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No feedly (41)

por jpt, em 02.11.15

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O povoamento da federação da Rodésia e da Niassalândia, no Herdeiro de Aécio.

 

- To fuck, or not to fuck, texto de Eugénio Lisboa no De Rerum Natura.

 

- 4 fotógrafos de Moçambique, no Alexandre Pomar.

 

- Elogio de John Ford, no Escrever é Triste.

 

- Condição humana, o padre António Vieira no Fio de Prumo.

 

- Omar Khayyam, no Antologia do Esquecimento.

 

- "Dois irmãos" de Milton Hatoum" (livro de que muito gostei) em banda desenhada, no Ler BD.

 

- Coisas que não estão em cima da mesa, no A Origem das Espécies.

 

- Sobre a história do século XX em Portugal, no Corta-Fitas.

 

- A rede social Tsu, no Blog da Crítica.

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publicado às 09:48

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Decerto que algumas razões, presumo que daquelas que antes se apelidavam "noblesse oblige", o mvf esqueceu-se de botar aqui que esta semana inaugurou uma exposição individual nesta Lisboa, a "Do Cais ao Cais", que estará visitável na Deleme Janelas, na Av. Miguel Bombarda, 102, até ao próximo 24 de Novembro.

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Sobre o apresentado disse ele no catálogo: "As 12 imagens da exposição "Do Cais ao Cais" são o resultado de dois passeios entre o Cais do Sodré e o Cais das Colunas com a máquina a tiracolo. Penso que o velho Albano [Albano Costa Lobo, já falecido ideólogo do curioso movimento fotográfico "The She Mouse Photo Event"] me diria no seu meio-sorriso qualquer coisa como isto: "Este gajo é lixado ...".

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publicado às 06:27

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Ontem jantei com um grupo de amigos moçambicanos, uns cá residentes outros vindos de Maputo em trabalho. Comemos num restaurante moçambicano, o "Roda Viva". Excelente!. Melhor dizendo: Ex-ce-len-te!, que não há melhor do que silabar para se começar a salivar. Sublinho que todos os 8 comensais da nossa mesa eram profundos conhecedores e efectivos praticantes da gastronomia moçambicana e que a opinião foi unânime. 

 

Deliciosas chegaram a mathapa de camarão, a macouve e o caril de galinha. A xima foi sentenciada como estando "no ponto", e apresentou-se bem coadjuvada pelo arroz branco. As chamuças, vegetarianas e de carne, dignas de recomendação: belos recheios e, mais do que tudo, crocantíssimas, como mandam as regras tão esquecidas por cá. Bebeu-se 2M, cerveja moçambicana sempre de louvar. E também, para meu espanto, nipa, aguardente nacional, daquelas que escorrega tão perigosamente.

 

O serviço é jovem e simpático, sem o stress façanhudo nem os ademanes interesseiros tão correntes na capital. E os preços não são especulativos. O cabecilha do estabelecimento é Octávio Chamba, jovem quase antropólogo e também timbileiro, que muito bem avançou para este projecto, um tipo que merece todo o sucesso.

 

A casa é pequena, uns 16 lugares acolhedores, e situa-se perto "do museu", como se diria em Maputo. Ou seja, está pertíssimo do Museu do Fado, em Alfama, no Beco do Mexias, mesmo junto ao Largo do Chafariz de Dentro (aqui a sua página no Facebook).. 

 

Fica a minha recomendação, apressem-se. Corram e comam.

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publicado às 09:36

Tolerância é esperança

por jpt, em 25.10.15

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A tolerância, base da democracia, é a forma nada exaltante e ainda menos exaltada da esperança. Depois de meses de furibundismo, alheio e próprio, deparo-me com este novo governo anunciado. Então é momento de tolerância, feita dessa tal esperança e até de crença, as de que o PS se ultrapasse a si mesmo (como, de certa forma, o PSD se ultrapassou nos últimos anos) e que governe o melhor possível para bem do país (o "aggiornamento" decente do tétrico "A bem da nação").

 

Isto é uma mudança de atitude, até no quotidiano. Pois se vamos ter o BE (a desde sempre "besta negra") no bloco de poder e o aceito até com desvelo, não há mais razões para radicalismos. Como tal decidi sinalizar/ festejar esta nova era de tolerância da forma mais radical possível: acabo de subscrever a Benfica TV, assim refutando os falsos hiatos que nos apartam sem verdadeiro sentido.

 

E hoje verei o United-City e depois a segunda parte do Benfica-Sporting (e no meio, noutra estação, a imperdível meia-final do mundial de râguebi, Argentina-Austrália). E que ganhem os melhores, se possível sem azares alheios (no râguebi) e sem aldrabices (no futebol). Para um bom domingo. E uma melhor segunda-feira.

 

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publicado às 11:20

As coisas a entrarem nos eixos

por jpt, em 23.10.15

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As coisas estão a entrar nos eixos, a recuperar-se a normalidade pós-eleitoral, para além dos normais desacordos em vida democrática. Símbolo disso é a eleição acontecida hoje do presidente da assembleia da república, a segunda figura do Estado. Eduardo Ferro Rodrigues, político de boa fama, de dignidade. Que decerto fará melhor, mais honrará o país, do que o seu antecessor socialista no cargo, que andou oficialmente a pedir investimentos no país às redes índicas de tráfico de heroína e de armas, sabendo muito bem a quem se dirigia.

 

Este agora homem digno, político sério e de princípios, verdadeiro símbolo do PS. Como o confirma aqui neste discurso em Outubro último (ouvir entre 1.40 e 2.45 minutos). O futuro será este, não outro.

