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Ao longo dos anos volta e meia aqui venho resmungando sobre futebol: irrita-me a futebolização do meu país. A qual cresceu após as tvs privadas. É apenas a minha memória, cada vez mais falível, mas a primeira recordação que tenho do constante futebolar na tv é a do Euro 1996. Período no qual surgiu algo antes impensável: o "povo" a falar em directo na TV. O "povo" como aquela "lisboa" o entende: os boçais em grupo que mal entram no "ar", em directo de preferência, começam aos pulos e aos urros, perdigotando entre calduços as suas opiniões. Certo que antes já havia aqueles programas do Baião (que ainda está na tv) mas isso era em estúdio. O "povo", genuíno, ingénuo e no seu local natural (a rua), foi então que apareceu. Depois veio Scolari, a tralha das bandeiras hasteadas, que culminou com a escolta dos campinos para a final do Europeu 2004.

 

Para além da futebolização do país também me irrita, muito mas secundariamente, a criminalização do futebol, na prática um espelho do país. Sobre essa sou radical. Sportinguista era sócio e ia aos jogos. Deixei de ir no início de 1990s cansado de ver tanto roubo (quem não sabe fique a saber: nos estádios percebem-se mais, ainda que de modo diferente, as atitudes dolosas dos árbitros do que na TV, mesmo com as repetições. Estas mostram os erros, que é coisa diferente). Após um Sporting-Porto que acabou 0-0 sem nenhum escândalo ("de catedral", como se dizia) mas com um árbitro a proteger, sabiamente, o jogo do Porto. Saí tão mal-disposto que jurei não voltar. Menti-me, pois voltei um dia para ver o Real Madrid (era aquela bela equipa do Figo e Balakov, mas infelizmente com Costinha e Lemajic). Muitos anos depois, já emigrado, voltei uma vez mais. Era o último ano do velhinho estádio "José de Alvalade", quis-me despedir, um bocado da minha infância a desaparecer. Num Agosto vi um Sporting-Porto, era o início da carreira de um extremo fabuloso, um artista mais do que prometedor: Ricardo Quaresma.

 

Ao novo estádio fui duas vezes. Para o conhecer fui lá ver um jogo da "Champions", com o Inter, onde jogava o Figo. Ganhámos 1-0, um grande golo de Caneira. Não gostei do estádio: feio por fora, excessivamente vertical por dentro, um ascensão cansativa e uma má visão - e ainda não se sabia daquilo do relvado. Voltei depois, uma ida a Lisboa, fui com dois amigos ver um qualquer Penafiel sem história, acabámos em casa de um deles numa bela ceia.

 

Memórias (longas para postal) para embrulhar isto: acho o futebol português uma aldrabice. Tem sido. Muito provavelmente continuará a ser. Não é o pior do mundo. Mas podia ser muito mais decente: entenda-se muito mais liberal. Ou muito mais social-democrata. Ou muito mais democrata-cristão. Ou muito mais comunista. Muito mais cristão. Ou muito mais laico.

 

Vem isto tudo a propósito de que os meus apaniguados sportinguistas se têm queixado imenso das arbitragens. As de agora e as de antes. Com algumas (até bastantes, para não dizer imensas) razões. Mas há exageros nisto. Abrem-se blogs sportinguistas e ciclicamente lá vem a história da roubalheira de 2006-2007. Então o Sporting ficou em 2º lugar, a um mero ponto do Porto. E perdeu em casa com o Paços de Ferreira, 0-1, um célebre golo com a mão. Ora isso não chega, este registo não é suficiente. Acaba por incompreender, e ser pouco produtivo para uma discussão sobre como higienizar esta actividade, tão importante na "sociedade civil".

  

É nesse sentido que partilho aqui estas velhas imagens. É o resumo do Beira-Mar-Sporting dessa época. É curioso, no Sporting jogavam Nani, João Moutinho, Carlos Martins, Yannick, etc. E no Beira-Mar jogava o super-veterano Mário Jardel, que ainda veio a ser decisivo. O final do jogo foi trepidante e o resultado foi 3-3. Com um tricórnio de um jogador chamado Buba, de quem nunca se ouvira falar e nunca mais se ouviu falar. Foi o dia da sua carreira. Foi por isso que o Sporting não foi campeão nesse ano. É melhor pensar assim, em vez de continuar a gemer por um erro de um árbitro que não viu (ou não teve a certeza de ter visto) uma mão marota numa jogada corrida. Fica aqui para memória (dolorosa, talvez). E para a gente perceber: há erros; há árbitros incompetentes (Lucílio Baptista disse na tv que apitava por dedução, o que deveria ter provocado o imediato final da sua carreira); e há muita aldrabice.

 

 



A pior aldrabice que eu me lembro no futebol português? Foi recente, e não foi obra do famigerado Futebol Clube do Porto. Foi a de mandar os seguranças privados de um clube provocar os jogadores do clube adversário no final do jogo. Para que, confusão causada e conflito filmado, fossem os outros castigados. Mostrando bem que o pior disto não são os árbitros. São mesmo os adeptos que acham isto muito bem, desde que o "seu" clube ganhe. Mostrando bem que a bola é o país. E por isso este está como está.

 

É até engraçado, nunca vi um sindicalista vermelho, rosa ou laranja, se encarnado, a protestar contra aquela vileza dos patrões, da bola, contra os trabalhadores, armadilhados, prejudicados, castigados. Querem saber porquê? Por causa da paixão da bola? Sim. Mas acima de tudo porque os trabalhadores injustiçados eram imigrantes (um brasileiro, Hulk; um romeno, Sapunaru; e depois, numa reprise ainda mais vergonhosa, um outro brasileiro, Vandinho). Assim também demonstrando a pérfida xenofobia dessa gentalha. A nossa.

publicado às 16:23



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