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Não tenho qualquer simpatia pela "causa homossexual" política portuguesa, repugna-me até. Pois, ainda que abrilhantada na aparência irreverente, foi serva dessa miserável era socialista, astutamente utilizada, colonizada até, pelo craxismo luso. Tal como antes o foi o dickensiano discurso da causa "interrupção voluntária da gravidez" e, depois, já aí vinha o reggae da despenalização haxixiana, colapsada face à forte crise financeira que a atirou para as calendas gregas. 

 

Dito isto: há alguns anos Manuela Ferreira Leite explicitou o que é e deveria ser óbvio. A família é para procriar, é uma instituição com essa finalidade. A esquerdalhada infecta, na colecção de cromos em que vive, apupou-a, chamou-lhe "velha" e coisas assim. Até, miséria de Estado que paga a tal gente, antropólogos funcionários públicos - que deveriam ter sido despedidos, liminarmente, por incompetência ao expressarem o dislate de discordarem com tal evidência, assim ferindo o cerne da sua actividade profissional.

 

Em assim sendo é óbvio que tendo a sociedade portuguesa, e os seus representantes políticos democraticamente eleitos, concordado e legislado em favor do casamento entre homossexuais estes têm, por inerência, todos os direitos a procriar. Biologica e/ou socialmente, adoptando ou "tecnologizando". Pois o casamento é para isso, regulando direitos e deveres sobre filiações, obrigações face a parentelas e distribuindo patrimónios transgeracionais.

 

Negar isso, como ontem continuou a fazer a Assembleia da República portuguesa, é a mais abjecta das indigências intelectuais. E uma vergonhosa cobardia política. Uma sem-vergonha que vem do PS de Sócrates - aplaudida por algum do "homoalegrismo" -, e que se reproduz. Ou se tem a coragem política de reverter a situação, inibindo este tipo de casamentos (para quê?, pergunto-me, que mal provocam ao mundo?). Ou assume-se o que é o casamento.

 

E nada disto tem a ver com os "direitos" das "pobres" crianças despojadas nos orfanatos, essa choraminguice dickensiana, falha de imaginação, que sempre brota. Tem só a ver com os direitos dos adultos. Quem pode casar (sendo solteiro/divorciado, sendo intelectualmente capaz, estando na posse do livre-arbítrio) pode adoptar ou procriar biologicamente. Repito: ou revertem a lei ou aceitam isto, não há meio termo. Ponto final parágrafo.

 

O resto, o lixo, isto que há, tem nomes: Sócrates, Passos Coelho, Portas. E quem os apoia, pois nisto não há "liberdade de consciência". Só mesmo hipocrisia.

publicado às 02:39

A blasfémia

por jpt, em 13.01.15

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 (José Vilhena, na Gaiola Aberta)

 

Pensar após o atentado de Paris tornou-se difícil, e nota-se por aí fora. Leia-se José Pacheco Pereira no seu último texto no Abrupto. Há mais de uma década que lhe leio o blog e este será o mais atabalhoado texto que ali colocou: leia-se o parágrafo 3, Pacheco Pereira a assumir, escorregando (?), a velha tese da "democracia formal", isto na ânsia de criticar os poderes actuais e de "relativizar" a questão do "Charlie Hebdo". Num breve parágrafo jpp pontapeia imensas páginas que já escreveu. A comprovar a dificuldade em matizar a radical condenação do acontecido, em misturá-la com considerações da espuma dos ... meses.

 

Atabalhoados também tantos que partilham um execrável texto de Leonardo Boff sobre o atentado de Paris. Em suma, o velho padre, que foi icónico para a esquerda europeia, vem defender a perseguição judicial a quem ofenda os sentimentos religiosos alheios. Entenda-se, à bolina destes acontecimentos o padre apela ao cercear do direito à blasfémia, um direito crucial nas nossas sociedades (a "Europa", o "ocidente", se se quiser), tão custosamente conquistado na história recente. E no surf da defesa do "bom gosto" e da protecção às "vítimas oprimidas" se põe em causa um valor estruturante da liberdade. Não percebem isso os retrógados das "boas causas" que se aprestam a concordar (e partilhar) este "ovo da serpente"?

 

Ao mesmo tempo há neste paternalismo, o dos defensores dos pobres muçulmanos ultrajados, um novo "orientalismo", um postular de défice aos "outros", esses orientais incapazes de viverem com afrontas ao seu sagrado. Tudo bem connosco, cristãos civilizados, temos a estrutura civilizacional para conviver com a blasfémia, para sobreviver ao desconforto da afronta. Já não tanto com os habitantes desse "oriente", dessa alteridade, ainda mergulhados no torpor do sagrado, como se imaturos. É um evolucionismo incauto o que sobrevive no pensar destes "bem pensantes" sempre preocupados com as vítimas da exploração. E, até paradoxalmente, é o maior desrespeito pelas populações muçulmanas, a coberto de um pretenso respeito pelas suas crenças produz-se uma desvalorização dos crentes, como se a sua infantilização, o seu aprisionamento na "comunidade" (de crença, claro), uma desindividualização.

