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A antropologia e a política

por jpt, em 05.05.15

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Nos inícios dos 1980s fui estudar Antropologia, fugido da escola de direito de Lisboa (onde, já agora, apanhei António Costa e José Apolinário a falsificarem as nossas votações, seus colegas alunos, preparem-se para a imundície que aí vem). Na época, no ISCTE, a gente estudava ano e meio em comum com Sociologia (talvez seja isso a origem da perversa demência anti-antropológica que a maçonaria da Sociologia veio patenteando nestas décadas portuguesas). Depois seguíamos mesmo o nosso caminho, algo trôpego. Não aprendi muito ali, mea maxima culpa, burguesote com carro e dinheiro no bolso, mergulhado na "lisboetana" boémia, acampada no Bairro Alto. Mas também um pouco, também e repito-o, pelo que ali se recebia. Era a era dos leitores militantes de Lévi-Strauss, um verdadeiro génio que afinal pouco nos conduziu para o depois, exactamente como o infecundos serão os cultores posteriores desse imaginativo Foucault que veio a assombrar este futuro (apesar de já então Baudrillard e Merquior terem pontapeado o seu delírio pancrático). E, de outro lado, de radicais marxistas surdos ao d'então monumental peido-mestre da Querida Teoria feita "socialismo real". Mas tive bons professores, e é com muito prazer que reclamo ter sido ensinado por João Leal (o tipo que melhor analisa e escreve sobre o "Portugal" que em Portugal se imagina, homem demasiado discreto nesta festividade actual) e João Pina Cabral, entre alguns outros. Não foi uma perda de tempo, pois mesmo com estes desvios ali conheci a obra de dois iluminadores, Leach e Dumézil, que nunca teria lido de outra forma. Não me importa se estes me foram ou são importantes ou úteis na vida: fizeram-me (este) homem.

 

Mas, e resumindo, ali aprendi pouco. Pois o fundamental, o núcleo, radicava na transmissão dessa angústia adversa ao etnocentrismo, hoje mais conhecido (e reduzido) por eurocentrismo - isso que ainda ensinamos na primeira aula da "introdução à antropologia". Uma mancha, mácula, peçonha, culpa, que nos ficava (e fica) qual disfunção eréctil para o futuro. Transmitida em palavrosos requebros e maçudos manuais. Acontecia que nada disso me era novo. Eu vinha dos Olivais, subúrbio alfobre, (coisa que contei aqui). Assim aportara à universidade, fruto daquela caldeirada sociológica (depois vieram a chamar a isso "multiculturalismo", quando tiveram de juntar "raça" a "classe") de bairro suburbano. Eu algo ligeiro, pois sempre escapando-me ao injectar-me, mas carregado de rock e devaneios, esses que afinal eram refutações sem que o soubesse. E assim todo o palavroso anti-"etnocentrismo", todas as esquizofrénicas depurações intelectuais, desmaiavam face ao capital que já carregava, à consciência de tudo isso já ter sido cantado, e então para quê lê-lo tanto e tantas vezes? E cantado, gritado, em modo bem mais assertivo, com um barulho que em nada anunciava, nem exigia, o culposo desmaio. Numa breve canção os "The Clash" haviam dito o problema e pronto, tratava-se de seguir em frente. Certo que o onanismo intelectual veio a resmungar - como aceitar "Charlie don't surf", brotado do Apocalypse Now?, obra de um horrível Coppola, malvado e yankee que bombardeara a floresta cenário, e, pior ainda, emanada daquele Conrad, o escritor do império (ler Said, este realmente importante, sobre Conrad é pedir demais aos revolucionários quando funcionários estatais)? 

