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Costa, o incolor?

por mvf, em 30.09.14

 

 

"O novo secretário-geral, o primeiro não branco a liderar um grande partido em Portugal"

 

Eis como Luis Osório num seu artigo de rescaldo sobre as primárias do Rato (in jornal i, 29/09/2014) define  António Costa.

Ora, sendo Costa um não branco, isso quer dizer o quê? Preto, amarelo, vermelho, azul, liláz, versicolor, incolor?

Alguns, porventura severos críticos, pensarão que se trata somente de uma saloiada, de traumas pós-coloniais, de uma distracção a emendar mais tarde mas que dado ao adiantado da hora e ao fecho da edição lá passou e assim ficou estampada, ou, em extremo, revelar uma crise aguda de hemorróidal. Outros, mais benevolentes, dirão que esta é uma (certa) Lisboa, bem pensante, cosmopolita, esplendorosa na sua modernidade, exemplo de uma boémia temperada e culta, muito Bairro Alto anos 90 e com mundo, como dantes se dizia.

Já eu, o pobre de mim, limitado na compreensão destes fenómenos, com vistas que de tão curtas não alcançam mais que a inóspita Torre do Bugio, doméstica e inultrapassável Taprobana intelectual, só digo assim:

Foda-se!

 

De acrescentar que Costa ainda não é secretário-geral do PS e tão só candidato a primeiro-ministro, mas isso é má-vontade minha que gostava que os gajos que são pagos para escrever em jornais fossem um pouco mais rigorosos.

 

 

publicado às 09:30


5 comentários

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De umBhalane a 30.09.2014 às 10:33

É fodido meu Caro, é fodido.

FODA-SE.


E.T. - Vai ser à fartazana.
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De mvf a 30.09.2014 às 10:46

Se é! :-)
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De jpt a 30.09.2014 às 16:26

Vá lá: eu não li o texto, apenas o que referes, mas pelo que citas não me parece ser muito danado. Uma coisa é a gente refutar as míticas classificações racialistas (escreva "as raças não existem" cem vezes no quadro) ou pontapear as imbecis formulações racistas. Mas se raças não existem (perdoa o tom professoral aqui do antropólogo) enquanto dado objectivo surgem nas classificações sociais, têm eficácia - as pessoas descrevem-se e agrupam-se por algumas características externas, e tantas vezes tiram disso corolários mais ou menos estrambólicos.

Assim sendo o que me parece que o homem quis dizer é que é socialmente significativo que um homem com a mescla ancestral de Costa chegue à liderança (de facto, não formal ainda como resmungas) de um partido português sem que isso levante questão. Pessoalmente, e para além do que o PS sempre ameaça, acho um bom sinal. E sim, ele pode ser descrito (neste contexto de locução) como um não-branco. Ou seja o interessante é a desvalorização do mito rácico que acontece neste caso. Não exactamente pela tez dele (que ainda para mais é aproximada pela capital cultural que tem, pelos ascendentes que tem, e pela meia-origem, julgo, do contexto católico goês, nunca pensado como verdadeiramente o extremo outro). 
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De mvf a 30.09.2014 às 20:39

Caro jpt, pois entre o que o homem quis dizer  e o que realmente acabou por escrever - percebendo-se o que se pretende mas  já não se entendendo tão bem a razão pela fórmula usada, sobretudo num jornalista experiente pelo que tento explicar à frente - há uma pequena diferença. Se do ponto de vista académico/ antropológico pode fazer sentido designar alguém com um "não qualquer coisa" (no caso um não branco) através de prisma diferenciador da cor da pele, e logo rácico, já me parece, vulgar leitor que sou e pouco capaz de atentar nestas subtilezas, a enunciação tal qual foi feita entra na armadilha do que queria evitar, ou seja, tenta estabelecer como igual a característica pela qual faz a distinçãocom um detalhe torcido: se é normal para qu~e a chamada de atenção? Dá ideia que Osório esperava que a reacção dos portugueses mais ou menos embrenhados neste assunto tivessem reacções epidérmicas, portanto rácicas. Osório se noutra latitude, variando portanto a geografia escreveria um não preto ou um não vermelho/ índio, um não amarelo? Desculparás a ignorância, mas a definição de qualquer coisa pela exclusão do que é a própria coisa nem sempre funciona e se há coisa que não aprecio nos jornais são as meias-conversas, os sub-entendidos, o que se pretende significar dizendo o contrário ou usando fina ironia o que neste caso não se podia, pela própria natureza e tema do texto, empregar-se. Osório diz tratar-se o facto de Costa ser o primeiro sec-geral (que ainda não é, repito) não branco uma boa notícia. Ora, assim dito, fica estabelecida a razão rácica que se quer - e que em todo e qualquer momento tem que ser! - não importante (utilizando a mesma fórmula...) distinguir, definindo até certo ponto, alguém. Podia, por maioria de razão ter dito que era uma boa não notícia. Quanto ao resto, a eventual subida aos céus do Poder do Ghandi de Lisboa ( como o "Le Monde" e o "Hindustan Times" dizem ser António Costa conhecido), a ver vamos se lá chega e se lá chegado cumpre os mínimos olímpicos ou se temos propaganda como tem sido timbre sobre a sua actividade autárquica.
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De jpt a 30.09.2014 às 16:26

Pois não importa exactamente como podem ser descritos (classificados, [des]valorizados) os oriundos daquele contexto. Em Moçambique Costa seria denominado "caneco" (o que não implica sempre uma desvalorização). Em Portugal um "mestiço", termo que vem caindo em desuso pela desvalorização do racialismo, e ainda bem. Mas o importante não serão as suas características físicas (e a sua ascendência) O que o jornalista quererá dizer será mais que ele não pertence (neste sentido fraco) exactamente aos "brancos" (a malta, nós) e que isso não é questão. Não importa a "cor" dele, seria o mesmo se fosse um "mulato", um "pele-vermelha" ou um "chinês", qualquer um que fosse "não-branco". Acho bom isso, com toda a certeza. Um bom passo, que as pessoas calam porque a questão racial tende a ser indita em Portugal, mas que é valorizável, sem que isso apouque minimaente (nem engrandeça) Costa.

Agora o que eu gostava é que Luis Osório tivesse a mesma atenção aos discursos e questões racialistas quando a sua co-bloguista Ana Gomes, deputada, eurodeputada e, mais do que tudo, antiga embaixadora de Portugal (aqueles funcionários públicos a quem compete, de quando em vez, transportar a bandeira. E, sempre quando em serviço, representar o país), se permite a verbalizar as mais abjectas bocas anti-semitas. Nessa altura nem ele nem os ilustres colegas abriram a boca. Tarde piou, diria eu, sobre este tipo de questões.

Quanto ao resto,mais importtante. Solidarizo-me com o teu vernáculo. Está quase visto que Costa será o próximo PM. Eu gostava que ele viesse a ser um bom PM, "a bem do país" (atenta na nuance), de nós todos. Mas de quem vem do governo de Guterres e do poder de Sócrates tenho poucas expectativas. Aliás, tenho muitas. E más. Oxalá (islamicamente) que me engane.

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