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"Ficámos aleijados a escrever em português" diz Maria Alzira Seixo sobre o Acordo Ortográfico em artigo no Público [Língua Portuguesa: a hora da esperança]. Importantes declarações até porque o malfadado Acordo Ortográfico volta agora a ser discutido: Tal medida, impensadamente aprovada em 2008, que desfigura a fisionomia do Português, vai ser reexaminada na Assembleia da República no próximo dia 28, graças a mais uma Petição de cidadãos que pretendem desvincular-se do Acordo Ortográfico, recebida por este órgão de soberania."

 

A oposição ao AO90 é transversal à sociedade portuguesa, e não pode ser atribuída a qualquer acantonamento ideológico ou à preguiçosa renitência em adoptar a nova grafia. Disso exemplo são recentíssimos textos sobre a questão, enquadrando-a muito bem e, em particular, refutando os delírios nacionaleiros que, em tempos, poluíram a luta anti-AO90. Um texto do escritor Mário de Carvalho, "Fervedouro dos desacertos e desconcórdias" é mais do que recomendável. Tal como um pequeno texto de Rui Vieira Nery (infelizmente só colocado no seu mural de facebook, e o facebook não é sítio para se escrever, nem que seja por razões estéticas ...). Ali, Vieira Nery, lembra algo que é fundamental: "Centrar o debate acerca do Acordo (Anti-)Ortográfico na questão de uma suposta submissão de Portugal à norma brasileira é iludir a verdadeira questão em causa. O Acordo não substitui a norma portuguesa pela brasileira, substitui-as a ambas por uma norma que não corresponde a nenhum dos usos legítimos da Língua em qualquer dos países lusófonos, sejam eles Portugal, o Brasil, ou qualquer dos PALOPs."

 

Recentemente José Pacheco Pereira escreveu um bom texto sobre o assunto, colocando-o no seu verdadeiro âmbito, o político, "Acabar já com este erro ...". Diz, e muito bem: "O acordo ortográfico é uma decisão política e como tal deve ser tratado. Não é uma decisão técnica sobre a melhor forma de escrever português, não é uma adaptação da língua escrita à língua falada, não é uma melhoria que alguém exigisse do português escrito, não é um instrumento de cultura e criação. É um acto político falhado na área da política externa ...". E lembra que "Ninguém que saiba escrever em português o quer usar, e é por isso que quase todos os escritores de relevo da língua portuguesa, sejam nacionais, brasileiros, angolanos ou moçambicanos, e muitas das principais personalidades que têm intervenção pública por via da escrita, se recusam a usá-lo. As notas de pé de página de jornais explicando que, “por vontade do autor”, não se aplicam ao seu texto as regras da nova ortografia são um bom atestado de como a escrita “viva” se recusa a usar o acordo. E escritores, pensadores, cronistas, jornalistas e outros recusam-no com uma veemência na negação que devia obrigar a pensar e reconsiderar.". Será importante aduzir a esta argumentação que muitos do que o utilizam o fazem por obrigação, por ausência de autonomia no seu exercício profissional (como tantos dos professores de português que não são "acordistas" mas que têm que ensinar a nova grafia) ou de estatuto profissional (como tantos jornalistas que não possuem a prerrogativa exercida pelos cronistas convidados, que se recusam à nova grafia).

 

Significativo de que esta crescente contestação generalizada, militante e argumentativa, tem ocupado espaço e obrigando à reconsideração do pobre sonho homógrafo, é o facto de Adriano Moreira, anterior defensor do Acordo, veio agora alterar a sua posição. Dizendo o tantas vezes repetido por outros: "Adriano Moreira defende que a língua portuguesa não precisa de um acordo ortográfico. O professor universitário considera que, tal como o inglês, o francês e o espanhol, os países falantes de português não precisam de um tratado."

 

Ao longo dos anos também aqu no ma-schamba se têm colocado (e reproduzido) textos sobre o Acordo Ortográfico. Não vou agora repetir o que penso sobre tal deriva, saída de núcleos intelectuais já então algo serôdios. No lado português enfrentando o "luto colonial" português (numa mescla do velho republicanismo colonial, então alimentando o partido socialista pós-25 de Abril, com o lusotropicalismo a la Estado Novo); no lado brasileiro herdeiro de uma luta contra o regime ditatorial local, desejando uma extroversão democratizadora, inserindo-se numa particular história intelectual daquele país, cuja peculiar (e anacrónica) retórica foi um dia deliciosamente abordada por Michel Cahen ("Des Caravelles pour le Futur?"). 

 

Pois não valerá a pena, agora, nas vésperas de uma possível reconsideração parlamentar em Portugal sobre este pobre episódio da história diplomática e intelectual portuguesa do final de XX, fazer uma análise histórica do episódio. Vale a pena, sim, o esforço de regressar à "primeira forma", ao pré-AO90.

 

Aqui em Moçambique será de considerar toda esta polémica, a recusa ortográfica e conceptual que as elites intelectuais brasileiras e portuguesas têm feito a esta manobra política. Já para não falar na polémica que, de quando em vez, surge em Angola sobre esta questão. Antes de assumir, com todos os custos, económicos e humanos, o AO90 será de entender se todos estes plurais opositores estarão enganados ou se não haverá alguma ponderação nestas posições.

 

E, desejavelmente, refutar a trapalhada ortográfica. E o pus ideológico que esta transporta.

publicado às 01:49


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