 

 

(Daniel Carrapa, autor do excelente blog A Barriga do Arquitecto, avisou no meu mural do facebook que aqui no ma-schamba temos "ódio" e "espumamos pela boca" por razões da política portuguesa. Assumo para mim a crítica, dado que sou eu que aqui mais escrevo quantitativamente. Se calhar é verdade. Não gosto, nunca gostei, de traficantes de heroína. Nem de traficantes ilegais de armas. Nem de primeiros-ministros que enriquecem às custas do seu povo com o conhecimento dos seus camaradas dirigentes de partido. É defeito meu, pelos vistos.)

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publicado às 20:28

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Vivemos momentos escaldantes, a indecisão grassa sobre quais as melhores opções. Que fazer?, a pergunta que se impõe.

 

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Argentina-Austrália, meias-finais do Mundial, domingo às 16 h.

 

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Benfica-Sporting, campeonato nacional, domingo às 17 h.

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publicado às 17:30

A hipocrisia

por jpt, em 21.10.15

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 (Montepuez 1994) 

 

Em 1994-5 vivi 5 meses numa aldeia a 40 kms de Montepuez, a velha Namwenda, renomeada N'ropa após a independência, o meu primeiro trabalho em Moçambique, chegado da África do Sul. Foi uma experiência abissal para este burguesote, mesmo que já viajado. Não tanto as histórias camponesas ouvidas, que faziam parte do trabalho, sobre o ainda quase recente tempo colonial, o trabalho forçado, o imposto, a cultura forçada, a repressão, a chambucada, a prisão e a morte, narradas até já entre-sorrisos, que foram e ainda são um escarro pejado de muco na merda do lusotropicalismo que os socialistas soaristas chamaram lusofonia e que tantos patrícios ainda agitam (há hoje mais um artigo no Público sobre isso, mesmo que nesse requebro da aparência crítica do turismo universitário). E que também sempre me originam um encolher de ombros, compreensivo, nos arreigados negacionismos dos velhos colonos, saudosistas esmagados pelo drama histórico de que quase sempre foram meros peões. Nem tanto também as histórias sobre a guerra da Renamo, então ainda tão recente, aquilo dos raptados, refugiados (e tantos), de toda a desgraça acontecida. E não tanto por causa desse historial porque já lera, e bastante, sobre aquilo tudo, ainda que assim narrado de viva-voz, e só porque eu perguntava, tivesse tão mais efeito. Abissal porque rude, rudíssimo, não só no meu corpo, lesado em 28 quilos sem qualquer doença, abissal porque a partilha da morte, da doença, da pobreza radical, uma coisa inimaginável. Abissal porque nisso tudo também a partilha de tantas mais coisas, aquilo do sentir, da infinita capacidade de sermos felizes ainda assim, daquele modo.

 

Não fiquei "macua", nunca disse "a minha aldeia", não fiz "ritos de iniciação" nem me filiei como curandeiro ou chefe de tradição, não procriei por lá, não aderi às causas então ali vigentes, não me me transformei "num deles" (nem digo "eles", já agora), nunca entrei nessa pantomina folclórica tão usual entre antropólogos (e também nos missionários do desenvolvimento). Pura e simplesmente, nunca mais fui o mesmo. E sei que o meu melhor, por parco que seja, aconteceu ali entre Balama e Montepuez, o resto foi só o futuro, todo degenerativo à excepção da paternidade. Só voltei uma vez, uma década depois, como contei aqui, para perceber que não poderia voltar a voltar, não aguentaria, o tempo passara. Em suma, não fiquei "de lá". Mas, e para sempre, fiquei lá, algo de mim por lá ficou. Por  isso já pedi a amigos próximos, se eu rebentar de repente não quero isso do velório nem funeral. Dois deles que levem os restos à cremação, e que se faça um pequeno bar aberto. Depois, se ainda for necessário, apoiem a minha filha e, se houver dinheiro para isso, mandem os restos para alguém de Maputo ir ao charco de N'ropa largá-los, sem mais nada do que isso.

 

Nos finais de 2000 houve manifestação em Montepuez, congregando população do distrito. A polícia prendeu participantes, encerrando-os na cadeia da pequena cidade - edifício que conheço, pois tinha-o visitado. Nessa noite morreram 120 pessoas, asfixiadas numa cela onde tinham sido inenarravelmente confinadas. Eu sei que não foram ordens presidenciais nem do governador da província, foi um monumental sinal da insensibilidade da administração civil e policial local e também um sintoma da crispação dos tempos (que por vezes regressa). Foi um dia horroroso, que senti como amputação, desesperante. Não chorei a "minha gente" (que não o era) nem "aquela gente" (que não o era). Chorei-me, chorei-os.

 

Nesses mesmos dias em Maputo reunia-se a Internacional Socialista, então presidida por António Guterres. Sobre o assunto nem uma palavra proferiram. Joaquim Chissano foi então eleito vice-presidente da IS, coisa que a gente sabe protocolar (havia para aí 70 vice-presidentes) mas que teve efeito propagandístico interno. Estou à vontade nestas coisas: acima disse que sei que Chissano não ordenou aquilo (nem nunca o faria); e se eu fosse moçambicano seria um frelimista crítico e, mais ainda, como aqui escrevi, um chissanista. Mas naquela altura o silêncio de Guterres, ainda para mais nosso primeiro-ministro, e de todos os outros, e o sufragar do responsável político daquela catástrofe avassalou-me. Nem na altura nem depois, no circo constante de visitas governamentais e privadas (negócios) dos inúmeros políticos socialistas que cruzavam Maputo, alguém referiu o assunto. Já agora nem António Costa, também ministro, por lá em visitas ministeriais para afinal passar férias no Bazaruto, em agressão ao papel institucional que lhe cabia. Uma coisa execrável.

