazê-la o melhor. Muita gente a chegar - e eu à espera de que o ambiente vá virar um pouco. Um pouco à imagem de há 20 anos atrás em Portugal quando aquelas turbas de tipas e tipos vestidos de fio dental a sambarem, apaneleirados, nos gélidos e chuvosos carnavais de Torres Vedras, Lourosa ou Sesimbra, a masturbarem-se com o Rubens de Falco ou a Sónia Braga, que de repente viraram inimigos mortais dos malandros dos "dentistas brasileiros", filhosdaputa a roubaram-nos o trabalho. Ou seja, não será o problema político, das imagens políticas de há alguns anos atrás, até do confronto face às elites políticas e económicas, será o eterno problema da concorrência no mercado de trabalho que poderá criar problemas na recepção do surto migratório.

 

Sem exagero, e assim de repente até a mim, falido professor, me chegam constantes pedidos de apoio ou informação. O que fazer, que trabalhos, a quem perguntar, como se estabelecer (honestamente eu devia era passar à ilustre profissão de "facilitador", pelo menos alguma melhoria económica sentiria). Ora quando um antropólogo desvalido é fonte de informação a consultar para enquadrar processos migratórios é porque há muito movimento. E gente desapoiada.

 

De tudo um pouco. Gente muito competente (a semana passada um familiar de familiar passou por cá, no intuito de criar uma filial, deixou-nos um portfolio da actividade do seu atelier, de uma qualidade fabulosa), gente média (somos a maioria). E gente fraquinha - no raio das atitudes, sim, os tais "matrecos". Mas também gente muito mal preparada. Hoje, e é a causa para este despejo apressado, ainda que há muito pense em escrever algo (mas mais cuidado) sobre o assunto, recebo mais uma mensagem, um jovem perguntando-me por "agências de recrutamento" (!!??) para trabalhar em Moçambique. Nisso apresentava-se como licenciado, preparado para trabalhar em 2 ou 3 áreas de actividade, entre as quais "recursus humanos" (?!).

 

Assim estamos mal ... Mas há trabalho para "recursos humanos". Não matrecos.

 

jpt

 

publicado às 02:21

Ciclo de conferências a acontecer na próxima semana. Mais informações encontram-se no lamentável sítio do Instituto Camões de Moçambique - uma coisa horrorosa, que se simboliza pela reclamação de um "multiculturalismo" por via da associação de estudantes de diversos fenotipos (a la Benetton dos "tempos"), um aziago pacote que se julga sublinhado por uma mulher moçambicana em cuidados de higiene (o Camões é um local de cultura, exige-se menos poluição acultural). Mas dessa tralha não têm responsabilidade os oradores da próxima semana. A serem acompanhados, se possível.

ADENDA: "A pedido de várias famílias" aqui coloco o programa dos acontecimentos, enviado por e-mail (e, ao que parece, ausente do sítio institucional) [não revi o texto]

7os Encontros com a História no Instituto Camões: “Dos Nacionalismos às Independências em África” (9 a 13 de Maio de 2011)

Decorrem, entre 9 e 13 de Maio, entre as 18 e as 20 horas, na Sala de Conferências do Instituto Camões em Maputo, os 7os Encontros com a História. A inscrição, gratuita, poderá ser feita na Galeria ou Biblioteca do Instituto Camões, sendo necessária para a atribuição do Diploma de Participação nestas Conferências. Se desejar, pode-se inscrever para este endereço de correio electrónico indicando o nome, profissão/actividade.

Programa 9 de Maio (2ª feira) Abertura [18H00] Representante da FLCS da UEM «Moçambique e as representações locais e metropolitanas do domínio colonial no final do século XIX» [18H40] Paulo Jorge Fernandes

10 de Maio (3ª feira) «O Nacionalismo em Moçambique e o papel da Igreja – O caso das Igrejas Protestantes no Sul de Moçambique » [18H00] Teresa Cruz e Silva «Nacionalismo africano: memória e desafios» [18H40] Luís Bernardo Honwana

11 de Maio (4ª feira) «O jovem louco: uma leitura de Nós matámos o cão tinhoso» [18H00] Gilberto Matusse «A questão nacional em Moçambique» [18H40] Aurélio Rocha

12 de Maio (5ª feira) «O nacionalismo são-tomense – O contributo das Colónias para a Independência de São Tomé e Príncipe» [18H00] Elisabeth Martins «Dos nacionalismos às Independências: esboço de problematização de trajectos políticos em África» [18H40] Augusto Nascimento

13 de Maio (6ª feira) [18H00] Encerramento com lançamento do livro Moçambique: Relações históricas regionais e com países da CPLP

jpt

publicado às 08:48

PALOPs

por jpt, em 12.04.11
O projecto até que é muito bom e de louvar. O português é que saiu furrado![caption id="attachment_27207" align="aligncenter" width="922" caption="Quinhamel / Guine-Bissau Abril 2011"][/caption]

AL

publicado às 18:42

Tarrafal, "o Campo da Morte Lenta"

por jpt, em 28.03.11

[Janela no corredor do pavilhão da Cela Disciplinar / Solitária] 

 

Abaixo o MVF retratou, assim evocando, o campo do Tarrafal que acabou de visitar. Na altura desafiou-me a juntar algumas palavras às suas fotografias. O que recusei por uma questão de princípio (o qual partilhamos). Pois, contrariamente ao que muita gente pensa e pratica, considero que as fotografias não precisam de textos, legendas (poéticas, informativas, descritivas, seja lá o que for). Os textos sim, precisam quase sempre da legenda iconográfica (à qual chamamos ilustração, palavra assim tornada verdadeiro sinónimo de iluminação). Mas em relação ao Tarrafal, o "campo da morte lenta", o campo de concentração em Cabo Verde destinado a presos políticos que a ditadura salazarista (e sua sucedânea marcellista) instituiu, surgiu-me agora uma inquietação. Pois creio que muitos dos visitantes do blog, seja pela tenra idade seja por exaustão da memória RAM, não saibam do que se trata.

