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Mais contra o Acordo Ortográfico

por jpt, em 29.09.11

O mesmo atencioso frequentador do ma-schamba enviou-me ainda a referência do recentíssimo artigo de Hélio J.S. Alves, publicado no jornal online da Universidade de Évora, intitulado O Acordo Ortográfico. O Equívoco da Pronúncia. Mais uma vez recomendo a leitura. Uma crítica radical dos fundamentos da proposta de acordo, bem ainda como do cenário de fundo no qual ele decorre. E contribuindo para que nós, leigos, melhor compreendamos as modalidades de pensamento que o erigiram, e seus defeitos. Deixo um pouco do argumento:

"O mal de colocar a oralidade na primeira linha dos considerandos que regem o Acordo começa pela imposição da noção de pronúncia normativa no português contemporâneo. Como se o português de Lisboa fosse mais “normal” do que o do Porto, o do Rio de Janeiro do que o de Pernambuco. Na verdade, a realidade actual do português, espalhado por vários e «vastos espaços geográficos descontínuos, em diversos continentes, habitados por comunidades dissemelhantes nas suas origens étnicas, no seu modo de viver actual e nos seus horizontes, coloca o problema da sua homogeneidade e da sua coesão interna» (Ivo Castro, Introdução à História do Português, 2.ª edição, Lisboa: Colibri, 2006, p. 11). O português, como língua, caracteriza-se por uma pluralidade regional que tende a incrementar-se, pela ordem natural da evolução das línguas. Ora, assim sendo, como poderá basear-se a ortografia na pronúncia, se esta corresponde a uma variedade manifestamente crescente? Em verdade, deve dizer-se e assumir-se que, se o acordo ortográfico da língua portuguesa serve para escrever como se diz, então não pode haver qualquer verdadeiro acordo ortográfico."

[...]

"Como se podem estabelecer regras uniformes de ortografia quando nem sequer há uma ideia justa do número e teor das palavras que existem na língua escrita? Honestamente, não pode. Porém, as regras deste Acordo fizeram-se com base em certa ideia de oralidade, como se todos os falantes duma região linguística do português pronunciassem palavras como assumptivo e iniquidade, sabendo logo se articulam ou não o “p” antes do “t” e o “u” depois do “q”...

Os autores do Acordo parecem ter esquecido que a ortografia é um fenómeno da língua escrita que se exerce num plano diverso do plano da oralidade. Determinar a escrita pela pronúncia ou articulação é confundir dois níveis de manifestação linguística, o grafemático e o fonemático. Determinar a escrita pela oralidade, desconhecendo muita da realização escrita da língua – as palavras e os escritores delas –, constitui uma deturpação pior do que a confusão de dois níveis epistemológicos. Finalmente, proceder a um acordo ortográfico sem considerar a grande utilidade de critérios histórico-culturais que explicam as grafias por mais a-fonéticas que pareçam, é perder uma oportunidade para conseguir um acordo cujas bases seriam indisputavelmente idênticas e bem sustentadas para portugueses, brasileiros e todos os outros utentes da língua".

jpt

publicado às 02:07

No Publico um texto de José Jorge Letria sobre a lusofonia, partindo da leitura do livro "A Lusofonia. Uma Questão Estratégica Fundamental", coordenado por Ernâni Rodrigues Lopes (edição Sol). Como é óbvio ao ler o jornal não resisti ao recorte (datado de 1 de Agosto deste ano). E atendendo ao texto abaixo é mesmo o momento de o reproduzir. Não vou regressar aqui à discussão sobre a noção lusófona, que tantos, na "gasta pátria", intuem como nação lusófona [o ma-schamba tem 105 postais dedicados à lusofonia, o que já configura uma monomania]. Creio que a "lusofonia" enquanto mescla de grelha analítica e projecto ético-político é uma infalsificável ... tralha. E que tem sustentado a reprodução de um apparatchikismo (menos, hoje em dia) inculto e paroquial.

