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O acontecimento de Chimoio

por jpt, em 17.09.15

pomba.gif

 

A imagem é daquelas com tudo para se tornar icónica. A Universidade Católica da Beira comemora-se e convida para o efeito o antigo presidente Joaquim Chissano e o presidente do Renamo Afonso Dhlakama, numa óbvia celebração da paz. Como é tão usual nestes momentos libertam-se pombas brancas. Uma destas recusa-se a voar e caminha na sala, postando-se diante de Dhlakama. A gente sabe que é um mero acaso, momentâneo, apenas uma ave atordoada, desnorteada naquela sala, talvez enfraquecida pelo cativeiro. Mas estão lá todos os elementos para a decidirmos tornar simbólica, e cada um lhe colará um conteúdo peculiar (a ave convocando o abrasivo líder para a paz? a ave reconhecendo o arauto da paz? etc.) segundo a vontade e/ou crença própria.

 

Olhando a imagem o que me convoca é o momento do (benéfico) acontecimento. Ocorrido dois dias depois dos acontecimentos de Chimoio - sobre os quais escrevi aqui (assumindo como certa uma versão falsa? assumindo como certa uma versão certa?). Ou seja, logo após uma emboscada em Chimoio o líder do Renamo segue para a Beira para uma cerimónia, benfazeja e decerto que simpática, curial. Isto ainda mais me sublinha a consciência do quão volátil é a minha percepção da política moçambicana. No facebook, no grupo do blog, jornalistas moçambicanos (usualmente muito bem infomados e nada ligados ao partido Renamo) afiançam-me a veracidade dos acontecimentos de Chimoio. Outros meus conhecidos negam o caso (sem que deles se possa dizer que são agentes do partido Frelimo). Eu radico-me na minha incompreensão: de uma emboscada quase letal na estrada de Chimoio para uma aprazível cerimónia na Beira correm apenas dois dias? É possível, até pode significar um enorme auto-despojamento daquele líder, veterano do perigo. Mas é, para este vulgar mortal jpt, verdadeiramente surpreendente. Tanto que aquela foto que encima o postal me simboliza o espanto, continuado, face à complexidade dos discursos políticos moçambicanos, imperscrutável para mim. Também por isso me parece que a agência portuguesa Lusa [que noticiou o caso em primeira mão, tendo-o testemunhado] deveria ter algo mais a dizer. Fosse uma muito humana corrigenda ou uma também humana reafirmação. Até para sublinhar a sua excentricidade ao campo político moçambicano.

 

Sobre este caso Elísio Macamo, com a sua tenaz agudeza analítica, publicou um duríssimo texto. Para com a Lusa. E para com as instituições internacionais e os indivíduos que assumiram como certa a notícia, explicitada naqueles termos. Eu enfio a carapuça. Não sei os outros. Mas a agência está convocada para algo responder (está como o político diante da pomba, acho). E dada as suas características institucionais não me parece possível que se exima a tal.

 

Adenda: dizem-me que na última edição do Savana se noticia que 4 jornalistas de diferentes órgãos, entre os quais um dos colaboradores daquele jornal, testemunharam o ataque e confirmam a versão inicial. Continuo estupefacto ....

publicado às 06:14


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