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"A bandeira reflecte a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.

 

 Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.

  

Às terras aromáticas e dóceis! - ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.

  

Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz; inaptos para ciência, esgotados para o confôrto; e que os outros rebentem. Êste é o caminho. Em frente, marcha!".

 

("Democracia", de Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações / Uma Cerveja no Inferno, tradução de Mário Cesariny)

 

Foi no mural-FB de Helena Ferro de Gouveia que vi esta notícia. Ela incomodada, tal como eu logo fiquei. Um incómodo que partilhamos talvez porque ambos emigrantes há já muito tempo, distantes do nosso país e desabituados dos usos que se fizeram agora por lá habituais, "naturais".

 

A "coisa" é simples: a Câmara Municipal de Matosinhos organiza um encontro literário, dedicado ao tema "Literatura em Viagem". Quem abre o encontro é o próprio presidente da câmara, algo já de si estranho [tem isto cabimento?]. E que ali fica ombreando com o orador a quem foi atribuída a primeira comunicação: o "político reformado" José Sócrates. Que não tem qualquer currículo ou prática conhecida no mundo da literatura. Fala, narram, entusiasticamente sobre Rimbaud. O jornalista do Expresso, afamado bloguista, que acompanha o evento é "flat", nem sub-texto coloca. Tudo é normal. Que um político autarca organize um encontro literário, que se sente na mesa, que convide o antigo presidente do seu partido que nada tem de literato para abrir a sessão, tudo é normal. No Portugal democrático de agora.

 

É óbvio do que se trata: o embrulhar de José Sócrates, perdão, do "Engenheiro José Sócrates" como respeitosamente Eduardo Lourenço recentemente o alcandorou. A criação de um perfil cultural, humanista (pois até se rimbaudiano ...), através dos mecanismos políticos das instituições estatais. Em breve surgirão novas etapas disso. E Sócrates ficará mais presidenciável, matizada a sua rudeza, engrandecida a sua aura. Daqui a tão poucos anos, amarfanhado pelas dificuldades destes tempos e irado com quem está no "poder", o eleitorado votará nele, usando a memória selectiva, e encantado com tão vigorosa e culta personalidade. Teremos presidente ...

 

Naquela esquerda do agora, dantes tão ciosa da "autonomia" (relativa, diz-se nas ciências sociais), do "campo artístico", "literário" e etc., nada brota, nada se diz. Que o sucessor de Narciso Miranda faça um encontro literário, com algumas figuras do meio, destianado a promover a literato o "Engenheiro José Sócrates"? Nada mais natural. Nada mais aceitável. Acontecesse isto em "África" e o que não diriam ....

 

Um país atrapalhado. 

publicado às 08:31



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