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A hipocrisia

por jpt, em 21.10.15

montepuez.jpg

 (Montepuez 1994) 

 

Em 1994-5 vivi 5 meses numa aldeia a 40 kms de Montepuez, a velha Namwenda, renomeada N'ropa após a independência, o meu primeiro trabalho em Moçambique, chegado da África do Sul. Foi uma experiência abissal para este burguesote, mesmo que já viajado. Não tanto as histórias camponesas ouvidas, que faziam parte do trabalho, sobre o ainda quase recente tempo colonial, o trabalho forçado, o imposto, a cultura forçada, a repressão, a chambucada, a prisão e a morte, narradas até já entre-sorrisos, que foram e ainda são um escarro pejado de muco na merda do lusotropicalismo que os socialistas soaristas chamaram lusofonia e que tantos patrícios ainda agitam (há hoje mais um artigo no Público sobre isso, mesmo que nesse requebro da aparência crítica do turismo universitário). E que também sempre me originam um encolher de ombros, compreensivo, nos arreigados negacionismos dos velhos colonos, saudosistas esmagados pelo drama histórico de que quase sempre foram meros peões. Nem tanto também as histórias sobre a guerra da Renamo, então ainda tão recente, aquilo dos raptados, refugiados (e tantos), de toda a desgraça acontecida. E não tanto por causa desse historial porque já lera, e bastante, sobre aquilo tudo, ainda que assim narrado de viva-voz, e só porque eu perguntava, tivesse tão mais efeito. Abissal porque rude, rudíssimo, não só no meu corpo, lesado em 28 quilos sem qualquer doença, abissal porque a partilha da morte, da doença, da pobreza radical, uma coisa inimaginável. Abissal porque nisso tudo também a partilha de tantas mais coisas, aquilo do sentir, da infinita capacidade de sermos felizes ainda assim, daquele modo.

 

Não fiquei "macua", nunca disse "a minha aldeia", não fiz "ritos de iniciação" nem me filiei como curandeiro ou chefe de tradição, não procriei por lá, não aderi às causas então ali vigentes, não me me transformei "num deles" (nem digo "eles", já agora), nunca entrei nessa pantomina folclórica tão usual entre antropólogos (e também nos missionários do desenvolvimento). Pura e simplesmente, nunca mais fui o mesmo. E sei que o meu melhor, por parco que seja, aconteceu ali entre Balama e Montepuez, o resto foi só o futuro, todo degenerativo à excepção da paternidade. Só voltei uma vez, uma década depois, como contei aqui, para perceber que não poderia voltar a voltar, não aguentaria, o tempo passara. Em suma, não fiquei "de lá". Mas, e para sempre, fiquei lá, algo de mim por lá ficou. Por  isso já pedi a amigos próximos, se eu rebentar de repente não quero isso do velório nem funeral. Dois deles que levem os restos à cremação, e que se faça um pequeno bar aberto. Depois, se ainda for necessário, apoiem a minha filha e, se houver dinheiro para isso, mandem os restos para alguém de Maputo ir ao charco de N'ropa largá-los, sem mais nada do que isso.

 

Nos finais de 2000 houve manifestação em Montepuez, congregando população do distrito. A polícia prendeu participantes, encerrando-os na cadeia da pequena cidade - edifício que conheço, pois tinha-o visitado. Nessa noite morreram 120 pessoas, asfixiadas numa cela onde tinham sido inenarravelmente confinadas. Eu sei que não foram ordens presidenciais nem do governador da província, foi um monumental sinal da insensibilidade da administração civil e policial local e também um sintoma da crispação dos tempos (que por vezes regressa). Foi um dia horroroso, que senti como amputação, desesperante. Não chorei a "minha gente" (que não o era) nem "aquela gente" (que não o era). Chorei-me, chorei-os.

 

Nesses mesmos dias em Maputo reunia-se a Internacional Socialista, então presidida por António Guterres. Sobre o assunto nem uma palavra proferiram. Joaquim Chissano foi então eleito vice-presidente da IS, coisa que a gente sabe protocolar (havia para aí 70 vice-presidentes) mas que teve efeito propagandístico interno. Estou à vontade nestas coisas: acima disse que sei que Chissano não ordenou aquilo (nem nunca o faria); e se eu fosse moçambicano seria um frelimista crítico e, mais ainda, como aqui escrevi, um chissanista. Mas naquela altura o silêncio de Guterres, ainda para mais nosso primeiro-ministro, e de todos os outros, e o sufragar do responsável político daquela catástrofe avassalou-me. Nem na altura nem depois, no circo constante de visitas governamentais e privadas (negócios) dos inúmeros políticos socialistas que cruzavam Maputo, alguém referiu o assunto. Já agora nem António Costa, também ministro, por lá em visitas ministeriais para afinal passar férias no Bazaruto, em agressão ao papel institucional que lhe cabia. Uma coisa execrável.

 

Quinze anos depois são os mesmos políticos que andam por aqui. E vejo os opinadores de esquerda, e até políticos (agora a Mariana Mortágua), muito ofendidos porque o actual governo não actua, qual Norton de Matos, com os prisioneiros em Luanda, não afronta a cleptocracia angolana, se subordina a vis interesses diplomáticos e económicos. Depois, esgotado o quinhão de solidariedade com os crioulos luso-angolanos presos de consciência (e que não se duvide: liberdade para eles, já!), toca de escrever e batalhar para meter estes socialistas (os velhos silenciosos sobre Montepuez) no poder, os gajos dos negócios austrais. Enquanto se lamenta que Guterres, esse bom estadista, não se tenha candidatado a Belém. Porque isso dos camponeses, ainda por cima mesmo pretos, que se fodam.

 

E nós também, com este lixo de gente. De "esquerda", dizem-se. Chama-se a isto hipocrisia. Imunda.

 

 

publicado às 17:05



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