 

Quinze anos depois são os mesmos políticos que andam por aqui. E vejo os opinadores de esquerda, e até políticos (agora a Mariana Mortágua), muito ofendidos porque o actual governo não actua, qual Norton de Matos, com os prisioneiros em Luanda, não afronta a cleptocracia angolana, se subordina a vis interesses diplomáticos e económicos. Depois, esgotado o quinhão de solidariedade com os crioulos luso-angolanos presos de consciência (e que não se duvide: liberdade para eles, já!), toca de escrever e batalhar para meter estes socialistas (os velhos silenciosos sobre Montepuez) no poder, os gajos dos negócios austrais. Enquanto se lamenta que Guterres, esse bom estadista, não se tenha candidatado a Belém. Porque isso dos camponeses, ainda por cima mesmo pretos, que se fodam.

 

E nós também, com este lixo de gente. De "esquerda", dizem-se. Chama-se a isto hipocrisia. Imunda.

 

 

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publicado às 17:05

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Os jornais anunciam o acordo para o novo governo. Uma inesperada coligação à esquerda a evocar a quase mítica "Frente Popular" francesa, até porque também brotou de uma surpreendente inflexão do partido comunista. Tenho a pior das opiniões deste partido socialista, da sua liderança, morgados do anterior guterro-socratismo e acreditei/desejei que pelo menos mais uma legislatura de oposição, ainda por cima em austeridade (estrafegando-lhe a tradicional volúpia autárquica), pudesse expurgá-lo do estatismo omnívoro que por lá medra. Mas como já botei aqui há dez dias esse governo "será totalmente legítimo e, como tal, democraticamente bem-vindo" pois "a gente vota e os partidos cujos candidatos foram eleitos negoceiam para acordar maiorias governamentais". E quem nunca o percebera que o tivesse percebido. Ponto final parágrafo. Haverá votantes no PS que não o seriam se antecipassem isto, como se brame por aí? Decerto, mas é isto a democracia representativa, a gente vota, elege representantes e eles representam até uma nova votação, nos moldes que a constituição configura. Ponto final parágrafo. Ou vamos nós aderir agora à "democracia participativa" tão cara aos radicais de esquerda, sempre lestos a presumir a vontade global (ou seja, a dos outros), depois defendendo que esta habita nas arruadas (dantes ditas manifestações) que organizam? As acções (da banca e não só) e as notas das "agências de rating" baixam, os juros sobem? Pois, mas a nossa soberania não habita nos investidores na bolsa e nos tecnocratas da burocracia financeira. Temos que nos cuidar com eles, mas isso é outra coisa. Ponto final parágrafo. 

 

O próximo futuro não  será terrível, e há muito exagero escatológico na contestação. O PCP não vai reclamar a administração das Berlengas, Selvagens e até do Corvo, para lá instalar campos de concentração para oposicionistas, bloguistas ou outros, ninguém comerá o alazão de João Núncio, e os Espírito Santo não partirão para o estrangeiro (terão, aliás, o amigo na Presidência). O BE não vai mandar massacrar o Arsenal do Alfeite nem o seu presidenciável Fazenda advogar a "reeducação" ou até o extermínio dos professores ou mesmo de qualquer alfabetizado. Os ícones e as referências teóricas desta gente fizeram isso em passados que eles continuam a glorificar, em vergonhosos revisionismos históricos negacionistas das desgraças de XX. Isso é verdade, e deve manter-nos alerta, acalentar o temor sempre necessário diante dos adeptos dos comunismos, porque tudo isso demonstra que a liberdade não lhes está no âmago. Ou seja, merecem desprezo mas não desatenção. Mas o projecto deles, agora, não é o sociocídio que os seus antepassados tanto promoveram. Os tempos mudaram imenso. Agora o projecto é apenas o apoio parlamentar a um governo virado para políticas mais estatizantes e directamente redistributivas. Isso não é dramático, poderá ser mais ou menos (socialmente) eficiente mas o país está habituado a elas, e é algo que pertence ao nosso modelo civilizacional - dantes chamava-se social-democracia e Estado-Providência, agora em tempos de twitter e poucos caracteres fundiu-se em Estado social.

 

Sobre tudo isto tem-se escrito muita coisa e pouca é interessante. O mais relevante que encontrei está num blog, este "Os nossos caça-fantasmas" no A Terceira Noite. Nele o autor - Rui Bebiano, académico que apoiou a candidatura do "Livre", partido que antecipou esta conjuntura política e que, de certa forma, por ela foi ultrapassado - aponta "a ala neoliberal e clientelar do PS", criticando-a por ser oposição a esta coligação. O interesse do texto é porque anuncia o que aí vem, a forma como se entende o PS, esse que será o governo, e como as esquerdas se relacionarão com ele. O evidente patrimonialismo que é a sua constante prática política, desgraçadamente para o país (e para as esquerdas e suas causas, note-se), é confinado num qualquer núcleo "neoliberal" (o que antes se dizia "ala direita"). O argumento é este: a malvadez clientelista está na "direita neoliberal do PS" o que conclui que os "patronos" e os "clientes" do PS (e tantos o são) são os "ala direita", um raciocínio circular que não vai a lado nenhum. E por isso não é substantivado no texto.