Não estou a dizer que o autor deste texto o seja (apparatchik). Mas continuo a insistir na vacuidade, repetida à exaustão, anos após anos, por actores com alguma importância (no funcionalismo, nas redes sociais predominantes), presente nestas palavras de areia. José Jorge Letria é em 2011 o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores. E escreve (reproduz, impensa, recusa e refuta o simples acto de respirar o mundo). E o "jornalismo de referência" publica, publica, publica, qual Duracell do vazio. Veja-se:

"Mais do que um legado linguístico do passado, a lusofonia deverá ser entendida e tratada como um projecto global apontado para um futuro que já é presente. Esse futuro tem na sua essência as afinidades de natureza cultural que aproximam e tornam fraternos e cúmplices povos que, na sua exaltante multiculturalidade, serão muito mais fortes e empreendedores neste mundo global se souberem caminhar juntos e pensar conjuntamente o tempo que está para vir". (o negrito é meu)

Não se trata de refutar as dimensões positivas do reforço da interacção internacional. Mas estamos em 2011. Já não é tempo (se é que alguma vez o foi) para simpatias e rodeios diante desta miopia, e quão arrogante ela surge, exactamente porque infalsificável. Pois há décadas que estas "fraternidades" e "cumplicidades", "exaltantes", poluem a atmosfera portuguesa, assentes no apagamento e na falsificação da história e no postular de presentes.

Isto não presta. Basta. E cumpre exigir aos "Autores" portugueses que se façam presidir por quem pensa o mundo.

jpt

publicado às 01:37

 

Um leitor do ma-schamba teve a gentileza de me mandar o texto que Fernando Venâncio publicou na revista LER e que entretanto está já transcrito na internet, possibilitando a sua obrigatória leitura: "Acordo Ortográfico. Visita Guiada ao Reino da Falácia. Nele se traça o enquadramento histórico do processo negocial, lembrando tanto as suas longínquas e contextuais origens bem como o carácter esconso que veio a assumir o seu processo negocial final, e como tal pouco democrático e nada científico. E traça-se ainda, sem reducionismos lineares, a mediocridade conceptual do acordismo.

 

"O linguista Ivo Castro foi o autor (com Inês Duarte e Isabel Leiria) desse pequeno monumento ao nosso idioma que se chamou A Demanda da Ortografia Portuguesa (João Sá da Costa, 1987). ... no livro, vincava que os negociadores do Acordo haviam evitado qualquer consulta aos colegas linguistas portugueses, entretanto quase unânimes na rejeição do mesmo. Insistia em pontos irrecusáveis: a previsível influência da nova escrita sobre a pronúncia, o enganoso de uma «simplificação» que vinha exigir especiosas operações mentais, a patente falta de coerência do próprio texto acordado." 

 

E frisa, com exemplar clareza, aquilo que tenho tentando invectivar, confusamente, em inúmeros textos rápidos aqui dedicados ao assunto: a ligação entre o acultural, anti-económico e anti-comunicacional Acordo e o impensamento lusófono (esse que insisto brotar fundamentalmente do fóssil republicanismo colonial transformado em avatar socialista):

 

"Os deuses iam em adiantado enlouquecimento, como logo em 1986 se provaria. Pergunta-se: o que pode levar indivíduos de reconhecida qualidade científica a propor, e tornar a propor, medidas que um exame crítico, mais ou menos aturado, demonstra serem descabeladas, irresponsáveis, quando não idiotas? A resposta poderá espantar, mas tem de ser dita: tudo nasce desse embalador e entorpecente aconchego chamado «Lusofonia».

 

Envoltos nessa doce quentura, mesmo os mais perspicazes espíritos perdem o tino. Em nome de uma fraternidade» que só existe nos seus delírios, exercem um poder duradouro que ninguém controla, nem eles próprios. A persistência em propostas como as geradas naquele encontro coimbrão só se entende postulando uma obnubilação mental colectiva, um clima muito espontâneo e inofensivo, que se gera (que «rola») em congressos, festivais,jantares e serões «lusófonos», mas é desastroso na hora das decisões que condicionam décadas, ou séculos, e que exigiriam a cabeça fria dos sábios académicos e o concurso de outra gente competente. Só que o aconchego lusófono se alimenta de forças primárias, fetichistas, para lá de toda a racionalidade, em pleno obscurantismo." 

 

Mas mais, Fernando Venâncio recorda que o processo não é inultrapassável, sendo inclusivamente um momento de afirmação da democraticidade (ou da sua possibilidade) da sociedade portuguesa, face a uma incongruência intelectual e científica, assente num desvario político (até algo ultrapassado por um quarto de século de dinâmicas internacionais):

 

"Será ainda possível travar, entre nós, este estranho fruto da ingenuidade, da arrogância e da incompetência? Neste momento, inícios de Agosto de 2011, são 126.653 os portugueses que assinaram um «Manifesto contra o Acordo Ortográfico», um número que continua a crescer. Uma «causa» do Facebook, «Não ao Acordo Ortográfico», congregou até agora 116.134 adesões. São números impressionantes, e a exposição pública dos aderentes, peculiar nestas declarações, sugere aquele tipo de cidadania que os políticos sérios mais procuram.

