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Cristo em Nampula

por jpt, em 12.03.13

 

Quadro anónimo fotografado com telefone em Anchilo. Para quem conhece Nampula o quadro é uma delícia, até de realismo.

Sim, eu sei, tenho andado muito perto deste contexto religioso. Fases, se calhar ...

publicado às 22:38

Gemuçando

por jpt, em 06.03.13

 

 

A ilha na frente de Angoche é espantosa. O sol era imenso. Nisso lembrei-me de umas aguarelas que o Gemuce pintou nos anos 1990s na Ilha de Moçambique - e algumas ficaram em nossa casa. Inundei a máquina de luz e disse "vou gemuçar". O resultado foi péssimo, falta de sabedoria no maneio daquilo. É até penoso mostrá-lo. Mas fica aqui, com um abraço ao Gemuce. Talvez um dia venha a conseguir gemuçar ...

publicado às 15:45

 

Como abaixo anunciei desloquei-me a Nampula para cumprir uma já antiga promessa, a de cortar cabelo e aparar barba nesta barbearia "Alvalade XXI", sita no bairro Namutequeliwa, se o Sporting eliminasse - como veio a eliminar - o arábico Manchester City. Algo que me pareceu urgentemente necessário, ainda que sendo eu um incréu, dado o aziago percurso que o amado clube tem tido desde este meu incumprimento de ajuramentado.

 

Acontece que desconsegui vislumbrar o prestigiado estabelecimento. Percorri o bairro, acima e abaixo, primeiro de carro, depois calcorreando ruas e ruelas, sem que encontrasse quem me pudesse aconselhar, pois nem transeuntes, nem polícias, nem comerciantes, nem mesmo os inúmeros colegas barbeiros (e salões de cabeleireiros, os quais são, como se sabe, uma "indústria de serviços" florescente) me souberam ajudar, alguns dos quais até me olhando com condoído ar, nisso aparentando suspeitar da minha saúde.

 

Cabisbaixei-me. Que fazer?, como diria o russo. Ir até ao afamado clube "Sporting" de Nampula não seria opção, bem central edifício que é, assim sem exigir relevante esforço para ser frequentado, e como tal não me eximindo da condição de "pagador de promessas". Para mais um "Sporting" hoje em dia mero menos-que-sofrível restaurante -  e onde os gerentes mandam acumular o lixo no interior do recinto comensal, exactamente na porta de entrada, qual comité de boas-vindas aos clientes, uma particularidade única que nunca encontrara em quase 17 anos de frequência de restaurantes moçambicanos. "Peculiares patrícios", terei eu resmungado, enquanto mastigava os catastróficos nacos de nervos pomposamente intitulados "bife importado" ... Por estas e por outras, concluí, é que o Godinho Lopes quase atirou o clube para a segunda divisão.

 

Bem, regresso à minha via de peregrino. Cruzado e recruzado Namutequeliwa sem atingir a "Alvalade XXI" aceitei a hipótese da barbearia ter encerrado, mudado de ramo, ter o "nosso" barbeiro partido para outras paragens. Ou ter sido trespassada, e logo repintada, como é usual no ramo, com as garridas cores encarnadas da VODACOM ou canarinhas da MCEL. Ou, mesmo, naquele recente alaranjado pouco-mecânico da vietnamita MOVITEL, bem crescente a Norte.

 

 

 

Mas vozes amigas (e contento-me por ter bons amigos naquele Norte) ajudaram-me. Que peregrinasse eu a Angoche, recomendaram. Que seria um árduo caminho, algumas vias intransitáveis, outras quase assim mesmo, que as chuvas têm devastado a terra (pouco) batida. Mas que por lá encontraria um resistente e persistente "Sporting", onde poderia eu, à falta da opção inicial, ressarcir-me do meu incumprimento, libertar-me da desonra vigente.

 

Assim fiz. E meti-me ao longo caminho, em prolongada agressão à espondilose. Horas passadas alcancei a belíssima Angoche, terra mais-do-que-recomendável, e tão esquecida está ela. E logo, no seu centro, encontrei este aprazível recinto, condignamente pintado.

 

 

 

Este mesmo, o "bar restaurante residencial Sporting", ali herdeiro, talvez avatar, de um antigo clube Sporting de Angoche (ou de António Enes, ou de Parapato, não tenho a certeza sobre o nome do velho clube desportivo). Logo entrei, feliz, dessedentando-me. Depois de algumas "Impalas", acompanhadas de resumos de futebol europeu na pequena TV sobre o balcão, um luxo para os parcos clientes, visitei as instalações.