 

Na prática trata-se da velha reclamação da superioridade ética das esquerdas: o clientelismo (a irracionalidade económica, a injustiça social) é a "direita" (agora sloganizada "neoliberal"), assim imoral(izada). A(s) esquerda(s) - e a do PS também - nada "neoliberais" não são patrimonialistas, são éticas (com racionalidade económica e justeza social). É uma pura ficção. E anuncia o que aí vem no próximo governo. Nada de surpreendente ou terrível. Apenas mais do mesmo, que tanto conhecemos, agora com apoio mais alargado.

 

De diferente? Apenas que nos primeiros tempos a "voz popular" andará mais sossegada, surgirão menos manifestações adversas, a comunicação social apoiará ainda mais e os académicos não escreverão tanto contra o governo (pois a FCT apoiará mais projectos). Os blogs "neoliberais" ("fascistas" começar-se-á a dizer) aumentarão as suas audiências. Depois, daqui a uns anos, a gente vota outra vez. E entretanto teremos envelhecido mais um bocadito. 

 

E os gajos do PS continuarão a ser os gajos do PS. Sem alas, entenda-se. Mas a gente já os conhece. Há, até, quem neles vote.

 

 

 

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publicado às 08:29

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Hoje, enquanto jantando de tabuleiro sobre os joelhos, vejo na televisão duas entrevistas políticas absolutamente decisivas, ainda que lamentavelmente coincidentes, eu no velho zapping para as acompanhar.

 

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Sobre o futuro governo uma entrevista a Paulo Portas onde devastou, até com crueldade pouco cristã, o deputado António Costa - na sequência (rescaldo, melhor dizendo) das entrevistas a Maria Luís Albuquerque e Assunção Cristas que, quais valquírias, canibalizaram o referido proto-ex-secretário-geral do ainda partido socialista. O abjecto cadáver do antigo nº 2 do "Senhor Engenheiro" (como diz o patrono da cátedra Eduardo Lourenço de quem os Varoufakos tanto gostam) José Sócrates já fede depois de tanta bordoada.

 

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E a propósito das presidenciais uma excelente "prestação" (como agora se diz a velha "performance") de Marisa Matias, a nova candidata à presidência da república. Firmeza, humildade, objectivos definidos, e também um je ne sais quoi ... Muitas das suas ideias não serão as minhas. Mas ainda assim cativou a minha adesão, ganhou, desde já, o meu voto. E não só por considerar eu que se o "eleitorado", essa molécula abstrusa, votar no prof. Sousa comprova a sua total ... moleculice. Como tal ... Marisa 2015 é já o meu lema.

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publicado às 23:51

A Vera no "Público"

por jpt, em 19.10.15

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 A primeira fotografia, na praia da Amoreira, que deu origem ao projecto de Vera Azevedo

 

E assim de repente a "nossa" VA (Vera Azevedo) aparece no "Público", um bonito artigo de Marisa Soares dedicado ao projecto que a Vera está a realizar, o "Sal e Filhos - Gerações do surf na Caparica", coisa assim tipo etnohistória, deliciosa. E tem direito a duas páginas de jornal, com belas ilustrações e tudo. A gente aqui do ma-schamba ficou toda ufana, claro. Aqui transcrevo parte do artigo (o resto não tem acesso livre):

 

Vera fotografa as gerações que se cruzam nas ondas da Caparica

"Sal e Filhos - Gerações do surf na Caparica" é o projecto de uma apaixonada pela modalidade que quer retratar surfistas anónimos e os seus filhos, com quem partilham a prancha e a paixão pelo mar.

 

Um dia de sol à beira-mar na praia da Amoreira, na costa vicentina. Um grupo de amigos surfistas, pais e filhos, em calções de banho, cada um agarrado à sua prancha pousada na vertical. Uma fotografia "à havaiana", a preto e branco, tirada com a máquina analógica que Vera Azevedo herdou do pai. Nesta "brincadeira" de Verão, a actriz de formação, mestre em antropologia e apaixonada pelo surf, encontrou o mote para um projecto que visa retratar as várias gerações de surfistas da Costa da Caparica, em Almada.

Foi quando revelou o filme que percebeu o que tinha em mãos. Vera, 49 anos, vive a poucos passos da praia onde todos os dias dezenas de homens e mulheres de todas as idades tentam apanhar a melhor onda e ficar em pé na prancha enquanto deslizam sobre a água salgada. "Pensei: era giro fazer isto na Caparica pois há tantos pais e filhos que surfam juntos e tão poucos registos sobre isso." Nascia assim o projecto Sal e Filhos - Gerações do surf na Caparica, primeiro no Facebook, mas já com direito a site próprio, ainda em desenvolvimento.

 

A ligação de Vera à antropologia levou-a a querer ir além dos simples retratos, que tira sem grandes preocupações estéticas (até porque não tem qualquer formação em fotografia e ainda está a descobrir-lhe os segredos), tentando registar a história pessoal daqueles "anónimos à procura da onda perfeita". O objectivo é também "divulgar uma forma de ser e de estar muito peculiar, que alia o desporto e o meio natural", antes promovida por um "pequeno grupo de entusiastas" que "se iniciaram nesta 'coisa' das ondas nos anos 80 do século XX", mas já partilhada com a segunda geração de surfistas, os filhos, que tomaram o gosto à "imensidão de beleza que é o oceano".

Vera também se apaixonou pelas ondas. Aos 40 anos, uma amiga desafiou-a a inscrever-se num curso de surf. Praticou durante um ano até torcer o pé numtake off (o movimento rápido em que o praticante se levanta na prancha) mas nem isso a demoveu. "Passei a fazer bodyboard, todos os dias antes de ir trabalhar [faz produção técnica no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, há 20 anos] ou ao fim do dia.".