 

Em domínio menos quantitativo, sublinhe-se o facto de, nos 20 anos de suspensão do processo, não ter aparecido um único estudo «linguístico» em defesa do enxovalhado Acordo. Publicaram-se obras expositivas, mais ou menos apologéticas, como a citada de Adragão, A Questão Ortográfica (Editorial Notícias, 1993), de Edite Estrela, e O Acordo Ortográfico (Flumen/Porto Editora, 2009), de Francisco Álvaro Gomes. Mas todos os estudos técnicos e analíticos, levados a cabo em universidades e instituições profissionais, foram frontais na reprovação das propostas académicas. No árnbito da divulgação, destaquem-se Acordo Ortográfico: a Perspectiva do Desastre (Alêtheia, 2008), de Vasco Graça Moura, uma robusta ponderação jurídica, O Fim da Ortografia (Guimarães, 2008), de António Emillano, apavorante análise das consequências imediatas do Acordo, e Demanda, Desastre, Deriva (Textiverso, 2009), de Francisco Miguel Valada, uma exposição detalhada, e devastadora, das incongruências do produto. As intervenções de Emiliano na imprensa foram recolhidas em Apologia do Desacordo Ortográfico (Verbo, 2010)."

 

Ainda é tempo! Apesar de episódios de uma mediocridade gélida: ao procurar este texto para aqui o ligar entro no blog da LER. Para saber que no exacto número em que publica este precioso texto a revista passa a publicar subordinada ao Acordo Ortográfico. O que me faz recordar que o actual secretário de Estado da Cultura, o bom do nosso confrade bloguista Francisco José Viegas, foi o anterior director da LER. E tem sido um defensor do malfadado Acordo. Uma pena. Pois é a altura de alguém do poder político assumir uma posição culta. Por polémica que seja.

 

jpt

publicado às 00:36

Ao olhar o Acordo Ortográfico

por jpt, em 28.09.11

 

Ao longo dos anos quase sempre que aqui tenho resmungado contra o Acordo Ortográfico surgem dois tipos de boçalismo a ecrã aberto: mais habitual o trautileirismo patrioteiro português, em flatulências contra a perversão brasileira (um caso delicioso é o ocorrido nos comentários a este meu recente postal, onde uma padeira de Aljubarrota ortográfica adversa ao torpe Brasil consegue fazer um erro ortográfico básico em meia dúzia de linhas volvidas); e um outro, menos habitual dada a origem mais comum dos leitores do blog, o brasileirismo nacionaleiro, sempre mui ofendido com a recusa à desortografia, e quantas vezes gemendo as dores de colonizados, pois sempre elaborado por gente muito fiel à falácia historiográfica ali nacional, essa de transmutar colonos em colonizados.

 

Enfim, e porque já me chateiam esses imbecis, permanentes ainda que escassos, gostaria de lembrar que o ma-schamba tem uma epígrafe, botada ali logo abaixo do nome do blog. Que é uma citação de um homem chamado Raduan Nassar. Está lá desde o início do blog, e nunca incomodou os co-bloguistas. Isso não me faz um brasilófilo, nem tampouco a eles. Mas ainda menos me faz um brasilófobo. E a eles.

 

A questão não tem nada a ver com nacionaleirismos. Como deveria ser óbvio. Mas não é.

 

jpt

publicado às 23:38

 

Trata-se de resistir a um acordo de maus fundamentos, ideologicamente serôdio [no fundo apenas o aggiornamento da velhíssima questão, fossilizada angústia, "Pode Portugal sobreviver sem colónias?"). Não tanto por causa da (orto)grafia, mas por causa das mentes, das poluídas mentes que o produziram e acalentam. Ainda é tempo de o evitarmos, de o refutarmos. Também por isso a minha homenagem a quem resiste: rua a rua, casa a casa, documento a documento, cartaz a cartaz. Em particular quando a resistência vem de dentro do monstro, o leviatã lusófono.

