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David Mestre, Nas Barbas do Bando

por jpt, em 19.01.10

 

De David Mestre, poeta angolano de origem portuguesa, falecido em 1997, apenas tinha lido o seu "Lusografias", um registo de crónicas. Agora encontrei este "Nas Barbas do Bando" (Ulmeiro / União dos Escritores Angolanos, 1985). Lembrando o contexto histórico e biográfico do autor, retiro-lhe dois poemas que me parecem reconhecer (imagino?) o eixo de um percurso abissal.

 

Portugal Colonial

 

Nada te devo
nem o sítio
onde nasci

nem a morte
que depois comi
nem a vida

repartida
p'los cães
nem a notícia

curta
a dizer-te
que morri

nada te devo
Portugal
colonial

cicatriz
doutra pele
apertada

 

 

 

O Poeta Deve

 

O poeta deve

manter-se perfilado

em andamento

respeitar o sinal

no cruzamento

manejar assim

o armamento

saber guardar

recolhimento

e não deve

tocar douvido

o instrumento

extraviar

o fardamento

com prometer

o cumprimento

deste burocrático

regulamento

 

 

 

O livro tem ainda um interesse complementar. A contracapa apresenta este manuscrito de José Craveirinha, um poema dedicado ao autor. Aqui o deixo, não como curiosidade, mas como óbvio diálogo aos pólos acima transcritos:

(ao David Mestre)

 

Delito

 

O delito

imperdoável dos genuínos poetas

é não serem amordaçáveis

Porque

mesmo depois do seu homicídio

o defeito deles é terem na poesia

a bater os pulsos em cada verso

a verdadeira pátria insilenciável

em vez da vida.

 

(21.4.78)

 

jpt

publicado às 01:19


6 comentários

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De AL a 19.01.2010 às 03:12

Li isto e veio-me a memoria este poema do angolano Ruy Duarte de Carvalho:

Deste reino vigio
a vossa andança.
Distantes de seu fogo
soi-lo vós
eu estou em casa.
Sou livre ainda
e se ora aqui me instalo
é para vos trazer
sempre em cuidado -
que entre os meus moro
e piso a terra minha
enquanto em vós...
divide-se a lembrança
entre outras terras
e o medo de não mais
poder pisá-las -
Eu se morrer
ao menos morro em casa.
E vós?
Não deixareis aqui
junto com as armas
vossas ossadas que afinal não são
mais brancas do que as minhas
que sou negra?
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De umBhalane a 19.01.2010 às 10:25

Cidadão angolano, nasceu em Loures (Portugal) em 1948.
Radicado em Angola desde oito meses de idade.

Participou, na frente de batalha, da luta contra a UNITA e África do Sul. Morreu em 1997.
Fonte: br.geocities.com

Depois cansou definitivamente de Luanda e da vida que o rodeava, da mediocridade, da corrupção, dos critérios políticos, da vida das elites e da pobreza do povo. Já nem os jantares de cacusso nos quintalões das Ingombotas lhe alegravam o coração.
Veio para Lisboa e um dia deu uma entrevista a uma das televisões. Deitou todo o fel fora.

Ele mesmo, o autêntico, o homem que viveu permanentemente insatisfeito, sobretudo consigo mesmo. Uma insatisfação bem retratada na sua poesia, a que os angolanos pouco ligam porque, para eles, o David era apenas mais um branco a ocupar um lugar que não lhe pertencia, apesar de ter doado ao Estado angolano o que lhe coube da herança familiar - que não era tão pouco assim.
Fonte: africandar.blogspot.com

Cair na real.
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De umBhalane a 19.01.2010 às 10:57

Naturalidade


Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.


Não sei se o que escrevo tem raiz a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.


Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

Rui Knopfli


SEM NADA DE MEU

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem) . Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.

Rui Knopfli
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De jaime a 19.01.2010 às 17:55

De todos os autores apenas conheço José Craveirinha, sua origem Moçambicana "Norte". Li algumas coisas. No entanto conheci pessoalmente o irmão "Odontologista", Algum tempo atrás e trabalhar em Silves (Algarve).
Mas, em suma são belos Poemas, que nos enchem as almas..........
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De VA a 20.01.2010 às 00:35

Adquiri há pouco o "Nunca mais é Sábado", uma antologia de poesia Moçambicana com organização de Nelson Saúte, publicada pela D. Quixote.
Breve, breve aqui deixarei um poema de eleição. :)
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De jpt a 21.01.2010 às 06:47

AL, 1B: a agradecer o contributo(mor) para este post.
VA: fica-se â espera. E boa leitura
J. é isso mesmo qunanto aos poemas

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