 

Para aqui, tão longe dos centros mediáticos, encontrar a solução para os problemas do Sporting. Não deixei de compreender que todo este longo percurso me foi imposto, talvez pelo acaso, talvez pelo desígnio, para desvendar a situação, para poder anunciar à nossa "nação sportinguista" esta solução, a simbiose perfeita para nos alegrar o futuro e sossegar o presente, o elixir que a secular sabedoria angochiana (coti?) nos apresenta:

 

 


 

 

(para melhor compreensão)

 

 

 

 

Bastará seguir o paradigma de Angoche. Que o milagre (a ressuscitação?) acontecerá. Inevitavelmente!

publicado às 06:14

Requiem por um artigo

por jpt, em 26.01.13

(um postal que ficou em rascunho 5 anos. Era um "requiem por um artigo" que nunca escrevi. Tornou-se assim quase um "requiem por um postal nunca publicado". Fica aqui)

No interessante livro, já antigo, Barzarketing o publicitário moçambicano Thiago Fonseca refere o desafio interessante para a sua actividade profissional - deparar-se com uma população ainda relativamente virgem de imagens audiovisuais, assim passível de uma maior atenção/apreensão aos/dos conteúdos que lhes são transmitidos (impingidos, tantas vezes direi eu).

Não se trata aqui de demonizar a publicidade - certa é a poluição sonora e visual em que resulta, seja na rua (a perfídia moderna assume contornos de painéis, que o arrivismo chama de "outdoors", - p.ex. um painel em tempos colocado ao fundo da Av. K. Kaunda, interrompendo o Índico, merecia a óbvia pena, não adquirir os produtos do anunciante), seja em nossa casa, via tv ou outros meios. Bem pior é a indução de necessidades ou valores, poluição interna (depois há os "liberais" ignorantes que acham a publicidade mera comunicação, informação neutra, mas o trálálá deles é, cada vez mais, mero lixo da moda).

A publicidade tem também coisas óptimas, não só estéticas, mas no respeitante a valores - dessacralização de símbolos, valorização do humor: num país onde o "respeitinho" é muito bonito foi interessante ver a resmunguice com o anúncio realizado com Dilon Djindji [recordo que o postal foi escrito há quase 5 anos]. A má-vontade com a publicidade (e até com o capitalismo) implica a incompreensão do humor, e até a infantilização (ou vitimização) dos ícones, como se estes incompreendessem os seus próprios actos. E, no entanto, nada mais digno do que rir-mo-nos de nós próprios (eu, quasi-ícone de mim próprio isso encenei).

Abaixo deixo alguns exemplos de publicidade (em muitos casos pintada in loco, que é uma actividade fantástica de observar) que fui encontrando ao longo do país. Encimadas pela espantosa praça da Coca-Cola na Beira, que ali encontrei já em 1998, no advento deste processo de iconização dos produtos de consumo (assim tornados substitutos dos "heróis identitários", locais ou nacionais, âncoras político-culturais).

Passados uns anos fui encontrar a praça Samsung junto ao aeroporto da Portela e logo de seguida uma praça Coca-Cola ali para os arredores de Tavira, nas minhas andanças portuguesas. A frisar que esta substituição dos marcadores identitários é bem mais global do que poderia parecer - e ainda bem que não escrevi o tal "artigo" sobre isto, pois a tese que perseguia era que este fenómeno toponómico se estabelecia mais favoravelmente num contexto de transição identitária e de formulação dos "novos heróis", no período da independência moçambicana. Como pude constatar, através desses exemplos portugueses, não podia estar mais enganado.

(pressionando as fotografias elas engrandecem)

jpt

publicado às 16:22

Gorongosa, a Fénix Renascida

por jpt, em 13.01.13

"Gorongosa, a Fénix Renascida", um trabalho sobre o Parque Nacional da Gorongosa, transmitido na RTP-África nesta última semana (carregando na ligação pode ver o documentário, com 25 minutos). Um documentário de Luís Henrique Pereira e entrevistas ao Administrador do Parque Nacional da Gorongosa, Mateus Mutemba, ao Director dos Serviços de Conservação, Pedro Muagura e ao Presidente do “Gorongosa Restoration Project” e membro do Comité de Supervisão do Parque Nacional da Gorongosa, Greg Carr.