 

Desde que decidiu arrancar com o projecto, a autora fotografou seis duplas, sem contar com os amigos na praia da Amoreira. Por duplas entenda-se pais e filhos ou filhas. Segundo Vera Azevedo, não há muitas mães a surfar com as filhas, comprovando em parte o perfil-tipo do surfista português: sexo masculino, idade média de 28 anos, formação superior e profissionalmente activo. A Associação Nacional de Surfistas estima que existam cerca de 200 mil praticantes, 99% amadores.

Os alvos da máquina analógica de Vera são pessoas que conhece - "quando surfamos muitos anos num local conhecemo-nos nem que seja por partilharmos o mesmo 'pico'" - ou desconhecidos que ela aborda na praia. Ao princípio, admite, "ficam desconfiados mas depois acham a ideia gira e acedem em tirar fotos". Outros são amigos que apoiam a ideia "incondicionalmente" e até sugerem outras famílias. "Há quem me contacte através do Facebook a dizer que a ideia é genial e que gostava de ser fotografado. É bonito."

 

Enquanto revela fotografias, colecciona histórias. Sabe "episódios curiosos" de surfistas da Caparica que, na década de 1990, "se atreviam na praia do Norte na Nazaré sem logística absolutamente nenhuma e apanhavam valentes sustos". Voltavam lá mesmo assim. Conhece outros que "iam de carro pessoal para França depois de saírem do trabalho para entrarem num heat [uma fase da competição] do circuito europeu". Alguns deles, acrescenta, correram os circuitos de surf nacionais e europeus quando eram jovens e agora os filhos seguem-lhes os passos.

 

Com o Sal e Filhos, Vera Azevedo espera perceber as dinâmicas da comunidade de surfistas da Caparica, cumprindo em parte o objectivo da candidatura que fez a uma bolsa (não atribuída) da Fundação para a Ciência e Tecnologia sobre o impacto do surf nas comunidades piscatórias da Caparica, Ericeira, Peniche e Nazaré. Destas quatro, é a primeira que parece mais votada ao esquecimento, apesar de ser "surfável" durante o ano inteiro, mesmo com tempestade no mar. "A Costa da Caparica parece esquecida junto dos media e parece-me que a questão passa pelo pouco apoio autárquico mas também pela falta de divulgação das boas condições para a prática da modalidade", considera.

 

(continuação)

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publicado às 12:44

O próximo governo

por jpt, em 11.10.15

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Um passeio nos jornais e nos blogs portugueses dá para ver o quanto bramam "ilegítimo" os já adversos à aludida aliança governamental (acordo? coligação?) entre os partidos da esquerda parlamentar. Nada mais errado, é exactamente para isso que se vota (em partidos, não no senhor x ou na dona a; em listas de candidatos a deputados, não em candidatos a primeiro-ministro). A gente vota e os partidos cujos candidatos foram eleitos (pela gente) negoceiam para acordar maiorias governamentais. Ou seja, um hipotético futuro governo de aliança BE-PCP-PS (apenas bluff de António Costa? hum ... parece-me que o homem já jingou demais para ser apenas bluff, esturricar-se-á agora se der a entender que apenas foi isso) será totalmente legítimo e, como tal, democraticamente bem-vindo. 

 

Tem só um detalhe, sendo certo que é algo que em nada o ilegitima. Após quatro anos terríveis (e como vim encontrar isto no meu torna-viagem ...) de governo, com desemprego, emigração, cortes de salários e reformas, o "troikismo", o constante bramir jornalístico, mais as trapalhadas endógenas (o Relvas, a zanga de Portas, as trapalhadas infectas da velha-guarda cavaquista, os golden visas e o quadro mal vendido), duas derrotas eleitorais, a derrota final anunciada, a coligação governamental recupera e muito, num "sprint" à Mamede (para quem se lembra do velho campeão), e ganha as eleições bem mais do que por poucochinho (para surpresa de quem não tinha lido este aviso). Uma consistente maioria relativa, em palavras sisudas, a demonstrar muita coisa do pensamento político popular (perdão, do eleitorado). E como resposta o PS alia-se, mais do que inesperadamente, mais do que desanunciadamente, com quem nunca se aliou, em registo verdadeiramente original? Vão-se fritar, os vizinhos socialistas ... Começará logo no esmagamento nas presidenciais (e por isso não terão candidato, claro). E depois, em lume nada brando, no quotidiano. Interno (nas coisas lá deles) e externo (nas nossas vozes, o tal "eleitorado"). E, entretanto, torramo-nos nós.

 

Não há dúvida, é da droga. Leve, claro.

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publicado às 23:16

As presidenciais portuguesas

por jpt, em 11.10.15

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Há alguns anos, já bastantes, no início da primeira década de XXI, a televisão portuguesa inovou montando um debate semanal de comentário político entre dois políticos renomados. Funcionou bem, convocando audiências e para ambos agregando simpatias públicas e incrementando peso partidário. Depois os dois, cada um do seu grande partido, chegaram ao cargo de primeiro-ministro, e sucessivamente. Com os resultados para o país que se conhecem.

 

Agora, na segunda metade desta segunda década de XXI, com os resultados do país que se têm conhecido, vai o povo, perdão, o eleitorado fazer a mesma coisa.

 

"Isto" deve ser da alimentação, que não imagino outra explicação.