 

jpt

publicado às 13:39

[caption id="attachment_30871" align="aligncenter" width="300" caption="Rui Vitória, actual treinador do Vitória de Guimarães"][/caption][caption id="attachment_30872" align="aligncenter" width="300" caption="Manuel Machado, antigo treinador do Vitória de Guimarães"][/caption]

Como sempre nestes inícios da temporada futebolística surgem as chicotadas psicológicas. Lá mais para o Natal outras surgirão. A primeira da época foi no "candidato à Europa" Vitória de Guimarães. O prestigiado veterano Manuel Machado foi vítima do algoz colectivo vimaranense e logo substituído pelo ascendente Rui Vitória, que vinha dando nas vistas ao leme da embarcação de Paços Ferreira (estou-me a esforçar, qual Gabriel Alves dos blogs). Manuel Machado, dono do discurso mais complexo do areópago futebolístico luso, vero epígono de Jorge Sampaio, logo se queixou de grave falta deontológica do seu colega sucessor e futuro chicoteado (as gentes minhotas são implacáveis desde a era do Condado). Segundo afirmou ainda ele estrebuchava no banco de suplentes da colectividade vitoriana e já Rui Vitória teria assinado contrato com esse clube.

"Quem não se sente não é filho de boa gente" e como tal a estas afirmações Rui Vitória ripostou, indignado, negando a acusação, como retrata o jornal Record:

[Manuel Machado]"É uma pessoa que eu respeitava. Sempre o admirei e acompanho o seu trajeto há muitos anos, mas até se retratar isto é inaceitável. Tenho a consciência perfeitamente tranquila. Até Manuel Machado se retratar, deixarei de ter consideração por ele", vincou Rui Vitória.

A bem da concórdia no desporto nacional aqui deixo os retratos de ambos, esperando que tal seja suficiente para restabelecerem as relações.

jpt 

publicado às 15:44

Na sequência do postal anterior, dedicada à parolice tuga, neste tempo entre-(des)acordo ortográfico, uma leitora teve a gentileza de me recordar a belíssima e clarividente canção Bárbaros em "Passerelle", de Fausto (pressionar a ligação que ela toca)

I um ar “negligé” furtivo em “dress code” “cool calm and collected” outro “enfant gatê” “whisky on the rocks”

cara estampada em qualquer “hall” mesmo imprimida em “outdoor” o aedo é “low profile” o bardo vai “démodé” o propriamente dito é “forever” “varietés” no “glamour” da cidade no “jet set” a novidade do atirador furtivo perdão do “sniper” a abater em “open space” “just in time” e no “prime time” e então

II o cantor não tem “it” a voz canora “in blue” se sou mais eu e tu e um “partner” todo a nu sou eu mais tu e “true”

mais adoramos um “spin-off” erguido em nosso “buzzword” o “chairman of the board” em “scoop” em “guide lines” no “damage control” da maldição do jacobino fica aqui já pelas custas o “study case” o valdevinos “out” e “in” na volúpia do concúbito um “hat-trick” bem chique na “flash-interview” que mais podemos nós fazer do “to do”

III somos a “entourage” brilhante “brain storm” “made in” em “New York” “opinion makers” e “follow-up” informe

e por falar em português o “flash-back” é amanhã o “sponsor” do artista no “casting” da cortesã na de Rimbaud “en passant” na de Cervantes era dantes na de Camões p’ra depois valha o William se não nunca falaríamos nunca mais jamais no “ranking” de culturas império “shooting-room” em língua pura e em vez das quatro um

e melhor seria um outro “boom” via “e-mail” e em vez do “bug” bedum

“wait and see” “me” mi

(canção encontrada aqui. Imagem encontrada em Fausto Bordalo Dias - Acordes e Letras).jpt

publicado às 01:32

O Acordo Ortográfico no Bartoon

por jpt, em 15.09.11

Por causa desta minha irritação e ainda destoutra uma boa amiga enviou-me este Bartoon de ontem, dedicado às questões do Acordo Ortográfico e quejandas. Pelos vistos não sou o único caturra.

Thanks, como se diz em Portugal.

jpt

publicado às 00:41

Baixa-Chiado PT Bluestation

por jpt, em 11.09.11

Há pouco tempo aqui botei sobre a imbecilidade generalizada no meu país, isso de nomear os estabelecimentos comerciais em inglês. Bimbalhice ordinária, diante do silêncio dos pacóvios intelectuais que vão vivendo na santa terrinha, nunca querendo parecer fora do eixo anglófono. Já aí me irritava com a parvoíce da cadeia de lojas da Portugal Telecom serem blue store. Agora a empresa decide patrocinar a estação de metro do Chiado (Lisboa) e bota-lhe o nome de "blue station".