Não deixarei Moçambique sem lá voltar - e ao Nkwichi, no Lago Lago. E sem chegar, finalmente, ao Rovuma, isso de cruzar o Lugenda. E, claro, deixar-me ficar o que puder lá entre Montepuez e Balama. Depois ... está feito. Estarei feito.

jpt

publicado às 12:46

Sobre as cheias no Zambeze

por jpt, em 20.12.12

 

Nenúfares

 

Na minha conta na rede social Academia acabo de colocar uma versão de um antigo texto sobre as cheias no rio Zambeze, que não tem registo de blog. E aqui fica a nota para os que se possam interessar seja por esse tipo de literatura seja pela área em causa.

 

jpt

publicado às 12:15

Ao longo do Zambeze

por jpt, em 13.12.12
 

Outro texto que não é de blog, já antigo, sobre direitos das mulheres e crianças na região do Zambeze moçambicano. Para quem tiver interesse nestas coisas, fica na minha conta da rede social Academia.

jpt

publicado às 18:11

Mandimba, distrito no Niassa

por jpt, em 31.10.12

Há já dez anos fui pela primeira vez ao Niassa. Dessas três semanas já deixei memória aqui, no texto "As estradas do Niassa".

Essa viagem foi de trabalho, uma consultoria. Logo na época o representante da organização que a encomendou me disse que poderia divulgar o texto final. É um relatório, em registo "seco". Uma década depois, para os hipotéticos interessados na região, aqui deixo ligação para o "Estrutura política local e seu enquadramento socioeconómico no distrito de Mandimba". O texto é grande mas tem (obviamente) um índice no princípio. E, para não desiludir alguém, aviso que não tem imagens.

jpt

publicado às 03:42

Há dois anos fui até lá. Logo mostrei as minhas pobres fotografias e tentei descrever como é ir até ao Nkwichi Lodge. Um eco-lodge, verdadeiro eco-lodge. Uma maravilha. E um projecto mais-do-que-válido.

Hoje, às 18.30 horas, faz uma sessão de apresentação pública no KaMpfumo, o bar na estação dos CFM. A questão é simples, ir até lá, partilhar o conhecimento com os gerentes da casa (gente boa, muito decente, muito apropriados ao maravilhoso do local). E ter crença que no sorteio que julgo acontecer saia uma estadia grátis.

É caro ir até lá. O Niassa é longe, de Lichinga a Cobué também, e difícil. E depois ainda há o barco. Mas é uma maravilha.

Repito, é de suspender tudo e ir a correr até aos CFM, daqui a bocadinho. E se não ganhar a estadia grátis. Quase tão bom como isso, alimentam-se os sonhos de ir até lá.

Juro, este quase-cínico que aqui escreve afiança, há poucas coisas no mundo que realmente valem a pena. O Nkwichi Lodge é uma delas.

Até já ....

publicado às 16:40

Crying Face

por jpt, em 10.09.12

(Este postal nada tem a ver com a situação político-fiscal portuguesa) "Crying Face", a célebre composição na tufa no Desfiladeiro do Rio Blyde. Visão global, para quem ainda não conhece este "canyon" mesmo aqui ao lado:

Esteve-se bem, neste fim-de-semana.jpt

publicado às 01:20

O elefante

por jpt, em 23.02.12

Este ma-schamba anda tristonho e maçudo. Talvez por isso um leitor do blog teve a simpatia de me enviar estas fotografias - que também recebeu e cujo autor desconheço - a ver se a casa anima. Trata-se de um elefante banhando-se em Nuarro, no norte de Moçambique. A nota que acompanha as fotos sublinha a extrema raridade desta atitude paquidérmica. Um verdadeiro surfista, diria a VA.

 

[Fotografias Caters News/The Grosby Group]

 

jpt

publicado às 17:06

A TAP e o Lisboa-Maputo-Lisboa

por jpt, em 08.02.12
"To whom it may concern":

Dizem-me agora mesmo que o bilhete TAP para a viagem Londres-Lisboa-Maputo-Lisboa-Londres é mais barato do que o simples Lisboa-Maputo-Lisboa. Aproveite quem puder.

E já agora o Londres-Addis Ababa-Maputo é escandalosamente mais barato do que o voo TAP entre Lisboa e Maputo. Aproveite quem puder.