 

30 anos passaram. Continuo a ouvir colegas, amigos, competentes e argutos, a enfrentarem o real. A quererem criticar o real d'agora. Percebo o problema, isso que nos aparta. Não é ideológico, nem de vínculos a interesses. Mas, e talvez por não terem vindo daqui, do meu bairro, isso de não terem ouvido ouvindo o rock necessário. Por isso vitimizam os compatriotas, ditos sofridos da malvada crise. Sem os verem o que são, como mau público de boa música. Por isso sem os verem como indivíduos, agentes. Pois tudo isto, a tralha que submerge, também isso os "The Clash" (e não só eles ...) haviam anunciado. Em 1981 o grupo, ainda no auge, tocou no Dramático de Cascais. Nos meus dezasseis anos não pude faltar. A gente seguia de comboio do Cais do Sodré e acampava naquela bicha (agora dita "fila") lendária, esperando entrar no pavilhão, horas muitas, devaneios múltiplos. Naquele dia à longa espera sucedeu-se uma patética primeira parte, o agrupamento luso "Taxi", um casting aburdo, ao qual se seguiu a cantora punk "Pearl Harbour" (a namorada do baixista Paul Simonon), e longos intervalos. No meio daquilo tudo, tantas horas passadas, lembro-me de ser acordado, e estou certo que a custo, nos sanitários por um rasta, "man, os Clash vão começar" - um rasta solidário com um new wave num concerto punk, um hino multicultural -, e eu lá fui, cambaleante para as mais primeiras das filas possíveis. De quase nada me lembro do concerto. Apenas de o pular todo. E de gritar incessantemente "lost in the supermarket". Essa que eles não tocaram.

 

Era um puto, suburbano, adolescente. 35 anos depois, quando os intelectuais (e os jornalistas) me abalroam com o coitadismo, a vitimização dos nossos compatriotas (e com "és de direita") só me lembro dos Clash. E dos impropérios que esta gente merece. Mau público para boa música. (as canções estão abaixo)

 

 

Charlie don't surf and we think he should
Charlie don't surf and you know that it ain't no good
Charlie don't surf for his hamburger Momma
Charlie's gonna be a napalm star

Everybody wants to rule the world
Must be something we get from birth
One truth is we never learn
Satellites will make space burn

We've been told to keep the strangers out
We don't like them starting to hang around
We don't like them all over town
Across the world we are going to blow them down

CHORUS

The reign of the super powers must be over
So many armies can't free the earth
Soon the rock will roll over
Africa is choking on their Coca Cola

 

It's a one a way street in a one horse town
One way people starting to brag around
You can laugh, put them down
These one way people gonna blow us down

CHORUS

Charlie don't surf he'll never learn
Charlie don't surf though he's got a gun
Charlie don't surf think that he should
Charlie don't surf we really think he should
Charlie don't surf

Charlie don't surf and we think he should
Charlie don't surf and you know that it ain't no good
Charlie don't surf for his hamburger Momma
Charlie don't surf

 

 

 

 

I'm all lost in the supermarket
I can no longer shop happily
I came in here for that special offer
A guaranteed personality

I wasn't born so much as I fell out
Nobody seemed to notice me
We had a hedge back home in the suburbs
Over which I never could see

I heard the people who lived on the ceiling
Scream and fight most scarily
Hearing that noise was my first ever feeling
That's how it's been all around me

[Chorus]

I'm all tuned in, I see all the programs
I save coupons from packets of tea
I've got my giant hit discotheque album
I empty a bottle and I feel a bit free

The kids in the halls and the pipes in the walls
Make me noises for company
Long distance callers make long distance calls
And the silence makes me lonely

[Chorus]

And it's not hear
It disappear
I'm all lost

publicado às 03:59


4 comentários

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De G. a 05.05.2015 às 07:34

Não tenho nada de relevante a acrescentar, mas gostava de lhe dizer que gostei.
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De jpt a 05.05.2015 às 11:36

Obrigado por dizê-lo
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De ARL a 05.05.2015 às 19:38

Belo texto. Mais um. Devia-se prestar mais atenção às letras das músicas... há 30 anos. Talvez o mundo fosse melhor.
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De jpt a 06.05.2015 às 08:57

Se a música melhorasse o mundo ....<br />Abraço, ARL

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