Que Zainal Bava seja insensível a estas coisas compreende-se. Que os comerciais e as prostitutas publicitárias a que paga, mais os medíocres badarós que tem sob contrato, também se compreende, é gente lixo. Mas o Metro de Lisboa é uma empresa pública, tem responsabilidades com o país. E o país não é apenas os imbecis que se riem com os anúncios do Ricardo Araújo Pereira e adjuntos, esse cúmulo de boçalismo a ecrã aberto.

Quanto aos que gemem contra o Acordo Ortográfico e aos que saúdam o Acordo Ortográfico, manadas de tontos a quererem defender o "português" no mundo? Nada dizem a isto, todos a quererem parecer cosmopolitas, fluentes no inglês com toda a certeza, e até prontos a trabalharem para o senhor Zainal se para isso forem contratados. Bimbos. É esta minha azia com a parolice tuga que o Henrique Fialho invectiva, provocando, como "reaccionarismo avant-garde"? Mas haverá maior reaccionarismo, sem guarda nenhuma, do que estes javardos, "motherfuckers"?

Que fazer? Sei lá, é que esta escumalha é amada pelos patrícios. Por mim resta-me o "quixotismo". Em Portugal nunca mais uso o cartão PT, compro outro qualquer. É para o lado onde o Bava, os socráticos do Metro, os badarós, e os adeptos e adversários do acordo ortográfico, dormirão melhor, sei bem. Mas pelo menos fico um pouco mais aliviado. Ou nada, diante desta corja. Eles e os que pastam, ruminando, na paisagem.

jpt

publicado às 00:36


Escola Portuguesa de Moçambique - Centro de Ensino de Língua Portuguesa, 1 de Setembro de 2011, dia de abertura do ano lectivo português. O cartaz mapeia a escola indicando os locais para a receção (leia-se "recessão", a temida nuvem no horizonte da economia portuguesa) dos alunos dos vários ciclos.

 

 

Exactamente ao lado painéis anunciam o horário para os encontros com os directores de turma (DTs), actividade obviamente inserida na recepção [leia-se "recéção" ou mesmo "recé(p)ção)] dos alunos neste primeiro dia do ano lectivo.

 

Ainda há esperança. Pois ela sempre se mantém enquanto há alguém que tem a coragem de dizer não. Como escreveu Manuel Alegre (sim, o da voz cava) e cantou Amália e o grande Adriano Correia de Oliveira.

 

Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não.


A minha homenagem aos professores que têm a coragem - ainda para mais nestes tempos de Estado persecutório e de profundo desemprego - de o ser, que "dizem não", que resistem.

 

e

 

jpt

publicado às 00:45

Sobre os efeitos do Acordo Ortográfico na fala. Interessante para confrontar com os profissionais (académicos, doutorados, catedráticos) candidatos a postos na administração do Estado português, principalmente quando quem lá manda são os socialistas, que juram a pés juntos que a grafia é uma convenção independente da fala. E pagam-se ordenados a esta tralha lusófona.

jpt

publicado às 23:32

Em Portugal continua o debate sobre o Acordo Ortográfico. Encontro-o algo relevante nas páginas do jornal Público, que decidiu afrontar o "acordismo". Já por aqui várias vezes resmunguei contra o "lusofonismo" pacóvio, que vê esta tralha ortográfica como instrumento de engrandecimento do "português" no mundo e, como tal, do país Portugal. É um tardo-imperialismo imbecil. Quanto ao resto que mais me irrita meti-o num texto "leigas considerações sobre o acordo ortográfico".

 

Ainda que me pareça que pouco há a fazer agrada-me a desobediência ortográfica, acto de cidadania. Ainda que muitas vezes apareça embrulhada (e brotada de) de um patrioteirismo também ele ... pacóvio. Diria que estão bem uns para os outros, "acordistas" lusofonistas e "desacordistas" patrioteiros, pensam com muitas gralhas. Mas nem hesito, estou com aqueles que recusam o Acordo Ortográfico.

 

Deixo um contributo para esta questão sobre a difusão do português no mundo. Os exemplos são retirados de Lisboa 2011, e são uma pequeníssima amostra da total dissonância ortográfica que ali se encontra, seja em nomes de lojas portuguesas seja em cartazes (ditos "outdoors").