Poupa-se dinheiro. E luta-se contra o monopólio explorador.

jpt

publicado às 13:24

Memória fotográfica: A Viagem

por jpt, em 27.01.12

 

Tocou o telefone. Era preciso lá voltar. A convite da Presidência da República. Iríamos acompanhar a visita do Presidente às zonas afectadas.Acabávamos de regressar de dez dias duros, de milhares de km. A subir e a descer o Rio. Muito sofrimento alheio. Tristeza nos rostos, culturas arrasadas. Sem frutos. Só água, muita água.Mesmo assim, sentia-me privilegiado por ter assistido. Do ar, no conforto de um helicóptero, muitas vezes a baixa altitude, quase tocando aquele imenso lençol, toda aquela visão apocalíptica parecia-me o que de mais bonito havia visto. A natureza no seu máximo esplendor. Brutal, cruel e ao mesmo tempo de uma beleza assombrosa.Sete da manhã no Aeroporto Internacional de Maputo. Mudança de planos, afinal o Presidente segue directo para Tete, com ele a imprensa estatal. TVM, Rádio Moçambique e o «domesticado» Notícias.Nós, não. Vamos antes para a Cidade da Beira onde nos juntaremos a alguns jornalistas. E depois de machibombo até Caia. No dia seguinte, sim, veremos «O Chefe», assegura o assessor da Presidência que nos acompanha. Questionámo-nos quanto ao que iria acontecer, criando cenários. O mais certo é um apelo à ajuda internacional. A Cruz Vermelha Moçambique já o havia feito dias antes. Canalizando alguns fundos para os seus cofres, para fúria das outras organizações humanitárias na região, incluindo a protecção civil local.Chegámos à Cidade da Beira. Depois de várias horas de espera, partimos enfim. Ambiente ruidoso. Dois moçambicanos juntos fazem uma festa, mais de quatro, uma rave.À chegada, desorganização. Estão à procura de sítio para dormirmos. A casa do professor nigeriano, ausente em férias escolares, está livre. Vamos para lá. Quase há pancada pela única cama e pelos dois sofás pequenos. Não, aqui não. Não nos preocupemos. «Há de se resolver.»A noite cai, a solução tarda. A única hipótese é a escola, vão-nos arranjar uma sala com colchões. É só uma noite. Amanhã se quisermos levam-nos a Chupanga. Zona alta onde foi colocado o acampamento para os deslocados. Mas, temos que estar de regresso impreterivelmente às nove para não nos cruzarmos com a delegação do Presidente... Trocamos olhares cúmplices. Sentimo-nos enganados, manipulados. «O que estamos, então, aqui a fazer?»Já é tarde quando chegamos ao restaurante, a comida acabou. Venha uma dose de batatas fritas em forma de puré oleoso e duas cervejas mornas. Um luxo.De regresso à escola. Vale-nos o cansaço. Caio a dormir quase de imediato no pequeno colchão que me foi dado, depois de fortes saraivadas de repelente para os mosquitos. Se não apanhar malária hoje, decerto nunca apanharei.Despertar às cinco e trinta para a prometida viagem a Chupanga. Esse fim do mundo que já conheço de visitas anteriores. Onde miticamente jaz o corpo de Mary Livingston, mulher do famoso explorador, aqui falecida vitíma de Malária.São 60 km de tenebrosos buracos agravados pelo desconforto do machibombo.Não desanimamos, é mais uma oportunidade para ver. Registar. Um imenso acampamento onde apesar de tudo reina uma organização quase natural.De volta dos depósitos de água, reservatórios de cor azul e laranja, sujos de uso, sobre as cabeças das mulheres. Barulhentas. Corcundas, de crianças envoltas em capulanas. Olhares mortiços e narizes ranhosos. Um pouco mais longe, outras mais crescidas, de aspecto saudável, a correrem atrás de uma bola de trapos.Os homens na higiene diária, alguns de escova de dentes em punho. Indiferentes. Como se o mundo não tivésse desaguado sobre eles dias antes.É já debaixo dos protestos da rapariga do protocolo para que nos despachemos, estamos a violar o acordo, que vejo o Presidente da Nação. A preto e branco, em pose de Estado. Debaixo daquele braço triste. Como que omnipresente. Regressamos a Caia. A pequena vila transformada em epicentro da ajuda. Mais tarde a esperada conferência de imprensa. Aguardamos todos, barulho nos ares. Ao longe. Como pequenas moscas, os helicópteros que transportam aquela enorme e rica comitiva.Os guarda-costas à frente. Atropelam e empurram a população curiosa. Uma mulher, em passos ébrios, fura o muro protector. Em segundos está agarrada ao Presidente. Braços esquerdos levantados, mãos coladas. Juntos rodopiam, ao som de uma orquestra imaginária. Os repórteres de imagem acotovelam-se para captar o imprevisto. Gravadores em punho, expectativa. Não, não vão pedir a ajuda internacional. Está tudo controlado. É com orgulho que viu o trabalho feito por moçambicanos.Também eu, como que contagiado, rejubilo do brio moçambicano.

