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 (Escola Portuguesa de Moçambique, recanto das placas celebratórias de visitas oficiais do governo português. Foto de 2009)

 

Sobre a "cooperação" como área de política externa, já aqui escrevi. Uma área na qual trabalhei alguns anos. Esta semana houve em Lisboa o seminário "os clusters da cooperação portuguesa". Gostava de ter assistido. Até porque um desses "clusters" (e é sintomático que as instituições estatais não consigam falar a própria língua ...) é na Ilha de Moçambique. Uma opção ocorrida em meados da década passada. E sobre a qual na época pude, informalmente, opinar. Dizendo apenas o que era óbvio, mas que não aparecia assim aos decisores. Estas coisas já aconteceram há muito tempo, já são passado, e um tipo aos (agora) cinquenta anos pode falar disso de modo desprendido (até porque com esta idade já não se vai "a lado nenhum", não se pode ser interpretado como "estratega"). E também porque a maioria dos funcionários já não estão nos lugares, mudaram ou reformaram-se. Por isso teclo as minhas memórias.

 

A opção por sediar na Ilha de Moçambique um núcleo importante da cooperação portuguesa surgia-me como um erro político. Tanto para o aqui, pela leitura política que isso provocava e pelo irreprodutivo que o projecto seria; como para o lá, alimentando a manutenção do húmus colonial [o que é diverso de colonialista] do pensar português sobre África - sobre este, para quem tenha interesse tenho este texto "Olhar em África".

 

Antevia também um falhanço prático, face às dificuldades locais (que abordei num texto longo mas não académico) e à incapacidade humana e logística das instituições estatais civis portuguesas. Antevisão/certeza que vim a explicitar anos mais tarde no postal mais pérfido de dez anos de ma-schamba: este, anunciando a conclusão óbvia de tal projecto.

 

Ainda assim, antes do arranque do projecto, vim a ser sondado - apenas sondado - para ser o seu "coordenador". Os tempos corriam-me difíceis e, engolindo a (falida) arrogância, não me neguei. Anos antes, com algumas poupanças de lado, permitira-me uma maior dignidade. No início de 2000, quinze dias depois de ter sido dispensado de adido cultural aqui, fui convidado para ser "coordenador-adjunto" da cooperação portuguesa em Timor. Era uma saída em grande! Mas eu passara os últimos anos a sofrer a clique "gâmica", um universo execrável, cultural e eticamente. E respondi, cheio de "panache", "não posso! Por causa dos meus avós ... Se volto a trabalhar para vocês (socialistas, entenda-se) eles levantam-se das tumbas e vêm atrás de mim". E vim-me embora da esplanada do Polana. Não foi, claro, uma boa decisão estratégica. Mas ainda agora, quinze anos depois, sorrio ao escrever isto. Ainda bem que foi assim.

 

Mas os anos tinham passado, eu ficara aflito (aqueles dias em que me apanham a fumar Pall Mall/Palmar), não pude dizer que não. Lá disse as minhas condições, sabendo que eram quase inaceitáveis - pois eram as condições de um tipo que conhece o terreno. E nunca acreditei que aquilo fosse avante. Pois um dia, quando simples professor cooperante, escrevera uma longa jeremíada sobre a cooperação, e em particular sobre a tralha humana que habita(va) nas instituições a que ela se dedica (os "funcionários públicos" do "estado social", sempre reclamados como vítimas mas núcleo sociológico onde reside o pior do "português suave"). E quando me acabara o contrato escrevera ao insigne presidente da cooperação dizendo-lhe o que pensava dos tristes serviços que ele presidia. [as últimas páginas deste texto]. E realmente nunca mais ouvi falar do assunto.

 

Lembro-me de tudo isto ao ler do tal seminário, apresentando resultados da "avaliação" (positiva, decerto) destes "clusters". E lembro-me também da sucessão de "primeiras-pedras" na construção da Escola Portuguesa de Moçambique, que acompanhei por deveres de ofício. E da foto com que ilustro este texto, o recanto das (imensas) placas assinalando a visita de uma qualquer "sua excelência" governativa à escola. Explicitando, de modo abrasivo, e ainda por cima transmitindo às novas gerações, este culto tão português, o das "primeiras-pedras" e "placas comemorativas". Legado, porventura, do paganismo celtibero.

 

Quanto ao dito "cluster"? Uma ou outra primeira-pedra, algumas placas. Decerto que algumas benesses caritativas, sempre bem-vindas. O tempo vais passando. Nós reformamo-nos, morremos. A cooperação deixará de o ser. Para quê falar disso?

publicado às 10:40


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