 

Muito disto tem a ver com a pressa. Acima de tudo com a pressa nas leituras. É o mundo do limite dos caracteres, no twitter, nos sms, no facebook. Na "obrigação" do texto curto, nos jornais, nos blogs. No limite também nos textos académicos, reduzindo a complexidade. Tudo isto nos aprisiona na cacofonia. Nos conduz à condensação do que se diz, do que se pensa, ao primado da enxórdia dos "abstracts" e das "palavra-chave". Um dos efeitos mais importantes disso é a amputação dos sentidos dos valores. A gente vive em sociedades que defendem, e assentam, no respeito da liberdade de opinião, e nisso da liberdade de culto. Nessa atrapalhação de leituras, de irreflexão, muitos confundem "respeito pela liberdade de opinião" com "respeito pela opinião". E isso é uma trapalhada intelectual. Defender o respeito pela liberdade de opinião em nada me obriga a respeitar a opinião alheia. Não a posso proibir mas posso pateá-la, não a posso prender mas posso denegri-la, ridicularizá-la. Se caluniar ou agredir os seus defensores os tribunais tratarão do caso. Mas gozar as opiniões, combatê-las, desrespeitá-las, "blasfemar"? É meu direito e, até, meu dever. Depois serei "julgado" (ou seja, avaliado, catalogado) pelas minhas opiniões, pelo minhas anti-opiniões, pelo seu tom e formato. Quanto muito serei alvo de sanções "morais". 

 

Que gente com responsabilidades intelectuais e profissionais não perceba isso só pode ter duas respostas: ou são, para além das retóricas "progressistas" e/ou "libertárias", profundamente totalitários. Ou andam completamente distraídos e mais valia pararem de perorar ao teclado.

publicado às 23:22

A fragilidade do "indignismo"

por jpt, em 12.01.15

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Em vários "sítios", em particular nos murais-FB dos sempre habituais resmungões "indignistas", vejo este remoque à manifestação de Paris de ontem. Mentes menos ágeis, decerto, que vituperam  que dezenas de chefes de estado e de governo (com pronunciadas excepções magrebinas, já agora) se tenham concentrado na rua, salvaguardados da imensa mole por razões de segurança - ainda por cima neste contexto. Gente incapaz de perceber o que está em causa e, também, de entender o que é o "simbólico", a sua pujança estruturante. Outros (entre os quais Filipe Guerra, confrade bloguista e mais-do-que louvável tradutor) protestam porque estes líderes (e sua espécie) foram tantas vezes atacados pela Charlie Hebdo e agora aparecem "sendo Charlie" - e não percebem como assim se apoucam. E como até engrandecem os que querem visar, exactamente porque estes se aprestam a homenagear quem lhes "batia" com virulência (ainda que alguns deles sejam de facto muito pouco engrandecíveis). A raiva indignista tolda-lhes a razão e despista-lhes o "postar".

 

Mas não estão sós nem mal acompanhados no fel fervilhante. Outros aprestam-se, vejo também no FB, a mostrar que os francesses massacraram argelinos na sua resistência à independência do país, no entre 1950s-1960s. Apetece dizer-lhes que não foi só aí, que aquilo do colonialismo foi um fartar vilanagem, e não só no Magrebe. E que até há tradição mais longa lá pela França, basta recordar os libertadores franceses que a coberto da revolução das luzes massacraram e pilharam a Europa, a mais o Egipto e não só, quando ao Bonaparte lhe apetecia.  É tudo verdade mas ocorre perguntar, em bom francês, "so what...?". 

 

Afinal nada mais refinado Joe Sacco, o genial panfletário (e sobre o qual meti um texto longo há algum tempo), apanha o torpe comboio e bota este esterco demagógico, cheio de falsificações porque generalizações (entre outras, que será isso do "the muslims"?) ...

 

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Deixemo-nos de coisas, nisto tudo só habita uma ideia central nesta esquerdalhada ocidental, ao sofá. A gente pode gozar como quiser com a religião cristã mas tem que "compreender" a "particular sensibilidade" iconográfica dos "muçulmanos". Um tipo que goze as figuras cristãs (o saudoso Vilhena por exemplo) é um valente iconoclasta, e quem se ofende é um troglodita (tipo o Abecassis quando se irou com o francês "Je vous salue, Marie" daquele Godard). Mas já um tipo que goze as figuras muçulmanas é um vil islamófobo, tem essa doença intelectual. Não ocorre a esta gente, na escalfeta, que é exactamente a "particular sensibilidade iconográfica" desses "oprimidos" (uns sê-lo-ão, tantos outros nem tanto) que apela ao insulto, que exige a iconoclastia, mesmo que esta "sem objectivo" como escarra Sacco. Pois é ela própria o objectivo fundamental, o valor-em-si. E nisso continuo a receber ene emails denunciatórios, que esta gente "jihadista" foi formada e treinada pelos "americanos" malandros, naquilo da Guerra Fria (ah, a imorredoira costela PC/URSS, sempre a funcionar). Mas ninguém desta rapaziada (nem mesmo o Sacco) me manda ou ilustra algo sobre a ateufobia, escassas as referências, quando existem, sobre esta viçosa mania de matar, prender, desvalorizar gente como eu, que achamos que esta superstição dos entes e concomitantes feitiços, milagres e intervenções é tralha a ultrapassar, défice de cabeça. Se descobrem um crucifixo numa escola rural abandonada atiram-se ao ar, se há nova notícia sobre um ateu lixado algures num contexto "oprimido" .... scroll down, que urge denunciar uma repressão cuja culpa seja .... "nossa".

