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Há um par de anos deu-se um regresso do uso da barba como moda. Moda masculina. Estrelas de cinema, músicos e desportistas de renome internacional, renderam-se ao que era uma quase coutada dos artistas, intelectuais, antigos revolucionários, ou deserdados da sorte a quem se chama agora, "sem-abrigo" e que nalgumas regiões do Portugal de antanho, era um símbolo de luto. A moda não é, neste caso, tão passageira como a ditada pela Alta-Costura, até porque os homens, não sendo tao estúpidos como alguns exemplares nos querem fazer crer, descobriram, aceitando, que não há actividade mais maçadora que o barbear diário, até porque a repetição não leva a resultados definitivos. Falo do barbear tradicional, com lâmina, navalha (em desuso) ou máquina eléctrica, note-se, excluindo a eliminação dos apêndices pilosos com técnicas laser ou outras. Enfim, fazer a barba é uma perda de tempo. Mudando-se os tempos, alteram-se as vontades e se dantes as mulheres não pisavam os palcos, deixando as luzes da ribalta para homens de interior mais sensível ou de exterior com peças a menos - os castrati que já vinham dos templos do Império Bizantino, passaram pelo Coro da Capela Sixtina até a prática da castração ser proíbida em Itálía em pleno século XIX e finalmente o Papa Leão XIII proibir em definitivo a sua participação já em 1902... - a progressiva libertação feminina é hoje incontroversa, ou deveria sê-lo, pois ainda hoje entre mentes um pouco mais "conservadoras" se pensa (não será o verbo adequado, mas por facilidade é o que ocorre) que mulher de palco é mulher perdida. Mas essa noção de mulher que subisse ao palco equivaler a uma vulgar puta de trottoir, passava-se no tempo que os homens que o queriam ser, deveriam albergar três características: feios, porcos e cheirar a cavalo e se, como ensinou Marx, o capital não tem pátria, as artes nao têm sexo.

 

 

 Como no fado do Marceneiro, tudo passa, tudo morre e aquilo que era atracção circense, anomalia pilosa, aberração ou, no mínimo, uma amostragem grotesca contrária à evoluçao da raça, passa a ser agora uma bandeira da igualdade de géneros e uma posição proto-política sobre discriminações várias e a Europa bem-pensante e politicamente vanguardista recompensa a atitude no extraordinário Festival Eurovisão da Canção, certame de gosto musical duvidoso mas de enormes e diversos interesses. O "ma-schamba" não teve voto na matéria - uma pena, uma injustiça! - mas prova estar atento aos fenómenos normais, anormais e para-normais bem como a outras merdas e, ao contrário do russo, que demonstra um mau perder inqualificável com declarações de representantes de vários quadrantes da vida pública a comprová-lo (por exemplo, Dmitri Rogozin escreveu no seu Twitter que o resultado do concurso "deu uma ideia geral aos defensores da integração europeia do que devem esperar de uma adesão à Europa: uma mulher de barba", ao mesmo tempo que Jirinovski, presidente do Partido Liberal Democrático, afirmou ao canal televisivo estatal Rossiya-1 que "a nossa indignação é ilimitada, isto é o fim de uma Europa que ficou completamente louca. Eles têm mais mulheres e homens lá em baixo mas preferiram apresentar um travesti de barba", disse, adiantando que "há 50 anos o exército soviético ocupou a Áustria e desocupá-la foi um erro, devia ter lá ficado." enquanto o rapper Timati no Instagram afirma que "a vitória de Conchita Wurst é o resultado da doença mental da sociedade contemporânea" e que "não gostaria de um dia ter de dizer aos meus filhos que dois homens andarem aos abraços ou uma mulher com barba são coisas normais"), apresenta, para além da interpretação do travesti austríaco, de nome artístico Conchita Wurst (que em alemão significa salsicha, já agora) e dos devidos parabéns pelo prémio, uma respeitável meia-dúzia de fotografias de homens de barba rija, começando por Charles Darwin que, coitado, vai vendo a sua teoria da evolução ser ajustada a novas realidades, passando por Fidel Castro, um herói da democracia, passando pelo poeta da geração beat, Allen Ginsberg, pelo genial Zappa e por George Best, o primeiro jogador de bola a entrar nas parangonas dos pasquins e revistas que à época ainda não eram cor-se-rosa,.acabando na veneranda vegetação capilar de Karl Marx, acima citado.

Não percam mais abaixo, a nossa pequena e singela homenagem ao ou à vencedor ou vencedora do festival, o senhor Tom Neuwirth encarnando a pele de Conchita Wurst, a quem renovamos os votos de maior sucesso, com a talentosa interpretação de "Rise Like a Phoenix" (há quem não dominando a língua inglesa, incorra no erro de ler "fónix", o que deve evitar-se por ser facilmente confundível com a interjeição de enorme vulgaridade "foda-se!"). Parabéns pois a esse artista da canção.

 

Vosso

mvf

 

                         

 

 

 

 

 

                         

 

 

 

 

                        

 

 

 

 Exmos Senhores e Senhoras, Meninos e Meninas, respeitável público, eis Conchita em Rise Like a Phoenix:

 

 

 

 

 

publicado às 18:01
modificado por jpt a 11/7/14 às 04:49


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