 

Então, e a propósito do Tarrafal (e, nada indirectamente, da bondade do regime salazarista) aqui deixo ligação a um texto encontrado na internet (é surpreendente e significante a pobreza, quantitativa e qualitativa, das referências à Colónia Penal do Tarrafal, seja em texto seja em filme, que se encontram na internet via google). Um texto breve, para quem não se lembra ou não faz ideia do que se trata, da autoria do historiador Francisco Canais Rocha, sobre a mortífera colónia penal para portugueses (1936-1953) e para africanos (1961-1974).

 

Para incremento do saber próprio. Mas também, minha modesta (e julgo poder dizer que também do MVF) contribuição para que a gente nunca se distraia diante daqueles que defendem quem fez campos de concentração ("contextualizando-os", "relativizando-os", minimizando-os). Pois sonham-nos no futuro. Seja lá qual for a pantomina com que surgem no actual quotidiano.

 

jpt

publicado às 07:07

Laurentino Dias em Maputo

por jpt, em 23.03.11

Passados longos meses o Tribunal Arbitral de Desporto dá razão a Carlos Queiroz, e suspende a suspensão que lhe fora imposta. Independentemente do que se possa pensar de Queiroz como seleccionador nacional de futebol o processo que lhe moveram foi totalmente inadmissível, e as coisas só são (foram) associáveis na mente de imbecis encartados (e quantos deles bloguistas). O processo, ilegal e imoral, foi patrocinado por um execrável Laurentino Dias, o inaceitável secretário de estado dos Desportos, um espelho da mediocridade desonesta do governo de José Sócrates. Leio que esse antigo presidente do Fafe, reles aparelhista do partido socialista colocado no governo, se encontra de visita a Moçambique (e à África do Sul). Com que justificação um secretário de estado dos desportos de um governo que está a cair, talvez hoje mesmo, se desloca à África Austral? Que vem fazer? Que atitude esperar das suas contrapartes em tal contexto? Que forma é esta de ter relações externas? (E já nem pergunto, que é pergunta demasiada para a nojenta cáfila socialista, o que é que um membro do governo vem fazer ao estrangeiro, se não há MNE para tratar disso? Continua este ridículo eco do governo colonial da descentralização departamental das relações com as ex-colónias? Uma vergonha, funcional. Uma repugnante ignorância, intelectual. O PS, nada mais).

Entenda-se, nos últimos tempos tem sido um corropio de visitas do membros do governo português a Maputo. Que raio virão fazer? Uns vêm despedir-se, armados em membros de governo metropolitano, como se da sua tutela fosse também a relação departamental com as (ex)colónias. Outros vêm preparar a vidinha, a transição para as empresas socialistas e a entrada nos negócios locais, nas consultorias, uma prostituição política mais desavergonhada - não digam que é má-língua, vivo aqui há tempo suficiente para ter assistido aos ex-membros dos governos do PS aqui em missões de curta duração a retirar dividendos, a "travessia do deserto" bem paga aquando na oposição. Pois, como diz o plumitivo Eduardo Pitta, sempre disponível para apoiar a mais rasca da ordinarice socialista, "os meus amigos de direita gostam muito de ir a Maputo". Esses e os escroques socialistas.

Que vergonha, ter um patife - porque foi uma patifaria desonesta o que fez a Carlos Queiroz - como Laurentino Dias aqui a representar o meu país. Ou, por outra, a passear-se neste país. Que nojo de gentalha. Quem paga, os custos e os efeitos?

Adenda: os mais atreitos dirão que o secretário de estado dos desportos portugueses veio discutir a realização aqui dos jogos africanos 2011. Para quem não sabe disto: a) a alusão a estes jogos e à presença de um membro governamental português aqui só pode levar a ... sorriso triste; b) que faz a representação diplomática em Maputo para deixar essa associação correr? (presumo saber: informa, pede para se afastarem, mas Sua Excelência quer vir); c) tudo o que acima disse repete-se sobre a apetência dos membros do governo em virem a "África"; d) é uma vergonha ter este tipo de Fafe a representar o país aqui.

O que vale é que estes tipos estão de saída? Não! Ficaram anos. E muito em breve estarão de volta.

Adenda: sobre as características da administração pública no Estado colonial português a que acima aludo o leitor Ricardo Alcobia deixa um comentário discordando deste texto, considerando-o factualmente incorrecto. Para todos, claro, mas mais para os interessados nesta matéria, valerá a pena ler (basta clicar no "comments").

jpt

publicado às 16:00


Bloguistas







Tags

Todos os Assuntos