 

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(Foto de Miguel Valle de Figueiredo) 

 

O outro dia fui ao "Je suis Charlie" em Lisboa, não ia a uma manifestação há uns trinta anos. Ali à Câmara de Lisboa, primeiro, depois aos Restauradores. Na primeira até me arrepiei quando cheguei. Pois era o PS, mas como estava com o MVF e o "je suis charlie" era justo aguentei-me com aquela companhia. Estavam todas as figuras gradas daquele partido (não estava o Guterres, decerto que no estrangeiro, e o Sócrates, acredito que na cela) e uma centena de quadros da função pública, daqueles que vão a despacho, entretendo-se, entrefalando-se. Todos encostados à escadaria da câmara, rodeados por um semi-círculo de jornalistas e uma suave segurança ("brandos costumes"). O minuto de silêncio, o erguer do "je suis charlie", meia dúzia de cumprimentos (SEXA Embaixador de França estava presente) e lá foram. Não vi nenhum dos políticos sonoros e sonantes na concentração uma hora depois na vizinha Restauradores. Foi uma concentração para a fotografia, longe da população. Valeu por isso mesmo.Porque foi feita. Se afirmou algo.

 

Nenhum destes indignistas de pacotilha, tantos a patacoarem porque Passos Coelho e Assunção Esteves foram a Paris e a gozarem com a foto dos líderes mundiais (com as tais excepções magrebinas, repito), se ofende ou abespinha com isto. Não lhes dá jeito ao rame-rame. Não há dúvida, pode-se tirar o tonto do beco, mas não se tira o beco do tonto ...

publicado às 18:28

Como isto é

por jpt, em 21.12.14

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Estive uma semana em viagem, sem acesso à internet - para além de uns escassos momentos via telefone - e desligado de quaisquer órgãos de comunicação social. Vi apenas, num café, a edição em papel do Le Soir ecoando Monroe, perdão, Obama: "Todos somos americanos", assim reintegrando a Cuba ainda-castrista.

 

Regresso agora a casa e vejo o que aconteceu por cá. A coisa das gravações Espírito Santo, a mostrar a quem não acreditasse (acreditava) como isto é. E ainda virá  mais. Mas o momento significativo desta semana foi mesmo a visita do presidente do F.C. Porto ao detido José Sócrates. Fico a pensar no que pensarão alguns amigos e bastantes conhecidos meus, tão adeptos deste último e que há décadas vociferam contra as trafulhices do primeiro.

 

Enfim, o pior de tudo são mesmo as pessoas. Os apoiantes, entenda-se.

publicado às 04:20

A velha livraria

por jpt, em 11.12.14

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Há algumas semanas, num sábado de manhã, fui buscar a Carolina ao Clube Hípico, ao Campo Grande, para onde fora com umas das suas raríssimas amigas de Lisboa. Nos seus 12 anos ela mal conhece a cidade, que sempre desusou, e por isso regressámos em modo pedestre. Atravessámos a Torre do Tombo, indo-lhe à porta, para que conhecesse ela onde eu trabalhei um ano e tal, cruzámos a famigerada "Direito" onde andei um mês e meio antes de conseguir fugir, descemos ao Colégio Moderno, a rua do presidente Soares e da escola das suas amigas de cá, e fui-lhe mostrar as livrarias daquela rua, que frequentava diariamente naquele ano e meio de trabalho nos então "Arquivos Nacionais/Torre do Tombo", no início dos 1990s - frequência diária pois não se podia fumar lá dentro, o ambiente era um bocado tétrico, um servilismo patético para com a então vice-directora, uma coisa enjoativa, um medinho sempre presente. Chegado ao almoço tinha que sair dali, esquecer a cantina local, procurar um sol afastado daquele "pidesco" ambiente [o arquivo da PIDE estava num andar superior, talvez infectasse o edifício], abandonar a ditadura do relógio de ponto que fazia aquela gente perfilar-se na hora exacta da saída, o mundo do funcionalismo público no seu pior formato.

 

Saía então todos os dias, em alguns percorria os poucos restaurantes na área circundante, nos outros vasculhava as duas livrarias ali à "João Soares", uma especializada em livros estrangeiros (e da qual não me lembro o nome) e a outra a "Lazio", apinhada de edições nada recentes. Um manancial de livros, a comprar, folhear, registar para "mais tarde". Ou apenas passar o tempo. Recordo-me de, quantas vezes, ali me enjoar com o pó dos livros, um prazer paradoxal. 

 

Pois fui lá agora mostrá-la à Carolina, não porque pense eu que vá ela virar bibliofaga, menina que é dos tempos electrónicos e pós-pdf, apenas para partilhar onde gostei. Estava fechada a "Lazio", com uns papéis nas janelas, mas nela entravam dois homens, com ar diligente. Julguei assim ser coisa de arrumações ou rearranjos. Mas leio agora que fechou.

