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Ilustração de Achille Beltrame

 

Assinala-se (não se "comemora", como alguns dizem) hoje o centenário do assassinato do herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, Franz Ferdinand, e da sua mulher, em Serajevo, cujas ondas de choque conduziram à primeira guerra mundial (1914-18). E ao verdadeiro fim do século XIX, disseram alguns, e da "era dos impérios" disseram (mal, em minha opinião) outros.

 

Claro que há imensa coisa escrita sobre esta guerra, talvez a mais demencial de todas - tanto pelas suas forças motrizes como, e talvez mais por isso, pela sua coreografia militar, resultante numa matança então nunca vista. Mas aqui chamo a atenção para um blog em constante actualização, dedicado à participação portuguesa, o Portugal e a I Guerra Mundial

 

Num campo mais particular constato, e com algum susto, que as novas gerações pouco ou nada sabem sobre este macro-episódio da história universal. É costume, verdadeiro ritual, um professor de antropologia aludir ao contexto do trabalho de campo (dito fundacional) de Bronislaw Malinowski na Ocêania, como enquadrado no momento da I Guerra Mundial. Acontece que os jovens não têm ideia, às vezes nem cronológica, quanto mais substantitiva, do referido. E, como corolário, aqui em Moçambique muito menos das suas implicações na história do país, naquele momento e no seu futuro.

 

Também por isso deixei duas breves notas de leitura para dois livros que penso serem importantes para a história da I Guerra Mundial em Moçambique: o muito recente e bem conseguido "Os Fantasmas do Rovuma", de Ricardo Marques (que deveria aqui ser lançado, apresentado e divulgado); e um livro magnífico, escrito por um soldado português de então e recentemente reeditado, "Kináni (Quem Vive?). Crónicas da Guerra do Norte de Moçambique", de Cardoso Mirão, um cru relato sobre aquelas campanhas, e também sobre a mentalidade e a sociologia militar de então, absolutamente imperdível (e que belo filme daria, farto-me de insistir cada vez que cruzo alguém da indústria cinematográfica). Para além de ser um espelho acurado sobre os processos sociológicos e culturais de instalação colonial. E, claro, aproveito para chamar a atenção para o "O Olho de Hertzog" de João Paulo Borges Coelho, dedicado a este momento histórico no país, razão para o irmos (re)ler agora.

 

 

 

Desse "esquecimento", amputador da percepção dos processos constitutivos da entidade nacional moçambicana, é sintomático o facto do total desconhecimento que os alunos universitários têm do significado desta estátua, a sempre referida "senhora da cobra", sita na baixa de Maputo. O único exemplar da monumentália colonial que ficou patente, e avisadamente, pois evoca também os inúmeros mortos moçambicanos - soldados e, na esmagadora maioria, carregadores - que esta guerra provocou no norte do país. Algo que subsistitu durante décadas na história oral no norte: lembro que na década de 1990, trabalhando eu no Cabo Delgado, recorrentemente os anciãos me aludiam à guerra dos "ma-germanes", situando-a, algo confusamente, na década de 1940 (óbvia associação à II Guerra Mundial).

 

Sendo assim talvez esta (maldita) "efeméride" possa servir de momento para se falar sobre estes factos aqui.

 

Das minhas parcas leituras sobre o assunto também quero realçar dois pontos: o como este processo da I Guerra Mundial portuguesa em África foi determinante no "projecto colonial" republicano, e como essa concepção (mundivisão, se se quiser) republicana transitou, como algumas outras, para a percepção que a intelectualidade socialista (entenda-se, do partido socialista português) entendeu, nas últimas décadas de XX o relacionamento dito "lusófono".

 

O segundo, completamente diverso, é um olhar sobre uma figura paradigmática, símbolo de uma "visão do mundo" de então (o oficial prussiano; ou o "junker", se se quiser), o lendário e excepcional comandante alemão, general Von-Lettow-Vorbeck. Fosse ele anglófono e muitos filmes lhe teriam sido dedicados. O seu livro "My reminiscences of East Africa" (acesso livre) é um texto sumptuoso para qualquer curioso sobre o assunto.

publicado às 13:51


2 comentários

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De AAS a 30.06.2014 às 15:50

Deixo uma pequena contribuição com a referência ao monumento na Ilha de Moçambique aos mortos da 1º Guerra (colocado precisamente no final da Rua dos Combatentes). 


https://www.google.com/maps/place/Ilha+de+Mo%C3%A7ambique/@-15.030043,40.741268,3a,75y,90t/data=!3m5!1e2!3m3!1s30009827!2e1!3e10!4m2!3m1!1s0x18b9d6600e2ecfb1:0xc40ede3a636afdc1
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De Maria Santos a 04.07.2014 às 09:54

Muito bom este artigo.
Quando vens cá Zé?

Beijinhos

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