PSB

publicado às 19:36

Região de Nampula, Moçambique

por jpt, em 25.01.12

publicado às 16:51

Habitat

por jpt, em 21.12.11

 

[Como abaixo referi tive que escrever para a edição de hoje do Canal de Moçambique. O palavroso texto é este:] 

 

HABITAT

 

O “complexo” encosta-se à estrada, claro. De caniço, acolhe os clientes em ampla esplanada coberta, anunciando uma sombra quase fresca, sedutora, e agora ainda mais de tão desejada que é. Só depois atentarei que a parte da pensão, lá nas traseiras, é feita de blocos, sinal de que o negócio vai bem. Ali fronteiro, na orla recortada do alcatrão, um pequeno bazar, meia dúzia de vendedoras, algum amendoim, bananas, peixe seco, coisas poucas, e ainda um ou outro jovem com as tralhas Mcel, essas que enchem as ambições de norte a sul, estendidas quase na estrada em moldes de revenda ou reparação.

 

O amigo que ali me conduz demora-se, com todos fala, aos parcos clientes e aos das vendas indaga das famílias, manda entregar saudações a alguns dos ausentes, quer novidades do negócio, e nisso tudo mostra-me, percebo-o bem. Está na sua terra, é a sua gente, está feliz, lindo no seu novo uniforme de régulo, o sol que ainda vai alto fere-me nos seus dourados, reluz-lhe a placa “autoridade comunitária”, e assim vem também vaidoso, que a farda e a bandeira acabaram de chegar, a bicicleta está prometida para breve. Mais importante ainda, muito mais importante, finalmente chegou o reconhecimento, disso que nele sobrou de pai e tio-avô.

 

Entramos na esplanada, repleta de mesas agora vazias pois apenas um casal por lá arrasta o entardecer. A mulher levanta-se para nos receber, sorriso aberto, lesta a levar-nos até à sua mesa. O chefe, jovial, eles os dois logo em gargalhadas cúmplices, apresenta-nos “Josefina, a dona da casa” e eu adianto-me, ainda de pé, “somos xarás” e nisso quero-me um pouco cúmplice. Ela ri-se num típico “afinal!” e ficámos. É uma quarentona já avantajada mas nisso sem esconder toda a beleza passada, está ali com um amigo, que dono não é, percebo-o logo pelo modo como as primeiras cervejas são chamadas e ainda mais pela forma como não conduz a conversa. Se namorado, amante ou só amigo daquele dia não sei, nem pergunto, claro. É um tipo alto, robusto, quarentão de ar bem-parecido, e conservado. Destoa-lhe um pouco o ter os olhos já raiados, vão-se até semicerrando, algo que ainda combate. Já tomou, está adiantado, e com ar de que não é só de hoje.

 

As 2M chegam, e vêm quentes, naquele morno que logo me traz a azia e que, pior do que tudo, me rouba a euforia da bebedeira, aos primeiros golos sei que só ficarei pastoso, cabeceando em pequenos arrotos, sem aquele pique rebelde que me faz lesto após o escorrer das garrafas. Mas não me nego. Pedimos galinha, certo que levará tempo, que já não conseguirei comer bem quando chegar, mas é o pretexto para bebermos. O régulo explica, quem sou e o que aqui me traz. Fá-lo com detalhe e de modo a que as duas empregadas, uma que ele prende pela manga, o ouçam, pois também serão elas a divulgar. Algumas pessoas entraram para acompanhar, nisso rodeando a mesa, e ele, mão espalmada no meu ombro, avisa que sou amigo de há muito, professor na universidade, aqui de novo a trabalhar sobre a região, a recolher a história, e também a actividade dele próprio, autoridade comunitária. Cada um destes factos é acolhido por sons da anuência, é satisfatório o relatório, e acede-se à minha presença.