 

Que feche uma livraria daquelas no centro geográfico do mundo académico lisboeta espanta-me. Ou talvez já nem isso. Pois apenas vai assim.

publicado às 08:19

Peniche

por jpt, em 10.12.14

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Peniche é tão longe como o é a Manhiça mas o certo é que não ia lá há mais de 30 anos, coisas da inércia. Quando lá terei ido? Não sei, pois constato agora que nem tinha memória da terra. O Pedro levou-me lá, coisas de ter ele uma actividade universitária de "extensão" na escola secundária local, a "Árvore das Memórias", assim a intitula ele.

 

Ao seu desafio logo disse que sim, pois para além de tudo o mais prometeu-me pagar o almoço. Assim fomos, bem recebidos na escola, um robusto edifício "Estado Novo tardio" (1957, acho) em muito bom estado, já bem acrescentado nesta alvorada de milénio. Assisti à sua sessão numa turma super-animada e enérgica de um curso técnico-profissional (daqueles que a chanceler Merkel nos recomenda), da qual gostei imenso, vinte jovens a desmontar as preconcebidas e preconceituosas ideias sobre a "decadência (geracional) do império romano".

 

A simpaticíssima colega que nos acolhera dera-nos um brifingue ("sinopse" em português arcaico) sobre a natureza e a sociedade penicheira, detalhando-se face à nossa particularmente enfática curiosidade gastronómica. Foi-nos assim recomendado o alfaquique frito com açorda de ovas ou um sequinho (de cantaril), não deixando de nos avisar sobre os "esses de amêndoa", ditos como prenunciando um júbilo final. O local que acabámos por escolher para culminar a nossa penichice foi o restaurante "Sardinha", do qual não retirámos razões de queixa. Ainda que, devido à situação proto-calamitosa que nos acomete, nós lumpen-intelectualidade, eu tenho prescindido das degustações regionais, algo mais dispendiosas, e me tenha ficado pelo quase-sempre prestável peixe-espada grelhado, um vintage dos frutos do mar. Mas que ali nem grande coisa. O Pedro sabe da poda e explica-me: "estão proibidos [pelo demo ASAE] de grelhar em carvão - só nas "festas" o podem fazer - e os grelhados ficam assim, desenxabidos". A ecologia tem custos, assumo.

 

Depois percorremos a Fortaleza, perdão, o Forte de Peniche. O Pedro doutorou-se sobre a Ilha de Moçambique, eu andei por lá bastante, aos caídos, isto de fortalezas (perdão, fortes) chama-nos, apela-nos. Surpreendeu-me o tamanho daquilo, imponente. E, sem saber da sua história, quem terá tido a ideia de a instituir assim, imponente, naquela ilha [Peniche era uma ilha? acho que o ouvi dizer]. Assim posta exige uma leitura sobre a história da estratégia defensiva desta nossa costa.

 

Percorremos o parco museu do forte, a lembrar a prisão do "Estado Novo". Depois todo o terreiro daquilo - tem um museu (municipal) que não visitámos e uns ateliers de artistas locais - uns guerreiros em metal a lembrar a arte étnica da África Austral d'agora, aquilo de transformar o espólio de armas em arte, mas aqui talvez com menos arreganho imaginativo. Acima de tudo fico estupefacto, de novo, agora vendo-o de dentro, com o tamanho do forte. E, claro, com o seu desuso. Que fazer do verdadeiro mamarracho? Vários edifícios, das várias levas de construção, devolutos. Parece-me aquilo aprisionado, ainda que já não prisão, da museologia. Turismo, serviços, comércio, algo tem que ali entrar, verdadeiro mausoléu de um tempo que vai passando. 

 

No final a exposição do centenário de Cunhal. Que fique explícito, eu gosto de Cunhal, por motivos estéticos e familiares. Mas o que encontro em exposição no edifício público é uma mescla da sua invocação e da evocação da prisão "dos tempos". É a narrativa PCP colocada em edifício público. É muito legítima, mas é isso. Como se entregássemos os palácios às narrativas monárquicas e os templos às narrativas eclesiásticas. Falta ali qualquer coisa, em termos de tratamento. Por exemplo? Visitámos a sala final acompanhados de um casal. Francófono. Nem uma legenda em língua estrangeira. O que restou do internacionalismo proletário?, pelo menos ...

 

publicado às 18:59

É de homem!

por jpt, em 08.12.14

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A minha antipatia com o popular Manuel Luís Goucha prende-se com o facto de o ter visto apresentar o programa da manhã na RTP, durante anos transmitido em simultâneo na RTP-África: o que era prova da total desistência desse canal (ainda existe a RTP-África?), tão óbvia era a desadequação daquilo para um programa direccionado para os públicos dos países africanos. Mas assim fico obrigado a dizer que se a minha irritação era com Goucha a culpa era-lhe estranha, aquelas direcções de programas é que não tinham tino. Ainda assim não higienizo em demasia, Goucha vale o que vale, e o ordinário que vale escreveu, estupefacta e desagradada, a Ana Leão aqui e muito bem.

