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A "crise" e as "deslocalizações"

por jpt, em 30.11.10

Abaixo, e já há uns tempos, deixei uma palestra do académico britânico e marxista David Harvey, sobre a crise geral. Quem a tenha visto, e é bem interessante, poderá reparar o que acontece à argumentação quando Harvey chega à questão da actual deslocalização do capital, sempre vista como o mal dos males. O que nos diz o geógrafo britânico? Tal como tantos outros invectiva o neo-liberalismo, que a permite, insurgindo-se contra a ausência de controle (de fixação) do capital. "Não há algemas no capital", protesta. E explicando isso aponta o caso da Índia (é o exemplo que escolhe, e não nos poderá surpreender a particular atenção de um britânico nas actuais passadas do velho Raj). Pois Harvey, tal como tantos outros, quando chega a esta faceta da problemática sai abruptamente da economia, esquece-se da sociologia e restringe-se à moral. Tão analítico é em tudo o que é anterior (e a animação do filme é interessantíssima) mas suspende-se neste ponto. Para ele o que é relevante no actual processo económico na Índia - e por arrastamento de outros contextos nacionais - é a explosão de bilionários [entenda-se, o cristo-marxismo pune moralmente a riqueza]. Nada mais. Nem uma palavra sobre todas as outras transformações na Índia, ou nos países que vivem situações similares. E nem uma única sobre o que provocava a assimetria nacional de acesso ao capital. Sobre o processo histórico daquilo a que podemos chamar, glosando um teórico porventura lido pelos harveys deste mundo, "acumulação moderna de capital".

 

 

Há algum tempo Paulo Varela Gomes, prestigiado intelectual português que tive o prazer de conhecer na minha juventude, escreve esta "Declaração". Foi publicada no jornal Público (23.10.2010) e deixo-a aqui numa transcrição num blog pois as ligações aos jornais são muito breves. PVG propõe aos seus patrícios a desobediência civil-financeira em protesto contra o empobrecimento (pauperização? proletarização?) a que estão votados. O interesse do texto é o facto de também ele (no fundo como todos os que navegam nestas áreas) se amputa, uma autofagia intelectual. A insurreição de PVG é como a de Harvey, contra os Estados europeus (no caso de PVG contra o Estado português) por não serem capazes de aprisionar o capital nas suas fronteiras, de serem porosos, assim provocando o empobrecimento dos trabalhadores europeus, a crise do "estado social" (expressão muito em voga nos últimos meses) por via da deslocalização de capital. Harvey ainda resmunga contra a explosão de bilionários indianos mas PVG nem refere o assunto das mudanças exo-ocidentais.

 

 

No caso de PVG ele aponta um caso doloroso do seu empobrecimento, deixou de comprar livros. Compreendo-o perfeitamente, há algum tempo que passo pelo mesmo, o salário que ganho não me permite comprar livros e isso - mesmo que em absoluto não seja dramático - choca com uma concepção de vida, de consumo. O "ethos" e o "pathos" académico posto em causa, a interrupção da volúpia do afagar novas capas, do êxtase do folhear é bem pior do que o "coito interrompido".

 

Mas o que ninguém gosta de recordar é que falamos de "ethos" e de "pathos" académicos de um determinado contexto, assente numa histórica manipulação e concentração dos recursos [por exemplo, quando é que os académicos moçambicanos tiveram rendimentos suficientes para brotar uma cultura profissional bibliófila e bibliofágica?]. O eixo de entendimento é o mesmo. Em Harvey ou em PVG a transferência de capital para o "terceiro mundo" é um mal, pois gera diferenciação social e até riqueza (Harvey) e pune o trabalho ocidental (PVG). Não há uma palavra sobre o facto da anterior deslocalização que favorecia algum trabalho ocidental em detrimento de outro (a Siemens, a Renault, a Toyota em Portugal, p.ex.) ou do acordo histórico que punia o trabalho do "terceiro mundo" através da sua exclusão radical da sua industrialização, por via da perenidade da "localização" do capital, por via da exclusão racial. Ou seja, por via de um "compromisso histórico" assente na exclusão racial.

 

A ideologia castafioresca, o "vejo-me tão revolucionário e tão analítico neste espelho", morre assim. Pela tecla. Onde borbulham as mais coloniais concepções do mundo. Amputadas, repito, daquele "pós" que tanto as sossegava e legitimava.

 

jpt

publicado às 15:38


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