(Loja da TMN)

  

A TMN (Telecomunicações Móveis de Portugal), empresa que vende comunicações ainda por cima, tem uma cadeia de lojas à qual chama BlueStore. Nos telemóveis tem, entre outras coisices, um serviço chamado "Waiting Rings". Devo dizer "foda-se" ou "fuck"?


(Round the corner, loja de arte à Cervejaria Trindade)

 

Uma galeria de arte, ali à Cervejaria Trindade, tem que se chamar "Round the Corner", claro. Como é que eu devo comentar? "Motherfuckers"?

 

(Livraria Bertrand, no Centro Cultural de Belém)

 

A Bertrand, decerto que interessadíssima na harmonia ortográfica para que possa inundar o enorme Brasil com as suas edições, chama BookShop a uma loja ou livraria. Eu, como customer, devo dizer o quê?

 

 (Cartaz de filme sobre o casal Saramago)

 

Nem o casal Saramago escapa às anglofonices, como se vê pelo outdoor (ou será indoor) afixado na (imunda) cafetaria (coffee shop) da FNAC do Chiado.

 

E isto dava para continuar até à exaustão. O que me surpreende é que nenhum dos defensores dos pátrios interesses ortográficos, pré-Acordo ou pós-Acordo, botam algo sobre esta gigantesca imbecilidade. Piroseira anglófona.

 

jpt

publicado às 00:49

Junto deixo o Programa Mesa Redonda Dia da Lingua Portuguesa para quem quiser consultar o programa do evento, que decorrerá no "CEB" (que agora se chama Centro Cultural Brasil-Moçambique, assim se perdendo o popular e afectivo acrónimo) hoje ao fim da tarde.

Confesso que não percebo esta coisa que se comemora - não só pela minha irritação estrutural, constante, eterna e até guerrilheira diante desta mania da re-calendarização laica, pela qual os dias dos santos homens católicos (5 de Maio dia de Santo Ângelo. Ou será Santo Hilário? Ou São Peregrino?) são tornados dias de santas causas (católicas?). Agora, hoje, a língua portuguesa e a "cultura da cplp". Preciosismo meu? Mas do que se trata verdadeiramente? Visito o sítio da CPLP que, ufano, diz ter a instituição apoiado a Câmara Municipal de Odivelas (deixo cair a óbvia ironia sobre a subalternização/suburbanização que tudo isto demonstra) na exposição "A Cultura Lusófona" - é dessa ideologia que se trata?, paupérrima e ignara?, coisa sempre a jeito para intelectuais socialistas portugueses, o lixo ético-cerebral de sempre? Se assim é confesso que prefiro o "dia da lingua (sem acento) portuguesa" que se anuncia nestas paragens ...

Quanto ao dito evento resmungo com uma participação que anuncia o processo de ratificação do Acordo Ortográfico em Moçambique. Sim, porventura será incontornável. Mas é uma incontornável parvoíce.

E recordo o que pensei há dias, quando folheei jornais portugueses. Vários cronistas têm sob o nome "fulano de tal escreve de acordo com a antiga ortografia". Mas são os raros cronistas de renome, os jornalistas não têm esse privilégio. O qual, claro, se esgotará a breve prazo. Para satisfação desses palhaços (socialistas mas não só) aparentemente paladinos. Paladinos da sua mediocridade. Desonestidade. Que se nota na merda de símbolo que acima coloco, o puzzle da CPLP. Uma peça de puzzle tem o seu sentido dado pela articulação com as outras, uma teleologia por assim dizer. O meu corolário? Você é (prestigiado ou não) adepto do acordo ortográfico? Do pseudo-puzzle? Vá estudar ...

jpt

 

publicado às 09:30

Japão

por jpt, em 14.03.11

Diante da tragédia nipónica, e da expectativa nuclear na qual estamos, todo o pequeno-mundo perde relevo. Fica apenas o reino do doméstico, o continuar a vida olhando solidário angustiado esse (não tão) distante. Nisso apaga-se a bloguicidade, o pequeno-olhar sobre o pequeno-mundo.

No entanto soam ecos oriundos do meu país. Agitações e intelectos. Que apenas me despertam algo: as saudades da palavra "maremoto". Daquele quando havia gente, que falava. Agora só há isto. Um isto que tresfala assim, e nisso assim impensa.

Imagem encontrada aqui.

jpt

publicado às 02:56

[caption id="attachment_26128" align="aligncenter" width="958" caption="Hotel Southern Sun, Maputo, 17.2.2011"][/caption]jpt

publicado às 16:30


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