Apesar disso tudo que saia uma juiza a dizer em sentença oficial que o homem é passível de ser dito "apresentadora" por "ter atitudes e roupas coloridas, próprias do universo feminino" é  uma boçalidade inadmissível. Goucha apresentará queixa ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Faz muito bem, "é de homem!" como se dizia nos tempos mais marialvas.

Vem isto tudo do homem ter metido em tribunal um programa que o nomeou para "melhor apresentadora do ano", um peido a julgarem que era humor. No "5 Para a Meia-Noite". Vi este programa há um ano e tal, um único episódio, um lixo infecto na linha dos programas humorísticos-comentatórios entre a política e a bola que grassam na tv, na prática herdeiros da tralha anos 90s que era "a noite da má-língua", e que os infectados burguesotes lisboetas adoram (é vê-los falarem dos eixos do males e dos governos sombras). Na altura vi o tal "5 para a meia-noite" porque me avisaram que lá estaria, em directo, o escultor moçambicano Gonçalo Mabunda, amigo e excelente artista. Liguei e encontrei-o deitado numa cama, sob os lençóis, acompanhado por outros dois seres de aparência humana (um seria um tal de Markl, se não estou em erro). Mabunda, aqui em Lisboa meio atrapalhado, lá estava, a fazer o que terá pensado ser necessário fazer na terra dos boçais tugas ("em Roma sê romano"). Quando vociferei no meio dos meus amigos lisboetas sobre aquela abjecção todos  me respondiam em sinal contrário, que o programa era bom - tudo gente saído das universidades, letrados, alguns até académicos, entre o doutores-engenheiros-mestres (d'obras artísticas). Reduzidos a isto.

Mais vale um Goucha que este eixo de mal-pensar todo. 

publicado às 15:25

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Há poucas semanas ocorreu o incidente com as autoridades timorenses, que expulsaram um alargado número de expatriados ali cooperantes, entre os quais alguns magistrados portugueses e, julgo, pelo menos um funcionário policial. A reacção da sociedade portuguesa foi intempestiva, membros do governo, políticos, jornalistas, etc. surgiram a denunciar e/ou a lamentar a corrupção do poder timorense, a inexistência das necessárias virtudes institucionais.

 

Escrevi aqui o meu espanto pela postura do Estado português e dos seus funcionários - como foi possível deixar magistrados portugueses ali deslocados investirem contra o poder legítimo timorense? Quem lhes desenhou os termos de referência? E, ainda para mais, quem permitiu que os funcionários públicos em causa (magistrados e não só) surgissem nos jornais, nas tvs, acusando o Presidente da República timorense e outras altas autoridades locais de corrupção e má índole, referindo-se explicitamente a casos jurídicos que se preparavam e a documentação que teria sido enviada (com que legitimidade) para Lisboa? Julgo, e escrevi-o, tudo isto um desnorte da política de cooperação portuguesa. Potenciado por um fundo intelectual de raiz colonial, um impensamento  transversal, que tem como corolário a confusão de cooperação (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) com tutela.

 

O meu espanto foi tão grande que procurei textos sobre o assunto, em jornais e vários blogs, para além de referências dos cidadãos nas redes sociais. Nada encontrei neste eixo de reflexão. Com várias matizes foi geral a invectiva contra o poder timorense, e a explicitação da crença na sua corrupção.

 

Nem os comentadores radio-televisivos, nem jornalistas, nem cronistas, nem bloguistas, nem nós-facebuqueiros/tuiteristas, nem políticos no poder/oposição referiram o absurdo do processo. E também nenhum surgiu a invocar a necessidade do segredo de justiça, a invectivar o eco jornalístico (o "circo mediático") havido, a verborreia dos magistrados em causa, a exigir salvaguarda do bom nome dos políticos até prova definitiva em contrário - tudo isso que seria de sublinhar pelo facto de envolver magistrados portugueses em funções num país estrangeiro, como tal com repercussões na política externa portuguesa. Nada, foi apenas, um global "ai, Timor".

 

Tantos desses surgem agora, tão pouco tempo depois, quais vestais, erectos sobre (esses) invioláveis princípios. Para os profissionais da palavra pública (políticos, jornalistas) isto é um total absurdo, para não dizer outra coisa. Para nós, cidadãos verborreicos, é mesmo distracção. Ou então é mesmo só clubismo.

publicado às 01:58

Análise Social

por jpt, em 15.11.14

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 (Capa de "Análise Social", vol. III, 1965, nº12)

 

"O liberalismo português e as colónias de África (1820-1839)", artigo publicado na "Análise Social", vol. XVI (1º - 2º), 1980 (nº 61-62), um artigo de um grande historiador português, Valentim Alexandre. Claro que não posso afiançar ter sido o primeiro artigo que li na "Análise Social", mas é o primeiro de que me lembro, logo no primeiro ano da universidade numa iluminadora disciplina de História portuguesa regida por Miriam Halpern Pereira. Outros mais velhos poderão recuar ainda mais numa evocação biográfica deste tipo. Outros mais historiográficos poderão afiançar esta importância global da revista na cena académica nacional - olho hoje para o índice deste número e vejo-o afinal sumptuoso, naqueles tempos que agora imaginamos terem sido tão complicados para a investigação. A demonstrar também muita atenção aos novos, basta ver os nomes. Se constam artigos de intelectuais maiores de então (e depois) como José Augusto França, Manuel Braga da Cruz ou Joel Serrão, já surgiam (há 35 anos!) artigos de Fernando Marques da Costa, com quem tanto Moçambique vim a partilhar nestas últimas décadas, de António Hespanha, que felizmente veio a ser meu chefe, Augusto Santos Silva (raisparta na política mas um sociólogo extraordinário), José Pacheco Pereira, que veio a ser o meu professor universitário preferido (conjuntamente com Teófilo Barrilaro Ruas, alguém que continuo a recordar como o professor que gostaria de conseguir ser ainda que saiba que nunca o conseguirei), Robert Rowland que nós, da antropologia, tanto respeitamos, e tantos outros.