 

Estou a ser mostrado, como é costume, e quase sempre deste modo ostensivo. É isto da estranheza de um branco, e até de cabelo branco, e português, professor vindo de Maputo, a interessar-se pelas coisas dos sítios. Serei motivo de conversas, assim vincando a importância de quem me acolhe. Por isso sou passeado, feito coisa exótica, um bem de prestígio. Bebo enquanto a conversa segue, pois ao régulo são perguntados detalhes sobre a minha estadia. Olho o gargalo, e intervalo, a lembrar-me daqueles meus colegas, seniores antropólogos, sempre ávidos a fotografarem-se com os chefes locais, esses que até sacerdotes são, pois mediadores de espíritos, e assim mostrando-se nos seus torna-viagens, num “the chief and I”, por vezes até dizendo-se iniciados, curandeiros ou coisa assim. Sorrio, em esgar da tal azia, a esta ânsia do como se diferente, auto-engrandecedora. E que é recíproca, como aqui torno a notar entre-golos. E rio-me, sozinho, até assim deselegante, pois vem-me à cabeça que tudo isto nada mais é do que “exotic-dropping”. É o meu momento, pois percebo que estou a criar.

 

O chefe acabou, os curiosos debandam, ficamos os quatro. O amigo da Josefina, nem-sei-o-nome mas foi dito, até então quase calado, diz que tem histórias para me contar, dele mesmo. Mas antes tem que ir fazer umas necessidades, já virá contar. E lá segue, já trôpego. Ficamos ali, como se dele à espera, a dona apresenta como está o “complexo”, a pensão lá atrás, é agora que reparo. Saúdo, está grande e bonito. Ela vai sorrindo, olhar daqueles que entra mesmo. Sabe o que é, bonita, dona de si, mamas fartas, soltas, ancas largas, riso aberto, de boca e olhos, engordada, braços roliços, a pele a luzir de transpiração, não é provocação o que me faz, é sedução, estão ali os quartos, é só avançarmos. Deixo-me imaginar, reconheço os quartos, cubículos sob tecto de zinco, abafados, aquela cama estreita, o colchão de palha já esmagado, o balde de água, esta já cansada de tanta espera ali. O meu amigo vai falando das suas coisas e nós ouvimo-lo, encarando-nos em posição de sorriso, e enquanto bebo, trocamos cigarros, deixo-me pensar em nós dois se por lá, quarentões, os nossos corpos pesados, num juntos sem ânsias nem encantos mas divertidos, soltos. Tudo isto conversamos em olhares, mais os dela que os meus ou será o contrário?, e se a vida me fosse outra quem sabe?, sorrimo-nos, muito, percebemos.

 

Nisto regressa o amigo dela. Vem para contar a sua história e mando vir mais cervejas. “Eu fui soldado da guarda de honra” diz-me, com orgulho. Narra com detalhes, até oscilantes, que era soldado no início dos anos 80. Uns dias antes da assinatura do acordo de Nkomati o presidente Samora visitou o quartel e viu-o. E logo o mandou avançar. Enquanto ele fala Josefina supreendida, até arqueando os olhos na dúvida, sorri-me, incrédula. Mas a história é séria, Samora chamou o nosso conviva. “Achou-me bonito, disse que eu tinha uma boa figura”, que precisava de homens assim e “mandou que me pusessem na guarda da honra”. Tudo para integrar a cerimónia lá com o presidente dos boers. Josefina ri-se, o régulo também, ele abespinha-se, jura que é verdade, o presidente gostou da sua figura, insistiu, até lhe deram farda nova, foi transferido para estar lá em Nkomati. É uma delícia, a história em si, mas mais do que tudo não posso deixar de contrapor aquele casal, ela ali, atrevida, dona, a enlear-me agressiva, e ele, homem rijo, entusiasmado com a beleza própria, como se uma menina coquette. O oposto do que costumamos esperar.

 

De súbito, até incomodado com os risos dos outros, olha para mim, para a minha t-shirt e pergunta-me, mudando a conversa, fugindo à ironia alheia, “e o que quer dizer habitat?", um qualquer dístico ecológico que eu trago ao peito, nesta roupa velha que trago para o campo. Hesito, na mudança de registo, e tento explicar, isto da protecção do meio ambiente, preservar animais e, mais ainda, as árvores.

 

O régulo ri-se, corta-me a palavra, e dispara, cáustico “os brancos cortaram as árvores deles e querem que nós fiquemos com as nossas feras, é isso”. E ri-se mais. Todos se riem. Eu também me rio. E pago mais uma rodada. Porque nada, como sempre se torna tão óbvio, é exótico.

 

jpt

publicado às 11:06


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