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publicado às 22:25

O Estertor do Voto Util

por jpt, em 05.10.15

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Ha alguns dias em esplanada entre-vizinhos discutia-se, acaloradamente, as eleicoes que ai vinham e ja foram. Quando disse que votaria no PAN, usando o argumento nada jocoso que era o partido que defendia os meus direitos (os dos animais) e que tambem aceitava a faccao pro-vegetais, logo um intelectual da politica (daqueles tao assertivos como o sao os intelectuais da bola) bradou "isso e deitar fora o voto", "que nao serve para nada" pois nao chegaria o partido a "lado nenhum". Ali, entre vastas imperiais e escassos tremocos, estava a elegia do voto util, isto do so valer a pena votar em quem pode ganhar (ou seja, ter grande representacao). De nada serviu tentar dizer que nao me revejo naquelas coligacoes de esquerda que arvoram patrimonios estalinistas, maoistas ou trotskistas (e que nao quero sair da UE, do euro ou da NATO), que aquele elogio ao Dias Coelho custou ao PSD o meu voto, e que a minha "besta negra" (nada animal, e como tal nao defendida pelo PAN) sera sempre o patrimonialismo desbragado do PS. E que para alem disso, ainda que aquilo que li do PAN me pareca um bocado new-age demais para o meu gosto, penso que o pais precisa de movimentos ecologistas, vampirizados pela escabrosa fraude do PCP e, depois, utilizados na demagogia "causas fracturantes" do BE, tao bem capturados pelo esperto Socrates para a reproducao das suas malfeitorias. A sentenca estava dada, e tao comum ela aparece, um tipo so deve votar em quem ja tem hipoteses de ganhar, este o sumario do voto util.

 

So hoje de manha leio que o PAN elegeu um deputado, bom resultado. E tenho pena que outros pequenos partidos nao tenham conseguido. O Livre que integra Ana Drago, uma participacao publica que sempre apreciei, e o partido do advogado Marinho Pinto, que nem tanto. Pois sao vozes algo dissonantes, a perturbarem o rame-rame, a complexificarem o espectro dos discursos. E tanto o voto PAN como o resto dos resultados, a explosao BE acima de tudo, mas tambem a resistencia PCP, mostram o estertor do voto util. A gente vota em quem pensa ser melhor. E ainda bem. E a mostrar aos intelectuais da politica que nao tem razao quando querem ser normativos.

 

Quantos mais partidos no parlamento melhor. A obrigarem a coligacoes, que sao coisa comum na "europa", governos tri/tetra/pentapartidarios - certo que com administracoes publicas (Estado) bem mais autonomos dos partidos do que ca, certo que com sociedades civis bem mais estruturadas do que ca (onde abundam os particularismos "instituidos"), o que facilita a administracao corrente nestes contextos politicamente complexos. Aqui a gente assusta-se com as coligacoes, diz instabilidade. Por um lado porque temos o Estado colonizado pelos grandes partidos. Mas tambem a esquecer-se que os nossos grandes partidos tambem sao coligacoes: de interesses (alguns nem tao simpaticos), e tambem de tendencias politico-ideologicas. E estando englobadas (engalfinhadas quantas vezes) no mesmo partido se tornam elas de mais dificil e improdutiva conjugacao. Por isso tambem, tudo contra o voto util. Por isso venham as coligacoes governamentais, desde que explicitas (nunca mais "queijos de limianos", aquilo que germinou a triste primeira decada de XXI).

 

As coligacoes parecem terriveis aos clubistas, aos identitaristas ("eu sou do partido X"). Mas a gente vive nesta europa, o tal modelo civilizacional. Construido entre a doutrina social da Igreja (os demo-cristaos), os liberais e os sociais-democratas (os marxistas). E na resposta, entre-guerras e no pos-II Guerra, aos marxismos mais leninistas que assim, por refraccao que seja, sao tambem obreiros disto. Sao as diferencas de enfase e de enfoque muito grandes entre todos estes? As vezes sim, outras vezes nem tanto como diria o sabio La Palisse. O que vai certo 'e que "isto" assim, as puncoes extremas sobre quem trabalha ou ja trabalhou, nao pode continuar, as assimetrias e sua reproducao nao podem ser ilimitadas, o capitalismo tem que mudar (perdao, a "economia de mercado" tem que mudar). Podemos aprender isso com qualquer verdadeiro liberal, podermos ouvir isso dos ultimos papas, como Bento XVI (a quem os populistas de esquerda insistiam em chamar Ratzinger) ou Francisco I (cuja face menos germanica e hieratica agrada aos populistas de esquerda), podemos saber dos intelectuais marxianos/marxistas e adivinhar nos arcanos da social-democracia, como o assassinado Palme. Uma sopa de pedra, a imaginacao coligacao politica e intelectual necessaria? Com toda a certeza. Mas possivel se nao se inventarem, por clubismos afectivos, canyons onde ha divergencias. Nao se tratara de uma paz podre, de um irenismo hippie. Mas da consciencia de que ha muito mais em comum nas concepcoes maioritarias do que rupturas.

 

Duas condicoes serao fundamentais: nao sera com os legados de Andreotti ou de Craxi que se enriquecera ou inventarao solucoes (na nossa modesta e pequena escala: com os legados de Cavaco ou Socrates). Uma modernidade pos-patrimonial vem sine qua non. E a outra, e fundamental: entender que o mundo colonial acabou, aquilo do capital se reproduzir so na Europa ou nas antigas colonias de povoamento britanicas ja era. Veio a nada maldita globalizacao, e se queremos enriquecer e redistribuir na Europa ja nao sera as custas da miseria de milhares de milhoes de "nativos" alheios. O proteccionismo que quer encerrar o capital intra-muros esta passado. Chegou a era do internacionalismo ... "de classes medias". E de pontapearmos o lumpen. E o lumpen sao aqueles que acham que os outros ganham "por poucochinho", os que querem esconder o real para proveito proprio. Esse pontape sera o proximo passo, que o maior esta dado.

