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Ontem, não sei bem como nem porquê, o meu computador imóvel (há quem chame a estes objectos "desktops", uma expressão tipo taparuére) encetou um processo de actualizações. Pelo sim pelo não concordei.

 

Hoje abri os documentos que estou a escrever [formato "word"]. Surpreendo-me, estão muito mais preenchidos de sublinhados vermelhos do que o habitual. Estou habituado a estes, o corrector ortográfico é implacável diante dos meus alguns erros ortográficos (p.ex. o "insonso" que deixei há dias num postal do ma-schamba). E face às palavras de "distinção" (o jargão académico que tende a tornar incompreensíveis os textos e, como tal, mais respeitáveis), essas que o também corrector desconhece [add to dictionary propõe, benevolente]. E reage ainda às minhas múltiplas hifenizações, convocadas pela constante confusão mental, esta assim disfarçando-se de nuances.

 

Mas agora é diverso. Pura e simplesmente aconteceu-me o que já ouvira e lera, o corrector assumiu o Acordo Ortográfico, sem que eu tivesse sido explicitamente questionado sobre a minha vontade. Ou seja um instrumento que eu comprei e que utilizo profissionalmente piora a sua qualidade, e terei que o utilizar com outras delongas e cautelas - só no primeiro parágrafo do primeiro texto há três falsos erros: reflectindo, actual, percepção. E eu tenho diante de mim (literalmente) centenas de páginas sob pavoroso atraso, vai ser um trabalho insano.

 

A minha repulsa e a minha irritação não é apenas ideológica, um mero anti-acordismo. Acontece que escrevo em Moçambique. Em que 23 milhões de habitantes (mais do dobro dos portugueses, ainda que com muito menor taxa de alfabetização) não escrevem (ou escreveriam, se soubessem) com esta ortografia. E muito gostaria que os textos chegassem ao Brasil, vaidosa utopia, onde 200 millhões de habitantes (vinte vezes os habitantes de Portugal, com uma taxa de alfabetização ligeiramente menor do que a dos portugueses) não escrevem (ou escreveriam) com esta ortografia. E também gostaria que alguns deles fossem lidos em Angola, outra vã vaidade, onde 18 milhões de habitantes (quase o dobro dos portugueses, ainda que com uma menor taxa de alfabetização) não escrevem (ou escreveriam) com esta ortografia. Ou seja, esta alteração unilateral é não só um desrespeito como um total absurdo, que a monstruosa corporação informática (tem nome?) pratica.

 

Claro que no fundo está toda esta patacoada ortográfica. Essa mesmo que a semana passada os deputados portugueses tornaram a reenviar para as calendas gregas. Demonstrando que estão todos os partidos (porventura com algumas excepções individuais dos seus membros) ainda mergulhados nesta deriva patética, o vagido colonial do delirante sonho da comunidade homoortográfica, unisentimental. Dos ainda representantes dos "espoliados do ultramar" até aos lusotropicalistas do bloco de esquerda: nenhum deles se libertou do "contra os bretões marchar, marchar".

 

O meu problema, a minha irritação, não é a mudança no corrector ortográfico. Nem a maldita ortografia. O meu problema é que "a minha pátria [não] é a língua portuguesa". A minha pátria é Portugal. E estou farto de tantos imbecis (orto-imbecis, pan-imbecis) que por lá pululam. Os que podem decidir politicamente. E, pior, os que neles vão votando. Ao longo das décadas em que vivem. E não se pode exterminá-los.

publicado às 16:37


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