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morgue garissa.jpg

(Morgue de Garissa, Reuters/Noor Khamis)

 

O massacre de Garissa pelo exército do al-Shabaab é indizível. A morte de cerca de 150 jovens universitários por razões totalmente absurdas não é assunto comentável. Só hoje, vários dias depois, arranjei  estômago para ir ler algo (deixo esta ligação, pungente, indiciando que tudo poderia ter sido evitado). E nada mais me ocorre escrever sobre este drama.

 

Mas sim sobre os que me rodeiam. A quantidade de teclistas a protestarem "onde estão os je suis charlie agora?". Na aparência defendendo a extensão (a universalidade) dos sentimentos de solidariedade. Mas na prática apoucando (e querendo apoucar) o sentimento de repulsa acontecido há meses. Na aparência procurando demonstrar um maior conhecimento e atenção sobre paragens geografica e socialmente longínquas. Mas na prática mostrando um muito maior desconhecimento. Certo, neste massacre religioso tudo é mais doloroso. Não só por terem morrido 15 vezes mais pessoas. Mas porque são jovens - e bem mais custoso é o assassinato de alguém com 20 anos por ser cristão do que o de um octogenário no seu posto de trabalho e sua causa, por mais vil que este seja.

 

Mas apoucar a solidariedade acontecida é outra coisa, é refutá-la. Negando esta realidade, isto das intensidades concêntricas das solidariedades e das comoções: uma catástrofe nas Baleares (longe vá o agoiro) chocar-nos-ia (aos portugueses) mais do que se nas Aland. Portugal esteve agora cheio de notícias e comentários sobre o avião alemão que, desgraçadamente, foi abatido pelo co-piloto. Há um ano aconteceu exactamente o mesmo com um avião moçambicano (e com portugueses a bordo). Provocando muitissimo menos brado. O mundo está mais pequeno mas ainda é grande. E isso não nos faz necessariamente hipócritas. Nem desatentos. O evidente cinismo dos "onde estão os je suis charlie agora" sim.

 

Também por isto, e que será o mais importante. A reacção global ao atentado de Paris resultou da comoção mas também, e decerto que fundamentalmente, pela reacção mediática e política. Seja a do estado francês seja a dos seus aliados e organizações em que está inserido. Se é certo que os media quenianos são menos influentes e que a atenção global sobre África é menor há um ponto muito relevante: a reacção do estado queniano (titubeante no capítulo da resposta armada) é muito mais frágil. E bem menos vigorosa, simbolicamente falando,a das instâncias internacionais africanas. E é isso que constrói as reacções da opinião pública, não apenas os bons sentimentos.

 

Também por isso não vejo o meu mural de facebook, com milhares de ligações moçambicanas, pejado de afixações e dísticos sobre a matéria. E os moçambicanos sabem onde é África, e por ela se interessam. E a África oriental. E sabem onde o Quénia. E interessam-se pela coexistência intranacional de vários credos, em particular de cristãos e muçulmanos.

 

Por isso todo este fel português dos "onde estão os je suis charlie agora?", "não sabem onde é África" e etc.?. não passa, bem lá no fundo, de mero cinismo. Ele sim distraído. Sem saber onde é (como vai) África. E, em última análise, hipócrita: pois o que lhes importa mesmo é usar as desgraças do mundo para cutucarem, ao teclado, o vizinho do lado, nisto da resmunguice lusa. Essa sim a negação da comunidade de todos nós.

 

 

 

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publicado às 08:15


2 comentários

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De flor a 08.04.2015 às 11:04

Muito lhe agradeço o texto. Partilhamos as ideias.
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De jpt a 09.04.2015 às 09:47

Obrigado por me deixar saber

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