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publicado às 13:40

O vencedor d'amanha:

por jpt, em 03.10.15

PS.bmp

Muitas sondagens a dizerem os coligados vencedores. Nada disso, creio. Que poucos votos os separam dos socialistas. E sabe-se que o partido Livre vai afinal muito pequeno, tanto como aqueles nazis do PNR (a mostrar que Portugal nem vai Hungria nem o blog Barnabe). E que assim aqueles poucos votantes se deslocam para o PS - e sabendo que a almejada secretaria de estado e/ou os alguns postos acontecerao, na abertura aos "independentes". Pouca coisa de votos, certo, mas sempre uns pozinhos. E alguma gente que votou no BE nas sondagens, agora a doer, depois de proclamado o voto afectivo, no domingo eleitoral transitara para o PS, o tal de voto util para derrotar a direita - ate porque aquela tatuada, deputada porque lesbica, ja veio dizer que evitar o voto-PS surge anti-patriotico. O mesmo, ainda que menos, acontecera ali entre os simpatizantes (e, se calhar, entre militantes) do PCP (dito CDU), a engolirem as ras (como escreveu Tavares no Publico) e a votarem no Antonio Costa para derrotar a direita. Talvez nem sejam muitos mas bastam algumas franjas da votacao nacional para inverter o resultado das sondagens. Assim acontecera. Sublinhado por aquilo de muitos votantes na coisa PaF estarem feridos, zangados, e se ... "afinal ja se ganhou fica-se em casa, os outros que votem nestes malandros que nos tiraram reformas e empregos".

 

E estou certo disso fundamentalmente por causa da inflexao havida na campanha de Antonio Costa. Li que nos ultimos dias se afastou da heranca de Socrates, dizendo que o seu programa nao assenta nos investimentos publicos. Mais vale tarde do que nunca este deslacar com o ex-primeiro-ministro. Costa quer que se pense que longe vao os tempos em que, recem-chegado a secretario-geral, colocou Ferro Rodrigues, novo chefe da bancada parlamentar, a reclamar a heranca da politica de Socrates. Ferro, que tem andado calado nesta campanha, prestou-se a isso - e eu lembro-me bem daquela catastrofica saida de Pedroso da prisao, indo directo para a Assembleia (foi preso na Assembleia, sera libertado na Assembleia, terao pensado). Lembro-me da sua apoteotica chegada ao edificio, abracado pelos colegas PS e de entao Socrates se ter feito filmar, isentando-se da festividade, retirando-se de cara fechada, com a necessaria gravitas, sem qualquer solidariedade. Depois apeou a direccao de Ferro. Este, decerto que bom homem, prestou-se agora a esta ignominia, talvez por isso ande algo calado. E espero que acabrunhado.

 

antonio costa and jose socrates.jpg

A gente esquece-se, como Costa quer, que quando ha tempos Socrates voltou a Tormes, vindo de Paris, para comentar na TV publica, os nossos socialistas (e os amigos e familiares) foram ao bau buscar as maravilhas do PEC 4, saudaram-no como grande estratega, e invectivaram os opositores de tal caminho (Teixeira dos Santos tambem?).

 

A gente esquece-se que Eduardo Lourenco veio despoluir Socrates no prefacio ao livro deste, chamando-lhe "Senhor Engenheiro" com as maiusculas todas, querendo limpa-lo da vil aldrabice estudantil - vi o anciao na semana passada na apresentacao de um livro na Gulbenkian, onde estava a catedra "Eduardo Lourenco" de Italia, e apeteceu-me ir-lhe perguntar se nao tinha vergonha, se um homem na idade dele precisa de fazer estas sabujices. Mas "fica mal", nao fica mal escrever "Senhor Engenheiro" daquele escroque mas fica mal interromper os elogios ao douto ensaista. Espero, mas duvido, que ao menos os sacerdotes lourencianos nao se esquecam de integrar o desonesto prefacio que ele escreveu nas "ne variatur" que andam a colectar e editar.

 

A gente esquece-se, quer Costa, que o PS mandou fazer um congresso de literatura e abriu-o com uma conferencia do especialista Socrates,  dedicada a Rimbaud, que era o inicio de uma obvia estrategia para dar a Jose Socrates o tom (a patine, dizia-se) culto apropriado ao proximo Presidente da Republica, tudo isso ja com o tal embrulho em papel dourado "Eduardo Lourenco"..

 

A gente esquece-se, porque Costa quer, que o projecto socialista foi ganhar "uma maioria e um presidente", Costa e Socrates, e a continuidade da politica economica e social populista, e do estado patrimonial (como a Camara de Lisboa tem sido quase-pequeno laboratorio).

 

A gente esquece-se disso tudo. Por isso mesmo segunda-feira vai ser dificil, aziaga. Mas convem vive-la bem, sem stress. Porque os quatro anos posteriores serao muito piores. Sera um fartar vilanagem. As pessoas, os compatriotas, o quiseram. O querem.

 

O melhor mesmo sera partir para terras onde os teclados de computador nao tenham acentos. Boa sorte para todos!

