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Fátima Mendonça emprestou ao Ma-schamba o texto "Ovídio e Kafka nas Margens do Lúrio", com o qual apresentou "Campo de Trânsito" de João Paulo Borges Coelho (Ndjira/Caminho, 2007). Ei-lo, sendo de referir que modifiquei a pontuação, introduzindo alguns parágrafos, de molde a facilitar a leitura em ecrã. Que me desculpe a autora.

 

 

Ovídio e Kafka nas margens do LúrioPor Fátima MendonçaLisboa, 4 de Julho de 2007

 

Em 2005, aquando da apresentação de Setentrião na Associação dos Escritores Moçambicanos em Maputo, admiti sem constrangimento que, embora tenha o privilégio de partilhar com João Paulo Borges Coelho uma profissão (docente) em área com afinidades com a sua e, de para além disso, nos unirem laços de amizade, não me sinto na posição incómoda, de o meu papel - aqui e agora - poder ser interpretado como acto 'tribal', ritualizado sob a forma de panegírico. Podendo mesmo ter como agravante o facto de desde a sua revelação como escritor de ficção ter tido o privilégio de ler nos seus formatos iniciais os originais que vieram dar origem aos já com este, seis livros publicados desde 2003. Tal como disse na altura e repito aqui em espaço e a um público totalmente diferentes daqueles a que nos habituaram estes actos em Maputo, não sinto constrangimento por legitimar publicamente o meu entusiasmo pelo aparecimento, nas letras moçambicanas, de uma voz diferente, que tentarei aqui descrever, guiada pela consciência de ser, tão somente e parafraseando António Cândido, intermediária entre a obra e o leitor, sendo o meu papel secundário relativamente à obra que comento e podendo apenas servir de impulso para que os leitores participem, por conta própria, nessa extraordinária aventura de liberdade que é a literatura.

 

Quase 2 500 anos de reflexão a ocidente, sobre a palavra escrita e as suas potencialidades retóricas remetem-nos, hoje, para posicionamentos que privilegiam o acto de leitura como meio para completar, ou mesmo materializar, essas intenções textuais que comumente designamos por significações, sendo o seu resultado múltiplo e variado, visto que depende em grande medida do lugar em que nos colocamos enquanto agentes, mas também sujeitos dessa leitura. Este Campo de trânsito é um dos bons exemplos em que se pode apoiar esta formulação teórica. De facto creio poder antecipar diferentes situações de entendimento deste estória, consoante as e vivências pessoais de quem lê e respectivas expectativas de leitura. O que relata este livro? Onde se localizam e o que são os três espaços/campo de trânsito/campo antigo e campo novos onde decorre a narrativa? Que paralelos estabelecer entre as bizarras personagens que a modelam e o universo das nossas experiências?Resposta tanto mais difícil quanto o autor, - como diria José Craveirinha - nos dribla permanentemente, obrigando-nos a um exercício de pesquisa que nos reenvia tanto para a memória colectiva como para o conhecimento individual da História e Geografia do país (Moçambique?) onde - supomos nós - decorrem os acontecimentos. E esta suposição decorre apenas do facto de o autor ser moçambicano e de como leitores estarmos munidos do preconceito de que o espaço da narrativa é o espaço de origem do escritor. O que também não significa que não seja. O que pretendo mostrar é que o autor se furta a essa identificação biunívoca de forma quase provocatória, utilizando alguns deliberados e ardilosos mecanismos.

 

Começo pelo registo do narrador entidade privilegiada deste romance pelo seu caracter omnisciente: já nas anteriores narrativas de Borges Coelho nos deparávamos com uma uma expressão linguística de cristalina limpidez, avessa a exibições exóticas, retomando um campo da literatura moçambicana (do qual andamos distraídos) que tem os seus antecedentes em textos referência como Nós Matámos o Cão Tinhoso de Luís Bernardo Honwana e Contos e Lendas de Carneiro Gonçalves, pela sua ordenação ática, reduzida à expressão do essencial, substância pura quase, que se pode dizer clássica em todos os sentidos. Neste romance vai mais longe no manejo da língua, trocando-nos a nós leitores as referências de lugar: de facto, se observarmos algum do léxico utilizado só podemos concluir que o efeito produzido é de ocultação e não de revelação.

 

Recusando o chamado lugar comum que desde a antiguidade se insere na lógica de encaminhamento da leitura, esta escrita introduz pois a indeterminação na construção pelo leitor do espaço da narrativa. Fugindo aos registos lexicais da língua falada em Moçambique, o autor opta sucessivamente por registos neutros que não correspondem a determinadas expectativas de leitura: onde seria normal o uso de machamba, aparece repetidas vezes horta, o mesmo acontecendo com frigorífico que substitui a moçambicana geleira; onde o mortífero crocodilo nos ajudaria a localizar a massa de água no Zambeze, surge o genérico sáurio, onde os marcados dumba-nengue ou chungamoyo nos encaminhariam para o nosso quotidiano mercado informal, dá-se preferência à neutra feira e onde nos pareceria lógico que a mulher do professor plantasse milho, surgem anódinas couves, o mesmo acontecendo com inesperadas alcachofras e espargos. Que provavelmente crescem em Moçambique mas zonas fronteiriças com o Zimbabwe mas que não correspondem a lugares comuns já consagrados na literatura moçambicana e por isso afastam a narrativa da referencialidade.