 

Vem esta babugem de ancião a propósito do fim do "affaire Análise Social" - que aqui glosei olhando o grafitismo nacional (I) (II), sempre irritado com essa doença infantil da afirmação pública. Muito saudável a notícia de que a suspensão da publicação do último número foi cancelada por decisão dos órgãos colegiais do Instituto de Ciências Sociais. Ainda bem, salvaguardando esta memória da revista. Ainda bem também porque contrasta com o "excitadismo" de tantos, logo aos gritos de "fascismo!", a deriva "grandolística" habitual. Pois aconteceu democracia: decisão errada, protesto público (e corporativo), debate institucional, consenso colegial, reversão. Excelente.

 

Neste debate acontecido noto, contente, algo muito saudável, louvável mesmo: num contexto em que o director actual do ICS suspendeu uma publicação e os seus dois antecessores publicamente o apoiaram, 60 doutorandos do ICS assinaram um documento contra a decisão. Este assumir de posições públicas deveria ser uma coisa normal, nada blogável. Mas num contexto nacional (numa "cultura"?) em que tanto se anuncia o medo de assumir posicionamentos isto foi ... refrescante. Esqueça-se o haja gente. Pois, como se vê, há gente.

 

Agora é ler a(s) "Análise Social". E bater nos artigos. E/ou louvá-los.

 

(E, já agora, o arquivo dos 51 anos da revista está aqui. Um filão, a vasculhar)

 

 

 

publicado às 06:17

Os grafitis

por jpt, em 10.11.14

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O lamentável affaire Análise Social vai evoluindo. Um erro grave do director da instituição, em verdadeira falha democrática. Pois a democracia é mesmo isto: temos que aceitar aquilo de que não gostamos e o que com que discordamos, não há volta a dar-lhe. Desde que seja legal, claro. E, depois, protestamos e/ou explicitamos o nosso apartar de águas, se realmente acharmos necessário. Ou produtivo. Por isso mesmo se gerou um protesto público de cientistas sociais que já conta com imensas assinaturas de vários países: está aqui. Fui ver e lamentei não ver nenhuma assinatura de colegas moçambicanos, talvez por desconhecimento, talvez por desinteresse com as coisas lusas (eu não posso assinar, pois ali se requer a filiação institucional e estou desempregado).

 

Mas enfim, erros há sempre, leio no Público que é provável uma decisão colegial interna no Instituto de Ciências Sociais que faça sair a revista. Melhor exemplo de funcionamento institucional democrático não haveria: decisão errada, protesto público, consulta colegial, reversão. Pareceria um manual de ciência política.

 

Entretanto vi uma série de colegas (e alguns dos meus melhores amigos) partilharem imensos "grafittis" (assim, em estrangeiro como é aqui usual) portugueses de incidência política, adversos ao governo, aos capitalistas e a estes banqueiros que assaltaram o país (e esta vai sem ironia). É normal que assim seja, que assim façam. A gente não tem outra forma de olhar o real, temos que o seccionar (bisturizar, gosto de dizer), de escolher o que nos parece relevante para o que queremos dizer. Mas tem riscos, isto de tomar a parte (a "partinha") pelo todo.

 

Mas para além dessas questões epistemológicas, e porque solidário com a causa democrática - e ainda por cima antigo aluno de João Pina Cabral, o director da revista atingido por esta cena toda, por quem tenho muito respeito intelectual e também amizade, a possível entre quem se vê de década a década  - saí às ruas lisboetas com o meu blackberry para captar imagens para utilizar neste protesto em rede, mostrando os grafitis (assim, sem duplo "t") políticos que preenchem a cidade denotativos da repulsa popular pelo avatar neo-liberal que nos domina.

 

Só encontrei coisas destas, pura poluição visual, que emerda Lisboa e arredores.

 

Decerto que o meu bisturi analítico deve estar embotado. Ainda assim partilho as imagens. A minha maneira de deixar um abraço ao director da Análise Social. E de expressar o meu apreço pelos órgãos colegiais do ICS quando, quando repito, tomarem a única decisão possível.

 

Quanto à cidade continuará cagada com vem estando. Até porque estas demonstrações pictóricas são sumamente significantes, identitária e artisticamente. E porque, como dizia o Bloco de Esquerda quando existia, "é proibido proibir".