 

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publicado às 11:24

O estado patrimonial em Portugal

por jpt, em 30.09.15

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Debruçado e vivendo questões do desenvolvimento africano desde os inícios dos 90s, atenção redobrada pois exercida em casal, aprendi ideias gerais sobre o que elas implicavam e os obstáculos que encontravam. Duas linhas vigora(ra)m: a mais liberal, apontando o dedo ao excesso de Estados na economia, tendente à inabilidade ("irracionalidade" dizem) das decisões económicas sobre a administração dos recursos,  viradas à manutenção do controlo político pelos mandantes, favorecendo grupos sociais em detrimento de outros, elegendo grupos de interesses (próprios), acolhendo (também) uma forte corrupção. Um dos nomes que se deu a isso foi "estado patrimonial" (algo também muitas vezes chamado "clientelismo"), adverso ao desenvolvimento e à justiça social. Esta foi a visão dos programas de reajustamento estrutural desde os 1980s (desestatização/privatização, liberalização do comércio), promovidos por aquilo que se chamava "Bretton Woods" (o que hoje em Portugal se chama "troika", julgo que influência das más traduções da literatura russa de XIX que vigoraram no país até à emergência das traduções civilizacionais do casal Guerra).

 

Uma outra visão, menos poderosa politicamente, era a estruturalista (marxista/dependentista), que apontava os estrangulamentos situados na posição africana na economia mundial, implicando assimetrias nos termos de troca internacionais e nos internos a cada país, com punções exageradas sobre largos sectores sociais (mais os camponeses), inibidores de desenvolvimento. E na qual também vigorava, ainda que não como prioritária, a ideia da apropriação dos Estados por elites políticas anti-desenvolvimentistas (eu tenho grande carinho pela expressão de então "burguesia compradora", que muito prefiro à actual "Estado self-service"). 

 

Emigrado ia-me parecendo que estas interpretações serviam para a deriva pós-CEE de Portugal. Já o era assim no cavaquismo, cujos detalhes mais perversos se vieram a saber nestes anos de crise, com o que foi divulgado sobre os dirigentes políticos mancumunados com o capital especulativo (assim mesmo, em linguagem "retro" ou, melhor, "vintage"). Por isso a alegria sentida quando em 1995 se pensou ter acabado com a "besta negra", ingénuos que aquilo ficara apenas mal enterrada. Depois veio a era socialista. 

 

Nas visitas cruzava os velhos amigos. Alguns trabalhando na banca ou com a banca. Gente que não é de "direita", nem por ascendência nem por opção. Ou seja, cidadãos que não pensam haver um mal genético (ontológico, será melhor) no Estado nem uma virtude da mesma ordem no "privado" (o "affaire VW" tanto o mostra agora). Mera gente que crê na capacidade política de fazer actuar as instituições, isto é, gente democrática. Mas então entre o furibunda e o estupefacta com as práticas do governo socialista, de tomada de poder decisório na banca privada através da utilização do crédito da banca pública.

 

Quando por cá percorremos conversas de jantares, de esplanadas. Várias vezes os provoquei, "escrevam lá isso que eu lhe darei um tom de blog" (era o tempo dos blogs). Mas nunca aconteceu. E depois as coisas foram sendo publicadas nos jornais, com isto de se irem apagando da memória das pessoas. E é uma pena que assim seja. Porque o que os governos de José Sócrates fizeram - muito para além das acusações de corrupção, pois esta é sempre um fenómeno secundário - demonstra uma concepção de política e de governação que é exactamente a do "Estado patrimonial". A história como o governo, em articulação com o Banco de Portugal, estrategizou com fundos da banca pública, para tomar o controlo do BCP, como pressionou o BPI (constrangido pela sua necessidade de apoio em Angola), como utilizou testas-de-ferro para o efeito, tudo para controlar (efectivamente) o sector bancário (o capital financeiro, se se quiser), com resultados ruinosos, é absolutamente típica dos estados anti-desenvolvimentistas, submersos na busca do controlo político da sociedade em detrimento da sociedade. Alguns dos seus traços foram narrados nesta entrevista de Filipe Pinhal; e também neste artigo do Público. Textos que não abordam os efeitos posteriores, das decisões da banca controlada politicamente  em favor de opções de índole político-populista.

 

Parecerão coisas requentadas hoje. Mas não o são. São o cerne do prática política da governação socialista, ultrapassando quaisquer desmandos pessoalistas (aquilo da hipotética corrupção) e dimensões positivas de política social, que as houve. As práticas patrimoniais estatais são sempre um obstáculo à democracia e ao desenvolvimento, este necessariamente sustentável, olhemos nós de um modo mais liberal ou mais estruturalista (marxista) para os fenómenos.

 

Passados estes anos o que mais me choca é não ler, em nenhum momento, alguma reflexão por parte das novas direcções socialistas ou até dos seus intelectuais, afastando-se desta concepção de poder, alimentando um outro rumo de prática política partidária (e governativa). Apenas, primeiro pela voz de Ferro Rodrigues (nele um discurso pluralmente paradoxal, que tanto o manchou) a reclamação da herança dessa política. E logo depois, o atrapalhado e acabrunhado silêncio, devido a outros motivos, mais mediáticos mas bem mais secundários se se pensar bem.

 

Dedico este meu apressado texto aos meus amigos L. e N., casal reformado ferido nas suas posses pela actual austeridade. E tão renitentes no seu voto para domingo. Só há um caminho, nisto do "rua a rua, prédio a prédio, flete a flete" (voto a voto): decepar esta hidra. Esperando que ali haja energia para se reformarem, expurgando-se da "genética" patrimonial que de tão longe (80s) lhes vem. E, depois, olhar os outros monstros da mesma laia que aí venham (ou estejam).

 

Adenda: para quem tenha paciência e leia inglês deixo aqui uma ligação a um texto divulgado pela LSE. Que não é a verdade absoluta. Mas também não é uma peça de campanha eleitoral.

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publicado às 12:47


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