 

Esta estratégia de distanciamento produz pois alguns efeitos na leitura: por um lado faz o texto escapar ao fascínio antropológico que tanto parece seduzir alguns estudiosos das literaturas africanas, aspecto criticado duramente pelo escritor nigeriano Chinua Achebe, como sendo uma desvalorização destas literaturas. Obrigamo-nos assim a ler esta narrativa por aquilo o que é, ficção literária, furtando-se até à obrigatoriedade editorial dos clássicos glossários, esse exercício de tradução, inutilmente explicativo, que transforma o texto de ficção em objecto antropológico.

 

Por outro retira-lhe as possibilidades de relação directa com factos históricos. Sabendo nós que o autor faz investigação histórica numa área coincidente com o ambiente que envolve a trama do romance - defesa e segurança - e que por isso tem um visão privilegiada dos respectivos comportamentos individuais e colectivos, teremos de admitir que esse trabalho hermenêutico possa também servir como matéria prima de uma engenharia criativa.

 

Mas não me parece pacífico afirmar que este romance tem como assunto os campos de reeducação surgidos pouco depois da independência de Moçambique, na lógica de procedimentos análogos noutros lugares e épocas, baseada na crença da possibilidade da construção do Homem Novo, e que constituiriam mais tarde uma reserva de recrutamento para a Renamo. Julgo que esse facto histórico ou elementos com ele associados poderão ter funcionado como sugestão para a criação de ambientes (por ex. a forma como se fazia a chamada dos prisioneiros e a aceitação passiva da sua situação, as elucubrações ideológicas do professor, a organização burocrática do Director do campo de trânsito). Mas o romance passa ao lado da recuperação histórica desses factos porque astutamente o romancista se separa do historiador. E não me parece que o faça para evitar melindres, tratando-se embora de um assunto ainda hoje incómodo nos meios militares e políticos de Moçambique.

 

Fá-lo, quanto a mim, porque há no romancista que é João Paulo Borges Coelho essa capacidade essencial de galgar os limites da racionalidade manipulando sabiamente as categorias de Tempo e de Espaço de acordo com critérios só admitidos pela Arte. Com fragmentos da História (re) institui um cenário ficcionado, onde cabem todas as situações possíveis de confronto e aliança entre os aparelhos de um Estado totalitário - no romance representados pelo Director, o Bexigoso e o Professor e os resíduos da organização social que o precedeu - representado pelo Chefe da aldeia e o agente duplo que descobrimos ser o Vendedor de chá. Estado totalitário em que a massificação - traduzida na uniformização das categorias dos prisioneiros da cada um dos campos - reduz os indivíduos a um colectivo de onde se vai ausentando a marca do humano.

 

Reduzidas a números ou a funções as personagens metamorfoseiam-se na consciência singular de Mundau, fundidas numa animalidade emergente a partir das mãos (as dos Director são aranhas, as dos prisioneiros do campo antigo são a lesmas, a mão mutilada da mulher do professor é uma pinça de insecto) ou a um estado natural (as mãos do chefe da aldeia são raízes e as da filha talos). E não me parece ocasional o facto de ser o estado natural - floresta animais e água - que prevalece nas descrições do narrador, sobrepondo-se na sua pujança aos humanos seres massificados ao serviço de uma Ideia.

 

Na visão do narrador essa organização totalitária só aparentemente está condenada, pois tal como anuncia no final, embora autodissolvida pela rebelião dos prisioneiros do Campo antigo e do Campo novo, irá renascer, restando-nos, como no início, um qualquer Mundau, culpado sem culpa e um Bexigoso acusador sem acusação. Até que uma nova ordem se instale e tudo recomece em ciclo fechado como nos Mitos: Revolução permanente ou caos niilista?

 

O efeito de perplexidade a que nos conduz o narrador perante a realidade descrita/narrada, que se recusa permanentemente a ser captada de forma imediata decorre quanto a mim dessa estratégia discursiva de distanciamento relativamente a qualquer possível realidade e conhecida, porque só isso vai permitir a entrada no campo das analogias. O resto e evoco de novo José Craveirinha são coincidências. Já os antigos sabiam disso e Kafka, mais próximo do nosso Tempo melhor que ninguém. Trata-se pois aqui de contar uma história verosímil - que poderia ser relatada como reportagem ou notícia -, e que poderá eventualmente ter como substracto, factos ou acontecimentos ocorridos, com recursos narrativos que a conduzem ao absurdo e a transformam numa narrativa portadora de uma forte consistência ontológica, aberta a simbologias várias, e por isso resistente a uma leitura marcada pelos pressupostos do realismo. Com uma linguagem deliberada e ostensivamente depurada, reveladora de um domínio absoluto sobre a escrita, o que vem colocar definitivamente a ficção narrativa no mesmo nível de maturidade da poesia que desde Craveirinha e Knopfli até Heliodoro Baptista, Eduardo White ou Luís Carlos Patraquim se instituiu como um dos pilares da moderna cultura letrada moçambicana.

 

publicado às 19:38



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