 

publicado às 12:31

Timor

por jpt, em 08.11.14

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Estupefacto, é como fiquei. Com a reacção pública à expulsão de Timor de um conjunto de funcionários públicos portugueses. E com o que isso demonstra, um total desnorte da política externa portuguesa, de cooperação. E, talvez (só talvez) da representação no país (talvez, digo-o três vezes, pois é muito possível que as suas opiniões não tenham sido tidas em conta). Não sei o enquadramento efectivo dos "cooperantes" juizes e afins ali descolocados (âmbito bilateral? âmbito multilateral?) mas esse, em última análise, não altera a questão.

 

Os tribunais são órgãos de soberania. Quem, no seio do nosso poder, deixou colocar funcionários públicos portugueses a exercer soberania no estrangeiro correu riscos, e não os cuidou. Dirão (já me disse um amigo jurista) que os magistrados são autónomos ("soberanos", se se quiser). Mas os magistrados funcionários públicos portugueses são-no (ou devem-no ser) em Portugal. No estrangeiro são "cooperantes", subordinam-se a questões de política externa portuguesa e à soberania do país onde trabalham. E disso deveriam ter sido veementemente informados, explicitando a diminuta autonomia e os limites de abrangência que tal deveria implicar.

 

Só uma empáfia incompetente (um desses funcionários diz no jornal que mandou  para Lisboa provas de que Xanana Gusmão é corrupto!!!!) dos ali deslocados, uma inconsciência radical dos seus deveres e funções, é que permite isto. E, claro, uma total desorientação de quem os lá colocou. No fundo tudo isto é um atentado aos interesses do país e do Estado. Português, entenda-se.

 

Há indícios de corrupção no poder timorense? Lamento. Mas não passa pela cabeça de ninguém que os funcionários públicos portugueses andem a investigar isso, que levem esse poder a tribunal interno. É o corolário das dinâmicas que enquadravam o seu trabalho no país? Então alguém no nosso poder, e há muito tempo, as deveria ter revisto ("rebaixado"). E já os ditos funcionários deveriam ter sido (in)formados do enquadramento do seu trabalho, enquadramento laboral mas também ideológico - são cooperantes, não são magistrados autónomos, servem a política externa portuguesa e os seus interesses. 

 

Quem deixou correr isto até este ponto foi pateticamente inconsciente, prejudicando o nosso país, ao limite atraiçoando-lhe os interesse. Os funcionários que se julgaram autónomos (por melhores valores éticos que julguem defender) foram pateticamente inconscientes, do seu enquadramento, por desadequada "deontologia". Nisso prejudicando o seu país, atraiçoando os seus interesses, por devaneio corporativo.

 

É fácil agora vir gritar "corruptos" (esse avatar do "selvagens" de séculos passados) aos timorenses. Mas de facto este é um episódio selvagem do funcionalismo público português. E da prosápia tardo-colonial que sobrevive na sociedade portuguesa. E do total desnorte da tutela.

 

publicado às 10:08

Mafalda no Festival BD na Amadora

por jpt, em 31.10.14

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Ontem fui ao Festival BD da Amadora, acompanhado da Mafalda cá de casa. Lá está uma breve exposição dedicada a "Mafalda", a propósito do cinquentenário. Uma das "tiras" afixadas é esta - a ter imenso a ver com o que passa na Lisboa de hoje, em vários sentidos, e até nos últimos postais deste ma-schamba.

 

Não há dúvida: "Mafalda" é o máximo. Viva Quino.

publicado às 16:10

O "bom gosto"

por jpt, em 30.10.14

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Nos finais dos anos 80s o filme Pato com Laranja, uma coisa absolutamente anódina, foi censurada na RTP televisão estatal, por motivos do gosto directivo e de temores de ofensas à moral pública. A gente lembra-se disso de vez em quando, hoje por exemplo, mostra do quanto mudaram os costumes e de como há gente ridícula que ascende a postos - gente de quem rapidamente esquecemos os nomes (quem seriam os tipos que interromperam a difusão do filme? ...). Mas que, enquanto podem e enquanto os deixam, vão subsistindo, influenciando, manobrando. Neste pequeno registo-regime dos grupelhos de interesses, modus vivendi nacional.

 

Alimentam-se, sempre, do medo alheio. Que, como bem sabemos, abunda.

  

 

Fica aqui um bocadinho do rabiosque da Vitti - para dar hoje alento aos cientistas sociais portugueses.

publicado às 00:17

Diário belga (2): grafitos

por jpt, em 29.10.14

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É o meu primeiro fim-de-semana em Bruxelas, algo frio ainda que mo digam caloroso, e é dia da bicicleta, dia sem carros. Saímos, calcorreamos um pouco até Montgomery (em versão estátua lá está o general, qual nosso Wellesley, dito também Wellington), avançamos até ao acolhedor Parque do Cinquentenário, encimado pelo Arco do Triunfo e edifícios adjacentes, um conjunto-calhau imponente no tamanho e desengraça.

 

Nos dias anteriores, que cheguei na terça, tenho caminhado por aqui, supreendido com a afabilidade das pessoas (talvez porque vim arrepiado com a rudeza lisboeta, confesso), agradado com a limpeza da cidade, não impolutamente ascética, mas vivida com elegância. Também das suas paredes, ainda que lá mais para os arrabaldes na via do empobrecimento encontre alguns, parcos, resquícios do desnorte dito afirmativo.

 

Aqui já no parque, no "arco triunfal" da colonial Bélgica (qu'aquilo é de 1880, do cinquentário da independência do país), entre os tantos passeantes que cruzam o marmóreo edifício noto, ainda ao longe, esta mancha. Estanco. É, nesta Brasília da Europa, a capital administrativa da UE, o primeiro traço português que encontro. O escarro grafitado ... "slb" em vermelho vivo. Arrepia-me, tanto como se outro qualquer clube note-se. Resmungo-o para a família, e para os amigos que nos ombreiam. Aproximo-me, telemóvel na mão, registando. 

 

Ali, no impoluto monumento, entre o aprazível prado que é o grande parque, vou encontrar mais resquícios dos meus patrícios, mais ditos grafitados. Fotografo-os, enojado com as minhas gentes. Os boçais que por aqui andaram. E eu não terei sido o primeiro português aqui a passar, decerto que avisadas foram instituições portuguesas, as quais poderiam tratar, em registo de afabilidade, de se oferecerem para limpar isto (o próprio Benfica, congenerizando-se com o Anderlecht; a Câmara de Lisboa, ainda que  o seu presidente navegue numa cidade grafitada, e ele próprio induza esta "expressão artística"; até a secretaria de estado da cultura, se por acaso ainda subsiste). Não como se substituindo-se aos de lá, apenas mostrando que nem tudo nem todos somos assim.

 

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Já o disse, é o dia sem bicicletas. Passearemos todo o dia, por esta Bruxelas central. Sem grafitis, ou grafitos ou lá como gostam de dizer. O único lixo que encontro é este, o dos patrícios que se sentem "livres", livres de se expressarem, de serem significantes. Sendo, realmente, insignificantes. Como insignificam aqueles a quem foi delegado o poder de lhes balizar a "expressão" legítima.

 

NOTA: Este postal estava em "rascunho". Coloco-o hoje quando tomo conhecimento da inaceitável retirada de circulação de uma revista "Análise Social" devido a incluir um artigo sobre grafitis em Lisboa. Mas tendo consciência de que se esta atitude é completamente contrária ao "ethos" científico e democraticamente errada temos que nos perguntar, até com acinte, sobre esta tendência analítica, tão recorrente: a de bisturizar o real social para dele retirarmos os conteúdos que nos permitam panfletizar os nossos propósitos ideológicos. Mas atenção, isto, este mero panfletarismo (típico do esquerdismo-providência português) é denunciável. Até censurável - no sentido de criticável. Mas nunca censurável - no sentido de apagável. 

 

Pois para apagar há muito. Este lixo visual que cobre Portugal. E, já agora, a infecta mancha colocada no monumento estrangeiro por uns imbecis que levam a nacionalidade portuguesa.

 

 

 

 

publicado às 14:57

 

 

 

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Regularmente os mais desiludidos ou mais irados com o andar deste Portugal convocam as citações de Eça de Queirós, assim invectivando esta "choldra" de país e gente, como lhes parece ser timbre do escritor. É precioso este naco que reli há pouco, isso de como Eça pintava o "choldrismo" e os invectivadores da "choldra". Esses que ainda polvilham o país, nos seus ridículos ademanes próprios de quem vem de Celorico.

 

Pois Ega, esse que sempre anunciando a obra que mudará o panorama português, “O Atomo”, mas que nunca virá a surgir, acaba de chegar a Lisboa, vindo de Celorico por súplicas da mãe, convicta que ele ali, nos seus modernos modos, convocava as pragas, provocando a epidemia de “anginas diphtericas” que por lá surgiu, e narra a Carlos da Maia: “e minha mãe vem pedir-me quasi de joelhos, com a bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que não esteja alli chamando a ira divina …” (160).

 

Carlos olha o amigo recém-chegado: “mirava aquellas luvas do Ega, e as polainas de casemira; e o cabelo que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na gravata de setim uma ferradura de opalas … um Ega dandy, vistoso, paramentado, artificial e com pó d’arroz” e com um “extraordinario casaco”. Pois “Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliça, uma sumptuosa pelliça de principe russo, agasalho de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados à Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tysico uma rica e fôfa espessura de pelles de marta.

 

- É uma boa pelliça, hein?, disse ele logo, erguendo-se, abrindo-a, exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss … Benefícios da epidemia.” (160-1)

 

Depois segue a conversa (é quando se introduzem as personagens Craft e o casal Cohen). De súbito Ega "Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu em peitilho de camisa.

 

- O quê! Tu não trazias nada por baixo? – exclamou Carlos. Nem collete?

 

- Não, então não a podia aguentar … Isto é para o effeito moral, para impressionar o indígena … Mas, não ha negal-o, é pesada!” (165)

 

Pouco depois, nesses trajes então menores, Ega reflecte e diagnostica Portugal e seus portugueses: - “Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem mulheres, importam-se que é em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo, industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos carissima com os direitos de alfandega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas … Nós julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thomé se suppõem cavalheiros, se suppõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha de patrão … Isto é uma choldra torpe. Onde puz eu a charuteira?” (166-167)

publicado às 06:19


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